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quarta-feira, 16 de abril de 2014

DOUTOR ADVOGADO E DOUTOR MÉDICO: ATÉ QUANDO?

Sei muito bem que a língua, como coisa viva que é, só muda quando mudam as pessoas, as relações entre elas e a forma como lidam com o mundo. Poucas expressões humanas são tão avessas a imposições por decreto como a língua. Tão indomável que até mesmo nós, mais vezes do que gostaríamos, acabamos deixando escapar palavras que faríamos de tudo para recolher no segundo seguinte. E talvez mais vezes ainda pretendêssemos usar determinado sujeito, verbo, substantivo ou adjetivo e usamos outro bem diferente, que revela muito mais de nossas intenções e sentimentos do que desejaríamos. Afinal, a psicanálise foi construída com os tijolos de nossos atos falhos. Exerço, porém, um pequeno ato quixotesco no meu uso pessoal da língua: esforço-me para jamais usar a palavra “doutor” antes do nome de um médico ou de um advogado.  
Travo minha pequena batalha com a consciência de que a língua nada tem de inocente. Se usamos as palavras para embates profundos no campo das ideias, é também na própria escolha delas, no corpo das palavras em si, que se expressam relações de poder, de abuso e de submissão. Cada vocábulo de um idioma carrega uma teia de sentidos que vai se alterando ao longo da História, alterando-se no próprio fazer-se do homem na História. E, no meu modo de ver o mundo, “doutor” é uma praga persistente que fala muito sobre o Brasil. Como toda palavra, algumas mais do que outras, “doutor” desvela muito do que somos – e é preciso estranhá-lo para conseguirmos escutar o que diz. 
Assim, minha recusa ao “doutor” é um ato político. Um ato de resistência cotidiana, exercido de forma solitária na esperança de que um dia os bons dicionários digam algo assim, ao final das várias acepções do verbete “doutor”: “arcaísmo: no passado, era usado pelos mais pobres para tratar os mais ricos e também para marcar a superioridade de médicos e advogados, mas, com a queda da desigualdade socioeconômica e a ampliação dos direitos do cidadão, essa acepção caiu em desuso”.  
Em minhas aspirações, o sentido da palavra perderia sua força não por proibição, o que seria nada além de um ato tão inútil como arbitrário, na qual às vezes resvalam alguns legisladores, mas porque o Brasil mudou. A língua, obviamente, só muda quando muda a complexa realidade que ela expressa. Só muda quando mudamos nós. 
Historicamente, o “doutor” se entranhou na sociedade brasileira como uma forma de tratar os superiores na hierarquia socioeconômica – e também como expressão de racismo. Ou como a forma de os mais pobres tratarem os mais ricos, de os que não puderam estudar tratarem os que puderam, dos que nunca tiveram privilégios tratarem aqueles que sempre os tiveram. O “doutor” não se estabeleceu na língua portuguesa como uma palavra inocente, mas como um fosso, ao expressar no idioma uma diferença vivida na concretude do cotidiano que deveria ter nos envergonhado desde sempre.  
Lembro-me de, em 1999, entrevistar Adail José da Silva, um carregador de malas do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para a coluna semanal de reportagem que eu mantinha aos sábados no jornal Zero Hora, intitulada “A Vida Que Ninguém Vê”. Um trecho de nosso diálogo foi este: 
- E como os fregueses o chamam?
- Os doutor me chamam assim, ó: “Ô, negão!” Eu acho até que é carinhoso.

- O senhor chama eles de doutor?
- Pra mim todo mundo é doutor. Pisou no aeroporto é doutor. É ó, doutor, como vai, doutor, é pra já, doutor....

- É esse o segredo do serviço?
- Tem que ter humildade. Não adianta ser arrogante. Porque, se eu fosse um cara importante, não ia tá carregando a mala dos outros, né? Sou pé de chinelo. Então, tenho que me botar no meu lugar.

A forma como Adail via o mundo e o seu lugar no mundo – a partir da forma como os outros viam tanto ele quanto seu lugar no mundo – contam-nos séculos de História do Brasil. Penso, porém, que temos avançado nas últimas décadas – e especialmente nessa última. O “doutor” usado pelo porteiro para tratar o condômino, pela empregada doméstica para tratar o patrão, pelo engraxate para tratar o cliente, pelo negro para tratar o branco não desapareceu – mas pelo menos está arrefecendo. 
Se alguém, especialmente nas grandes cidades, chamar hoje o outro de “doutor”, é legítimo desconfiar de que o interlocutor está brincando ou ironizando, porque parte das pessoas já tem noção da camada de ridículo que a forma de tratamento adquiriu ao longo dos anos. Essa mudança, é importante assinalar, reflete também a mudança de um país no qual o presidente mais popular da história recente é chamado pelo nome/apelido. Essa contribuição – mais sutil, mais subjetiva, mais simbólica – que se dá explicitamente pelo nome, contida na eleição de Lula, ainda merece um olhar mais atento, independentemente das críticas que se possa fazer ao ex-presidente e seu legado. 
Se o “doutor” genérico, usado para tratar os mais ricos, está perdendo seu prazo de validade, o “doutor” que anuncia médicos e advogados parece se manter tão vigoroso e atual quanto sempre. Por quê? Com tantas mudanças na sociedade brasileira, refletidas também no cinema e na literatura, não era de se esperar um declínio também deste doutor? 
Ao pesquisar o uso do “doutor” para escrever esta coluna, deparei-me com artigos de advogados defendendo que, pelo menos com relação à sua própria categoria, o uso do “doutor” seguia legítimo e referendado na lei e na tradição. O principal argumento apresentado para defender essa tese estaria num alvará régio no qual D. Maria, de Portugal, mais conhecida como “a louca”, teria outorgado o título de “doutor” aos advogados. Mais tarde, em 1827, o título de “doutor” teria sido assegurado aos bacharéis de Direito por um decreto de Dom Pedro I, ao criar os primeiros cursos de Ciências Jurídicas e Sociais no Brasil. Como o decreto imperial jamais teria sido revogado, ser “doutor” seria parte do “direito” dos advogados. E o título teria sido “naturalmente” estendido para os médicos em décadas posteriores. 
Há, porém, controvérsias. Em consulta à própria fonte, o artigo 9 do decreto de D. Pedro I diz o seguinte: “Os que frequentarem os cinco anos de qualquer dos Cursos, com aprovação, conseguirão o grau de Bacharéis formados. Haverá também o grau de Doutor, que será conferido àqueles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e só os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes”. Tomei a liberdade de atualizar a ortografia, mas o texto original pode ser conferido aqui. “Lente” seria o equivalente hoje à livre-docente. 
Mesmo que Dom Pedro I tivesse concedido a bacharéis de Direito o título de “doutor”, o que me causa espanto é o mesmo que, para alguns membros do Direito, garantiria a legitimidade do título: como é que um decreto do Império sobreviveria não só à própria queda do próprio, mas também a tudo o que veio depois? 
O fato é que o título de “doutor”, com ou sem decreto imperial, permanece em vigor na vida do país. Existe não por decreto, mas enraizado na vida vivida, o que torna tudo mais sério. A resposta para a atualidade do “doutor” pode estar na evidência de que, se a sociedade brasileira mudou bastante, também mudou pouco. A resposta pode ser encontrada na enorme desigualdade que persiste até hoje. E na forma como essas relações desiguais moldam a vida cotidiana. 
É no dia a dia das delegacias de polícia, dos corredores do Fórum, dos pequenos julgamentos que o “doutor” se impõe com todo o seu poder sobre o cidadão “comum”. Como repórter, assisti à humilhação e ao desamparo tanto das vítimas quanto dos suspeitos mais pobres à mercê desses doutores, no qual o título era uma expressão importante da desigualdade no acesso à lei. No início, ficava estarrecida com o tratamento usado por delegados, advogados, promotores e juízes, falando de si e entre si como “doutor fulano” e “doutor beltrano”. Será que não percebem o quanto se tornam patéticos ao fazer isso?, pensava. Aos poucos, percebi a minha ingenuidade. O “doutor”, nesses espaços, tinha uma função fundamental: a de garantir o reconhecimento entre os pares e assegurar a submissão daqueles que precisavam da Justiça e rapidamente compreendiam que a Justiça ali era encarnada e, mais do que isso, era pessoal, no amplo sentido do termo. 
No caso dos médicos, a atualidade e a persistência do título de “doutor” precisam ser compreendidas no contexto de uma sociedade patologizada, na qual as pessoas se definem em grande parte por seu diagnóstico ou por suas patologias. Hoje, são os médicos que dizem o que cada um de nós é: depressivo, hiperativo, bipolar, obeso, anoréxico, bulímico, cardíaco, impotente, etc. Do mesmo modo, numa época histórica em que juventude e potência se tornaram valores – e é o corpo que expressa ambas – faz todo sentido que o poder médico seja enorme. É o médico, como manipulador das drogas legais e das intervenções cirúrgicas, que supostamente pode ampliar tanto potência quanto juventude. E, de novo supostamente, deter o controle sobre a longevidade e a morte. A ponto de alguns profissionais terem começado a defender que a velhice é uma “doença” que poderá ser eliminada com o avanço tecnológico.  
O “doutor” médico e o “doutor” advogado, juiz, promotor, delegado têm cada um suas causas e particularidades na história das mentalidades e dos costumes. Em comum, o doutor médico e o doutor advogado, juiz, promotor, delegado têm algo significativo: a autoridade sobre os corpos. Um pela lei, o outro pela medicina, eles normatizam a vida de todos os outros. Não apenas como representantes de um poder que pertence à instituição e não a eles, mas que a transcende para encarnar na própria pessoa que usa o título.  
Se olharmos a partir das relações de mercado e de consumo, a medicina e o direito são os únicos espaços em que o cliente, ao entrar pela porta do escritório ou do consultório, em geral já está automaticamente numa posição de submissão. Em ambos os casos, o cliente não tem razão, nem sabe o que é melhor para ele. Seja como vítima de uma violação da lei ou como autor de uma violação da lei, o cliente é sujeito passivo diante do advogado, promotor, juiz, delegado. E, como “paciente” diante do médico, como abordei na coluna anterior, deixa de ser pessoa para tornar-se objeto de intervenção. 
Num país no qual o acesso à Justiça e o acesso à Saúde são deficientes, como o Brasil, é previsível que tanto o título de “doutor” permaneça atual e vigoroso quanto o que ele representa também como viés de classe. Apesar dos avanços e da própria Constituição, tanto o acesso à Justiça quanto o acesso à Saúde permanecem, na prática, como privilégios dos mais ricos. As fragilidades do SUS, de um lado, e o número insuficiente de defensores públicos de outro são expressões dessa desigualdade. Quando o direito de acesso tanto a um quanto a outro não é assegurado, a situação de desamparo se estabelece, assim como a subordinação do cidadão àquele que pode garantir – ou retirar – tanto um quanto outro no cotidiano. Sem contar que a cidadania ainda é um conceito mais teórico do que concreto na vida brasileira. 
Infelizmente, a maioria dos “doutores” médicos e dos “doutores” advogados, juízes, promotores, delegados etc estimulam e até exigem o título no dia a dia. E talvez o exemplo público mais contundente seja o do juiz de Niterói (RJ) que, em 2004, entrou na Justiça para exigir que os empregados do condomínio onde vivia o chamassem de “doutor”. Como consta nos autos, diante da sua exigência, o zelador retrucava: “Fala sério....” Não conheço em profundidade os fatos que motivaram as desavenças no condomínio – mas é muito significativo que, como solução, o juiz tenha buscado a Justiça para exigir um tratamento que começava a lhe faltar no território da vida cotidiana. 
É importante reconhecer que há uma pequena parcela de médicos e advogados, juízes, promotores, delegados etc que tem se esforçado para eliminar essa distorção. Estes tratam de avisar logo que devem ser chamados pelo nome. Ou por senhor ou senhora, caso o interlocutor prefira a formalidade – ou o contexto a exija. Sabem que essa mudança tem grande força simbólica na luta por um país mais igualitário e pela ampliação da cidadania e dos direitos. A estes, meu respeito.  
Resta ainda o “doutor” como título acadêmico, conquistado por aqueles que fizeram doutorado nas mais diversas áreas. No Brasil, em geral isso significa, entre o mestrado e o doutorado, cerca de seis anos de estudo além da graduação. Para se doutorar, é preciso escrever uma tese e defendê-la diante de uma banca. Neste caso, o título é – ou deveria ser – resultado de muito estudo e da produção de conhecimento em sua área de atuação. É também requisito para uma carreira acadêmica bem sucedida – e, em muitas universidades, uma exigência para se candidatar ao cargo de professor.
Em geral, o título só é citado nas comunicações por escrito no âmbito acadêmico e nos órgãos de financiamento de pesquisas, no currículo e na publicação de artigos em revistas científicas e/ou especializadas. Em geral, nenhum destes doutores é assim chamado na vida cotidiana, seja na sala de aula ou na padaria. E, pelo menos os que eu conheço, caso o fossem, oscilariam entre o completo constrangimento e um riso descontrolado. Não são estes, com certeza, os doutores que alimentam também na expressão simbólica a abissal desigualdade da sociedade brasileira.
Estou bem longe de esgotar o assunto aqui nesta coluna. Faço apenas uma provocação para que, pelo menos, comecemos a estranhar o que parece soar tão natural, eterno e imutável – mas é resultado do processo histórico e de nossa atuação nele. Estranhar é o verbo que precede o gesto de mudança. Infelizmente, suspeito de que “doutor fulano” e “doutor beltrano” terão ainda uma longa vida entre nós. Quando partirem desta para o nunca mais, será demasiado tarde. Porque já é demasiado tarde – sempre foi. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

COMO O FEMINISMO MALTRATA OS HOMENS

Nota da tradutora: Me senti motivada a traduzir esse texto porque de uma forma irônica o autor conseguiu se posicionar a favor do feminismo genialmente! E o fato de ser um homem o falante – da sua posição masculina — a forte produção de sentido criada pelo autor gritou ainda mais aos meus olhos. Agradeço o interesse. Acho que esse texto vale a pena ser compartilhado. Muitos amigos e amigas sugeriram que eu enviasse para alguém que tenha blog e lembrei de vocês, pois as sigo no Facebook.

feminismo homens
 
 
Ontem, alguém me disse no Facebook que o Feminismo valoriza mulheres às custas dos homens e que, para tal, nos castra.
 
Ele estava certo.
 
Para os homens, o advento do Feminismo nos colocou no status de classe secundária. Desigualdade e discriminação se tornaram parte do nosso dia-a-dia.
 
Por causa do Feminismo, homens não podem mais andar nas ruas sem medo de serem assediados, perseguidos e até abusados sexualmente por mulheres. Quando um homem é agredido, ele é responsabilizado – pelo jeito como se vestiu, estava "pedindo por isso".
 
Por causa do Feminismo, não existem mais grandes conferências cristãs sobre como um varão deve agir, onde milhares de homens podem celebrar Jesus e sua masculinidade (e talvez zombar de estereótipos femininos).
 
Por causa do Feminismo, os púlpitos das igrejas e holofotes são muitas vezes voltados para mulheres.
 
Os homens são encorajados a apenas trabalhar no berçário ou na cozinha. Às vezes dizem aos homens que se mantenham em silêncio na igreja.
 
Por causa do Feminismo, as mulheres ganham mais dinheiro do que os homens nos mesmos empregos.
 
Por causa do Feminismo, é difícil encontrar filmes com um protagonista/herói masculino hoje em dia.
 
A maioria dos filmes blockbusters apresenta uma mulher corajosa que salva o mundo e fica com um belo homem como troféu, em recompensa aos seus feitos.
 
Por causa do Feminismo, o esporte profissional feminino é um negócio imensamente lucrativo, onde mulheres são globalmente idolatradas. Os homens só aparecem brevemente, nos intervalos comerciais, onde seus corpos são tidos/vistos como objetos.
 
Por causa do Feminismo, todo o controle de natalidade é provido por e para as mulheres, sem questionamentos ou debate, enquanto os homens têm de lutar para conseguir que as companhias de seguros paguem por suas prescrições de Viagra. Quando os homens falam a esse respeito, líderes conservadores de direita, favoráveis aos valores da família tradicional, os rotulam de "vagabundos" e "putos".
 
Por causa do Feminismo, o corpo masculino está constantemente sob o escrutínio público. Se um homem aparece de topless na TV é um escândalo nacional, resultando em enormes multas e boicotes. Blogueiras escrevem regularmente sobre como precisamos ser mais conscientes ao escolher nossas roupas para evitar seduzir mulheres para o pecado. Humoristas insistem que bermudas "não são realmente calças" e, portanto, os homens devem cobrir-se porque "ninguém quer ver isso."
 
Por causa do Feminismo, os homens não possuem representatividade na Casa Branca e as mulheres ocupam mais de 80% dos assentos no Congresso. Quando um homem vai para o escritório, sua aparência física e escolhas de vestuário são discutidas quase tanto quanto suas políticas e ideias.
 
Por causa do Feminismo, os homens devem lutar por uma voz na esfera pública. Em questões de teologia, política, ciência e filosofia, a perspectiva feminina é muitas vezes considerada padrão, normal, e imparcial. Perspectivas masculinas são negadas por serem muito subjetivas ou muito emocionais. Quando falamos, nós, muitas vezes, somos rotulados como irritados, rebeldes, subversivos ou perigosos.
 
Mas sejam fortes, caras.
 
Um dia seremos iguais.
 
 
Fonte: Gelédes Instituto da Mulher Negra

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A VIOLÊNCIA PERPETUADA PELA CULTURA DO ESTUPRO

Por Primavera Feminista
 


 
A cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil, segundo dados recentes apresentados pela Secretaria de Políticas para as Mulheres. Esses números monstruosos revelam o quanto ainda vivemos em uma sociedade que reproduz as formas mais arcaicas de opressão, na qual a violência contra a mulher é um ato cotidiano. Na estrutura patriarcal, que dá bases para o capitalismo, as mulheres são constantemente constrangidas e devem estar sempre submetidas às vontades dos homens, da Igreja e do Estado. Nossos corpos e nossa sexualidade devem estar de acordo com o que o patriarcado espera de nós. Até podemos usar roupas curtas, sair à noite, beber e transar com muitas pessoas, mas devemos arcar com o julgamento que legitima todas as formas de violência. Uma das mais cruéis é o estupro.

A “cultura do estupro”, portanto, pode ser entendida como um processo de constrangimento social que visa manter os papéis de gênero impostos pelo patriarcado. Qualquer pessoa que subverta tais papéis será hostilizada pela sociedade machista. Muitos elementos contribuem para que esse pensamento seja reproduzido na sociedade. Foi construída, ao longo dos anos, a ideia de que a mulher deve estar sempre disponível para os homens e que o homem não consegue controlar seu apetite sexual, como se fosse uma atitude instintiva. Quando a mulher diz que não quer transar, o homem entende como um "talvez" e continua insistindo até que ela aceite mesmo não querendo. A matéria da Capricho que tem circulado recentemente pela internet mostra a naturalização do estupro. A garota não estava a fim de fazer sexo, o namorado insiste e ela acaba topando mesmo sem querer. O “sim” dito nesses condições não é um consentimento verdadeiro. É uma construção social imposta pela “cultura do estupro” que diz que nós, mulheres, temos que estar sempre disponíveis para transar.

“Mas também, estava pedindo para ser estuprada!”

Mas afinal de contas, quem pediria para ser estuprada?! Estamos tão imersas na cultura do estupro que sequer conseguimos refletir acerca do que é a culpabilização da vítima. Essa divisão entre “mulheres para casar” e “mulheres para ficar”, “putas” e “santas”, contribui muito para que a vítima de violência sempre seja objeto de desconfiança. O lado reservado às mulheres boas é aquele do mundo privado, cuidando da casa e do marido. É a mulher que fala pouco, que se veste de maneira menos sensual e cruza as pernas para sentar. Para todas aquelas que subvertem esses papéis de gênero, resta apenas a rotulação de “vadia”.

A cultura do estupro está em todo lugar. É ela a responsável por fazer com que a sociedade culpe a vítima de estupro e não o estuprador. É essa cultura que nos faz esquecer que todo ato sexual realizado sem o consentimento é considerado estupro e que os agressores são principalmente pessoas da própria família, amigos, pessoas conhecidas que têm mais influência e facilidade para se aproximar da vítima.

A mídia também contribui para que a violência contra a mulher seja naturalizada. São diversas as propagandas que tratam a mulher como objeto, como por exemplo as de cerveja. Novelas e filmes também contribuem para essa objetificação, tratando as mulheres como simples mercadorias que devem estar ao bel prazer dos homens. Estamos todas inseridas numa sociedade machista, racista e homofobia. Entender a opressão que as mulheres sofrem como um processo histórico de dominação, também apropriado pelo sistema capitalista de forma bastante perversa, nos ajuda a compreender que nossa tarefa para reverter essa construção sócio-histórica deve ser cotidiana.

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em cinco anos os registros de estupro no País aumentaram em 168%. As ocorrências de registro do crime subiram de 15.351 em 2005 para 41.294 em 2010. Isso sugere duas hipóteses: os estupros podem sim ter aumentado ou as mulheres passaram a denunciar. Precisamos lutar para que as mulheres tenham cada vez mais espaço e segurança para reagir contra essa violência.

A questão da violência contra mulher não pode ser relegada a segundo plano, portanto é nossa tarefa lutar contra todas as formas de opressão. O debate sobre a naturalização do estupro está na ordem do dia e precisamos estar ao lado de mulheres e homossexuais que são diretamente afetadas pela cultura do estupro!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

SETE MOTIVOS PRA BOICOTAR O ENADE

Neste domingo, dia 25 de Novembro de 2012, haverá a prova do Exame Nacional de Avaliação do Desempenho do Estudante.

Esta prova envolve estudantes dos primeiros e últimos semestres dos cursos de graduação, dentre os quais, em diversos estados, os cursos de Psicologia foram selecionados para compor o exame.

Este texto tentará expor, de forma resumida e simples, sete motivos para o boicote da prova do ENADE, seja este boicote por estudantes da psicologia ou outros cursos, público ou privado.


1 – O ENADE TEM UM CARÁTER PUNITIVO

O Exame segue a lógica do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (SINAES), que procura penalizar os cursos mal-avaliados. Um curso mal avaliado tem que assinar um termo de responsabilidade assinado pela instituição, que garante que o curso vai dar uma solução aos problemas que ela apresentou. Caso ela não consiga se superar, haverá cortes nos investimentos. Ora, mas se um curso apresenta problemas a lógica não deveria ser justamente a oposta, a de investimento?

Outra questão aqui é que o Estado não diz de que forma a superação dos problemas deve se dar. Isto dá margem para a justificativa da privatização do ensino superior e público, além de colocar o Estado como um observador-regulador da educação, e não enquanto gestor e financiador desta.


2 – O ENADE NÃO AVALIA OS PROBLEMAS A SEREM SUPERADOS

O ENADE centra sua avaliação no desempenho individual dos estudantes, considerando, assim, que os problemas da universidade são meramente curriculares. O ENADE não avalia o que está bom e o que está ruim de um modo mais amplos, o exame calcula apenas a média das provas para dizer qual o “conceito” do curso, se é um, dois, três, quatro ou cinco. E isso não faz diferença nenhuma pra quem quer descobrir as deficiências de cada curso e investir em resolvê-las,

Avaliação deveria ser pautada nos problemas que queremos superar, precisa captar onde estão faltando estrutura, materiais e outros recursos necessários, precisa apontar quais conteúdos indispensáveis estão ficando de fora, precisa colocar em discussão os métodos pedagógicos que precisam ser melhorados para a nossa formação profissional, precisa dizer o que está errado e o que pode ser melhor no rumo que os nossos cursos têm.


3 – O ENADE DESCONSIDERA AS PARTICULARIDADES REGIONAIS

Mesmo que orientado pela Lei de Diretrizes e Bases, que organiza de forma geral o ensino dos cursos de graduação, a prova do ENADE é única para todos os estudantes do Brasil inteiro. Significa dizer que avaliação desconsidera as particularidades sociais, políticas, econômicas e culturais entre as diversas regiões brasileiras. Entendemos que o ensino dos diferentes cursos se dá justamente de forma diferente e que a pluralidade e diversidade devem ser, além de respeitados, valorizados. Defendemos a construção de uma ciência atenta às necessidades específicas dos mais diversos contextos sociais e culturais que se diferenciam bastante entre estados e regiões do país,  que respeite as singularidades de cada local. 


4 – FALTA DE AUTONOMIA

Aliada a desconsideração das particularidades regionais, existe a questão da falta de autonomia. Cada universidade deve ter o direito de avaliar seus problemas de acordo com suas próprias características, e isso tem muita pouca relevância no resultado final da avaliação da qual o ENADE faz parte. Não faz sentido que o MEC imponha às universidades como deve ser o conhecimento produzido nela, para que ela tenha qualidade. O MEC deveria respeitar a dinâmica de cada universidade, dar recursos para que essa possa resultar num ensino de qualidade, e avaliar onde está ruim para que mais recursos sejam investindo, resolvendo os problemas constatados.


5 – É REALIZADO UM RANQUEAMENTO DO ENSINO

O resultado da prova é utilizado para construir um conceito, que contribui para o se elencar um ranking das universidades. Este ranking pode ser utilizado para privilegiar os cursos e universidades com melhores resultados em detrimento dos cursos com menores resultados. A excelência é construída de forma excludente e punitiva. Entretanto, um curso sem um conceito não pode fazer parte do ranking.

Outro uso dado para esta classificação, principalmente nas universidades privadas, é para o marketing das instituições privadas, propagandeando suas notas em revistas e outdoors, em uma lógica de que a avaliação sirva apenas como garantia de promover o seu “produto”. Conceitos altos, ainda, são utilizados para justificar aumentos abusivos de mensalidade por instituições privadas. A educação como direito é deixado de lado e estimula-se uma concepção de educação como um bem de consumo.


6 – O BOICOTE É UM ATO POLÍTICO

O boicote é um ato político. Boicotar significa não legitimar uma prova que não se refere à qualidade de ensino. Quem faz o ENADE tem sua formação negligenciada, pois ele não atesta a real avaliação que a comunidade universitária historicamente exige. Boicotar e deixar claro que está sendo realizado um boicote é uma forma de mostrar ao SINAIS que estamos descontentes com a forma punitiva e descontextual que o ensino superior está sendo avaliado e tratado. Além de que um curso sem uma classificação em um conceito não recebe punição nenhuma.

Boicotar o ENADE é uma forma de sinalizar insatisfação com todo o sistema de avaliação. Mas por mais que ele surja efeitos imediatos, a longo prazo não basta, e é por isso que é importante aproveitar este período de campanha de boicote, pra falar também sobre a importância de criarmos outras formas de avaliação. A luta não apenas contra o ENADE, mas também contra o SINAES. Mas é preciso ficar claro: o coração do SINAES é o ENADE! Por isto é importante se unir a outras instâncias e coletivos para construir um movimento de resistência.


7 – QUEM BOICOTA A PROVA NÃO É PUNIDO!!!

Quem comparece à prova, mas não a faz não é punido e ainda tem a oportunidade de deixar explicitada sua posição contrária a uma avaliação limítrofe. É falsa a notícia de que quem boicota a prova tem seu diploma retido, ou tem sua nota divulgada no mesmo ou qualquer outra forma de punição. Para obter a liberação basta comparecer a prova e preencher o cabeçalho do gabarito.

Ainda, os estudantes de Universidades Pagas não perdem suas eventuais bolsas PROUNI nem o FIES. Entretanto, quem estuda em um curso ainda não reconhecido pelo MEC pode trazer problemas à sua Universidade, boicotando o ENADE. O curso pode não ser reconhecido se não tiver nota.


COMO BOICOTAR O ENADE EM CINCO PASSOS SIMPLES:

1 – Compareça pontualmente ao local da prova.

2 – Assine a lista de presença. Cole na prova um adesivo ou escreva “Boicote ao ENADE! Por uma avaliação de verdade”.

3 – Preencha o cabeçalho do gabarito e entregue a prova em branco.

4 – Vá para a praia, para o cinema, se encontre com seus amigos ou simplesmente volte a dormir.

5 – Organize-se! Procure se integrar, fazer parte ou acompanhar algum coletivo que faça minimamente uma discussão sobre o ENADE e o SINAIS, e que se proponha a estar construindo um movimento de resistência.


Boicotemos, pois! Em defesa da qualidade da nossa educação!


Fontes:

http://www.inf.ufpr.br/tla06/enade/conep.pdf

http://capufpr.wordpress.com/2009/09/23/material-da-conep-sobre-o-enade/

http://artificiosocialista.blogspot.com.br/2012/08/enade-qual-o-sentido-em-nao-boicotar.html

http://artificiosocialista.blogspot.com.br/2012/10/enade-buscar-um-outro-caminho-e.html



Leia mais: http://erepnne.webnode.com.br/



GUARANI KAIOWÁ DE BOUTIQUE



Por Luiz Felipe Pondé 


As redes sociais são mesmo a maior vitrine da humanidade, nelas vemos sua rara inteligência e sua quase hegemônica banalidade. A moda agora é "assinar" sobrenomes indígenas no Facebook. Qualquer defesa de um modo de vida neolítico no Face é atestado de indigência mental.

As redes sociais são um dos maiores frutos da civilização ocidental. Não se "extrai" Macintosh dos povos da floresta; ao contrário, os povos da floresta querem desconto estatal para comprar Macintosh. E quem paga esses descontos somos nós.

Pintar-se como índios e postar no Face devia ser incluído no DSM-IV, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Desejo tudo de bom para nossos compatriotas indígenas. Não acho que devemos nada a eles. A humanidade sempre operou por contágio, contaminação e assimilação entre as culturas. Apenas hoje em dia equivocados de todos os tipos afirmam o contrário como modo de afetação ética.

Desejo que eles arrumem trabalho, paguem impostos como nós e deixem de ser dependentes do Estado. Sou contra parques temáticos culturais (reservas) que incentivam dependência estatal e vícios típicos de quem só tem direitos e nenhum dever. Adultos condenados a infância moral seguramente viram pessoas de mau-caráter com o tempo.

Recentemente, numa conversa profissional, surgiu a questão do porquê o mundo hoje tenderia à banalidade e ao ridículo. A resposta me parece simples: porque a banalidade e o ridículo foram dados a nós seres humanos em grandes quantidades e, por isso, quando muitos de nós se juntam, a banalidade e o ridículo se impõem como paisagem da alma. O ridículo é uma das caras da democracia.

O poeta russo Joseph Brodsky no seu ensaio "Discurso Inaugural", parte da coletânea "Menos que Um" (Cia. das Letras; esgotado), diz que os maus sentimentos são os mais comuns na humanidade; por isso, quando a humanidade se reúne em bandos, a tendência é a de que os maus sentimentos nos sufoquem. Eu digo a mesma coisa da banalidade e do ridículo. A mediocridade só anda em bando.

Este fenômeno dos "índios de Perdizes" é um atestado dessa banalidade, desse ridículo e dessa mediocridade.

Por isso, apesar de as redes sociais servirem para muita coisa, entre elas coisas boas, na maior parte do tempo elas são o espelho social do ridículo na sua forma mais obscena.

O que faz alguém colocar nomes indígenas no seu "sobrenome" no Facebook? Carência afetiva? Carência cognitiva? Ausência de qualquer senso do ridículo? Falta de sexo? Falta de dinheiro? Tédio com causas mais comuns como ursinhos pandas e baleias da África? Saiu da moda o aquecimento global, esta pseudo-óbvia ciência?

Filosoficamente, a causa é descendente dos delírios do Rousseau e seu bom selvagem. O Rousseau e o Marx atrasaram a humanidade em mil anos. Mas, a favor do filósofo da vaidade, Rousseau, o homem que amava a humanidade, mas detestava seus semelhantes (inclusive mulher e filhos que abandonou para se preocupar em salvar o mundo enquanto vivia às custas das marquesas), há o fato de que ele nunca disse que os aborígenes seriam esse bom selvagem. O bom selvagem dele era um "conceito"? Um "mito", sua releitura de Adão e Eva.

Essas pessoas que andam colocando nomes de tribos indígenas no seu "sobrenome" no Face acham que índios são lindos e vítimas sociais. Eles querem se sentir do lado do bem. Melhor se fossem a uma liquidação de algum shopping center brega qualquer comprar alguma máquina para emagrecer, e assim, ocupar o tempo livre que têm.

Elas não entendem que índios são gente como todo mundo. Na Rio+20 ficou claro que alguns continuam pobres e miseráveis enquanto outros conseguiram grandes negócios com europeus que, no fundo, querem meter a mão na Amazônia e perceberam que muitos índios aceitariam facilmente um "passaporte" da comunidade europeia em troca de grana. Quanto mais iPad e Macintosh dentro desses parques temáticos culturais melhor para falar mal da "opressão social".

Minha proposta é a de que todos que estão "assinando" nomes assim no Face doem seus iPhones para os povos da floresta.



Luiz Felipe Pondé: pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".


Fonte: Folha de S. Paulo



domingo, 7 de outubro de 2012

NÃO TENHO DIREITO DE SER PSICÓLOGO?

Por Dann Toledo


Acabei de postar em meu perfil no Facebook, o link do artigo Psicologia Cristã em Destaque e na mesma hora um contato (que acabou me excluindo) começou com os seguintes comentários e eu o questionei.

Transcrevo aqui os comentários:

E##o - Nojo

Dann - Nojo?

E##o -Muito

Dann - Por quê? Exponha teus argumentos.

E##o -  Psicologia cristã. Não precisa nem argumentar, o absurdo de misturar as duas coisas já é autoexplicativo.

Dann - Você leu o texto? sabe do que eles estão falando? Essa tua fobia pelo cristianismo se fundamenta em que?

E##o - escolhe outra profissão, cara, sério


Sou estudante de psicologia, sou cristão e sou cidadão. O contato referido disse sentir nojo de cristãos. 

Como deveríamos nos portar em relação a isso?

O que fazer?

Falando como cidadão, sem me ater a leis, teorias e termos técnicos, digo que me senti extremamente ofendido com os comentários dessa pessoa. Procuro respeitar as diversidades. Já escrevi sobre isso (LINK AQUI), luto contra qualquer tipo de preconceito cristão para com qualquer outro seguimento da sociedade.

Vivemos num país laico onde temos o direito de professar a fé que quisermos, e temos garantido por lei o direito de sermos sim psicólogos cristãos, mulçumanos, macumbeiros, espíritas, judeus e qualquer outra fé.

Então, por que essa theofobia?

Se eu, enquato cristão disser algo do tipo em relação a uma postura de outrém, serei tomado por judas no dia de malhação. Então como agir quando eu, estudante de psicologia/psicólogo sou vítima de ataques como esse?

Como nós, enquanto profissionais em psicologia devemos agir para que atitudes como esta (vindas de qualquer lado) não exista mais?

O meu contato disse que eu deveria procurar outra profissão pelo motivo de eu ser cristão. Então eu pergunto: 
Como uma pessoa que tem uma postura dessas diante da crença do outro será ou é um bom profissional?

Dentro da psicologia não podemos levantar bandeiras atacando outrem. Devemos levantar bandeiras em favor da diversidade. E quando eu digo diversidade, me refiro a todo o tipo de cidadão, cristão ou não, muçulmano ou não, espiritualista ou não, homossexual ou não. Ou seja, cidadãos, que merecem respeito e têm direito a liberdade independente da crença, ideologia, orientação sexual ou o que quer que seja.




sexta-feira, 7 de setembro de 2012

LIBERTÉ, EGALITÉ, FRATERNITÉ

A concepção de que os seres humanos merecem respeito pelo ideal de humanidade e dignidade é um bastião que tem levado os militantes dos Direitos Humanos a lutarem contra todas as formas de discriminação, preconceito, desigualdades, injustiças sociais, políticas e econômicas, violência física ou psicológica e impunidades de toda a sorte.

Neste tipo de sociedade (concretamente possível nos dias de hoje), na qual sujeitos e grupos organizados cobram dos dirigentes do nosso país e da própria sociedade o respeito pelo outro e pelo nosso semelhante, o que se torna inquestionável e o que se tenta pluralizar em nossa cultura e em nossa sociedade machista, preconceituosa, capitalista, patriarcalista, patrilinear e individualista é não só o respeito por esse “outro” que nos é semelhante, como também aumentar o sentido e a referência do “nós” a um número cada vez maior de sujeitos. Da mesma forma, também se objetiva nesta mesma sociedade recrudescer a solidariedade, a dignidade, o respeito e a tolerância pelo outro, independente da raça, cor, sexo, cultura, partido político, crença religiosa ou status social na mesma sociedade dita democrática.

Tornou-se hegemônico em nossos dias, compreender nosso semelhante como alguém de menor valor que eu, se ele não participa do mesmo grupo social do qual participo, se ele não se assemelha de alguma forma a mim ou se não encontramos um pouco de nós mesmos nesse outro. Quando isto ocorre, passamos a não só destratar o nosso semelhante como também, em alguns casos, a incorrer em sentimentos de ódio generalizado ou em ações e comportamentos de discriminação e preconceito, desencadeando o sentimento de intolerância para com este sujeito ou grupos de sujeitos.

É neste sentido que a luta dos defensores dos Direitos Humanos parece não ter fim, pois o que se objetiva é a possibilidade de viver em um mundo onde as diferenças não sejam parteiras do sofrimento de milhões de pessoas que vivem como cidadãos de segunda classe, primando por uma igualdade de direitos e deveres comuns a todos os seres humanos.

Um dos grandes acontecimentos da modernidade marcou a doutrina dos Direitos Humanos: a Revolução Francesa de 1789.

A Revolução Francesa foi o nome dado ao conjunto de acontecimentos que, entre 5 de Maio de 1789 e 9 de Novembro de 1799, alterou o quadro político e social da França, principalmente no que se refere ao Antigo Regime (Ancien Régime) e a autoridade do clero e da nobreza. A Revolução Francesa, influenciada pelos ideais do Iluminismo e da Independência Americana, está entre as maiores revoluções da história da humanidade. Foi considerada como acontecimento que deu início à Idade Contemporânea, abolindo a servidão e os direitos feudais, proclamando os princípios universais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (Liberté, Egalité, Fraternité).

Mas quando os revolucionários franceses proclamaram “liberdade, igualdade e fraternidade”, eles não estavam se referindo a todas as pessoas, mas sim aos homens bons, brancos e ricos, deixando de lado as mulheres, os pobres, os negros e os mestiços – a maioria da população, gerando enorme contradição política entre a teoria e a prática do jusnaturalismo.

Para que os franceses passassem a acreditar no seu ideal revolucionário, eles precisaram criar categorias sobre as quais pudessem defender e pautar seus argumentos. Para tanto, eles precisaram criar uma sociedade onde a liberdade fosse ensejada como ideal regulador entre as pessoas. Uma sociedade livre é aquela que pode propor diferenças hierárquicas sem um sentido de valor entre os hierarquizados. Porém, para que esta sociedade existisse, foi preciso criar uma nova categoria: a fraternidade. Só uma comunidade de irmãos poderia compreender que não há diferenças de valor em uma sociedade hierarquizada, porque direitos e deveres são partilhados entre os pares. A fratria, ou comunidade de irmãos, que tanto os franceses esperavam partilhar não seria possível sem um outro ideal regulador. Como ter liberdade numa comunidade de irmãos, se entre a nobreza e o clero havia a burguesia? Como ter liberdade entre os irmãos se haviam as mulheres, os pobres, os negros, o clero, a nobreza e o “resto da população” na sua condição de abjeto? Para tanto, foi preciso que um novo ideal regulador fosse criado para sustentar a liberdade e a fraternidade, e foi assim que eles criaram a igualdade!

Foi a igualdade que precisou amparar e sustentar a liberdade e a fraternidade entre os franceses. Mas sabemos bem que essa igualdade foi apenas para atender à demanda daqueles que já gozavam de privilégio na escala hierárquica da sociedade francesa. Porém, foi este mesmo ideal que se sustentou até hoje para ensejar a prática de defensores dos direitos do homem, lutando contra toda a sorte de intolerância: religiosa, sexual, social, cultural, etc., sem a qual não haveriam nem sujeitos de direitos nem muito menos sujeitos de deveres.

Não defendo um mundo de utopias possíveis. Pelo contrário: defendo um mundo onde nossas liberdades individuais e coletivas não sejam particularistas, nem de grupos excluídos nem da maioria que se autodenomina “incluídos”. Não prezo por uma igualdade absoluta e majoritária, sem reconhecer que em nossa sociedade, há inúmeras diferenças e que estas não podem ser nem menosprezadas e muito menos supervalorizadas – negar as diferenças e fazer tábula rasa ao pensar que somos todos iguais, não é defesa dos direitos humanos, é barbárie! Por fim, não proponho a fraternidade como uma das saídas possíveis para curar o câncer da intolerância social, gerador de todo mote de preconceito, que na sua face mais hedionda dizimou milhões de pessoas na Europa na primeira metade do século passado.

Eu defendo um mundo onde possamos alargar o mais que possível a referência do nós a um número cada vez maior de indivíduos, tal como propõe Rorty com o seu ideal de solidariedade. Não podemos perder esse ideal democrático e humanitário que levamos tanto tempo para conquistar, pois sem ele, rumaríamos para o caos absoluto cujas relações entre os humanos seriam eticamente improváveis.

Com o ideal do principio de igualdade em uma mão e o ideal de tolerância na outra, talvez seja possível minimizar as diferenças que nos cercam, mas sem recrudescer a pífia “moral do individualismo burguês” que dizia, até bem pouco tempo, que a liberdade é azul, igualdade é branca e a fraternidade... vermelha.


Fonte: Sergio Gomes

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

SOBRE CRISTIANISMO E HOMOSSEXUALIDADE

Por Dann Toledo


Atualmente tenho ouvido e visto muito sobre questões acerca da cura gay, homossexualidade, o papel do psicólogo, homofobia, cristianismo e psicologia dentre muitas outras coisas.

Hoje, eu resolvi escrever algo em relação a isso.
Enquanto estudante de psicologia e cristão, acho muito importante poder falar o que penso.

Durante o decorrer do texto, vocês poderão ver muito mais um cristão/cidadão do que um futuro profissional de psicologia. E é como um cidadão que penso que devo me posicionar acerca de todos esses fatos. Muitas vezes estarei falando diretamente para cristãos, outras para profissionais e estudantes de psicologia e em todas elas, para os leitores como um todo.

Não vou me ater a leis, PLs, linhas teóricas e nada muito científico.

Bom, vamos lá:

Um dos argumentos que cristãos usam para aconselhar homossexuais deixarem de ser homossexuais é que isso é um pecado e por ventura disso irão para o inferno.

Na Bíblia encontramos alguns textos que vão contra a prática homossexual, tais como:

"Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é toevah (impureza)" Lv. 18:22

"Se um homem dormir com outro homem, como se fosse uma mulher, ambos cometerão toevah" Lv. 20:13

Baseados em textos como esse, muitos cristãos, alguns até psicólogos pregam contra a homossexualidade. Gritam aos quatro cantos que isso é errado, que eles estão pecando, que os homossexuais são pervertidos e tantas outras coisas. Ainda tomando versículos como este, as pessoas costumam em nome do que é certo agredi-los e discriminá-los.

Agora, enquanto cristão, eu pergunto:

Segundo a Bíblia, homossexualidade é pecado. E segundo a mesma Bíblia, masturbação, cobiçar algo que é do outro, mentir e principalmente o ódio, também são pecados. E mais uma vez a Bíblia nos diz que Deus não faz diferenciação entre pecados. Então, por que em nome de Deus, as pessoas agridem e odeiam alguém que não se diz heterossexual e não fazem o mesmo consigo mesmo quando cometem qualquer outra coisa que são tratadas como pecado?

A Bíblia também diz que Deus ama o pecador, independente do seu pecado e Jesus (o personagem principal dela) diz aos que o seguiam que o maior mandamento de todos era o amor. Ou seja: Amar ao próximo independente do que ou quem ele fosse.

Ao longo da história da humanidade, os aspectos individuais da homossexualidade foram admirados, tolerados ou condenados, de acordo com as normas sexuais vigentes nas diversas culturas e épocas em que ocorreram. Quando admirados, esses aspectos eram entendidos como uma maneira de melhorar a sociedade;


Quando condenados, eram considerados um pecado ou algum tipo de doença, sendo, em alguns casos, proibidos por lei. Desde meados do século XX a homossexualidade tem sido gradualmente desclassificada como doença e descriminalizada em quase todos os países desenvolvidos e na maioria do mundo ocidental. Entretanto, o estatuto jurídico das relações homossexuais ainda varia muito de país para país. Enquanto em alguns países o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legalizado, em outros, certos comportamentos homossexuais são crimes com penalidades severas, incluindo a pena de morte.

As principais organizações mundiais de saúde, incluindo muitas de psicologia, não mais consideram a homossexualidade uma doença, distúrbio ou perversão. Desde 1973 a homossexualidade deixou de ser classificada como tal pela Associação Americana de Psiquiatria. Em 1975 a Associação Americana de Psicologia adotou o mesmo procedimento, deixando de considerar a homossexualidade uma doença. 

No Brasil, em 1984, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) posicionou-se contra a discriminação e considerou a homossexualidade como algo não prejudicial à sociedade. Em 1985, a ABP foi seguida pelo Conselho Federal de Psicologia, que deixou de considerar a homossexualidade um desvio sexual e, em 1999, estabeleceu regras para a atuação dos psicólogos em relação às questões de orientação sexual, declarando que "a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão" e que os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e/ou cura da homossexualidade. No dia 17 de maio de 1990, a Assembleia-geral da Organização Mundial de Saúde (sigla OMS) retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais, a Classificação Internacional de Doenças (sigla CID). Por fim, em 1991, a Anistia Internacional passou a considerar a discriminação contra homossexuais uma violação aos direitos humanos.


Sou terminantemente contra a cura gay, até porque podemos ver que não existe nada que deva ser curado. E meu papel enquanto estudante, psicólogo e cidadão e cristão é garantir o direito de todos, independente de raça, costume, crença e orientação sexual. Se é pecado ou não, se é errado ou não, isso não importa. O que realmente importa é que devemos garantir o direito de todos poderem ser o que são sem que sofram nada por isso.




Referências


Politics as friendship By Horst Hutte; p66
(Bernstein, 2005)
a b Nota Pública - Comissão Nacional de Direitos Humanos apóia decisão do CFP. POL - Psicologia On Line.
a b Luis Mott (Setembro de 2006). Revista Estudos Feministas:Homo-afetividade e direitos humanos. 
Conselho Federal de Psicologia (22 de março de 1999). RESOLUÇÃO CFP N° 001/99. 





sábado, 4 de agosto de 2012

PSICOLOGIA CRISTÃ EM DESTAQUE


CARTA DO CORPO DE PSICÓLOGOS E PSIQUIÁTRAS CRISTÃOS

Prezados profissionais membros do CPPC,

No CPPC temos aprendido a conjugar e fazer conviver ciência psi com a fé cristã há mais de 30 anos, e estamos convictos de que, apesar de tensões que aparecem, não é necessário e não é bom subordinar uma à outra. Em nossa declaração de fé consta que cremos que tanto a verdade revelada quanto a verdade científica vêm de Deus. Assim entendemos que a Ciência da Psicologia e da Psiquiatria tem direito a existir como tal, e a Fé Cristã também tem o direito de existir como tal. Então, quando um cristão como nós se dedica à prática profissional da psicologia ou psiquiatria, o que ele faz será boa ciência, boa psicologia/psiquiatria; ele não criará uma "psicologia cristã" ou “psiquiatria cristã”, mas será um bom cristão e um bom psicólogo/psiquiatra.

Para exemplificar: nós não recomendamos utilizar o tempo e o espaço de uma sessão terapêutica para orações, estudos bíblicos, apelos, profecias, imposição de mãos e outras práticas comuns nas igrejas. Inclusive porque o evangelho nós recebemos de graça, e a psicologia/psiquiatria foi uma formação profissional que cursamos, da qual tiramos o sustento para a vida. Outro motivo para não fazê-lo é que a posição de psicoterapeuta já é por si só uma posição de poder na relação; mesclá-la com um atendimento "em nome de Deus" iria levar o terapeuta a assumir uma posição por demais empoderada, que tende a fazer mais mal do que bem para o paciente. Nos casos em que houver questões espirituais a serem tratadas, achamos melhor propor, caso o paciente concorde, que ele procure um pastor, um padre, ou uma igreja para tratar de sua "sede espiritual". 

Isso não quer dizer que não sejamos cristãos: Amamos nossos pacientes, colegas de ONGs ou alunos, oramos a Deus por eles, pedimos ao Senhor que nos ajude em nosso trabalho psicológico. Mas no contato profissional nos esmeramos no exercício da psicologia/psiquiatria, em manejar bem os conceitos, técnicas, intervenções, sintomas, significados, transferências, medicações, campanhas, cada um de acordo com sua linha de formação e atuação.

Escrevemos isso para ilustrar porque acreditamos que não é adequado falar que praticamos "Psicologia Cristã/Psiquiatria Cristã", como se fosse uma ciência diferente da que aprendemos nas universidades. Não é. O diferencial nesse caso somos nós, as pessoas que a praticam – nós é que somos cristãos. Mas mesmo como cristãos, somos profissionais da área da saúde, onde praticamos a Psicologia/Psiquiatria, sem adjetivos. Sei que alguns irmãos e irmãs se apresentam de modo diferente, mas não concordamos com essa postura.

A própria Bíblia nos orienta, como em 1Pe 2.11-17, a “manter vosso procedimento exemplar no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação,” e também recomenda o respeito às autoridades legalmente constituídas.

Neste sentido, ao mesmo tempo em que pertencemos a uma associação de psicólogos e psiquiatras cristãos, não procuramos utilizar nossa fé como arma em conflitos. Quanto às questões que envolvem psicologia/psiquiatria e fé, não nos furtamos ao diálogo acadêmico e científico: transformamos estas questões em pesquisas, dissertações e teses, escrita de artigos e livros, participação em fóruns de debate, cursos, palestras e aulas em diálogos interdisciplinares. Sem preconceito nem contra nem a favor, promovemos encontros, congressos, simpósios e debates, atuamos em ONGs, na saúde pública, em campanhas educativas, participamos de esforços de socorrismo. Os resultados destes esforços respaldam nosso diálogo com os conselhos profissionais e ambientes acadêmicos, como por exemplo, a respeito da importância da fé para a saúde, que não pode ser negligenciada.

Ao longo de tantos anos, o Senhor tem nos ajudado a crescer e discernir melhor essa relação. Ainda temos mais coisas a aprender, mas quanto à auto-denominação, nós sugerimos apresentar-nos primeiramente como profissionais. É verdade que somos psicólogos/psiquiatras e somos cristãos, assim como podemos também dizer que somos casados ou solteiros, pai/mãe de filhos, etc., e não estará errado se nos apresentarmos assim. Mas observem que a recomendação bíblica é para que sejam vistas nossas boas práticas (obras), não palavras, argumentos ou bordões.

Sabemos que dependemos de Deus para todas as áreas de nossa vida, e cremos não só que Ele existe, mas também que é bom para todos os que dele se aproximam. Que nosso bom Deus, portanto, nos ajude a sermos bons profissionais neste mundo caótico, trazendo assim bom testemunho da sua bondade onde estivermos!



Agora, gostaríamos muito de saber o que você (leitor) pensa a respeito disso.