E O NASCIMENTO DE UM DEUS
Por Dann Toledo
Por Dann Toledo
Morreu Kim Jong-il o ex-ditador Norte Coreano. Confesso a vocês que não conheço muito sobre o governo dele, assim como o restante do mundo, tendo em vista a política extremamente fechada de seu país.
Assistindo imagens daquele país em momento de luto, algo nos parece estranho, não é mesmo? Mais de uma semana após a morte dele as pessoas ainda se encontravam desesperadamente em prantos.
Crianças, mulheres, velhos, homens, enfim, todos daquele país estão completamente desesperados, vivendo uma espécie de histeria coletiva. Mas, o que faz com que eles ajam assim? A primeira vez que vi imagens dessa Coréia do Norte enlutada, tive (e ainda tenho) um misto de riso e espanto.
Esse comportamento de extrema veneração segundo a psicanálise cumpre certas carências emocionais e psicológicas que geram uma ligação libidinal com a autoridade, que por sua vez estava encarnada no “líder bondoso”. Se analisarmos a cultura e o meio no qual aquela população tem vivido durante todos esses anos, acreditando ser Kim Jong-il quase um semideus, tendo em vista as fantasias que sempre cercaram a sua vida, desde seu misterioso nascimento numa “montanha sagrada”, até o “choro” das divindades com a morte dele, que fez com que a montanha se fendesse e com isso estremecesse o céu e a terra, vemos assim certa lógica no comportamento dos norte-coreanos.
Para nós que estamos de fora, é muito fácil distinguir toda a farsa e fantasia acerca do “amado líder”, porem se tentarmos enxergá-lo com os olhos de seu povo, que sempre o viram envolto em um carisma extraordinário que o tornou um ser especial para seu país, isso se torna bem mais difícil de ser feito. Esse delírio e essa catarse coletiva nos discursos do líder e o pranto desesperado pela sua morte tem se sustentado num vinculo emocional de mesma natureza, que se estabeleceu com a figura de autoridade atingida à ideal do ego.
Essa espécie de projeção paterna, pode nos explicar como Kim Jong-il ao contrario de outros ditadores no mundo todo, sempre foi um “amado líder” para o teu povo. Isso me remete à obra de George Orwell, e a sociedade utópica que Snowball fazia com que os seus liderados acreditassem estar vivendo.
Mesmo olhando todos esses acontecimentos através da ótica da psicologia das massas, não tem como não nos questionarmos se em tudo isso não há certo fingimento, que aquelas lagrimas sofridas não sejam somente uma forma daquelas pessoas esconderem a verdade de si mesmas. Uma verdade tão insuportável, que elas preferem prantear a morte de seu líder na forma de um semideus, do que encará-la e ter que assumir que não passam de um povo sem identidade própria, que suas vidas foram e ainda têm sido baseadas em uma mentira, em um ideal não ideal.



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