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domingo, 18 de novembro de 2012

ESCOLHA DE OBJETO E A HOMOSSEXUALIDADE


Por Ana Carolina Campos



Ao ler alguns textos de Sigmund Freud, referentes à sexualidade, encontra-se um tema abordado por ele que é a escolha de objeto sexual. Tal tema possui elevada importância, pois, ainda nos dias de hoje, se pode presenciar atos de preconceito voltados a uma escolha de objeto diferente da heterossexual. Muitos consideram a escolha homossexual como um grande pecado ou até mesmo uma doença. Também vê-se, na mídia, alguns psicólogos oferecendo a cura para a homossexualidade, o que fere o código de ética da própria psicologia, já que o Conselho Federal, através da resolução 01/99 declarou que a homossexualidade não constitui doença, perversão ou distúrbio. De acordo com esta resolução é considerada anti-ética qualquer forma de promover a discriminação ou mesmo contribuir para manutenção de mitos, preconceitos e distorções relacionadas à diversidade da manifestação da sexualidade humana. De acordo com a psicanálise, o processo de escolha, seja ela hetero, homo ou bissexual, acontece com todas as pessoas, é inconsciente, e o que se modifica é o objeto.

Muitos dizem que a homossexualidade não é “normal”, pois, através dessa relação, não há a reprodução, ou seja, a geração de descentes. Porém Freud, no seu texto Três Ensaios Sobra a Teoria da Sexualidade (1905), eliminou a igualdade sexualidade = reprodução, para ele isso era uma convenção adotada e não uma concepção. Ao se igualar sexualidade e reprodução, a meta passava a ser a geração de descentes e o objeto sexual, para isso, necessitava ser heterossexual, qualquer coisa que fugisse da meta ou do objeto era considerada perversão. Porém, se essa igualdade realmente fosse verdadeira, o ato sexual entre senhores da terceira idade, por exemplo, deveria ser considerado perverso, pois este ato não possui finalidade reprodutiva. Com a eliminação dessa igualdade, a reprodução deixou de ser o objetivo da sexualidade e deu lugar ao prazer, que passou a ser a meta. Dessa forma o objeto não necessitava ser heterossexual, qualquer objeto passava a ser válido. No seu texto O Instinto e suas Vicissitudes (1915), Freud voltou a reafirmar que não há uma relação de igualdade entre sexualidade e reprodução, embora, na vida adulta, a primeira possa incluir a segunda, ou não.

A escolha objetal está presente na vida de todas as pessoas, ela nada mais é do que a escolha do objeto de amor. O que esse texto propõe mostrar é que a escolha homossexual não é patológica, uma perversão, ela é apenas o desejo pelo mesmo sexo. Todas as pessoas passam por tal escolha, independente de qual objeto será o eleito, mas ela é inconsciente. Quando muitos dizem que o homossexual escolheu ser assim estão enganados, pois, se isso fosse uma escolha consciente, poucos (para não dizer ninguém) iriam escolher por um objeto que iria fazê-los serem alvos de preconceito. Outro fator é que, se os homossexuais escolheram ser assim, da mesma forma os heterossexuais também deveriam ter escolhido pelo objeto oposto, em algum momento da vida, porém há alguém que possa dizer quando escolheu ser heterossexual? Dessa mesma maneira, dizer que a homossexualidade não é correta, ou que ela é uma falta de vergonha, por não produzir descentes através da relação sexual, deve ser repensado, pois, será que todas as relações acontecem são para gerar filhos? Ficam essas duas questões.

Esse texto propôs apenas dar início ao tema da escolha objetal, muito ainda tem a ser dito e investigado sobre ele.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Código de ética profissional do psicólogo.

FREUD, S. (1905). Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade. Trad. Sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro. Imago: 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 7.)

FREUD, S. (1915). Instinto e suas vicissitudes. Trad. Sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro. Imago: 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 14.)



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QUANDO UMA PORTA SE ABRE


Por Volnei Kowalski e Juliete Stricknerh


Quando uma porta se abre e o que os olhos de uma pessoa veem, são dois corpos sem roupas em um lugar onde não era para estar causa um turbilhão de sentimentos e sensações na cabeça da pessoa que acabara de presenciar tal fato.

O primeiro sentimento é o da ausência, a pessoa imagina que sexualmente foi incapaz de satisfazer seu parceiro, ao ponto que ele teve que buscar essa satisfação em outros lugares. É uma mistura de sentimentos, um remorso por talvez ter sido tão limitada na cama. Afinal de contas, o mundo está cheio de tentações, basta querermos prova-las e nos deliciar! Apenas falta nos permitirmos usar desse recurso na cama, e satisfazermos as vontades sem culpa e sem remorso!

A segunda sensação são as comparações inevitáveis, em relação ao corpo. Perguntas como: Será que estou fora do padrão? Será que o corpo da pessoa é mais atraente que o meu? Será que essa pessoa sabe usar o corpo de uma forma melhor que eu? O que falta em mim, que a outra pessoa tem?

A terceira e ultima sensação citada neste, se refere ao que fazer diante de tais fatos, mesmo sendo presenciado é doloroso presenciar o ato sexual de duas pessoas que não eram para estar ali, como reagir diante de tal situação?

No entanto saber que a traição chegou a tal ponto envolvendo o ato sexual é a pior arte do enredo... Afinal usou-se do desejo, de vontades, e saciou o mesmo, ou seja, a traição foi a fundo! Sem medo e sem privações. O fato de saber que outro alguém sentiu o cheiro, o gosto, o beijo, passeou pelo corpo, percorreu caminhos dos quais você percorreu ou gostaria.

Nem sempre essas questões são respondidas automaticamente, requer tempo e habilidade na cabeça da pessoa que presencia um ato de traição. E talvez nunca entenda! Para algumas pessoas a sexualidade ainda é tabu, é tema que não se discute, que não se usa abertamente! Falar de sexo é talvez mais difícil do que fazer sexo em sim!

Neste texto tratamos ato de traição puramente como ato sexual, não levando em consideração o envolvimento de sentimentos, apenas a expressão do ato sexual.




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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

COMO LIDAR COM A SEXUALIDADE NA INFÂNCIA

Por Silvana Rabello



É difícil saber o que fazer diante das descobertas sexuais dos bebês. Ainda pequeninos, eles começam a mexer em sua genitália e criam uma situação embaraçosa para os pais. Como lidar com isso? Cada um encontra seu jeito, mas é importante entender como se manifesta a sexualidade da criança em cada fase de sua infância

Vocação para o prazer O corpo humano tem vocação para o prazer desde sempre. Instintivamente, buscamos o bem-estar e fugimos do desprazer. Ele nos ensina a sobreviver. E a sexualidade é apenas um aspecto dessa sensação. Mas é importante para a criança aprender a lidar com os limites desde cedo.


CULTURA VERSUS INSTINTO

Diante de situações carregadas de apelo sexual, muitos pais coíbem o comportamento dos filhos pequenos sem saber exatamente por que estão agindo assim. Mas é importante saber o que está por trás dessa restrição! Desde os primórdios da civilização, a ordem social se impõe aos impulsos instintivos dos indivíduos. A sobrevivência e a supremacia da espécie humana sempre dependeram dessa condição. Sem o freio cultural, muitas vezes estabelecido por religiões, cada um faria o que tivesse vontade e a organização social seria regida pela lei do mais forte, como é entre os bichos, com desvantagens do homem em relação a outros predadores. Portanto, educar o filho significa ensinar-lhe, entre outras coisas, as regras sociais de convivência, sejam elas quais forem. E ficar bolinando a própria genitália em público não é algo aceito em nenhuma sociedade. Renunciar aos desejos é parte do aprendizado social de uma criança.


SEXUALIDADE NO BEBÊ DE COLO

Até cerca de 1 ano e meio ou 2 de idade, o bebê descobre o mundo pela boca. Daí o nome “fase oral”, utilizado por muitos especialistas. Mas, nomenclaturas à parte, o importante aqui é entender que sugar o leite da mãe é uma experiência tão prazerosa para o bebê que ela se sobrepõe às demais. Ele mama em um colo aconchegante, sua barriga fica quentinha e o sono logo vem. É um paraíso para a criança. Por isso, ela leva tudo à boca na incansável busca da sensação de prazer. Nessa fase, o prazer é definido exclusivamente pela ação do sistema nervoso. Os hormônios e a libido só entram em cena com a maturação sexual, na adolescência.


AOS 2 ANOS, O XIXI E O COCÔ

Conforme cresce, o bebê amplia sua capacidade de percepção. Ele começa a entender o mundo simbólico e já pronuncia palavras. Paralelamente, descobre o xixi e o cocô. A criança não sabe direito o que é, mas sente que é muito gostoso. O próprio controle do esfíncter, tanto o anal quanto o genital, mostra-se uma profunda fonte de prazer. É natural que as áreas do corpo onde o bebê sente prazer despertem nele curiosidade. E ele vai mexer sempre que puder, principalmente quando começar a tirar a fralda.


TRATAR COM NATURALIDADE

Se, para os adultos, a sexualidade já é um tema complexo, imagine para as crianças. Por isso, vá com calma ao lidar com o assunto. A curiosidade de mexer na genitália é natural entre os bebês e deve ser encarada como tal. Mesmo porque a curiosidade é sinal de inteligência. Os pais não devem se desesperar porque sua filha ou seu filho estão se bolinando. Mas também não precisam ficar passivos. No caso dos pequeninos, a melhor maneira de intervir é colocar uma roupinha neles ou levá-los ao banheiro para ver se querem fazer xixi ou cocô, sem alarde. Mas atenção: se perceber que essa situação tira os adultos do sério, a criança pode passar a usá-la apenas para chamar a atenção. O mesmo se aplica a segurar o xixi e o cocô.


QUANTO MAIS VELHO, MAIS CURIOSO

A partir dos 3 ou 4 anos, a criança controla bem o esfíncter e já desenvolveu bastante sua linguagem. E sua relação com o mundo só faz se expandir. Mas a curiosidade continua a mil por hora. Os pequenos começam a sacar as diferenças entre meninos e meninas, já percebem algo estranho nas histórias sobre como nasceram, notam que o papai e a mamãe dormem juntos, querem entender melhor esse negócio de gravidez e sementinha e por aí vai. Isso também é natural e pode ser uma excelente oportunidade para o início das conversas sobre sexualidade com um filho. Vale a pena falar sobre os estranhamentos, sem a necessidade de explicar detalhes. As noções gerais são mais que suficientes. Isso pode ajudar esse futuro adolescente a lidar melhor com sua própria sexualidade. A imaginação deles também pode ser uma ótima aliada diante de questões mais embaraçosas. Jogue questões para que eles tentem elaborar sozinhos.


LIMITES SEM TRAUMA

A curiosidade das crianças em relação ao sexo aumenta conforme se desenvolvem. Em busca do prazer, o menino gosta de deixar o pipi duro e a menina adora segurar o xixi ou cutucar a vagininha. Bater na mão da criança e dizer que isso é feio está longe de ser a melhor conduta. Funciona, mas pode deixar traumas desnecessários. A criança se assusta e intuitivamente repele de sua vida a busca por esse tipo de sensação. Além disso, o assunto vira algo proibido e dá margem para tabus e preconceitos no futuro. Levar a criança para o banheiro para fazer xixi ou cocô ainda é a melhor maneira de mostrar que lá é o lugar de mexer nas partes íntimas e também de desviar o foco de atenção. Quando volta do banheiro, ela se esquece de se tocar. Agora, se o pequeno insiste em se masturbar na frente de todos, mesmo que não saiba exatamente o que está fazendo, ele precisa saber que o papai e a mamãe vão ficar tristes se continuar, de preferência com uma conversa mais séria, que faça a criança também pensar, e não simplesmente obedecer.


EROTISMO FAMILIAR

Desde pequena, a criança sente o que acontece à sua volta. Expor os pequenos aos estímulos de um ato sexual, por exemplo, vai despertar neles ainda mais a curiosidade, já que o coito tem características bastante peculiares: os sons, o cheiro, as imagens... O mesmo vale para o banho, principalmente dos meninos com a mamãe e das meninas com o papai, ou entre crianças de sexos diferentes. Não existe um consenso em relação a isso, mas esse tipo de intimidade pode potencializar a curiosidade sexual dos filhos. Dormir com a criança também gera um clima de excitação nos adultos e nas crianças, além de atrapalhar a intimidade do casal. Convém evitar esse tipo de conduta para não dar a impressão à criança de que a intimidade é algo que se compartilha com todos.

PRAZER ALÉM DO CORPO

Já que a criança não poderá extravasar todo o seu prazer pelo corpo, é importante dar a ela opções. E um excelente caminho é proporcionar, aos pequenos, o chamado prazer social. Eles nem terão tempo de ficar se bolinando enquanto brincam, aprendem coisas novas, deixam o papai e a mamãe orgulhosos, praticam atividades lúdicas e recebem carinho e atenção. Por esse motivo, é tão importante a mãe conversar com o filho desde a barriga e intensificar os “diálogos” logo depois do nascimento. Essa troca desperta nele o prazer pela comunicação. A masturbação pode ser um indício de que a vida não está boa para uma criança. Tanto que crianças excepcionais, também pela dificuldade de interação com o mundo exterior, costumam exagerar no prazer solitário. E muitas não têm sequer noção dos limites que envolvem a conduta sexual. 



Fonte: Bebê Abril

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

FALHEI NA HORA "H"; O QUE FAZER?

Por Roberto Yabusaki

O que está por trás de uma brochada? - "É importante saber que o tesão e o desejo podem ser confundidos com ansiedade e tensão, que são extremamente incompatíveis com uma boa excitação sexual e consequentemente podem atrapalhar a ereção, bem como o envolvimento íntimo maior. Porém, isso não é tão facilmente percebido"



Sempre se tem a expectativa de que tudo role muito gostoso e intensamente, porém nem sempre isso acontece. Principalmente os homens, não têm a percepção de que para que tudo corra bem, é preciso que as condições favoreçam a intimidade e a relação sexual.
Imagine... ambos acabaram de se conhecer e rola uma atração muito intensa. O tesão cresce e o desejo sexual está para ser satisfeito. Neste afã, muitas vezes o homem não considera como está sua condição emocional para viver a situação e tudo pode transcorrer bem, porém nem sempre é o que acontece.

Essa clima de intensidade o expõe à ansiedade, tensão e preocupação... mais do que ao tesão ou excitação. Essa diferença é muito tênue e nem sempre percebida. E é exatamente aí que há um grande risco dele perder a ereção e dá aquela brochada nos dois.

Nenhuma das partes reage bem a um balde de água fria desses. O constrangimento é geral e indisfarçável. No entanto, é uma situação que pode acontecer com qualquer um, mas nem por isso o sofrimento é amenizado. Além de viver o fracasso, o homem se acha o último da espécie, sente-se humilhado e ultrajado.

Não adianta a parceira fingir que nada aconteceu, mas também não se deve valorizar a falha. Se ela puder levar para a descontração e até mesmo para o bom humor, talvez possam contornar a situação de forma que ambos relaxem, despreocupem e até possam se curtir de outra forma.

Ele decepcionado, frustrado e angustiado tende a se responsabilizar e sofrer um martírio. É difícil não levar em conta o que tenha acontecido, mas o caminho é se tranquilizar e não tornar o problema ainda maior do que foi.


O QUE ESTÁ POR TRÁS DE UMA BROCHADA?

É importante saber que o tesão e o desejo podem ser confundidos com ansiedade e tensão, que são extremamente incompatíveis com uma boa excitação sexual e consequentemente podem atrapalhar a ereção, bem como o envolvimento íntimo maior. Porém, isso não é tão facilmente percebido.

Na medida em que as coisas evoluem e acontecem rapidamente, acredita-se que tudo esteja correndo bem, porém no momento em que a falha ocorre, é que vão se dar conta de que o lugar não era o mais adequado, ou havia alguma preocupação que não foi levada em conta, como o uso de preservativo. Enfim, fatores que inicialmente não foram observados, mas que podem ter papel decisivo para um bom sexo.

Se algum dia isso acontecer com você e o seu parceiro, não se angustie, nem se desespere, e também não satirize ou ironize o acontecido, pois pode ser traumático para ele. Se possível, falem sobre o acontecido, mas sem valorizar muito; voltem a namorar, retomem as caricias e carinhos que podem ser muito prazerosos também. Se ele chegar a uma condição serena, poderá recuperar a ereção e a penetração acontecer sem problemas. Porém não forcem a situação, que pode dificultar e frustrar ainda mais.

Essa situação não é desejada por ninguém, mas pode acontecer com qualquer um. Portanto, se um dia acontecer, saiba reagir com naturalidade e sem sobressaltos, de forma a não comprometer um envolvimento que pode ser promissor.


Fonte: Amor & Sexo



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O SEXO DA PSICOLOGIA


Segundo pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Psicologia- CRP1, com o objetivo de identificar a realidade e o perfil de seus associados, a psicologia continua sendo uma profissão exercida predominantemente por mulheres. Num universo de 1.200 entrevistados, 92.2% são do sexo feminino e apenas 7.8% do sexo masculino.

Ainda que a pesquisa aborde outros tópicos relevantes, como aluno do Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL, considero ser necessário suscitar uma discussão sobre o tema. E espero, sinceramente, minorar o preconceito ainda existente, principalmente fora do círculo acadêmico.

Em consonância com o livro de História da Psicologia Moderna, a participação das mulheres no desenvolvimento dessa ciência foi marcada pelo preconceito. Por muitos anos, nos Estados Unidos e na Europa, sofreram restrições, discriminações e poucos cientistas admitiram mulheres em seus laboratórios. Esse preconceito, certamente, não fora restrito somente às mulheres que desejavam exercer a psicologia. Reflexo do pensamento de uma época, era uma prática corrente em qualquer ramo de atividade e imposta a todas as classes consideradas "minorias sociais".

Nesse cenário, "por serem, na prática, afastadas de muitos cargos universitários, as mulheres foram obrigadas a procurar emprego nos campos aplicados, particularmente em profissões de ajuda como psicologia clínica e aconselhamento, orientação infantil e psicologia escolar" (Schultz e Schultz, 2000 p. 388),áreas que eram consideradas por muitos psicólogos como trabalho de mulher. Reconhecendo, no entanto, que a história não pode ser analisada apenas com base nos livros "oficiais", seria um grave equívoco ignorarmos a contribuição que as mulheres deram para o desenvolvimento da psicologia. Apesar disso, os historiadores destacaram a participação masculina nesse processo, passando-nos a impressão de que a história fora escrita por homens.

E, aqui, encontramos uma contradição: se os livros de história dão ênfase ao papel do homem na consolidação e nas pesquisas dessa ciência, o que levou a psicologia no Brasil a ser vista por muitos como uma profissão destinada ao sexo feminino?

Embora não seja um empreendimento fácil, encontraremos uma resposta plausível a essa indagação resgatando a história da psicologia brasileira. Através de uma rápida pesquisa, observamos que a psicologia sempre esteve atrelada ou relacionada a outras ciências - Direito, Filosofia, Teologia e Medicina. Mas é na área da Pedagogia, particularmente com a criação das Escolas Normais, que a psicologia encontrará solo fértil para o seu desenvolvimento. Instituídas com o objetivo de formar um corpo docente necessário ao ensino primário, 

"as escolas normais procuram elaborar e instruir os alunos em uma metodologia científica de ensino, inspirada nos modelos europeus e norte-americanos.

Nesse contexto, assume grande relevância o estudo da matéria chamada "Methodica e Pedagogia", em cujo âmbito são abordados vários tópicos de psicologia. (...) Todavia, a busca conceitual característica do século XIX constitui uma premissa indispensável para se compreender o significado da colaboração estreita entre pedagogia e psicologia, que marcará a história das escolas normais e justificará o entusiasmo dos professores normalistas para a psicologia norte-americana, no início do século XX" (Massimi, 1990, p. 36).

Como eram freqüentadas por moças provenientes das classes média e alta com pouca ou nenhuma vocação para o magistério, as Escolas Normais serviram, como afirma com propriedade José Veríssimo (1985, p. 125), "geralmente à propagação da instrução feminina, pois foi em toda a parte a sua freqüência considerável". É interessante observar, aliás, que ao longo da nossa história essa realidade não sofreu mudanças significativas. O número de docentes no ensino fundamental ainda é formado basicamente por mulheres, conforme comprova o Censo realizado pelo INEP, em 1997:


SEXO
TOTAL
%
Feminino
1.386.089
85,7
Masculino
227.975
14,1
Não informado
1.134
0,2
Total
1.617.611
100




Fonte: MEC/INEP/SEEC

Consequentemente, e considerando as hipóteses acima, encontramos fortes indícios para acreditarmos que a gênese da concepção de tratar a psicologia como uma ciência feminina tem suas raízes fincadas nas Escolas Normais. Argumento, com efeito, defendido por Antunes:

"É possível dizer que essas escolas foram uma das principais portas para a penetração da Psicologia científica no país e para a definição do perfil dos profissionais que se tornariam especialistas em Psicologia, além de, no caso da Escola Normal de São Paulo, ter sido ela uma das mais importantes bases para que a psicologia se tornasse mais tarde disciplina universitária" (Antunes, 1999, p. 86).

Historicamente, e ainda que de modo sucinto, conseguimos subsídios importantes para responder a pergunta formulada inicialmente.

No entanto, é de capital importância lembrarmos que continua sendo muito tímida a presença de homens nos cursos de Psicologia.

Esse panorama, acredito, apenas reflete a ideologia existente no conhecimento repassado através das gerações que, além de deixar visível a sua forte influência sobre o indivíduo na hora de eleger uma carreira, revela o imenso fosso existente entre ciência e senso comum.

Afinal, a ciência, e a psicologia em particular, não pode ser desenvolvida ou praticada com base em valores que há muito deveriam estar superados. Homem ou mulher, pouco importa. O que devemos levar em consideração é que a psicologia, assim como a educação e as demais áreas do conhecimento, tem um papel a desempenhar na sociedade. E, talvez, não alimentar preconceitos seja o nosso maior desafio como futuros psicólogos...

Nota:

(1) A pesquisa na íntegra pode ser encontrada no site do Conselho Federal de Psicologia:



Referências Bibliográficas:

ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino. A psicologia no Brasil: leitura histórica sobre sua constituição. São Paulo: Unimarco/Educ, 1999.

MASSIMI, Marina. História da psicologia brasileira: da época colonial até 1934. São Paulo: EPU, 1990.

SCHULTZ, Duane P.; SCHULTZ, Sydney Ellen. História da psicologia moderna. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 2000.

VERÍSSIMO, José. A educação nacional. 3. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

USO EXAGERADO DE SMARTPHONES

Por Equipe de Psicólogos do NPPI


"Não suportar coisas simples como uma fila de banco ou a espera da comida no restaurante, sem um “brinquedinho tecnológico” nas mãos – caso seja uma situação que traga muita angústia – também pode ser um indício de que andam exagerando na dose do tecnológico, para de certa forma escapar do que é chato e enfadonho".




A preocupação com o uso exagerado do computador por crianças parece ter aumentado ao longo dos últimos anos.
Com equipamentos mais baratos e o acesso facilitado nas pelas Lans Houses, as crianças, e principalmente os adolescentes, têm aumentado suas horas desse uso, algumas vezes acarretando perdas significativas em seu desenvolvimento. Dependendo do caso, algumas dessas perdas - como anos na escola ou falta de traquejo social - podem ser trabalhosas de serem resgatadas.

Esse novo hábito das nossas crianças e jovens vem preocupando as famílias, gerando situações delicadas e algumas vezes até angustiantes, pelo fato dos adultos se sentirem impotentes frente a esse novo aspecto da educação de seus filhos. Realmente ter filhos, sobrinhos ou jovens usuários de internet por perto, ou sob nossa direção, nos tempos de hoje, tem parecido ser uma tarefa complicada. Embora a tecnologia tenha vindo para facilitar nossas vidas, ela acabou trazendo com o uso que fazemos dela, muitas mudanças e desafios.

Educar filhos em uma época de tantas transformações acaba exigindo de nós um cuidado maior e um olhar mais atento: tanto para o uso que eles fazem da tecnologia, como para o uso que nós, adultos - como exemplos que somos - fazemos dessas mesmas ferramentas.

Muitas vezes, como pais, vivemos envolvidos com nosso trabalho e acabamos não percebendo alguns excessos de nossos filhos. Até pouco tempo, a TV era considerada uma vilã, pelo fato das crianças ficarem muito tempo à sua frente. Depois, isso aconteceu com os videogames. Agora os vilões da vez parecem ser o computador e os smartphones, especialmente por conta dos possíveis, frequentes e diários acessos a Internet. Por ser uma ferramenta contemporânea muito difundida, e pela rapidez com que nos envolvemos com ela, muitas vezes nem conseguimos nos lembrar de como era a nossa vida sem o celular ou os computadores sempre por perto.

Mas, dentro desse panorama, a possibilidade de um uso não saudável acaba sendo frequente, muitas vezes até por inocência no uso de tais ferramentas. E, no caso das crianças e adolescentes, a tarefa de educá-las também virtualmente acaba recaindo sobre os pais ou educadores presentes.

Apesar das crianças adolescerem e crescerem, isso não retira dos pais, ou de quem fica responsável pela casa diariamente, o lugar de autoridade. Para um desenvolvimento saudável, em um mundo tão repleto de mudanças, todos precisam trabalhar juntos.

A adolescência é uma fase marcada por confusões, ainda que passageiras. Os adolescentes experimentam ser adultos com frequência, e vivem querendo se impor, querendo tomar o controle da situação. Todo crescimento, nas diversas fases da nossa vida, acontece mais ou menos desse jeitão mesmo, são crises de ‘dentro de nós’: ora queremos isso, ora queremos aquilo, e é assim que vamos nos construindo, reafirmando-nos e ganhando o nosso espaço no mundo, com os amigos, em casa, com a família, na escola.

Só que algumas vezes os adolescentes não conseguem assimilar sozinhos todas as ocorrências cotidianas, de uma forma mais natural, sem que isso os atrapalhe. Podem vir a criar zonas de conforto, onde acreditam estar conseguindo fazer todas as coisas que querem. E parece ser nesse momento que a internet e seus prazeres instantâneos têm terreno fértil. Mas não se esqueçam que crianças e adolescentes precisam de limites, pois não sabem muito bem até onde podem ir e estão sempre testando esses limites, tanto na internet quanto fora dela. Cabe então, aos pais, colocar esses parâmetros, para que eles possam ir formando seus próprios conceitos de comportamentos morais e éticos.


ADOLESCENTE NÃO MUDA HÁBITO DE MODO IMEDIATO

Muitos pais tomam diversas atitudes, visando levar seus filhos a mudar seus comportamentos quando julgam que estão sendo prejudiciais. Retiram o computador ou tentam colocar regras mais rígidas para seu uso, na tentativa de que eles mudem seus hábitos. Mas, muitas vezes, esse parece um caminho inútil para resolver o problema. Isso acontece mesmo, porque quando falamos de comportamentos e de mudanças de hábitos de adolescentes, a resolução não é imediata, mas sim, parte de um processo. É preciso persistir naqueles limites que vocês, como pais, educadores ou cuidadores, acreditam ser importantes, mesmo que os "resultados" não apareçam de imediato.

Será bom também que esses limites quando acordados com as crianças e adolescentes não percam seu valor: ("isso não pode, mas se ele insistir acaba podendo"). Por isso, precisa(m) sentar com ele(a), definir esses limites – de preferência usando uma linguagem que ele entenda – e, principalmente, persistir neles. É bom também que se defina nesse momento o que ocorrerá, caso, quando e se, essas regras forem quebradas. Tal como acontece na vida com os adultos: se quebramos alguma regra, acabamos sofrendo algum tipo de perda ou restrição. 

Adequar os comportamentos usando bom senso, pode ser a maneira mais saudável de lidar com tantas mudanças e diferenças. Retirar o uso da tecnologia tem parecido uma tarefa muito punitiva, para ambos, pais e crianças, e pouco efetiva do ponto de vista educacional. Porém, quando chegamos ao extremo de agressividade e depressão, muitas vezes retirá-los por completo da tecnologia pode ajudá-los a perceber alguns limites. Algumas vezes isso acaba se fazendo necessário para que possam, juntos, restabelecer alguns combinados e regras, visando um uso mais saudável das novas tecnologias.

Essas providências poderão criar no adolescente um vazio, e a necessidade de buscar outras e novas formas de satisfação. É difícil conseguir conscientizar um adolescente ou uma criança sem que ele sinta "na pele" a perda. Educar é frustrar, não há como passar por isso sem que exista certa dose de sofrimento.

Crianças e adolescentes naturalmente precisam de determinadas “regras” que servirão como estímulo ao seu crescimento saudável. Comer, dormir, se exercitar e estudar seriam, a priori, o mínimo de atividades necessárias a serem cumpridas no decorrer de seu crescimento. Quanto menor a criança, mais necessidade ela terá de ter suprida, controlada e ensinada por outrem sobre a importância cotidiana dessas atividades. Assim sendo, deixar de cumprir qualquer uma delas, pode acarretar significantes perdas em seus desenvolvimentos integrais.

Pais de adolescentes não conseguem controlar tudo o que seus filhos fazem, como quando eram menores. Talvez não consigamos mais escolher seus ídolos, seus amigos, qual carreira vai seguir, se vai ter muitos ou poucos amigos, etc. Mas independente de sua maior autonomia conquistada e sadia, ele tem regras a cumprir, tanto em casa, como na escola, como na sociedade e independente de quem ele queira ser, terá que aceitar e respeitar essas regras. As regras da sociedade e da escola não são vocês quem definem, mas as da casa, sim!

Não suportar coisas simples como uma fila de banco ou a espera da comida no restaurante, sem um “brinquedinho tecnológico” nas mãos – caso seja uma situação que traga muita angústia – também pode ser um indício de que andam exagerando na dose do tecnológico, para de certa forma escapar do que é chato e enfadonho. Entretanto, esse comportamento também pode ser natural e saudável, contanto que se aprenda que nem tudo é só diversão, e que às vezes manter a mente quieta também pode ser prazeroso e saudável. 

Sabemos que é sofrido para os pais impor algum tipo de frustração e perda a seus filhos, mas esse caminho, dependendo do momento, pode ser fundamental para que eles possam perceber e aprender a lidar com suas dificuldades. Tentar conversar com eles sempre sobre suas angústias e necessidades, negociar limites, que depois de negociados e acordados, devem ser seguidos, traz à consciência o fato de que os desafios - mesmo que muitos difíceis - podem ser superados!

A dor que seu filho talvez sinta hoje, ao se ver limitado pelas regras, é a base formadora dos recursos que poderão ajudá-lo amanhã. Se ele está precisando tanto dessas ferramentas tecnológicas, e com tanta frequência, vale observar se existe algum sofrimento muito grande, na fase que vive, com o qual tem tido dificuldades de se sair bem sozinho. Sentir e perceber essas dificuldades é fundamental para poder sair do lugar onde comumente adolescentes estacionam: "está tudo bem comigo, o problema está na minha mãe e no meu pai ". Provavelmente isso será sofrido para ele, mas lembrem-se, crescer é sofrido mesmo! 


segunda-feira, 30 de abril de 2012

ABUSO SEXUAL NA ESCOLA: COMO LIDAR

Por Arlete Gavranic



Famílias enfrentam problemas de abuso sexual nas escolas. As formas de abuso feitas por garotos (as) são: agressão física, exposição de genitália para colegas, coerção por meio de ameaça e represália física ou moral por meio de chacotas e palavrões para não delatar o abuso.

Por isso, família e escola precisam urgentemente se preparar para educar, orientar e impor limites. Infelizmente, parte dos pais e escola ainda acreditam que dizer não ou punir através de regras e sanções, a quem não as cumpre, seja difícil, ou possa ser repressão. Muitos 'psicologizam' que pode fazer mal, mas pior é a ausência de limite.


POR QUE OCORREM CASOS DE ABUSO?

As primeiras noções e valores associados à sexualidade ocorrem no ambiente familiar através do comportamento dos pais entre si, na relação com os filhos (carinhosa, correta ou agressiva), no tipo de recomendações ou na ausência dessas, e até nas expressões faciais, gestos e proibições incorporados desde a infância.

A sexualidade está cada dia mais presente na vida de nossos filhos: na TV, na Internet, na moda, nas relações de casa, da escola, dos condomínios, etc.

Muitas famílias ainda vêem a permissividade e até a estimulação para a eroticidade de seus filhos - do sexo masculino-, como algo "natural". É por isso que muitos ainda deixam revistas pornográficas disponíveis, liberam canais eróticos da TV paga e não colocam restrição a sites pornográficos. Eles pensam que ao estimular a eroticidade de seus filhos, podem evitar a possibilidade de homossexualidade.

Há crianças, ou melhor, pré-adolescentes que por erotização excessiva, por falta de uma estruturação de "superego" - componente da personalidade que introjeta valores e normas na visão psicanalítica -, cometem comportamentos abusivos.

A educação sexual é obrigatória nas escolas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB nº. 9.394 de 20/12/96. E há 10 anos é obrigatória pelo Ministério da Educação. O objetivo é preparar as pessoas de forma saudável e segura para o exercício da sexualidade.

Mas isso não significa estimular a precocidade da sexualidade como alguns tentam aludir, mas trabalhar a idéia de sexualidade relacionada ao afeto, respeito, cidadania, melhorando a auto-estima e a segurança de jovens para escolhas mais sensatas e protegidas de riscos. Inclusive, evitando casos de abuso ou exploração sexual.

Mas infelizmente essa obrigatoriedade não tem sido respeitada.

O abuso sexual não ocorre só em escolas de periferia. Acontece também em escolas com mensalidades salgadas que chegam a R$800,00.

Procure prestar atenção no comportamento de seu filho. Se há mudança ou instabilidade de humor, se ocorre rejeição para ir à escola sem causa específica.

Esteja próximo de seu filho para que ele sinta confiança em contar, caso ocorra algo estranho, pois tais abusos deixam seqüelas para sua vida afetiva e sexual no futuro.

Nem sempre escolas e professores estão preparados para perceber esses casos ou tomar atitudes pontuais na colocação de limites e indicação de tratamentos.

Esse despreparo é devido a vários fatores: escola não é clínica de recuperação; falta de consciência das seqüelas de atos desse tipo; questões mercadológicas; onipotência da coordenação da escola em achar que dará conta de resolver tudo ou até por desconsiderar efetivamente as queixas de alunos.

Procurar apoio nas coordenações das escolas é um caminho, mas se não for suficiente, procure a Delegacia de Ensino e o Conselho Tutelar para saber como proceder.

Proteja seu filho para que ele não carregue pela vida a sensação de que ser 'abusado', ameaçado ou subjugado sejam coisas naturais da vida. 



Fonte: Vya Estelar

terça-feira, 24 de abril de 2012

SEXUALIDADE DIGITAL E O MUNDO REAL


Por Regina Wielenska


Filmes pornográficos - "O jovem que assiste aos filmes e não tem muita experiência e informação sente-se em desvantagem ao construir sua identidade sexual, pois faz uso de referenciais de um mundo irreal, mas que os filmes lhe fazem crer que deveriam ser esses os padrões desejáveis e naturais, acessíveis a todos"


Há muito tempo atendi um paciente, rapaz por volta de seus vinte anos, cuja queixa principal era ter falhado ao dar início à sexta relação sexual em uma mesma noite!
Sentia-se fracassado, temia falhar de novo, achava que tinha sérios problemas na esfera do desempenho sexual e pediu minha ajuda profissional.

Precisei atendê-lo, mas o ponto de partida foi reformular qual seria o problema. No mundo real, quantos indivíduos seriam capazes da hercúlea e desnecessária proeza à qual ele se impunha? A namorada, por sinal, tentou de todo jeito, e sem sucesso, demonstrar que estava mais do que satisfeita, e dizia com todas as letras que não via qualquer problema no ocorrido, que ele era ótimo para ela, dentro e fora da alcova. Esforço em vão.

Muitas coisas estavam por trás do comportamento do rapaz: principalmente, uma história de vida de desvalorização e negligência afetiva parental, a qual o levou a se sentir inferior, incapaz. A queixa sexual era a ponta do iceberg. A raiz do problema estava submersa nas condições de história de vida, e tinha a ver com a maneira como o rapaz foi criado pela família e aprendera se relacionar com o mundo e a avaliar o próprio desempenho.

Mas hoje discutirei apenas uma pequena parte da massa de distorções que contribuíram para a formação daquele confuso e sofrido estado de coisas. Quero comentar sobre a influência exercida pelos filmes com teor erótico ou pornográfico sobre a formação dos indivíduos. E, dissimuladamente, me farei de boba para não abordar a diferença entre esses dois termos (erotismo e pornografia) porque, do contrário, me afastaria demais do tópico central desta coluna. 

Para o presente ponto de partida, bastará prestarmos atenção ao teor dos filmes, sites e publicações que exploram o corpo humano com finalidade de estimulação sexual para quem adquire os produtos e lucros expressivos para quem produz e comercializa o material.


ENTENDA POR QUE O SEXO EM FILMES PORNÔS É TÃO DISTANTE DA REALIDADE

Primeiro aspecto, alguém já cronometrou nos filmes o intervalo entre o primeiro contato entre dois corpos e a penetração? Tudo é mais rápido do que fazer sopa de pacote. Esquecemos, no entanto, que não se recomenda consumir sopa de pacote (pelo seu alto teor de sódio e reduzido valor nutritivo) e nem a penetração instantânea, por esta não oferecer, à enormidade dos parceiros, tempo suficiente para estarem mais receptivos à penetração. E isto é fato se nos referimos a relações entre homem e mulher como entre pessoas do mesmo sexo. Relaxar a musculatura evita dor e aumenta o prazer. 

Além disso, a lubrificação feminina depende de condições hormonais favoráveis mas, principalmente, de estimulação de qualidade, seja por meio de palavras, toques, carícias e fantasias, então há que se dispor de um bom tempo para carícias preliminares. Além do mais, a pele é o órgão mais extenso do corpo humano, rico em terminações nervosas. Se devidamente estimuladas, essas terminações operam verdadeiros milagres em termos de prazer intenso. 

Quem parte de imediato para a penetração pode estar se esquecendo da nuca, ombros, tornozelo e de uma infinidade de territórios corporais muito promissores. Palavras bem escolhidas também são afrodisíacos excelentes. 

Os filmes não ensinam as pessoas a se estimularem generosamente e a tirarem proveito do delicioso playground em que podemos transformar nossos corpos. Valorizar o contato pele a pele, sem que este seja apenas genital, é o que caracteriza a descoberta, preferencialmente biunívoca, das sensações corporais prazerosas. Esta prática enriquece, amplifica o encantamento de qualquer relação sexual. E isso os filmes não mostram. 

Na tela das TVs, testemunhamos um sôfrego desnudar e, a seguir, uma cavalgada permeada de gemidos e caretas estereotipadas. Nada mais. Pela tela aprendemos a nos empobrecer sexualmente. E sequer me refiro à possível distinção do sexo no contexto do amor e do sexo enquanto realização de um desejo físico, pontual, pouco atrelado a duradouros sentimentos de afinidade entre os que o praticam. 

Outro ponto a considerar: nos filmes e revistas com imagens explícitas, os peitos femininos e os órgãos sexuais masculinos são enormes e igualmente eretos. No mundo real nem tudo é assim, peitos variam em forma, tamanho e inclinação. O pênis varia de comprimento entre os indivíduos, e sua capacidade de se manter em ereção varia dentro de uma faixa de tempo provavelmente bem menor do que fazem supor os filmes de “sacanagem”. Neles, os sujeitos parecem dotados de poderes sexuais análogos ao da força de super-heróis dos desenhos animados, ou seja, próprios de seres do mundo da fantasia. 

O jovem que assiste aos filmes e não tem muita experiência e informação sente-se em desvantagem ao construir sua identidade sexual, pois faz uso de referenciais de um mundo irreal, mas que os filmes lhe fazem crer que deveriam ser esses os padrões desejáveis e naturais, acessíveis a todos.

Não há filmes nos quais os personagens tenham dificuldades no âmbito de expressão sexual e que sejam carinhosamente guiados pelos parceiros a lidar com vergonha, desinformação ou outros aspectos. Personagem algum recusa numa boa qualquer prática por ter preferências diferentes. Nada é negociado, tudo se supõe ser possível e desejável para ambos. Parece que dizer não virou tabu. Pedir algo parece desnecessário, dizer o que gosta também não precisa. Nos filmes, todo mundo parece dotado de mágicos dons de clarividência e sabe de antemão como agradar ao outro.

Preservativos, quem os utiliza explicitamente em filmes? Parece que as estrelas do universo pornô são avaliadas por médicos a cada três meses, para manter as condições de saúde ou corrigir precocemente quaisquer problemas. Ao menos foi o que ouvi num documentário acerca da indústria do sexo nos Estados Unidos e Europa. Nos enredos não se diz da importância de usar proteção nas relações sexuais, mesmo com o advento do vírus da AIDS, do HPV e de outras doenças sexualmente transmissíveis (DST), como certas formas de hepatite, por exemplo. 

Fica a impressão de que os personagens se aproximam um do outro completamente desprotegidos, e pessoalmente não diria que lhes falta apenas camisinha. Quais as condições emocionais de quem se dispõe ao contato sexual sem consideração alguma pela necessidade e anseios reais do outro participante, acho que são dois indivíduos guiados exclusivamente pelos ditames dos filmes toscos. Qual moça terá coragem de dizer ao afoito namorado ou “ficante” que a intimidade física entre eles dependerá de haver proteção contra gravidez não planejada e DSTs? Não há na mídia modelos de personagens que recorrem exclusivamente a práticas seguras e se recusam ao contato íntimo desprotegido.

Faixa etária é outro ponto interessante: o mercado do sexo expõe interações entre pessoas cuja aparência não ultrapassa o limite dos trinta anos. Há vida sexual após essa idade? Parece que sim, mas o modelo midiático, distorcido desde sua base, se restringe a performáticos e jovens atores, desprovidos de rugas, cabelos brancos, adiposidades ou dificuldades de locomoção. Óculos de grau é coisa que ninguém precisa retirar antes de se deitar no sofá, cama ou mesa da sala de jantar e partir para a ação.

O sexo virtual, cobrado por minuto em sites, ou gratuito nas salas de bate-papo, é tremenda enganação na maioria dos casos. A “loira fogosa, 18 anos, inexperiente e ansiosa por lhe conhecer” que publicou um anúncio num site qualquer pode ter entre 15 e 36 anos. Por sua vez, o “executivo garanhão e disponível em busca da mulher especial de sua vida” talvez seja pai de quatro filhos, alcoolista, no terceiro casamento, desempregado e sexualmente promíscuo. Pelo teclado, com ou sem a ajuda do cartão de crédito, todos parecem se amar e aparentam possuir inesgotável poder erótico. Tremenda balela.

Uma das maneiras de se começar a conhecer o próprio corpo e os meandros do prazer erótico é a atividade masturbatória, em parceria com a fantasia e com o contato com materiais como filmes, sites, etc.. 

Até os dias atuais, os homens, mais do que as mulheres, se sentem livres para descobrirem o próprio corpo e se excitarem dessa maneira. Culturalmente prevalece a desigualdade entre os sexos, e a repressão sobre as mulheres sobrevive a despeito das descobertas científicas sobre sexualidade humana ou a liberalização dos costumes em certas sociedades ou subgrupos. Então o homem inicia a vida sexual com algum conhecimento, e quiçá, domínio sobre seu próprio corpo. 

No entanto, o homem pouco saberá sobre as necessidades femininas, e suas parceiras quase não conhecem a si mesmas, exceto o que as revistas femininas lhe dizem para fazer: “Seja linda, sexy e sedutora, e use do seu poder de atração como moeda para se realizar na vida”. 

O homem não está preparado para agradar sexualmente à sua fêmea, infere que deva usar meia dúzia de truques ruins que aprendeu nos filmes pornôs que assistiu. A moça mal sabe de si mesma, exceto que deve agradar ao homem e se sujeitar ao que ele lhe propõe. O ruim se relaciona com o pior e todos parecem muito satisfeitos. Apenas parecem. 

A dificuldade do homem para conhecer a necessidade sexual da mulher com a qual estabelece intimidade física pode também se relacionar a outro fator. Talvez seja equívoco de minha parte, mas ainda hoje em dia, sexo pago parece atrair mais clientes do sexo masculino do que feminino entre os que procuram se satisfazer com um/uma profissional do sexo. Esse é o ponto: desde que cumpra com o pagamento, o cliente tem sempre razão. Isto significa que o homem, na condição de consumidor de um serviço sexual, não precisa se preocupar em ser habilidoso para satisfazer sexualmente ao/à profissional. 

Aliás, quem é bom de marketing convence qualquer cliente de que teve um orgasmo e simultâneo ao do cliente, tudo por mérito dele. Tempo é dinheiro nesse ramo de atividade. Agradar com gemidos e fazer o cliente se sentir especial e talentoso na cama é parte do jogo que se estabelece entre as partes (ao qual eu daria o nome de “me engana que eu gosto”). Um homem que aprenda sobre relacionamento com base em filmes e prostitutas pode ter um desempenho pífio com uma parceira amorosa e sequer ter como desconfiar disso. 

A namorada aprendeu a fingir prazer para agradar ao seu amor ou imagina que a dificuldade em chegar ao orgasmo seja “falha dela”, e não um real desajuste na aprendizagem e capacidade de comunicação entre as partes. Ele compara seu desempenho ao dos filmes e fica sob a influência das parceiras remuneradas que sopraram obscenas doçuras nos ouvidos dele.

Um último aspecto: nossa cultura tem crescentemente valorizado o exibicionismo e a superficialidade. Quem se arrisca a falar com os “amigos”, descrever-se cruamente, revelar dúvidas, insucessos e se mostrar mal sucedido? Imagine o risco da notícia de um fracasso na cama chegar aos celulares e redes sociais da turma ao qual você pertence? Assim, todos assinam um pacto de silêncio. Quanto que se perde de aprendizagem por não se poder falar a verdade, num ambiente de respeito recíproco?

Termino por aqui, com a certeza de ter deixado de lado uma penca de outros aspectos, tão ou mais relevantes quanto os que escolhi abordar. De qualquer modo, peço que se lembrem do seguinte: filme sobre sexo é puro faz de conta e não serve de parâmetro para alguém se avaliar ou julgar um parceiro.


Fonte: Comportamento

sexta-feira, 6 de abril de 2012

SEXO, AMOR E ESPIRITUALIDADE

“Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para dentro do seu coração.
Quem olha para fora, sonha.
Quem olha para dentro, acorda.”

Carl Gustav Jung



 “… Como tudo no universo, o sexo também passa por um processo evolutivo. Na história da humanidade, encontramos muitas situações que ilustram essa evolução, a começar pelos homens primitivos que arrastavam as mulheres pelos cabelos, o que era considerado natural. Já na antiga Lemúria, as sacerdotisas iniciavam os homens apresentando o caminho da transcendência através do ato sexual (Tantra Lemuriano).

 As diversas culturas nos trazem informações sobre a evolução do sexo de maneiras diferentes, mas o primitivismo ainda permeia esta instância. Sexo ainda é tabu, principalmente nos meios religiosos e sociais. Por mais que se pregue a liberação, ainda falta conexão entre o amor, o sexo e a espiritualidade.

 Não encontraremos uma resposta pronta ou fórmulas mágicas para nossos relacionamentos, mas sim uma grande variedade de caminhos a serem percorridos.


Vamos refletir…

A consciência da conexão entre sexo, amor e espiritualidade é de suma importância. No atual momento da história da humanidade, um novo tipo de SER humano está lutando para nascer. E, nesta nova consciência que está batendo à nossa porta, um salto evolutivo no comportamento sexual surgirá, permeado pelo amor que transcende o ato-desejo apenas.

 Hoje estamos sedentos… Falta amor...

 O amor está limitado a conceitos, o corpo a pré-conceitos e a mente a prisões… E essa prisão condiciona os jovens a tratarem as suas relações quantitativamente, sem sentido afetivo, instalando um grande vazio…

E porque esse sentimento abarca a maioria das atuais relações? Por que depois da repressão, que gerou maior liberdade sexual nos dia de hoje, não há maior equilíbrio, a felicidade e a plenitude não compõem a vida da maioria de homens e mulheres? Qual é o problema?

 Acredito que nós saímos de um extremo para ir ao outro. Porém, existe um caminho do meio, que precisa ser reconquistado para que haja equilíbrio nos pratos dessa balança…

 Há muito, os orientais descobriram através do tantrismo que o ato puramente físico transcende para uma explosão de sensações extracorpóreas, que tem relação com nossa essência (espírito). Quando o casal se une intimamente com profundo amor, cada centro de força do corpo espiritual de cada um (chamado chakra),entra em atividade intensa e inicia-se a troca de energias entre eles. Seus corpos sutis se expandem em uníssono, harmonizando as polaridades das forças masculinas e femininas (ying e yang). Para que isso se realize, é necessário que o casal esteja em comunhão através do coração-amor, corpo e espírito.
Não precisamos negar o corpo para evoluir. É através dele que acessamos o encontro amor-sexo-espiritualidade. É com ele que aprendemos a verdadeira troca de energias de luz entre os parceiros…

 Amar, no sentido amplo do verbo, é acessar o seu melhor, a sua essência…

Lembrem-se: ao condenarmos algo, negamos a nós mesmos as possibilidades de crescermos naquilo que nos tornaria pessoas melhores… Não devemos condenar a lama, pois, a flor de lótus nasce dela. Utilizar a lama ainda não é se tornar a flor de lótus… Mas pode vir a ser… Se agirmos de forma criativa, teremos a possibilidade de ajudar a lama a liberar sua flor, de tal modo que possa ser manifesta.
Pensem nisso!



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

PARAFILIAS E CRIMES SEXUAIS



O transtorno sexual apresenta a dificuldade de sofrer intervenção de fatores culturais, fazendo com que seu significado e importância mude com a época e o lugar. O que é transtorno hoje, pode não ter sido ou deixar de sê-Io. Exemplos como o da pedofilia e do homossexualismo são apenas os mais citados. O primeiro era cultivado com requinte na Antigüidade. A homossexualidade, até a nona revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-9) da Organização Mundial de Saúde (OMS), figurava sob o nº 302.0 entre os Desvios e Transtornos Sexuais, agrupada ao que hoje se chama parafilias. Em 1992, na décima revisão da  Classificação de transtornos mentais e de comportamento (CID-10), a homossexualidade desapareceu como transtorno, sendo citada no código F66, juntamente com a heterossexualidade e a bissexualidade, entre as ''variações de desenvolvimento sexual que podem ser problemáticas para o indivíduo" (OMS, 1993). Mesmo assim foi registrada, com interessante redação, a advertência politicamente correta: "a orientação sexual por si só não é para ser considerada como um transtorno".

Mesmo sem a homossexualidade, o que permanece não deixa de refletir os determinantes culturais. Não é por acaso que o estupro, o atentado ao pudor, o ato obsceno e a corrupção de menores figuram no Código Penal (CP) sob o título VI: "Crimes Contra os Costumes". A atitude geral da sociedade brasileira para com eles tem variado da intolerância persecutória ao escárnio, passando pela silenciosa cumplicidade, dependendo do grupo social que os considere.

O profissional de saúde mental deve se determinar a lutar contra preconceitos largamente difundidos e, não se sabe em que medida, em si mesmo incutidos. No caso do perito forense, o trabalho é ainda mais difícil, pois tem de lidar diretamente com requerimentos legais que nem sempre acompanham a norma em que ele próprio está inserido e à qual despende parte do tempo tentando se ajustar. Posta-se no meio de dois campos, a sociedade e o criminoso sexual, tentando traduzir ao representante daquela a exata natureza do transtorno. Dele é exigida resposta a quesitos formulados de maneira a atender com precisão às especificações legais, partindo de material com alto teor de subjetividade e em constante atualização. Precisa enquadrar os casos no conceito legal de imputabilidade e responsabilidade, tendo ainda de prognosticar a reincidência como se se tratasse de uma ciência exata.


PARAFILIAS

Parafilias, segundo o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, da American Psychiatric Association, 4ª. edição revisada (DSM-IV-TR) (2000), consistem em fantasias, anseios sexuais ou comportamentos recorrentes, intensos e sexualmente excitantes, em geral envolvendo objetos não-humanos, sofrimento ou humilhação próprios ou do parceiro, crianças ou outras pessoas sem o seu consentimento,

O termo parafilia vem substituindo com vantagem o antigo perversão, carregado de acepções não-científicas, como corrupção, desmoralização, degradação, e que, pela proximidade com perversidade, sinônimo de crueldade, adquiriu uma tonalidade depreciativa que não tem lugar no pensamento psiquiátrico. Parafilia (do grego pará = ao lado de, funcionamento desordenado ou anormal, oposição + philos = amante, que tem afinidade, atraído por) expressa melhor o sentido original psicanalítico, que é, segundo Laplanche (1998), o de "desvio em relação ao ato sexual normal, definido este como coito que visa à obtenção do orgasmo por penetração genital, com uma pessoa do sexo oposto".

Assim, a preferência de uma pessoa por partes do corpo da outra, sejam nádegas, mamas, pés, bem como por peças de vestuário em cores específicas, pode ser considerada perversão do ponto de vista estritamente psicanalítico, sem correspondente na nosografia psiquiátrica. O critério diferencial é:

1) a importância (ou exclusividade) que essa atitude adquire na vida sexual do indivíduo; e

2) a possibilidade de causar sofrimento a si ou a outros, aí incluídos os choques com a legislação.

Recentemente se tem identificado semelhança entre as parafilias e o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Afirma-se que as obsessões são similares às fantasias sexuais, tanto parafílicas quanto não-parafílicas; as compulsões são semelhantes ao comportamento sexual compulsivo; há uma co-morbidade de depressão e ansiedade tanto no TOC como nos transtornos sexuais; e, nos níveis neurobiológico e neurofarmacológico, há significativa superposição desses transtornos.


TIPOS DE PARAFILIA


Fetichismo

É a dependência de determinados objetos inanimados ou partes do corpo como estímulo para a excitação e satisfação sexuais. Socialmente aceita, não é raro sejam formadas confrarias de, por exemplo, podófilos ou podólatras. Freqüentemente faz parte do arsenal de recursos para estimulação recíproca de um casal.


Transvestismo fetichista 

Quase exclusiva de homens heterossexuais, consiste no uso eventual de roupas do sexo oposto para obter satisfação sexual. Enquanto se transveste, o indivíduo geralmente se masturba, fantasiando pertencer tanto ao sexo masculino como ao feminino. Há quem o considere como um estágio intermediário em direção ao transexualismo. Não deve ser diagnosticado nos transtornos de identidade de gênero, nem confundido com homossexualismo. Os transvésticos têm, em geral, comportamento masculino nas suas relações sociais, mostrando preferências heterossexuais, embora também não seja raro envolvimento homossexual eventual.


Exibicionismo

É a exposição dos próprios genitais a um estranho, geralmente sem qualquer tentativa de envolvimento sexual outro com ele. Quase exclusivo de homens heterossexuais que se exibem para mulheres ou crianças do sexo feminino. Freqüentemente há masturbação durante ou em seguida à exposição. O mais comum é o desejo de chocar o espectador, embora em alguns casos exista a fantasia de provocar excitação sexual.


Voyeurismo (ou escoptofilia)

É a tendência recorrente a obter excitação e prazer sexual pela observação de pessoas em comportamentos sexuais ou íntimos, como se despir. Geralmente se dirige a estranhos que não notam estar sendo observados e é acompanhada de masturbação. Não é raro que o voyeur fantasie estar envolvido em relação sexual com a pessoa observada, com quem não se relaciona na realidade. Deve ser diferenciado da tendência das crianças e dos adolescentes a observar, movidos pela curiosidade, o comportamento sexual dos adultos, mesmo que o ato conduza à excitação sexual ou masturbação. No caso do voyeur, a atividade parafílica é a preferencial, e, para alguns, a única forma de experimentar excitação ou prazer sexual.


Pedofilia

É a preferência sexual por crianças pré-púberes ou no início da puberdade (geralmente menos de 13 anos), em fantasias ou na realidade. Pode ser homossexual, heterossexual ou uma mistura de ambos. Considera o DSM-IV-TR que o pedofílico deve ter 16 anos ou mais e ser pelo menos cinco anos mais velho que a criança, embora no caso de indivíduos no final da adolescência a caracterização não seja tão fácil, devendo-se avaliar a maturidade sexual de ambos. É erroneamente diagnosticado como pedófilo todo aquele que abusa sexualmente de crianças, pois essa parafilia implica, como dito anteriormente, a preferência sexual por crianças. Diversas situações e estados mentais podem contribuir para o abuso sem que o indivíduo possa ser caracterizado como pedófilo. Mesmo o comportamento pedofílico pode variar conforme a idade e os estressores, apesar do curso ser geralmente crônico. Uma forma muito difundida atualmente é a pornografia infantil pela Internet, situação em que o sentimento de anonimato pode estar revelando tendências que de outro modo ficariam reprimidas. Nesses casos, é importante a distinção entre os verdadeiros pedófilos, os consumidores de pornografia em geral, os curiosos e os que procuram satisfazê-Ios por interesse pecuniário.


Sadomasoquismo

É a preferência pela obtenção de excitação ou prazer sexual pela produção de sofrimento real, físico ou psicológico. Diz-se masoquismo quando o indivíduo prefere obter prazer do próprio sofrimento e sadismo quando da inflição ao outro. Pode envolver todas as formas de agressão física, como espancamentos, açoitamentos, queimaduras, cortes, choques elétricos, ou psicológica, como subjugação, estupro, exposição ao perigo, a situações degradantes, humilhação e formas de desconforto em geral. Costuma envolver fantasias de detalhada elaboração. Embora possa ser praticado por duplas ou grupos sadomasoquistas, eventualmente o sádico envolve pessoas contra o seu consentimento. Não raro pessoas funcionam como sádicos e masoquistas alternadamente, embora o mais comum seja um padrão de comportamento permanecer durante a vida toda, associado ao fetichismo ou fetichismo transvéstico. As fantasias sexuais dos sádicos envolvem invariavelmente a situação de domínio sobre o outro, e a percepção do medo experimentado pelo parceiro, voluntário ou não, é fundamental para a excitação. Nos masoquistas, a situação de insegurança, de incerteza e de estar à mercê dos desejos alheios é o foco parafílico principal. Nos casos de sofrimento auto-infligido, o mais comum é que se mantenha um padrão durante toda a vida, mas, durante períodos de estresse ou na busca de prazer mais intenso, alguns podem agravar a natureza dos seus atos até a produção de ferimentos sérios ou mesmo morte. Os sádicos que preferem parceiros que não consentem com a prática tendem a repetir o ato e, muitas vezes, mas não necessariamente, dependendo do transtorno da personalidade e/ou patologias associados, a produzir ferimentos graves ou assassinar.


Frotteurismo, Necrofilia, Auto-estrangulamento e outros (F65.8)

No frotteurismo, o prazer está ligado ao ato de tocar ou esfregar-se em uma pessoa sem o seu consentimento, geralmente em locais de proximidade corporal forçada, como transportes coletivos. Envolve esfregar os genitais ou manipular partes do corpo da vítima.
Na necrofilia, a preferência é por atividade sexual com cadáveres. Resnick (1989) separou esses casos em três grupos: a necrofilia comum, na qual se usa corpo já morto para fins sexuais; a homicida, em que o indivíduo mata para obter o cadáver; e a fantasiada, em que existe a fantasia de relacionamento sexual com cadáveres, sem atuação necrofílica. Distinguiu ainda uma pseudonecrofilia, descrita como uma eventual atração por um cadáver, mas corpos mortos não são o objeto das fantasias sexuais. Incluiu nesse grupo os sádicos, os oportunistas e os transitórios. Em alguns casos, o contato sexual com o cadáver pode ser expressão de um desejo obsessivo anterior de contato com a pessoa que morreu. É o caso de certos crimes de amor, em que a destruição e posse do objeto do desejo torturante serve de alívio. Essa situação encontra-se representada na peça Salomé (1894), de Oscar Wilde, em que a personagem título, não suportando a recusa do profeta Yokanaan a atender aos seus desejos, ordena que lhe cortem a cabeça e, em seguida, beija-lhe a boca em triunfo. Não devem ser esses casos diagnosticados como necrofilia.

Há quem considere o auto-estrangulamento, auto-asfixia ou hipoxifilia como formas de masoquismo, embora, pela sua especificidade e freqüente ausência de outros comportamentos masoquistas, possa ser registrado como forma autônoma de comportamento sexual desviante. Nela, o prazer é obtido pela privação de oxigênio por estrangulamento, sufocação com saco plástico, ataduras ou máscaras e, embora raramente, pode provocar a morte. A entidade denominada Morte Acidental Auto-erótica (Accidental Autoerotic Death - AAD) é tipificada por ser solitária, acidental e causada por uma parafilia letal.

Outros transtornos da preferência sexual são de difícil classificação por envolverem aspectos combinados de várias parafilias ou não satisfazerem os critérios para classificação nos modelos citados, como os telefonemas obscenos, a zoofilia, a coprofilia, o stalking (vigiar e seguir uma pessoa que é foco do desejo), entre outras. Carece de maior estudo o chamado sexo virtual, ou seja, aquele praticado por pessoas que se relacionam pela Internet.

As parafilias freqüentemente se apresentam combinadas, como, por exemplo: masoquismo e transvestismo fetichista, sadismo e fetichismo, sadismo e pedofilia, sendo muitas vezes impossível determinar a fronteira entre elas. É comum a ocorrência de várias parafilias em um só indivíduo. É entre os 15 e os 25 anos que os parafílicos geralmente apresentam maior freqüência do comportamento desviante, sendo observado um decréscimo com a idade.


CRIMES SEXUAIS

A definição de crimes sexuais não é simples. Podemos fazê-Ia considerando assim todos aqueles atos delituosos que tenham o propósito de satisfação sexual como motivo (enfoque motivacional) ou limitá-Ios àqueles cuja natureza seja um relacionamento sexual em qualquer das suas formas (enfoque legal). Este se refere àqueles que se enquadrem nos Crimes Contra os Costumes, dos artigos de 213 a 224 e de 233 a 234 do CP, que incluem estupro, atentado violento ao pudor, posse sexual mediante fraude, atentado ao pudor mediante fraude, sedução, atentado violento ao pudor, corrupção de menores, rapto violento ou mediante fraude, rapto consensual, presunção de violência e outros. Ambas as definições são úteis, mas dificilmente se poderá considerá-Ias satisfatórias do ponto de vista operacional.

Basta observar que, adotando-se o primeiro conceito, o furto de um objeto de desejo fetichista terá uma motivação sexual, mas perante a lei será um furto como outro qualquer. No sentido inverso, o estupro será sempre um crime definido como sexual, embora se saiba que as motivações predominantes costumam ser o desejo de domínio e de infligir sofrimento.

Um conceito operacional de criminosos sexuais deve levar em conta as definições legais desses crimes, mas para ser útil cientificamente deve também (1) especificar sem ambigüidades as características que fazem com que um indivíduo seja identificado como membro dessa categoria; e (2) demarcar claramente os limites desta. Nenhuma definição acanhada pode ser formulada para atingir esses objetivos. O melhor que se pode fazer é especificar os tipos legais de crimes de interesse e ter em mente quatro restrições a tal lista: (1) os tipos de crime não são mutuamente excludentes;
(2) as categorias de crimes são específicas para tempo e lugar e não universais;

(3) motivação sexual ou preferência sexual desviantes não são elementos indispensáveis em qualquer definição legal nem são suficientes para essa definição; e

(4) muitos crimes sexualmente motivados ou a serviço de padrões desviantes de excitação não se incluem na categoria legal de crimes sexuais.

A definição exata de crimes sexuais acaba numa discussão em aberto, consideramos aqueles cuja natureza seja nitidamente sexual, com a ressalva de que não há objeção a que sejam incluídos em outras áreas da criminologia.


É importante também a caracterização do criminoso sexual:

a) Criminoso sexual situacional - algumas pessoas sem transtorno psiquiátrico, em situações intensa e continuadamente estressantes, ou que lhes confiram poder absoluto sobre o outro, podem ter dificuldade de controlar impulsos que seriam mantidos adormecidos sem elas. É o caso da vida em encarceramento, das guerras onde se desfruta de poder absoluto sobre os prisioneiros ou, de forma mais corriqueira, das babás que abusam sexualmente de crianças por as terem inteiramente à sua mercê e para sentir a emoção de algo diferente e proibido. Na maioria dos casos, não há antecedentes nem persiste o comportamento criminoso após a modificação ambiental.


b) Criminoso sexual preferencial - indivíduos que, de maneira preferencial e continuada, nas condições de vida habitual e contando com a possibilidade de satisfação sexual dentro da legalidade, optam pelo comportamento criminoso.


SITUAÇÕES ESPECIAIS


Abuso de menores

A prevalência do fenômeno na população em geral está longe de ser conhecida, embora esse constitua a maior parte dos crimes sexuais em que o perito é chamado a atuar. Estima-se que 10% das pessoas podem ter sido abusadas antes dos 18 anos. É mais comum que meninas (cerca de 90%) sejam as vítimas preferenciais, não raro dentro da própria família. Os dados estatísticos são geralmente deficientes por serem considerados apenas os casos que geram procedimentos policiais e legais, pois os de menor gravidade são resolvidos em família, visto que a maioria dos agressores é o pai ou quem exerce a função paterna, até mesmo com a conivência, às vezes explícita, dos demais. Grande número permanece em segredo entre vítima intimidada e agressor ameaçador, só sendo detectados quando aquela, já adulta, procura ajuda profissional e relata o fato como significativo no seu passado.

A verdadeira extensão do problema é, portanto, muito maior do que indicam os dados disponíveis. Dos casos atendidos pelo Serviço de Psicologia (Seção de Atendimento Básico) da Vara Central da Infância e da Juventude (VCIJ) do Tribunal de Justiça de São Paulo entre 1990 e 1998, abrangendo todas as situações que demandassem intervenção psicológica, como guarda, tutela, destituição de pátrio poder, autorização para viagem etc., cerca de 17% se referiam à violência sexual doméstica.

Aí também se encontrou a característica do agressor exercendo função paterna (90%, com 65% de pais biológicos) e vítima do sexo feminino (93%). A Diretoria de Polícia da Criança e Adolescente do Recife (DPCA) registrou, de 1995 a 1999, queixas de 2.665 crimes sexuais. Esse número vem crescendo; só de janeiro a agosto de 2000 foram registrados 496 crimes sexuais. Destes, cerca de 30% ocorreram em casa, e os acusados foram o pai (57%), o padrasto (21%), o tio (6,4%) e o avô (4,6%). 

As vítimas do sexo feminino foram 90%. Quanto ao perfil dos abusadores, encontram-se geralmente homens (hetero, homo ou bissexuais), havendo um número significativo dos que preferem parceiros sexuais adultos, mas escolhem crianças porque estão disponíveis ou vulneráveis. Exemplo são carcereiros que abusam de menores presos. A existência de número significativo de abusadores de crianças com história de vitimização na infância difundiu a idéia do "ciclo vítima-agressor", cuja relação não é tão direta quanto possa parecer. Estudando criminosos sexuais, não se encontra diferença estatística entre o abuso sofrido ter sido sexual ou físico, aí incluindo a negligência. O trauma e o estresse relativos ao abuso ou à resposta da sociedade ao fato possam ser mais importantes que a própria experiência sexual do abuso. Tentaram identificar as diferenças entre um grupo de vítimas do sexo masculino que não se tornou agressor na idade adulta (grupo resiliente) e um grupo de vítimas que praticou o mesmo crime quando adulto (grupo de criminosos). Os criminosos não relataram maior excitação ou prazer ao serem abusados, mas sim fantasias e masturbação posteriores em relação ao abuso. Em contraste, o grupo resiliente experimentou maior conforto emocional (amizade, gentileza, presentes) quando do abuso. O grupo de criminosos apresentou menor nível educacional e ambiente familiar mais adverso, enquanto os resilientes desfrutaram de maior apoio social durante a infância, provido por maior número de fontes (pais, parentes e outros adultos). O grupo resiliente recebeu mais manifestações de afeto, tanto físico quanto verbal, e maior apoio nas situações de crise. Essas constatações sugerem o que pode ser feito na prevenção desses casos.

Por outro lado, apesar de raramente descritos, os crimes sexuais praticados por mulheres encontram-se, em sua maioria, nessa categoria; as vítimas, como padrão, são filhos ou enteados. Grande parte dessas mulheres participa ajudando o criminoso do sexo masculino.


CRIMES SEXUAIS VIOLENTOS EM SÉRIE

Um tipo de criminoso de ocorrência subestimada é aquele sádico que mata ou fere gravemente as vítimas, abusando sexualmente delas antes ou depois do assassinato. Geralmente reincidentes, são homicidas sexuais em série, e só uma pequena porcentagem desenvolve psicose franca, ocorrendo o fenômeno muitas vezes sem diagnóstico psiquiátrico além do sadismo. Em tudo se assemelham aos serial murderers, tendo o ataque sexual como motivo central. Em geral planejam os ataques, torturam e mantêm as vítimas um certo tempo sob seu domínio. O desfrute sádico do poder absoluto sobre a vítima subjugada é o aspecto mais característico dessa forma de obtenção de prazer. Freqüentemente revelam como motivo principal dos seus atos o domínio sobre a vítima. O assassino sexual em série Jeffrey Dahmer, conhecido como O Canibal de Milwaukee, indagado pelo perito do seu caso sobre por que praticava os crimes, respondeu: "Pelo poder e por luxúria" (For power and for lust), ou seja, primeiro pelo poder e, depois, por luxúria.

Uma longa série de fatores tem sido pesquisada no sentido de traçar o perfil desses criminosos ou predizer-lhes a ação, sem que se consiga explicação definitiva. Apesar de alguns experimentarem certa perplexidade em relação aos próprios atos, em geral a capacidade de entender o caráter criminoso do ato é completa, e o desejo de controlar o impulso está ausente, o que os torna totalmente responsáveis perante a lei brasileira. Provavelmente apresentam o pior prognóstico entre os criminosos sexuais, ao lado dos quadros associados aos transtornos da personalidade.


AVALIAÇÃO MÉDICO-LEGAL

Os crimes sexuais, por si só, não implicam diagnóstico psiquiátrico, sendo errôneo atribuir-Ihes automaticamente redução ou anulação da imputabilidade. Em outras palavras, nem todo aquele que abusa de crianças é pedófilo, nem todo estuprador é sádico e nem todo ultraje público ao pudor parte de um exibicionista. Para a responsabilização médico-legal é indispensável elucidar de antemão se se trata de:

1) Criminosos sexuais sem diagnóstico psiquiátrico - São, na maior parte dos casos, situacionais, que, em circunstâncias especialmente propícias, decidiram ou foram induzidos ao crime. É o caso das violências sexuais nos presídios, na guerra e em situações de absoluto controle sobre a vítima, como assaltos, seqüestros e torturas em prisão etc. Uma modalidade comum é a gangue de adultos jovens ou adolescentes que estupra por diversão ou emulação, não raro com a ação facilitada pelo uso de substância psicoativa. Em muitos casos, a força grupal é suficiente para a indução criminosa. Os exemplos seguintes são típicos:

a) na zona rural do nordeste, professora de notória beleza morre repentinamente. Quatro dos seus admiradores, no dia seguinte ao sepultamento, embriagam-se e promovem excursão ao cemitério, onde violam a sepultura e mantêm com o cadáver a relação sexual que desejaram sem êxito enquanto ela ainda vivia. Presos, só um deles evidencia retardo mental, justamente o que parece ter estimulado os demais. Nenhum tinha antecedente de comportamento sexual desviante;

b) uma babá passa parte do dia sozinha com a criança. Em parte atraída por esta, em parte para experimentar alguma emoção pelo proibido, ou mesmo como forma de diversão para vencer o tédio do trabalho rotineiro, abusa sexualmente dela;

c) na zona rural, um pai excitado pelo desenvolvimento corporal das filhas recém-chegadas à puberdade, e com a justificativa de que não vai "criar filha para os outros comerem", as coage a manter relações com ele, sob as vistas complacentes do resto da família, situação essa que permanece ao longo dos anos;

d) um habitual consumidor de pornografia, motivado pelo desejo de ganho financeiro, suborna crianças de rua para posar despidas em atitudes provocantes enquanto as registra com uma câmara de vídeo; depois vende as cópias das fitas a conhecidos.

Do ponto de vista médico-legal, essas pessoas são imputáveis, visto que o art. 26 do CP e o seu parágrafo único, que tratam da inimputabilidade, se referem a pessoas com "doença mental, desenvolvimento mental incompleto ou retardado e perturbação da saúde mental". Nesses casos, compete ao perito desvencilhar-se da tendência natural a acreditar que a hediondez de um crime é diretamente proporcional à gravidade da patologia envolvida e, assim, registrar a ausência de transtorno mental.

2) Criminosos sexuais parafílicos - Pessoas que têm no crime sexual a satisfação última, preferencial e que preenchem os critérios para o diagnóstico de parafilia. Em relação à primeira parte da formulação do art. 26 do CP, referente ao elemento cognitivo, esses criminosos têm inteira capacidade de entender o caráter ilícito do ato praticado, pois o transtorno não lhes confere perturbação de consciência, distorção perceptiva ou do juízo da realidade. O que, aliás, é demonstrado por fazerem às escondidas, conscientes que são da ilegalidade e/ou da reação social no caso de flagrante. Mesmo os exibicionistas o fazem com exclusividade para as vítimas, ocultando-se dos demais circunstantes. A situação não parece tão clara quando se leva em consideração a segunda parte da formulação legal, de que seja "capaz de determinar-se de acordo com esse entendimento". Esse elemento volitivo pode dar margem, nos indivíduos puramente parafílicos, a uma série de argumentos, num ou noutro sentido. Pode-se pleitear a responsabilidade total do parafílico, visto que o transtorno se caracteriza por tendências e desejos que passam a maior parte do tempo sob seu controle e que houve passagem ao ato porque a contenção foi intencionalmente desativada. Em contraponto não faltará quem argumente, citando Freud, que esses atos, por serem de motivação e determinação inconscientes, escapariam do controle do indivíduo. Certamente haverá referência ao primoroso texto em que Freud afirma que o "narcisismo universal dos homens" sofreu com a psicanálise

As parafilias não provocam turvação de consciência, transtornos perceptivos ou do juízo da realidade. Sua ação é a alteração qualitativa na escolha do objeto de desejo e, em alguns casos, quantitativa do impulso. Apesar de a grande maioria dos parafílicos sem co-morbidade psiquiátrica ser inteiramente capaz de determinar-se, admitimos a possibilidade de existir um desequilíbrio entre o instrumental psicológico de autocontrole e a intensidade do impulso. Para avaliar essa hipótese, são necessários bom senso do perito e detalhada análise do caso, na qual não deve faltar a consideração dos seguintes itens, cuja presença aponta no sentido de uma redução da capacidade de contenção:

1. Ausência de premeditação ou planejamento, caracterizando o ato como impulsivo. No período de planejamento, o indivíduo fantasia o ato delituoso sem estar submetido a um impulso incoercível, enquanto ainda pode avaliar suas conseqüências e tem tempo de providenciar solução lícita para o desejo - tratamento ou medidas preventivas, como evitar situações propícias.

2. Traços da personalidade com baixa tolerância à frustração, especialmente os imaturos e explosivos.

3. Presença de inteligência limítrofe (retardo mental subclínico).

4. Intenção de não praticá-Io, caráter de luta interna entre o impulso e os escrúpulos, o respeito à lei e ao sofrimento do outro.

5. Tentativas de lidar com o impulso patológico de maneira adequada, evidenciadas por tentativas de tratamento ou providências para evitar o surgimento de situações propícias à conduta criminosa.

6. Caráter de ato isolado ou infreqüente.

7. Extraordinária intensidade do impulso, habitualmente revelada pelo sofrimento inerente ao seu controle.

8. Existência de arrependimento e preocupação com o sofrimento da vítima.

Mesmo assim, entende-se que o enquadramento de um criminoso parafílico no parágrafo único do artigo 26 do CP, ou seja, afirmar que o agente "não era inteiramente capaz [...] de determinar-se de acordo com esse entendimento" (do caráter ilícito do fato), deva se revestir de parcimônia, visto que são poucos os casos em que essa situação se verifica.

3) Criminosos sexuais que apresentam transtorno psiquiátrico diverso da parafilia - Sabe-se que os portadores de transtornos mentais (incluindo-se aí os decorrentes do uso de substâncias psicoativas) são mais propensos que a população geral a se envolver em conduta delituosa. Estima-se que cerca de 10% da população carcerária apresente transtorno mental. Pode-se indagar se esses transtornos não estariam presentes na ocasião do crime sem serem diagnosticados, e em que medida teriam contribuído para sua ocorrência. A avaliação da imputabilidade e da periculosidade deve, então, ser feita em atenção ao transtorno, evitando-se confundir o que é efeito (o crime sexual) com o diagnóstico. São os mais comuns:

1. Crimes praticados por pessoas com retardo mental - Os crimes sexuais estão super-representados entre os deficientes intelectuais, os quais se vêem envolvidos devido à redução do autocontrole, à dificuldade de adaptação às normas ou à inadequada compreensão dos fatos. Assim, é comum que deficientes sejam detidos por andarem com vestes rasgadas e a genitália exposta, por se despirem ou fazerem necessidades fisiológicas ou se masturbarem em público, sem noção da inadequação desses atos. Evidentemente, não se trata de exibicionismo ou qualquer outra parafilia. É comum também que tentem o estupro por avaliarem de maneira simplista o que entendem ser sinais de aceitação sexual. 


Um caso exemplar:

[...] na zona rural, deficiente entre leve e moderado, de bom comportamento, era estimado pela comunidade dos sítios vizinhos, cujas famílias o deixavam cuidando das crianças, até que uma menina de 6 anos apareceu sangrando pela genitália, dizendo ter sido molestada por ele. Preso, no exame, explicou: "estava brincando com ela, aí ela pegou no meu pau; tomei um susto e pensei: essa menina dessa idade já fica com essas safadezas! Será que já é mulher?" Imediatamente procurou verificar se ainda era virgem, examinando-a com o dedo e provocando o defloramento. Indagado sobre se saberia verificar a virgindade, respondeu que não. Para o CP, isso foi um atentado violento ao pudor; para o perito forense, um ato típico de deficiente mental. Alguns, especialmente eréticos, depois da puberdade, passam a assediar familiares, vizinhos e transeuntes, muitas vezes perseguindo-os na rua, tentando agarrar e apalpar, expondo os genitais. Nesses casos, o transtorno básico é o retardo mental com distúrbio de comportamento associado. Evidentemente, a definição legal é mais difícil no caso de deficiência limítrofe.


2. Crimes praticados na vigência de processo esquizofrênico ou outros quadros psicóticos - Na esquizofrenia, o mais característico é a agressão sexual dirigida a parente próximo, dentro de casa, partindo de pacientes defectuais cujo sentido de crítica e capacidade de controle estejam prejudicados. Nos quadros agudos, o caráter abrupto e incompreensível, muitas vezes bizarro, da conduta é o mais comum, e a própria intempestividade e inadequação faz com que fique na tentativa. 

É necessário cuidado diante de quadros em que o comportamento sexual, pela sua gravidade, desvie a atenção da psicose. Quando um esquizofrênico pratica um crime sexual grave, é mais comum que este se deva à doença, mesmo quando não se possa determinar uma ligação direta com a sintomatologia psicótica evidente, especialmente a produtiva. Algumas psicoses não-esquizofrênicas e algumas esquizofrenias de início incipiente apresentam a anomalia do desejo sexual como sintoma mais evidente. Por exemplo, um adulto jovem assedia a mãe e as irmãs dentro de casa de maneira aberta, na frente de todos, mesmo durante as refeições, dizendo que quer "transar" com elas de qualquer forma. Evidentemente, não se trata de um transtorno sexual, e os atos decorrentes deverão ser creditados à psicose. Situação mais difícil se verifica em certos estados considerados como fronteiriços em relação à psicose, como a personalidade borderline e o transtorno esquizotípico.


3. Crimes praticados durante episódio maníaco - Dos sintomas mais característicos dos episódios maníacos constam invariavelmente a megalomania, a exacerbação da sexualidade e a redução da crítica. O maníaco é ainda impulsivo por definição, e podem surgir problemas dessa combinação. As violações mais freqüentes são o assédio grosseiro, muitas vezes com exibição genital (que não deve ser confundida com exibicionismo), e a bolinagem. Em raros casos, e geralmente associados à agitação psicomotora, podem ocorrer agressões mais sérias, como o estupro. O que se deve avaliar é a capacidade em decorrência do transtorno do humor, sendo a evolução deste o ponto central do prognóstico.


4. Crimes praticados por epilépticos - Apesar desses pacientes apresentarem maior co-morbidade de disfunções sexuais e parafilias (ainda por esclarecer se devido a alterações neuroendócrinas, a medicamento para controle das crises ou a dificuldades sociais que acompanham esses pacientes) a redução da responsabilidade só deve ser avaliada em função de atos cometidos na vigência das crises. Devem ser averiguados, sempre, o medicamento e os antecedentes.


5. Crimes praticados por dementes e outros doentes orgânicos cerebrais - Estados demenciais de evolução lenta apresentam, em fases em que o déficit cognitivo ainda não é evidente, exacerbação da sexualidade e redução da autocrítica. Tem sido relatados casos de pedofilia homossexual de início tardio associada à hipersexualidade em pacientes com patologias frontotemporais só identificadas pela tomografia. Especialmente em idosos e portadores de afecções sistêmicas, deve-se pesquisar outros sintomas deficitários, sendo, nos casos sugestivos, aconselhável, além do exame de neuroimagem, avaliação neuropsicológica.


6. Crimes praticados por indivíduos com transtorno da personalidade - A agressão sexual, evidentemente, faz parte do repertório de atos anti-sociais, sendo, até a terceira revisão do DSM (DSM-III-R), considerada como um dos critérios para o diagnóstico de transtorno da personalidade anti-social, mas por si só não deve fechar esse diagnóstico. Contrariamente à crença muito difundida, estudos recentes têm demonstrado que criminosos sexuais com traços psicopáticos são capazes de avaliação moral dos seus atos, o que aponta no sentido da responsabilização médico-legal.


7. Crimes praticados em turvação de consciência - O quadro de obnubilação característico de algumas psicoses exógenas agudas pode facilitar a manifestação de comportamento sexualmente violento ou desviante, sempre de modo brusco, sem planejamento e apenas durante a psicose, justificando, em muitos casos, a inimputabilidade. Já nos estados dissociativos, a alteração da consciência costuma ser parcial, sendo mais freqüente a constatação de semi-imputabilidade, embora essa avaliação seja extremamente delicada.


8. Crimes praticados durante o abuso de substâncias psicoativas - A maioria dos casos de estupro e abuso de crianças tem o alcoolismo ou a intoxicação aguda associados. Tem sido identificada a co-morbidade entre o alcoolismo e as parafilias, principalmente entre os sádicos sexuais, com mais de 50% de alcoolistas. Não é raro, entre os usuários de drogas como cocaína, anfetaminas e crack, o estupro como um dos comportamentos violentos associados. Deve-se fazer distinção, inequivocamente, entre o efeito do uso agudo do tóxico, as alterações inerentes à dependência, a psicose provocada ou induzida e o comportamento decorrente da síndrome de abstinência. Deve-se considerar sempre a actio libera in causa.


Os parafílicos raramente procuram tratamento por conta própria, uma vez que a parafilia é vivida como uma tentativa de solução dos conflitos internos, especialmente a dificuldade de satisfação por outros meios, o que justificaria o recrudescimento dos sintomas em períodos especialmente estressantes. Para alguns, aquela forma de obtenção do prazer sexual é a única; outros a têm como complemento eventual. O indivíduo em geral convive tranqüilamente com seu transtorno, a que considera como gosto pessoal ou maneira de ser e, muitas vezes, uma forma mais evoluída e refinada de obtenção do prazer. Costumam procurar profissionais de saúde quando a intensidade do desejo e a dificuldade de satisfazê-Io provoca sofrimento intenso ou interfere gravemente no funcionamento social ou conjugal; e à presença do perito forense, quando o desejo os impele a comportamento criminoso, como o furto de peças íntimas no caso dos fetichistas, o abuso de menores por parte dos pedófilos, o atentado público ao pudor em se tratando de exibicionistas e as lesões corporais ou homicídio no caso dos sádicos.

Por esse motivo, a estatística envolvendo parafilias é viciada, refletindo mais a capacidade do indivíduo ou seu parceiro de tolerar ou participar da demanda parafílica, por um lado, e a descoberta dos crimes a ela associados, por outro.

As parafilias, em sua maioria, não são comportamentos criminosos. O transvestismo fetichista, e mesmo o sadomasoquismo, praticado com o consentimento do parceiro, ou o auto-estrangulamento não têm como gerar procedimentos judiciais. Os voyeurs têm ao seu dispor todo um repertório de possibilidades, desde filmes eróticos a espetáculos de sexo praticado por profissionais dentro da lei, embora a preferência seja pela invasão de privacidade. Algumas formas, como o frotteurismo e o exibicionismo, trazem em sua essência a violação legal.


REFORMA DO CÓDIGO PENAL

O Código Penal, de 1940, vem sofrendo nas últimas décadas algumas mudanças significativas, com a finalidade de adequá-lo aos novos usos e costumes de nossa Cultura. Em 2001, o assédio sexual passa a ser crime. Em 2004, o crime de violência doméstica dando maior proteção à mulher. Agora a Lei 11.106/2005 revoga seis artigos do CP - 217, 219, 220, 221, 222 e 240 -, e acrescenta mais um - 213-A -, e dois incisos. - IV e V, do parágrafo 1º, do art. 148. Vejamos as principais alterações.


Seqüestro ou cárcere privado (art. 148 do CP)

Este artigo não sofreu mudanças em seu caput, entretanto, as modificações se deram no rol das qualificadoras. O ponto mais discutido se trata da ordenação da norma que entra em consonância com a Constituição Federal de 1988 e o Novo Código Civil. Acrescentam-se as seguintes qualificadoras:

a) se a vítima é ascendente, descendente, cônjuge ou companheira do agente ou maior de 60 (sessenta) anos;

b) se o crime é praticado mediante internação da vítima em casa de saúde ou hospital;

c) se o crime é praticado contra menor de 18 (dezoito) anos;

d) se o crime é praticado com fins libidinosos (eróticos).

Também há um aumento de pena quando o crime for praticado contra menor ou com fins sexuais.


POSSE SEXUAL MEDIANTE FRAUDE (art. 215 do CP)

Esta questão era muito discutida, pois havia no texto revogado a seguinte redação: "Ter conjunção carnal com mulher honesta, mediante fraude". Isso fazia com que os magistrados no momento de julgar aplicassem o disposto do art. 4° da Lei de Introdução do Código Civil, deixando à sua conceituação se a mulher é "honesta", ou não. Agora, é qualquer mulher, ou seja, a lei só veio corrigir uma discriminação textual.


ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR MEDIANTE FRAUDE  (art. 216 do CP)

Mais uma vez deu-se um ajustamento de redação, pois a antiga redação trazia: "Induzir mulher honesta, mediante fraude, a praticar ou permitir que com ela se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal". Agora o sujeito passivo passou a ser tanto o homem quanto a mulher igualando assim as partes, quando diz: "Induzir alguém, mediante fraude, a praticar ou submeter-se à prática de ato libidinoso diverso da conjunção carnal".


AUMENTO DE PENA NOS CRIMES CONTRA A LIBERDADE SEXUAL E SEDUÇÃO E CORRUPÇÃO DE MENORES (art. 226 do CP)

Embora não se trate de crime qualificado houve apenas um aumento da pena. Quanto ao inciso II aumentou-se a pena pela metade e ampliou o rol dos sujeitos ativos que passaram a ser: "[...] se o agente é ascendente, padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou empregador da vítima." O inciso III foi revogado, e os incisos. I e II alterados apenas com a inclusão da expressão: "quarta parte".


MEDIAÇÃO PARA SATISFAZER A LASCÍVIA (LIBIDO) DE OUTREM (art. 227 do CP)

Houve apenas a modificação na qualificação no parágrafo primeiro para esse crime que é a seguinte: "Se a vítima é maior de 14 (catorze) anos e menor de 18 (dezoito) anos, ou se o agente é seu ascendente, descendente, cônjuge ou companheiro, irmão, tutor ou curador, ou pessoa a quem esteja confiada para fins de educação, de tratamento ou de guarda." Em suma, a mudança deu-se na palavra "marido" que agora passa a ser "companheiro".


TRÁFICO INTERNACIONAL DE PESSOA (art. 231 do CP)

O crime era puramente feminino, pois só previa o tráfico de mulheres, dificultando o enquadramento penal. Agora, passou a se chamar Tráfico Internacional de Pessoas, abrangendo também os travestis. Recebeu também a possibilidade de uma multa na figura qualificada do parágrafo 1° e 2°. Nesta mesma tipificação foi incluso mais um crime que é o art. 331-A, que se trata do combate ao tráfico interno de pessoas, ou seja, passamos a ter a figura típica internacional e nacional.


As revogações dos incs. VII e VIII do art. 107, os arts. 217, 219, 220, 221, 222 e 240 do Código Penal

Desta feita, a extinção de punibilidade por meio do casamento do agente com a vítima, nos crimes contra os costumes, e nem pelo casamento da vítima com terceiro. Isso evita que o infrator arranje casamento para evitar que o Estado o puna. O art. 217 acompanha a modernidade, pois a mulher, independente da idade que mantiver conjunção carnal com um homem, e que foi seduzida, será um fato atípico ou, se tipifica no art. 215, que é posse sexual. Os arts. 219 e 220 foram praticamente inclusos no art. 148 por suas novas qualificações. Quanto aos arts. 221 e 222, os quais regulavam o rapto, por si só foram revogados, uma vez que a figura central de tal crime não mais existe. E o tão discutido art. 240 do CP (adultério) que já estava em desuso foi revogado.


Fonte: RedePsi