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sexta-feira, 26 de junho de 2015

QUEM CONSTRÓI TRILHOS SABE DA EXISTÊNCIA DO TREM!

Por Patrícia Pinheiro

Recentemente, em uma das aleatórias e proveitosas conversas que sempre tenho com um amigo meu, para exemplificar como suas crenças funcionam, ele compartilhou comigo o seguinte fato pessoal: “Sabe, Pati, sempre que eu vou tomar banho, eu lavo bem cada parte do meu corpo – inclusive a orelha -, não só porque gosto de higiene, mas porque penso que, por mais improvável que seja, nunca se sabe quando alguém vai querer beijá-la.”
Pode parecer algo bobo, mas, com isso, ele me mostrou que, apesar da preguiça – que sempre é potencializada pela desmotivação advinda das grandes chances de nossos esforços se mostrarem “inúteis” – ele não deixa de dar minuciosa atenção a algo que poderá vir a garantir-lhe alguma forma de satisfação; ele não deixa de acreditar na possibilidade e garante, todo dia, que tudo seja feito para que se dê o sorriso mais aberto quando a vida também lhe sorrir.
É o que fazemos ao começarmos a estudar para aquele concurso impossível; ao capricharmos no visual para ir até o mercadinho da esquina; ao lembrarmos ao vô com Alzheimer quem somos e o quanto o amamos. A gente inventa desejos, grandes ou pequenos, e, antes mesmo que se tenha caneta e papel, os desenhamos através da fé e dedicação diárias; das saudáveis doses de otimismo que nos movem a seguir traçando linha por linha, ainda que se saiba que, ao final, tudo pode virar um grande rabisco.
No filme “Sob o Sol da Toscana”, quando a personagem principal desabafa com seu amigo, se questionando sobre o propósito de estar dedicando tanto tempo para reformar sua nova casa se não haveria ninguém com quem dividi-la – e seu sonho era construir uma família ali -, ele responde: “Entre a Áustria e a Itália, há uma parte dos Alpes chamada Semmering. É uma parte incrivelmente difícil de subir, um local muito alto das montanhas. Eles construíram um trilho nestes Alpes para ligar Viena e Veneza, mesmo antes de existir um trem que pudesse fazer a viagem. Mas eles construíram porque sabiam que, algum dia, o trem chegaria.”
É claro que, como em toda boa comédia romântica, o trem dela chegou: ela não só encontrou o parceiro dos sonhos como preencheu a casa de festas e amigos. No mundo real, sabemos que não é bem assim. A gente inventa e reinventa desejos, quebramos a cara e, por vezes, descobrimos felicidade naquilo que nem fazia parte do roteiro.
Mas o importante é que, desde que saibamos descartar aquilo que não nos acrescenta e que não façamos – ativamente – mal a ninguém, possamos carregar serenidade suficiente para encontrarmos felicidade no processo – afinal, SOMOS processo; motivação para não perdermos o encanto dos detalhes e construirmos trilhos, ainda que não tenha um trem para passar; e, acima de tudo, o otimismo necessário para que estejamos abertos e prontos para colher todas as felizes aleatoriedades da vida.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A MELHOR PARTE DE VOCÊ JÁ FOI AMADA?

Por Patrícia Pinheiro


Acordei, outro dia, de um sonho um tanto peculiar: eu estava parada, à noite, no meio de uma rua aleatória, quando um grupo de meninas passou cantando – e em inglês – o que seria algo do tipo: ” A melhor parte de mim nunca foi amada”. Era uma música linda, e consigo me lembrar apenas dessa curiosa frase.

As melhores partes de nós já foram amadas? Tenho certeza que já se apaixonaram pela cor ou pelo formato dos teus olhos, mas já se deixaram comover pela maneira única como eles enxergam o mundo?

Já desejaram ser a respiração ofegante que sopra em teus ouvidos, mas conhecem e respeitam o dom terapêutico de escuta que eles têm?

Já te amaram pelos desejos que teus lábios provocam, mas quantos conhecem a fundo os motivos que os fazem desenhar os melhores sorrisos? Quantos te decifram pelo timbre? Quantos te elogiam pela eloquência, ou te emprestam palavras e tranquilidade na falta dela?

Já encontraram sensualidade e conforto nos teus ombros, mas te amam, também, pelo peso que eles já tiveram de carregar? Conhecem e respeitam as dores que, ao longo do tempo, os moldaram?

Já amaram o lindo formato das tuas pernas, mas ovacionam a tua determinação – ainda que fraquejante – para nunca ter desistido de seguir em frente? Te admiram pela coleção de trajetos que te fazem ser quem és?

Muitos valorizam o aperto e a textura das tuas mãos, mas quantos se orgulham verdadeiramente de todas as pequenas mágicas que são capazes de brotar delas? Quantos te amam pelo dom?

Muitos já fizeram teu coração acelerar, mas quantos – por conhecerem cada rachadura dele – o afagam constantemente e garantem que a vida seja bem mais que seus batimentos?

Existe beleza na presença e ausência de cada pedacinho de nós, mas, se for para amar, que nos amem por inteiro; que amem nossas melhores partes, que sempre serão aquilo que o físico pode até transbordar, mas jamais capturar totalmente.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

OS DOURADOS DA VIDA; SOBRE A ESSÊNCIA DO PEQUENO PRÍNCIPE QUE EXISTE EM VOCÊ

Por Patrícia Pinheiro

Esses dias, dando uma bisbilhotada na biblioteca da faculdade – gastar tempo escolhendo livros nas prateleiras é quase tão divertido quanto lê-los -, me deparei com um exemplar de “O Pequeno Príncipe” e, então, decidi que havia chegado o momento de, pela primeira vez, lê-lo.
A leitura me proporcionou um entendimento mais profundo e contextualizado de passagens mágicas como “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”; “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz” e “O essencial é invisível aos olhos”, que já me eram familiares há anos e das quais sempre gostei bastante.
Mas, foi a seguinte passagem, que ainda não era do meu conhecimento, que mais me intrigou e me convidou a refletir: “Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando tiveres me cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…”
O trigo que, antes, não passava de uma gramínea para a raposa, nunca mais será visto com os mesmos olhos: seu dourado, que é o mesmo dos cabelos daquele que o cativou, o impregnará de significado; fará com que evoque sentimentos de amor, pois ele passará a ser, também, – e para sempre- o Pequeno Príncipe.

O dourado do trigo está nos cheiros: certa vez, fui cumprimentar um desconhecido e, ao abraçá-lo, ele rapidamente constatou que eu usava o mesmo perfume que sua namorada. “Nossa, a Karine está aqui”, ele disse. Está no cheiro do cloro que me remete às tardes da minha infância em que murchava na piscina. No cheiro de gasolina que entra pelas minhas narinas e que instantaneamente me transporta para as longas viagens de carro que já fiz com meus pais.

O dourado do trigo está nos sons: você pode até não gostar muito de uma determinada música, mas, a partir do momento em que ela for – por acaso ou não – trilha sonora de momentos, ou, até mesmo, de fases da sua vida, observe como seu corpo reagirá fisicamente a ela das mais diferentes formas.

O dourado do trigo está no vermelho do banco que testemunhou nosso primeiro beijo; no amarelo da casa que abrigou nossa infância; no azul das paredes do hospital que zelaram a doença do seu pai.

O dourado do trigo está em tudo aquilo que, por remeter – ainda que inconscientemente – a algo que é nosso, que nos toca, deixa de ser apenas objeto, som, cheiro ou cor e vira materialização do que é invisível.

Nossa história de vida vai deixando marcas e modificando a forma com que significamos tudo aquilo que nos rodeia, e esse é um dos preços mais bonitos que pagamos por estarmos vivos e nos deixarmos cativar; é o que nos faz capazes de amar os barulhos do vento no trigo.