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terça-feira, 25 de junho de 2013

VEM PRA RUA, PORQUE A RUA É A MAIOR ARQUIBANCADA DO BRASIL

Por Leonardo Cappi Manzini


Dia do Basta/Vem Pra Rua - Vilhena/RO
Foto: Herbert Weil
O Brasil que você nunca viu. Talvez já tivesse ouvido falar, mas não acreditava mais, se era verdade ou mais um exemplo de politicagem, coisa da política, no pior conceito que esta poderia ocupar.


Muitos se perguntam ainda se não passa de uma moda entre jovens das capitais, um efeito mesmo da industria cultural global, um efeito rebote, um efeito chicote, que arrebata o poder no seu completo anonimato, isto é, o alvo são as diversas formas de poder, sejam eles quais forem, seja eles o que fazem ou para quem torcem. Vale tudo, a insurreição explode sobre qualquer monumento ou patrimônio do poder, lojas, vitrines, vidraças, prédios históricos, cabines telefônicas, carros de agencias de comunicação de massa, cabines da PM, automóveis. A fúria que emerge das heterotopias das ruas revoltas, vê em cada um desses objetos, a projeção do poder que expropria, exclui, explora, cobra, financia, esconde. Não há consciência na fúria, ela recorre e emerge de um imaginário radical de outra ordem, irrompe de seu estado encoberto e controlado, pela soma e sobre-repressão (Marcuse, 1978) do aviltamento acometido pelo próprio exercício do poder, na sua difusão, regulação e execução historicamente acumuladas. Para George Lapassade (2004) seria a força instituinte na sua forma criativa e deliberada a ocupar as ruas, disparando e criando novas erupções e movimentos disrruptivos. De uma crise do imediatismo, uma revolta ganha espaço, corpo, voz e um milhões de faces a se multiplicar, curtindo, compartilhando, protestando. Uma moeda de 25 centavos deflagrou a maior manifestação da história Brasileira, ela trouxe consigo o peso da história, nunca se viu moeda tão cara, tão pesada. Ela trouxe a insatisfação, a incerteza, o medo, a raiva, sobrepostas nas camadas de soterramento, de silêncios forçados, aplacados por um mercado de maracutáias, privilégios, cotações, propinas, interesses e nepotismo.

Toda essa fúria que irrompe das ruas advêm do mal estar experimentado por duas ou três gerações que herdaram-no de mais duas ou três outras gerações., isso quer dizer que, foge à compreensão imediata dos fatos, remete a outros tempos. A dor dessa gente é antiga e farta de farsas e falsos profetas, secas intermináveis que contornam inclusive os avanços tecnológicos sofisticados da recente historia humana. O exercício do poder político que legitimadamente deveria representar os interesses da maioria, dentro de uma margem utópica, aviltou suas próprias maiorias, as que os elegeram, dentro de uma margem de democracia. 

Não são apolíticos, são anti-politicos, para uma geração que cresceu entre o hedonismo e o individualismo, ser ativo politicamente e membro de uma coletividade manifesta, eram apenas sonhos de outras gerações, de outros tempos, ou ainda eram coisas que uma certa industria cinematográfica capturou para nunca mais libertar. Para muitos sair às ruas, lutar por ideais coletivos, reivindicar interesses e defender opiniões eram apenas coisas de filme. Se enganaram aqueles que assim declararam o fim dos movimentos coletivos, o fim das utopias? Não imaginavam que tais forças, hora inertes, acordariam na mais improvável das situações?
A própria ignorância reproduzida historicamente pela maquinaria das governamentalidades faz com que as forças revoltas não se apressem em discernir alvos, lugares, objetos, tudo é simplesmente monumento da história do poder, monumentos do poder que os insultou, que os abusou e violou, a seus pais e mães, irmãs e irmãos, avós e avôs. Que deixou como herança um fundo oco e vazio, uma mascara disforme e apertada. 

Não interessa se foi Niemeyer ou Portinari, pouco importa, agora são pixados e destituído de seu valor erudito e passam a ser meros adornos, partes de uma cena que extrapola seus significados mais genuínos. 

Agora quem protagoniza são as pessoas e suas reivindicações. A impressão que sentimos,
digo porque senti junto, que Brasília nunca esteve tão próxima do povo quanto como vi pela televisão hoje. 
Mas isso é apenas uma pequena parcela da dimensão dos fatos.

Não são só os monumentos de concreto os alvos da revolta, da busca pela verdade e pelos direitos acordados democraticamente, mesmo que como meras mercadorias. Inclusive certas praticas sociais contaminadas e agenciadas pelo poder difuso e polimorfo são também alvos da retração histórica, o Futebol, a copa das confederações a Copa do Mundo. Deixou-se de lado a vaidade e o cinismo folclórico e cultural, o Brasil não pára na Copa, o Brasil emerge de sua inércia e renuncia pelo futebol do poder, dono de uma fatia econômica polpuda e onde se operam grandes lavagens de dinheiro e de divisas. Entende-se, nas ruas, que o momento é outro, não se pode servir um prato nacional com preço de um banquete internacional, ninguém é trouxa, esta-se de saco cheio. No vazio deixado pelas consciências amortecidas, as votações criminosas acontecem nas plenárias legislativas, as impunidades e as corrupções re-arranjam-se sob o entretenimento das massas, pelas costas, avilta a dignidade e o saber popular, “avilta a renuncia do individuo em nome da coletividade, da sociedade, do toma lá e da cá do pacto social” (Pelegrini, 1990).


O futebol saiu do jornal, a novela se calou, a maquina comunicacional se retroalimenta minuto a minuto convulsivamente como fazia antes, só que agora algo que se precipita para fora dos estúdios, das previsibilidades, das visibilidades. O real da insatisfação saltou à tela e roubou a cena. O povo telespectador, atônito, acostumado com os telejornais tediosos cheios de mentira, violência e corrupção e das telenovelas delirantes e artificiais, se viu capturado, desconfiado com a atual situação. Ao mesmo tempo, se comove e sente o sangue lhe subir a espinha, sentido-se orgulhosamente brasileira(o) como pouco se sentiu na vida, mas ainda desconfiam. Isso não passaria de uma agitação puramente de arruaceiros? Vândalos? Rebeldes sem causas? jovens mimados, novos candidatos nas próximas eleições? Que virou moda protestar? Hora do jeito que esta não dá. Pode ficar Pior ? Pode. Melhor pra quem? Quem fará proveito dessa revolta?

Espera-se que a instituição política e seu exercício no Pais tomem novos rumos e preencha as rachaduras evidentes no tecido social, inúmeras e profundamente instaladas. Os embates entre classes, seguimentos, grupos, interesses, objetivos, ordens é inevitável. O confronto entre policiais e outras instancias de poder revelam tal recrudescimento, fonte das mais primitivas feridas calcadas no fundo civilizatório. Ao mesmo tempo, que se acorda pela insatisfação coletiva a voz das ruas, acorda-se as forças repressivas adormecidas desde o seio ditatorial no pais. A força radical da repressão política e de controle social rapidamente se articula, sem olhos e sem consciência, munidas de gás pimenta a bombas de efeito moral, bela metáfora. 

Acorda-se também o sadismo da tortura, do medo, da perseguição, da disciplina. A força reacionária, agora envolta de outros panos e emblemas, instituições e tecnologias assiste a tudo e espera para agir, desmembrando, confundindo, desarticulando, coibindo, silenciando. Outras instancias populares podem encontrar pontos de embates, e serem intencionalmente e oportunamente colocadas como forças opostas, em franca oposição, pois dividindo se governa.

O silencio dos ditos representantes políticos é descaso ou tática? Parecem estar atônitos, apanhados de surpresa com uma turba de gente que autenticamente detêm o poder. A força evocada pelas manifestações não devem ser desperdiçadas, pois as fraturas no tecido social em tais proporções, se tornaram insuportáveis.

No interior do Pais, a pior estirpe de políticos, faz o que bem entendem, inescrupulosamente expropriam dinheiro publico atendendo a interesses puramente partidários e pessoais. Ocupam o espaço político como se ocupam de suas fazendas, tratam o povo como tratam seu gado, quem sabe, pior, bem pior, simples coisas, números, fonte de agenciamento monetário e eleitoral. A maquina publica se tornou a Casa Grande (Gilberto Freire), onde os coronéis despacham suas ordens e interesses, realizam acordos escusos e perversos, onde preparam sua manutenção no poder. Essa completa deformação do tecido político é que se tornou insuportável. A emergência de mudança é e deve ser irremediável com meras revogações, pequenos acordos e promessas, pequenos “cala-bocas”. Deve adquirir a dimensão de uma transformação na política, no modo como se faz política no Brasil.

Vários caminhos podem ser seguidos e tomados, inclusive de uma nova tirania ainda mais perversa e insana. Pois a massa nem sempre esta com a razão, e as vezes essa razão não equivale ao bom senso. Nada esta decidido, há que se desconfiar, pois o poder é capaz de tornar a tudo modulável, equalizável, manipulável. 

Embora, nesses poucos dias de grande gloria coletiva pode-se afirmar que as marcas já são suficientemente visíveis e profundas, mesmo que para outras gerações, a marca de que é possível lutar por suas convicções e ideais, de que é possível, de forma coletiva, ser ouvido e romper com a invisibilidade inebriante do individualismo hedônico e niilista.

Cada professor esta mais feliz hoje, acordou com uma sensação de que a verdade estava de volta em sua boca, em suas palavras, de que não estava falando para as paredes ou sozinho em um monologo chato e fora de moda. Cada aluno acordou hoje mais próximo da história, inevitavelmente dentro dela. De que o povo à rua não é só para comprar e sim protestar, jamais equivalentes ou duplamente agenciáveis.
Fala-se em prejuízos, fala-se de um pequeno grupo de radicais onde a lei do poder, agirá com toda sua força e minúcia. Por que não falar nos ganhos, o que se ganha, mais direitos?Melhores? Mais justos?

Decerto haverá prejuízos, não há gloria sem lagrimas.

Quem arcará com tais prejuízos? De quem é o prejuízo, quem vai pagar a conta?

As cartas estão lançadas, os dados estão rolando, “o tempo não para”. Conseqüências, legitimação, partidarismo, comissão popular de auditoria publica, comissões de transparência, educação de qualidade e para todos, trabalho e segurança são temáticas que atingem a espinha dorsal do Pais, que Brasil queremos? 

De que Brasil Falamos?

De fato, deve-se ter em vista, a amplitude territorial e cultural do Pais, pois, como se esta mostrando, as revoltas se concentram nas capitais e cidades de grande e médio porte, e em alguns casos, em pequenas cidades. Cada estado levanta suas questões, demandas, interesses, as vezes possuem aspectos comuns noutros divergem-se, sem necessariamente serem equivocados ou incabíveis. O fato é, o povo na rua pode transformar, modificar, apontar caminhos.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

DEVIR PICOLEZEIRO

Por Leonardo Cappi Manzini


A figura anacrônica do picolezeiro nos dias atuais ao mesmo tempo em que definha numa extinção silenciosa e pauperizada persiste nas margens dos bairros distantes e ruas anônimas. Vive e respira a substancia do universo infantil, atiçando pelas manhas e tardes o paladar açucarado da criançada que espera atenta na buzinada da cornetinha do picolezeiro. Figura em extinção na cadeia de produção, pouco competitivo e ultrapassado, o picolezeiro domina um fluxo cada vez menor ou estabilizado do ponto de vista da quantidade de consumidores. Como quer que se pense, há muitos jeitos diferentes de olhar o picolezeiro na sociedade atual. Parece-me interessante sob vários sentidos. A tentativa que se segue é transitar sem pontos fixos, sem traçados prontos no devir picolezeiro. Tentar pensar e lançar olhares acerca desse recorte e suas afetações e ressonâncias no imaginário e no cotidiano dos bairros, ruas e cidades, é um pouco disso que proponho a seguir.

Automaticamente pensa-se na ótica do trabalho-trabalhador, essa relação da maquina que toma o corpo como empregado, como necessitado que não resta outra opção. Subemprego que aloca, fracassados, marginalizados, excluídos, pessoas, vidas anônimas. Pode-se pensar o picolezeiro considerando sua relação com o trabalho-trabalhador e assim desenvolver toda uma reflexão sobre essa condição, essa intersecção.

Do mesmo modo, o picolezeiro pode ser pensado em relação à infância, numa ressonância com a subjetivação da infância, seu universo imaginário, de sentidos e experiências do sentir. Figura quase inóspita, o picolezeiro atravessa as ruas buzinando, chamando aqueles que querem comprar e deliciar-se com picolés e refrescos, geralmente crianças, mas jovens, adultos e idosos nas suas criancices da língua e vontade de algo doce também esperam. Enchem a boca de saliva ao escutar o buzinar típico das cornetas do picolezeiro.  Figura sem nome, quase sempre de roupa bem humilde e simples, o picoleseiro abre seu carrinho de fantasias e sabores, enche os olhos da molecada. Invasão de cores, mundo colorido que se esvai com a vida adulta, a criança ali, experimenta seu próprio mundo, seu próprio imaginário na guloseima gelada trazida e oferecida pelo homem de boné, queimado e judiado pelo sol, com sorriso que é um pedido de socorro. O picolezeiro não toma picolé. Só os vende e toma água. Pede nas casas um copo d’água, enquanto a criança escolhe no bauzinho com rodas seu picolé preferido. O picolezeiro faz parte e vive no mundo infantil, dessa temporalidade. É preciso, hora essa, não olhar para o picolezeiro na sua inércia inevitável presa ao mundo do trabalho, mas pensá-lo dentro  de um rizoma de afetamentos, numa multiplicidade de entrecruzamentos e afecções.

Nos dias atuais dos avanços tecnológicos e comerciais, essa figura, persiste nas ruas dos bairros, das cidades do interior e em alguns lugares de lazer. Aglomeração de pessoas, em festividades, nas praias, nas praças, na porta das escolas. Com muito pouca tecnologia, ou fruto de uma tecnologia ultrapassada, o carrinho de picolé consegue conservar gelado sua proposta, seu produto. È estranho, ao mesmo tempo em que habitual, nos depararmos com o picolezeiro e o carrinho de picolé. Os mais nobres e descolados, vão à conveniência e compram picolés desenvolvidos de forma muito mais competitiva e especializada. O picolé do carrinho é gelo, corante e açúcar. O picolé ficou, foi-se o picolezeiro. Até quando existirão picolezeiros, alguém sentiria falta de picolezeiros? Alguém perceberia que se extinguiram? Onde ele ainda vive? Qual seu ecossistema de sobrevivência? Sua cartografia nômade? São perguntas que podem ser úteis quando se quer fazer uma arqueologia, uma arqueo-cartografia do picolezeiro e não só do picolé.

Os picolezeiros são pioneiros, pulverizam nos sertões do Brasil algo que engana o calor e o amargo do dia, o suquinho gelado e doce, seja picolé ou refresquinho teve seu lugar de novidade, gerando um extra para as sorveterias e sorveteiros que ampliavam suas vendas utilizando o carrinho de picolé e a figura do picolezeiro.  Nessas cidades do interior o picolezeiro ainda tem seu publico garantido, mas sempre ameaçado. Como houve com as quituteiras da época colonial, Com o leiteiro, como o padeiro que entregava em casa, como o vendedor de biju com sua matraca. Figuras em extinção. Hoje se fazem os pedidos pela web, alguém entrega em sua casa. Algo mais frio, automatizado, coisificado.

Nesse sentido é preciso lembrar que, ser picolezeiro exige estratégia, exige conhecimento, quem sabe muito mais do que isso, seja uma arte. Segundo relatos dos próprios picolezeiros antigos, vender picolé na rua com o carrinho é uma arte. Há uma geografia percorrida pelo picolezeiro, ele deve saber e descobrir onde passar, quais ruas há crianças, escolas, praças, parques, assim sua mobilidade faz parte da estratégia. Envolve cativar o cliente, seja criança ou adulto. Há vários tipos de clientes, dizem os experientes picolezeiros. Os ocasionais e aventureiros e os fixos, regulares consumidores. Para ambos possuem estratégias diferentes de aproximação e consolidação. De muitas formas, na ciência do picolezeiro experiente há uma arte, um artesão, uma poiésis.

O picolezeiro vê muitas coisas por onde passa, pela cidade. Testemunha do cotidiano, do imprevisível e do inesperado, ele está sempre disfarçado de picolezeiro, pode passar despercebido, mas a tudo vê e recolhe. Seu olhar capturou a rotina da vida urbana. A rotina das casas e de seus moradores. Conhecedor dos vários tempos ele reconhece o valor da sombra, entende e lê o céu e as nuvens, entende os ventos e as estações e principalmente as horas e os lugares do sol. Outra habilidade imprescindível para o mesmo é a paciência e a persistência. Muitos abandonam a difícil jornada diária e ingrata. Outros trilham, com seus próprios passos a difícil andagem*, o chão percorrido, a vida deitada do dia a dia, a vida é o chão que se percorre. Com o olhar escondido e espremido entre as salientes rugas de um semblante castigado, ele parece dono de uma espectral serenidade e paciência. Filho do sol, seu ganha-pão, seu senhor, seu guia.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

MEU PEQUENO FRANKENSTEIN KAFKADÉLICO

Por Leonardo Cappi Manzini


A seguir são apresentadas quatro cenas, quatro fragmentos, quatro textos, se é que se pode assim chamá-los, que em si não conduzem necessariamente a uma única peça monográfica, a um único texto. Talvez dispersem em outros muitos até que o leitor chegue a convergi-los, se é que seja possível. Independentemente eles podem conectar-se a outros textos que estejam já nas praias do próprio leitor, sob seus anseios, sob seus domínios e possibilidades. A síntese, quiçá, inacabada, possa relampejar como uma breve imagem convexa ou pairar por alguns minutos como uma fresta de sol na parede da sala e assim logo escapar-nos novamente, e mesmo que retorne amanhã, outra fresta, prenhe de outros sentidos, de outras significâncias estará a iluminar outras salas, porões, chãos, paredes. O leitor faz do texto o que quiser, ou deixe que o texto faça dele aquilo que permitir que o texto faça. Eles se conectam, mas não em todas as partes, nas suas grandezas e pequeninices, por decidi mantê-los separadamente, pois adquiriram vida própria, são errantes, criam pernas e braços, se metamorfoseiam, aqui e ali, transbordam a sim mesmos, derramam, esparramam, de repente somem, perdem fôlego, como ondas no mar, se quebram e voltam ao corpo oceânico. Ao final, uma experiência esquizodidática, um gesto, um devaneio, uma articulação, umas descontinuidades.


CENA 1

O sujeito é tomado pela psicanálise diante de sua condição de desamparo ou da posição do desamparo (Birman, 2007).  Encontra-se diante da pressão constante das forças pulsionais, o sujeito seria tomado pela produção de um “excesso”, momentos resultantes dessa economia libidinal. Momentos que se sucedem em movimentos entre minimizações e maximizações de forças que produzem certas territórializações, campos de enfrentamento e satisfação, campos de negociações e trocas desejantes onde não se sabe, depois de certa profundidade quem é o produto, o produtor e o negociado. Um certo lugar onde se sustenta o segredo e a diluição das forças atuantes, seus objetivos, suas finalidades, seus destinos, suas dispersões.

O sujeito psicanalítico é tomado a partir da discussão, pelo menos aqui, entre as duas teses centrais na proposta Freudiana do sujeito e da subjetivação individual. Isto é, o estudo dos estimulantes ou estados mentais naturais precursores da subjetivação individual, onde dados fisiológicos e simbólicos aparecem intrinsecamente interligados. São elas a da sexualidade e a do desamparo humano. A primeira, vale lembrar, o sujeito é entendido a partir de sua história libidinal movido pela demanda de prazer onde a subjetividade é tomada como fruto dos traços libidinais e regras culturais, onde a cultura é tomada  apenas como o contexto organizador da exteriorização sexual. Já a segunda acepção sobre o sujeito toma o desamparo ao invés da sexualidade como estado de base orgânico/mental da subjetivação individual, onde o sujeito é exposto permanentemente a demandas para as quais não possui respostas naturais eficientes, onde é tomado por sentimentos de desproteção e desamparo existencial. Por outro lado, o que impulsiona-o pela vida em busca de  apoio e segurança (Ferraz, 1996).Constituindo-se no campo do desejo e da falta Essa distinção é tomada também como a diferenciação entre as perspectivas antropológica e mentalista sobre o status do sujeito na teorização Freudiana da subjetividade. Cabe mencionar que na primeira a cultura é tomada como produto e na segunda como ambiente genérico e periférico da subjetivação.

Em uma perspectiva otimista, pode-se dizer, Rubem Alves toma de empréstimo o desamparo do sujeito psicanalítico em uma de suas reflexões sobre a escola e a infância. Diz ele “Diz à psicanálise que o projeto inconsciente do ego, o impulso que vai empurrando a gente pela vida afora, esta infelicidade e insatisfação indefinível que nos faz lutar para ver se, depois, num momento futuro, a gente volta a rir. Que este projeto inconsciente é a recuperação de uma experiência infantil de prazer, redescobrir a vida como brinquedo.” Parece ter descrito de forma tocante os destinos possíveis do empreendimento psíquico de alguém que toma as rédeas da própria vida, tomada como uma experiência ético-estética com o mundo.


CENA 2

Mas voltemos às incertezas, ao campo do inesperado que flerta com as possibilidades em um caleidoscópico social efêmero e sedutor, hora preenchendo as diferentes matizes e cenários para esse órfão desamparado que busca na exterioridade os princípios de sua interioridade, tendo a transitoriedade e provisóriedade como  fluidez de seu exercício subjetivacional. Extraindo singularidade-singularizações dos lugares, funções e papeis sociais, que no exercício de suas narrativas e significações comercializam os significantes investidos de amor, identificação, desejos, esconderijos, silenciamentos e ressonâncias, descobrindo os buracos pra se agarrar. Bicho geográfico e antropofágico que dilui e atravessa a teia do poder, que ao fazê-lo sofre, faz sofrer, goza. Uma geografia menor, outra geografia maior. Busca-se olhando para fora o que corresponda a algo do dentro. Os dentros estão La fora, partes, acessórios, agregados, signos, identidades, algo que o torne enunciável, que seja marcado por uma discursividade, que automaticamente re-posiciona o sujeito dentro de uma discursividade do poder, que autoriza/desautoriza, incorpora/exclui, tipifica e valora dentro de uma rede de significações infinitas investidas de poder.

Utilizando o enfoque e as contribuições de Bleger (1984) que possui em Freud sua sustentação parte-se da idéia de que “os grupos e os sistemas sociais também constituem “partes das personalidades dos indivíduos e, às vezes, toda a personalidade que eles possuem”. E ainda de que a personalidade é estruturada pela dinâmica entre um ego organizado e um ego sincrético, postulando assim a existência de uma comunicação grupal como derivada dessa estruturação. (Guirado, 2004) Com isso podemos inferir, mesmo que arbitrariamente, por enquanto, que o grupo, enquanto espaço intersubjetivacional implementa sua estruturação do indivíduo, agenciando suas vicissitudes pulsionais, as forças inconscientes. A respeito, na atualidade vive-se sob a égide de formações identitárias e grupais cujo aspectos revelam no limite a necessidade extrema com que as pessoas tomam os grupos como fontes únicas, restantes, para grudarem-se, com toda viscosidade e simbiose exigida afim de possuírem alguma identidade, alguma indiferenciação/diferenciação. Por outro lado, há uma prevalência também quanto  às formas de laços, marcadas por traços perversos, ou senão pelo registro da perversão simplesmente, são aqueles grupos onde nunca se obteve qualquer relação simbiótica, sendo o grupo tomado apenas como subsidiário provisório e momentâneo, sobressaindo apenas como objeto de gozo próprio. (Bleger, 1984, Guirado, 2004, Reis, 2009).Talvez aí resida o ponto de perversidade que marca as relações contemporâneas, onde  a sustentação dos laços é frágil e superficial, onde o simbólico é apenas uma tatuagem Foracluída no corpo dos sujeitos.

 
CENA 3

Em algum momento, mesmo aquele sujeito que separou bem sua existência consciente, operando a partir de seu sintoma com um acordo pulsional com as forças que persistem nas camadas inferiores * (mera termologia topológica para fins de entendimento) vai ter suas certezas vaciladas, seus guardiões se retirarão para seu temor e horror, será ele inundado pela enxurrada irrefreável de uma angústia lancinante que colocará o acordo sob suspeita. Pois, a angustia sucede na própria via dos acertos de contas com o acordo e o desejo. Ela mesma fruto das paixões e dos medos.

Angústia produto do desejar. O acordo se quebra, pois implica o eu na decisão antes sustentada pelo acordado. O equivocar-se das crenças, certezas, ambições. Quando essas, pouco interessam ou são acolhidas pelo(s) outro(s), vive-se experiências dilacerantes, esvaziantes, despressurizantes, praga de vazios, verdadeiros ralos abertos, nada se sustenta nada para de flutuar, escoar buraco abaixo. Por isso o sujeito é efeito de momentos de constantes negociações que se sustentam com certo nível de regularidades e flutuações. O ego fazendo seu papel de equilíbrio entre as forças internas e externas.

O acima exposto também pode ser pensado na esfera coletiva como vimos, o desmoronamento de um acordo coletivo na individualidade como o sentimento que acometeu a Coréia do Norte com a morte de seu déspota. Ao contrário de um desmoronamento, a ascensão das forças destrutivas no caso do Nazismo de Adolf Hitler e sua mobilização política transferêncial simbiotizante com o povo alemão, dando condições de emergência ao fenômeno de massa que tão bem conhecemos seus resultados e desfechos. No entanto, vale lembrar que, há um efeito de produto na emergência do nazismo alemão, como efeito excêntrico de uma possibilidade do homem obter o total controle sobre a natureza, veiculadas pelos restos agonizantes do iluminismo tardio que tão bem produziu suas bestas vociferantes e totalitárias até meados do século XX.

Mas com relação ao fenômeno em si, no caso do exemplo Norte Coreano, a população perde a certeza do olhar de seu Algoz tirano que com seus absurdos meios articulava uma política pulsional, dando-lhes um sentido, uma fantasmagoria, dava-lhes um campo de objetos de satisfação e de in-satisfação, a constituição de um circuito de simbolização das forças pulsionais representantes-representação, Assim era tomado, testemunhando e avalizando a matilha de acordos infames e inadiáveis. Processualidades semelhantes aconteceram no Nazismo, no Terrorismo, na Contra-Cultura, no Stalinismo, no Capitalismo Tardio, nas ditaduras militares sul-americanas e nas crises simbólicas/ institucionais do contemporâneo. Assim como em proporções grupais menores, locais, micro-geográficas, moleculares.


CENA 4

A hipnótica (des)programação capitalista (des)subjetivante ou simplesmente sua política de subjetivação, parece seguir a mesma lógica. Ninguém sabe ninguém percebe ninguém se dá conta. Mas a televisão, sua programação, seus filmes, seus assuntos, suas cores, sua música, seu repertório, sua comercialização simbólica, os sentidos prontos, seus enredos, suas tramas invadem o telespectador que desliza para um amortecer confortável, uma suspensão e uma agradável sensação de plenitude, segurança, conforto, controle, simbiose?Ora, ao oferecerem territórios já prontos para as subjetividades fragilizadas por desterritorialização, tais imagens tendem a sedar seu desassossego, contribuindo assim para a surdez de seu corpo vibrátil e, portanto, a uma invulnerabilidade aos afetos de seu tempo que aí se apresentam” (Rolnik, 2011).

Um filme hollywoodiano de qualquer gênero e veiculação, quantos prazeres suscitam? Quantas coisas morrem e deixam de se tornar por só existirem agora num filme, isso é coisa de filme só acontece nos filmes! E a vida é um filme! É um filme ela não poder ser filme! Hipnose. __ “Sofremos uma hipnose! Programaram nossos pais, e nos programaram, não ha vida fora da programação, desaprendemos a respirar fora dela, não existiríamos lá! Não saberíamos quem somos fora da matrix.” Não é a toa que o valor ético-estético capitalista é o conforto, não é a toa que foi ele, algo supérfluo capaz de unir gregos, anglo-saxões, xiitas, árabes e fascistas. Em certo sentido desfez em partes tais registros identitários que lutam em seus momentos finais de asfixia e corrosão. Os antigos totalitarismos cedem espaço a algo ainda incerto, não enunciado, ou simplesmente agenciadores de enunciação capitalísticas. O que uniu o mundo não foi o necessário e sim o supérfluo (Lipovétsky 2009). Por outro lado é uma união a partir da fragmentação.

 Suely Rolnik, quanto a tal política de subjetivação, destaca ainda:

O cenário de nossos tempos é outro: não estamos mais sob regime identitário, a política de subjetivação já não é a mesma. Dispomos todos de uma subjetividade flexível e processual tal como foi instaurada por aqueles movimentos – e nossa força de criação em sua liberdade experimental não só é bem percebida e acolhida, mas é inclusive insuflada, celebrada e freqüentemente glamourizada. Mas há nisso tudo um “porém”, nem um pouco negligenciável: hoje, o destino mais comum desta flexibilidade subjetiva e da liberdade de criação que a acompanha não é a invenção de formas de expressividade movida por uma escuta das sensações que assinalam os efeitos da existência do outro em nosso corpo vibrátil. O que nos guia na criação de territórios em nossa flexibilidade pós-fordista é uma identificação quase hipnótica com as imagens de mundo veiculadas pela publicidade e pela cultura de massa.


Um poder generalizado, dês-centrado, difuso, imagético parece ter sucedido as formas totalitárias de dominação e subjetivação, onde num há líderes, deuses, mitos, instituições, mas simplesmente performance, desempenho, movimento, fluxo, velocidade, sob os auspícios da mercantilização do desejo, das subjetividades, do entretenimento. Se há uma cultura de massa, a massa desconhece, a aparente liberdade individual hedônica parece valer o preço. A cultura de massa possui no seu estoque um reservatório transgeracional que se encontra à margem e a espera de sua incorporação, esperando poder consumi-la e proliferá-la. Em outras palavras é a massa de miseráveis de capital e de direitos, os que esperam ser capitalizáveis, os que esperam e desejam simplesmente adentrar em um supermercado e  escolher um produto por sua performance e não só pelo preço, pois o preço indica classe, e  classe indica qualidade, acesso, vantagens. Tudo isso, paradoxalmente parece muito sutil e ao mesmo tempo tão evidente para alguns. A todo o momento as imagens de mundo veiculadas fomentam tais distinções, criando desejo, instaurando falta, indicando maneiras de (di) simulação e agenciamentos subjetivacionais capitalísticos. Pois parece não existir nada interessante na interioridade esvaziada, tudo que se pode ter e ser esta do lado de fora, dentro, só resta à miséria que nos lembra que ainda somos humanos, numa estranha inversão esvaziada da crítica à interioridade subjetiva essencialista, naturalizada e ou metafísica. Dentro só resta o biológico, e mesmo esse, transformado há tempos em mercadoria, em produto, em valor agregado, isto é, inserido em uma discursividade contábil, mercadológica e publicitária.


“Pela condição de funcionamento mental estabelecida o sujeito perde sua autonomia e, por conseqüência de um ego debilitado, não tem forças para realizar o trabalho de reflexão em que está envolvida toda sua existência, pois “as variáveis de personalidade mais relevantes na determinação da objetividade e racionalidade da ideologia são as pertencentes ao Ego, a parte da personalidade que avalia a realidade, integra as demais instâncias, e opera da forma mais consciente. É o ego que percebe as forças não racionais que atuam na personalidade, e se responsabiliza por elas” (Adorno; Horkheimer, apud Rouanet, 1983:170).


González Rey (2007) enfatiza que a singularidade sofre um processo de deterioração em virtude da tendência universalista de padronizar e quantificar os componentes psíquicos, reduzindo-os “a categorias analíticas suscetíveis de medição”.  Com isso diminuíram-se as possibilidades de compreensão dos sistemas psíquicos na sua diversidade e complexidade. É a emergência da produção científica de um novo sujeito, cujos componentes são convertidos em competências e habilidades. Várias disciplinas científicas estão comprometidas com tal projeto, inclusive algumas psicologias, onde a tarefa é descobrir e treinar os aspectos necessários para a utilização do Homem “Clean”. A subjetividade deve ser minuciosamente metrificada, tendo todas suas vicissitudes corrigidas por um processo ortocognitivo. O sujeito deve escolher seu pacote de super-poderes, maximizar sua performance, minimizar seu déficit, e  fazer o “Input” de programas complementares, escaneando-se e atualizando-se sempre. É o surgimento de uma política anatômico-cognitiva que esta prestes a parir um novo ser, por enquanto muitos testes, dados, protótipos, psicólogos e instauração infra-estruturais.

Quanto à psicologia, concorda-se com Freud (1987b: 61 quando assinala que “um psicólogo que não se ilude sobre a dificuldade de descobrir a própria orientação neste mundo, efetua um esforço para avaliar o desenvolvimento do homem, à luz da pequena porção de conhecimentos que obteve através de um estudo dos processos mentais de indivíduos durante seu desenvolvimento de criança a adulto”


CENA Metafórica- ilustração esquizodidática pinturatextopoética.

Palavras-imagens que ilustram os processos inconscientes, sua ambiência, fluxos, vicissitudes. Um mundo Boscheano e Dalinesco animado e em movimento, fazendo algo de seu subterrâneo. Tudo resta em algum lugar de algum jeito, de todo esse lixo do cotidiano, descompactação de arquivos, pulverização, despixelização. Onde as idéias morrem e pensamentos se esvaem, onde as palavras nem nasceram, cedo demais para o som, espaço de outras ressonâncias, profundidades de outros sonares.” É assim, com a lanterna espreito as regiões alagadas, movediças, estados de pura transição, com múltiplos tempos larvais e ancestrais.


A Desintegração da Persistência da Memória – 1952 (salvador dali)



“Um comércio de fantasmas, escambo de segredos, cenas, esquecimentos, uma ecologia feita de barganhas e negociações. Uma multidão de idiomas em um milhão de bocas e lábios, ele adora lábios e dobras, orifícios e líquidos, ele adora ritmo e inércia.

Mil engenhos de sonhos moendo, esmagando, triturando, extraindo, destilarias de dor, fornalhas de desejos, o estranho mundo de dentro onde as cortinas nunca fecham, onde o show nunca acaba e o baile nunca termina. 


Metamorfose de Narciso - 1937



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A PALAVRA EM PSICANÁLISE

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES 
Por Leonardo Cappi Manzini



RESUMO

 
Este trabalho tenta apresentar brevemente alguns pontos importantes a fim de localizar os diferentes lugares da palavra e da linguagem na psicanálise. Situa o valor da palavra como elemento relevante na gênese da psicanálise e da técnica psicanalítica, mencionando as possibilidades investigativas vislumbradas na atualidade pela psicanálise, que ainda possui como ponto central, a palavra. Destaca a importância da palavra na concepção Freudiana e Lacaniana de inconsciente e ainda, assinala alguns apontamentos sobre a relação entre palavra e representação e entre a palavra e os sonhos. A palavra e a linguagem sempre foram e ainda é, um elemento central e próspero do ponto de vista teórico e metodológico para a psicanálise.
Palavras chaves: Linguagem, inconsciente, representação, sonho.


INTRODUÇÃO

Tentarei esboçar alguns pontos que podem servir para situar a palavra na perspectiva psicanalítica, sobretudo, Freudiana e Lacaniana. Visto a complexidade de ambos os autores e da própria Psicanálise enquanto uma teoria completa do sujeito e como método interpretativo de suas vicissitudes subjetivas, vou sublinhar apenas algumas noções gerais sobre as possibilidades de encontro entre a psicanálise e a palavra.  Sabe-se que a relação entre linguagem e psicanálise possui uma longa historia de entrelaçamentos e ressonâncias. No entanto, recentemente fiquei muito interessado pelo assunto isto é, da existência de uma gramática pulsional, de uma linguagem dos erotismos pulsionais, de fixações eróticas organizadoras de nossas defesas e desejos, chamada de erogeneidades. Ou seja, de que cada erogeneidade possui uma linguagem própria, um jogo próprio, estabelecendo uma economia própria de tensão e alívio, necessidade e satisfação.

O mais interessante é que essas vicissitudes pulsionais podem ser lidas pela palavra, na palavra. Pode ser detectada a linguagem e a lógica de cada erotismo e como o sujeito esta inteiramente, implicado ou alienado nessa fixação erótica. Que faz dele o que ele é. Dos casos e categorias clinicas podemos citar as histerias, a melancolia, as adicções, as psicoses, as desvitalizações dos afetos. Todas elas podem ser entendidas como dotadas de uma linguagem erótica falida, tóxica, intoxicante, do ponto de vista psíquico, economicamente falidas. Mas também há uma linguagem erótica por traz de processos exitosos do ponto de vista psíquico, processos sublimatórios, simbolizantes, criativos, inventivos, adaptativos. No entanto não há ou não parece haver uma receita, uma forma correta, uma normalização dos erotismos exitosos e não exitosos e essa não é a tarefa da psicanálise. Sua ética deve ser o principio norteador, e esta ética têm o saber como processo singularizante de descompressão psíquica, de conversão de energia libidinal através de projetos humanos e civilizatórios, edificantes, como diz o psicanalista Jurandir Freire Costa (2009) quando fala sobre o dever da psicanálise diante do contemporâneo e do sofrimento humano.

O estudo das linguagens dos erotismos, dentro da vertente aqui adotada, iniciou-se com o psicanalista Argentino David Liberman (1975, 1979, 1984, 1985) que se interessou pela relação entre linguagem e psicanálise, transitando com segurança teórica e metodológica por ambos saberes. Sua morte interrompeu seus estudos, mas deixou seguidores, atualmente os estudos seguem com o psicanalista argentino  Dr. David Maldawski na Uces (universidade de ciências empresariais e sociais) em Buenos Aires,   conta com um grupo de pesquisadores, como franceses, norte americanos e alemães, Brasileiros, Colombianos, trabalhando em torno de um instrumento de investigação psicanalítica da linguagem ou ADL (algoritmo David Liberman) que detecta através de estruturas-frase, palavras e relatos, as pulsões e defesas psíquicas ou erogeneidades predominantes em um discurso. Tive contato pela psicanálise argentina, mas descobri que Joel Birmam, psicanalista Brasileiro, já há algum tempo, escreveu um livro chamado Gramática Pulsional. E ainda, conhecendo um pouco melhor tal perspectiva, a dos estudos com ADL percebi que trata-se de um viés, um caminho dentro da psicanálise enquanto teoria e método de investigação clinica e psicossocial de processos subjetivos, pois a linguagem e o inconsciente é sempre uma relação, se dá a partir de relações entre pessoas, grupos, personagens, representações.
Segundo Maldawiski (1995) existem alguns erotismos e suas respectivas formas predominantes de linguagem, ou de que para cada erotismo existe uma linguagem própria, correspondendo a sua economia psíquica, seu objeto, sua finalidade, sua representação-grupo, seu desejo inicial e final etc.. São eles, LI libido intra-somática, O1 oral primaria, O2 oral secundaria, A1 anal primário, A2 anal secundário, FU fálico uretral e FG fálico genital. Todos eles, detectáveis pela palavra, frases ou relatos, a partir do ADL (algoritmo David Libermam), isto é manifestos e latentes nas palavras. Cada um deles possui uma cena, um personagem, uma representação-grupo, um ideal, um desejo, uma predominância espaço-temporal.


A PALAVRA E A PSICANÁLISE

Há vários caminhos para se iniciar um texto introdutório sobre a relação ou o lugar da palavra dentro da metapsicologia inaugurada por Freud. Nesse caso, início pensando em voz alta, utilizando a voz silenciosa da palavra no papel, silenciosa, porém vibrante.

Palavra e psicanálise sempre andaram juntas desde o momento inaugural Freudiano. Recentemente deparei-me com a questão da palavra na psicanálise, impressionado pela contemporaneidade com que a psicanálise se mantém diante do próprio contemporâneo, comumente consagrado território das ressignificações, crises e releituras teórico-metodológicas. Sobretudo quando tenta-se  dar contornos ou tencionar a idéia-construção de subjetividade e de sujeito. A Psicanálise encontra-se com fôlego bastante largo para pensar as contingências do contemporâneo, segundo Branco (2009), ela ainda permanece ao lado de Nietzsche, Deleuze, Foucault e Derrida na crista da onda dos modos de pensar o Humano. Possuem sem sombra de dúvidas, valendo-se de vários indicadores, como numero de publicações, estudos, teses, fidedignidade e validez metodológica, envergadura teórica e conceitual capaz de escutar o invisível, o implícito, o recalcado, o inconsciente, o desejo, seja na clinica ou nas relações psicossociais.  Já há algum tempo a psicanálise foi incluída de modo relevante nos estudos sobre a linguagem e o discurso.

Como apontam Pêcheux e Fuchs, no quadro epistemológico da AD articulam-se “três regiões do conhecimento científico”: 1- o materialismo histórico, como teoria das formações sociais e de suas transformações, compreendida aí a teoria das ideologias; 2. A lingüística, como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação ao mesmo tempo; 3.  A teoria do discurso, como teoria da determinação histórica dos processos semânticos. (PÊCHEUX; FUCHS, 1997, p. 163-164). Acrescentam ainda esses autores que esses três terrenos teóricos são atravessados por “uma teoria da subjetividade, de natureza psicanalítica”. (PÊCHEUX; FUCHS, 1997, p. 164). É por isso que para a construção do “edifício da AD”, Pêcheux precisou contar com “três pilares”, representados pelas teorias propostas por Louis Althusser, Michel Foucault e Mikhail Bakhtin, além dos escritos de Lacan, que representam o que Gregolin chama de “atravessamento constitutivo”
                                                                                  (GREGOLIN, 2003, p. 31)

Eu diria que a psicanálise enquanto teoria e método possuem um saber sobre a gramática pulsional do sujeito. Possui um aporte teórico e técnico de escuta sobre algo secreto do próprio sujeito, de um aquém da palavra. Secreto por ser um conhecimento restrito e complexo que exige dedicação e sensibilidade, secreto por constituir-se como algo desconhecido pelo próprio sujeito, pois este encontra-se alienado e  estruturado por tais vicissitudes pulsionais inconscientes, alienado no desejo do outro, na insígnia do desejo de ser desejado. A psicanálise através de sua técnica tem acesso ao nível de um discurso secreto sobre o sujeito, sobre aquilo que o constitui, pois detêm a verdade aquém do próprio sujeito consciente. E é nesse lugar de desamparo estrutural que o ser humano tem de se confrontar com sua angústia, e do vazio inventar sua singularidade através da criação estética de seu estilo de viver. Portanto ela deve ser entendida como uma experiência. Para Birmam (2008). ”É assim que entendo a idéia da psicanálise como sendo uma experiência, uma proposta de se re-experimentar de uma maneira diferente. Um convite para sair de si próprio”.

Sem a intenção de mitificar o saber psicanalítico, endoçando-o de caráter mágico, procuro entende-lo ao lado de uma sensibilidade analítica e de uma experiência ético-estética, muito mais do que uma racionalidade cientifica experimental. Para os iniciados na metapsicologia psicanalítica já sabem que o inconsciente e os destinos da pulsão são como estruturantes do sujeito e não podem ser estudados em um laboratório de psicologia experimental ou em estudos psicofisiológicos. Sabem que para a psicanálise pouco importa ser considerada uma ciência nos moldes experimentais. Sabem que a psicanálise possui outras estratégias muito bem fundamentadas e validadas de “escutar” e de estudar o sujeito e o campo das subjetivações.

Para o psicanalista Joel Birman (2008):

É assim que, ao mesmo tempo em que constituiu lugares sólidos de pertinência na universidade, no campo editorial, no campo clínico e institucional psicanalítico, ele faz valer um pensamento inquieto, sempre em movimento, passeando rigorosamente pelos confins. Uma reflexão que sempre desconstrói sólidas certezas para se lançar no magma criativo de invenções renovadas em novos jogos de verdade e de linguagem, que pelo movimento pulsante no qual se constituem ressoam com uma contundente autenticidade.

O método analítico surge com a própria teoria psicanalítica do sujeito, o sujeito inconsciente é escutado e entendido na chamada clinica Freudiana, tendo a palavra como instrumento e via de acesso ao inconsciente. Todos sabem da exaustiva obra Freudiana que lançou as bases de uma metapsicologia do sujeito do desejo. Sabem de seu imenso trabalho e sensibilidade oriunda, sobretudo da clinica, do atendimento de pacientes que por motivos diferentes queixavan-se de sofrimento psíquico e tinham quase todos buscados em outras opções, médicas e místicas, meios para aliviar, curar ou entender sua própria condição. A palavra seria a via do trabalho Freudiano, era ela que possibilitaria ao mestre compreender uma linguagem secreta que fazia do sujeito, sujeito do inconsciente. A palavra pode tornar um homem doente, pode adoecer uma geração inteira de homens, pode encerrar uma civilização? A palavra pode curar, pode converter sofrimento em esclarecimento? A palavra pode nos fazer mais humanos ou mais animais? O que pode a palavra a partir da psicanálise? A palavra se fez carne e corpo na psicanálise, pois a idéia de pulsão, muito mais do que instinto, da conta de uma região fronteiriça entre o somático e o psíquico, ou como prefere Lacan, entre os registros do real, do imaginário e do simbólico, estruturadas como linguagem ou a partir de um processo que tem o outro e a palavra e o afeto como protagonistas fundacionais da economia psíquica.


A PALAVRA E O INCONSCIENTE
El inconsciente está estructurado como un lenguaje”. (Lacan, 1984)

A palavra sempre foi à via do tratamento proposto por Freud, desde o método da associação livre em seu momento inaugural até a interpretação dos sonhos e dos sintomas como acidentes do discurso, a palavra e a linguagem constituíram-se como pontos nodais nos estudos psicanalíticos. Lacan posteriormente, em uma releitura freudiana vai dizer que o inconsciente é pura linguagem, é estruturado por uma cadeia de significantes estabelecendo-se e engendrando ao mesmo tempo uma economia psíquica das forças pulsionais e eróticas, propriamente a história de seus destinos faz-se inerente à história do sujeito sublimatório, neurótico, histérico, abúlico, narcísico, somático etc.

Para Freud a palavra é um elemento que evidencia um conteúdo que excede à consciência, isto é, por meio da palavra Freud da conta do inconsciente e, portanto da própria Psicanálise. Assim a palavra é via de acesso a conflitos internos do sujeito, suas pulsões, defesas e material reprimido. É também a via da cura em psicanálise, pois dá lugar a experiência analítica do sujeito. A palavra quebrada é um convite do desejo, uma possibilidade do sujeito dar conta de algo, de dar sentido àquilo que lhe escapava. A angustia, a incerteza, o inesperado, a crise traz certa ausência de sentido,  de um palavrear que não da conta, tornando-se um mero repetir. Quando a palavra não da conta da experiência o desejo fica em carne viva. A condição de  sujeito faltante vem à tona, nas formas da angustia, do medo, do pânico, mas também do silênciamento, da impossibilidade de simbolização e da desvitalização afetiva. Vejamos um relato de um paciente que queixa-se,  um verdadeiro relato clinico – poético:

Algo parece ter se quebrado, partido, algo já frágil, parece ter sido fraturado, e esta sensação de inundamento que me assola todos os sentidos, me deixando confuso e perdido. Algo em mim parece ter naufragado, Posso secar, posso não dar mais conta de segurar essa enxurrada, de onde vem tudo isso, desconhecia-me. Não sabia ou não queria dar-me conta de que tudo foi e vai para algum lugar, de que sou um oceano inteiro a ponto de estourar. Não sabia que podia me afogar em mim mesmo. Não sabia, não sabia. O que segurava esse mar-adentro também me segurava mar-afora, o que mantinha o tampão no seu lugar?  Qual seu lugar? Lá estou eu, La posso estar, mais do que aqui, nesse deserto, nesse silencio que construiu paredes em mim, verdadeiras celas.  La onde esta o tampão, estou eu, mais do que aqui... porque eu, porque comigo? Porque assim, sem aviso, pelas costas, de surpresa?...

Em um processo analítico, o analista, munido de seu saber sobre a linguagem dos erotismos e suas possibilidades de imersão, sintoma, irrupção, lapso, transbordamento, conduz o analisado, através da palavra, no exercício de um contar, uma retomada da significação e do sentido pelo próprio sujeito. Para que ele retome a palavra e saiba escutá-la, percebê-la se movimentando pelo corpo, pelos afetos, pelas escolhas, pelas decisões, pelos sentimentos. 

O processo analítico, munido de sua ética-estética de re-invenção singularizante dá ao sujeito a possibilidade de retomar seu lugar de falante a partir de sua própria história sem devolvê-lo ao mesmo lugar. Não se trata de uma experiência normativa/normalizadora, mas inventiva, criativa, enunciativa. O sujeito através do analista converte sua força erótica pelo outro em força erótica pelo saber, “é por amor ao analista que é feito o convite ao desejo, mas é o saber que se estabelece objeto do laço analítico e da entrada em analise, de abertura do inconsciente. Dessa forma, a palavra é via de enunciação do sujeito desejante e da possibilidade deste se haver com seu próprio destino ou não.

A palavra é compreendida pela psicologia como unidade funcional da linguagem, assim foi tomada por Freud que, ao investigar processos psíquicos que escapavam aos métodos experimentais e à consciência percebeu nos excessos manifestos na fala de seus pacientes uma linguagem dos processos anímicos inconsciente. Foi a partir das irrupções do desejo inconsciente na fala e na palavra que Freud percebeu as saliências e movimentos do inconsciente, seu aparelho, seu funcionamento, suas manifestações.

Freud descobriu um importante dinamismo que determina a relação inconsciente entre o conteúdo que se oculta excedendo-se à consciência e o conteúdo que se evidencia de forma consciente. Se trata de uma linguagem que supera a palavra mesma e enquanto que a palavra é superada pode-se tratar de uma outra linguagem, de um sem palavras, de um sem consciência, isto se verá re afirmado em Lacan (1984) “ Da a  entender que para além  dessa palavra esta toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente”.
                                                                   Bacerra (2009)


Jacques Lacan adverte-nos uma serie de incidências a respeito da inclusão da linguagem na compreensão do que é o inconsciente. Para tanto, incita um retorno a Freud, ao inconsciente propriamente como o concebeu Freud, em seu continuo esforço de retornar ao real sentido, advertido pelo mestre. Pois, segundo Lacan, tal sentido parecia ter se perdido no decorrer da própria expansão das praticas psicanalíticas. Ao fazê-lo, Lacan estreita as relações com a lingüística, dando maiores contornos ao inconsciente estruturado pela linguagem. Ao valor da palavra e da linguagem nos processos estruturantes, como o papel da linguagem no complexo de Édipo, ou do Édipo na articulação dos registros real, simbólico e imaginário. O faz também situando a relação entre o complexo de castração e a palavra paterna, a lei do pai e a lei da cultura. Lacan também concebe importante lugar da linguagem na estruturação do eu e da corporeidade pelo psiquismo na criança, no que chamou de estádio de espelho, onde se trata de uma experiência com a imagem. Ou seja, Lacan vai distribuir no dinamismo psíquico o valor da linguagem como estruturante do sujeito do inconsciente.


A PALAVRA E A REPRESENTAÇÃO

Freud descobre que os conteúdos inconscientes operados a partir da repressão ou da ordem do reprimido são de caráter representativo, é dizer, que para cada evento traumático vivido pelo sujeito há um afeto e sua representação. Estabelece-se uma distinção entre um e outro, a representação é reprimida e o afeto é suprimido. Nas palavras de Freud (1992) não há afetos inconscientes, mas representações inconscientes, tais conteúdos de representação no inconsciente podem ser evidenciados quando pensamos o conceito de pulsão e de seus representantes, seus destinos. Uma pulsão nunca pode passar a ser objeto da consciência, só a representação como sua representante. Só a representação representa a pulsão no interior do inconsciente, se a pulsão não se adere a uma representação ou não se manifeste por um estado afetivo, pouco podia-se saber sobre elas.

Representação foi tomada por Freud inicialmente como aquilo que forma o conteúdo concreto de um ato de pensamento, da palavra alemã Vorstellung que designa “ o que um se representa” e ainda como a produção de uma percepção anterior” (Laplanche, Jean. & Pontalis, Jean-Bertrand, 1987:367). Mas Freud faz um uso diferente do termo trazendo-o para dentro do inconsciente e de sua manifestação, sobretudo na clínica das histéricas               (caso Dora, menino dos lobos, caso hans). Para Freud, uma representação é aquilo que através do objeto se inscreve  nos sistemas mnêmicos  (traços mnésicos: exper. de satisf+obj+outro= traço/repres).  Para ele representação não se trata de uma impressão que guarda apenas uma  relação  de similitude com o objeto, estando sempre amarrado com outros signos, portanto, com outras possibilidades de sentido. Vai além disso, se inscreve criando uma cadeia de significantes, Freud  traz  a idéia de representação da lingüística para dentro da lógica do inconsciente, em sua gênese,  uma espécie de relação lingüística incluída no  inconsciente, sobretudo com a idéia que ademais do inconsciente só há puras representações.  

Já Lacan sublinha “o que adere a realidade é a estrutura do signo”, pois como enuncia Freud, é sempre um signo ligado a outros, por isso, sua apreensão  é possível a partir dos atos de fala ( lapsos, chistes, atos falidos, relatos dos sonhos) evidenciando uma associação de elementos que logram simbolizar o inconsciente, por outra parte o significante (imagem acústica) cobra sentido em sua relação com o significado, que é a idéia que se tem do objeto, e este por sua vez pede sentido ao significante, existindo uma relação recíproca entre eles, uma relação econômica do ponto de vista do psiquismo.

Assim a palavra muito mais que a materialidade do som ou coisa puramente física trata-se da imagem acústica como significante, com caráter psíquico, como testemunho de nosso sentidos, assim, imagem acústica e representação se articulam, uma em processos conscientes e outra a nível inconsciente.

Se observa entonces, algunos puntos en común y de divergencia, como es el caso de que los dos son de carácter psíquico, sin embargo, mientras uno advierte un elemento psíquico inconsciente, el otro uno psíquico consciente, pues, la representación en Freud da muestra de aquello que del objeto se inscribe en el sistema mnémico, como un contenido reprimido,  inconsciente.
                                                                   Bacerra (2009)


Freud desconhecia os postulados da lingüística de Saussure, embora podemos constatar certas aproximações posteriores, deve-se considerar que trata-se de um olhar sobre a relação entre psicanálise e linguagem, de como estas duas disciplinas passaram a ressoar uma com a outra, tencionando conceitos, autores e lugares teóricos.

A relação proposta entre inconsciente e linguagem tornou a palavra objeto de dois saberes distintos inicialmente, devendo tanto um como o outro ser incorporada por ambas as disciplinas.

Sabe-se que o advento da Psicanalise provocou um amplo debate na época, revisando conceitos, teorias e abordagens. No cerne desse debate estava a questão da linguagem, do signo, da palavra, do sujeito como sujeito da linguagem. Nesse sentido,  a obra de Lacan  parece conter alguns pontos importantes segundo  Fabian Bacerra (2009).

Lacan establece un revés del signo lingüístico, enunciando la primacía del significante sobre el significado, como elemento que se inscribe en lo inconsciente, determinando el estatuto del sujeto como sujeto del lenguaje, pues, al respecto Lacan (1985) reafirma diciendo: “El inconsciente, a partir de Freud, es una cadena de significantes que en algún sitio, se repite e insiste para interferir en los cortes que le ofrece el discurso efectivo y la cogitación que él informa.” (p.779).
                                                                   Bacerra (2009)

A PALAVRA E OS SONHOS

Sabe-se da importância  dos estudos sobre os sonhos para a psicanálise, foi através dos sonhos que Freud descobriu os mecanismos que regem o funcionamento  do inconsciente, sobretudo os mecanismos de condensação e de deslocamento de material psíquico, da pulsão e seus representantes. Sabe-se que no sonho há uma distinção entre o conteúdo do sonho e o pensamento do sonho, isto é entre o que é latente e o que esta manifesto. “Pensamiento del sueño y contenido del sueño se nos presentan como dos figuraciones del mismo contenido en dos lenguajes diferentes.” (Freud, 1901:285).

A partir dessa distinção entre o latente e o manifesto nos sonhos e diante da conhecida proposta analítica de interpretação dos sonhos como um dos elementos mais notáveis da experiência psicanalítica do sujeito do inconsciente, podemos encontrar-nos de novo com a linguagem e  a palavra em psicanalise.Isto é, com seus diferentes registros no sujeito. Ou seja, de que há um aquém da palavra, de um sem palavras que pode vir à tona como um acidente no discurso do sujeito falante. De que há duas linguagens articuladas que podem se desencontrar, ou se re-encontrarem. O sonho e  suas imagens desconexas, aleatórias, impressionantes e fantásticas, sem barreiras, possuem para a psicanálise o valor de mensageiros de uma linguagem que ainda não veio á tona pela via da palavra.

Para Freud, o conteúdo do sonho carece de sentido, sua imagem pouco pode trazer sobre conteúdos inconscientes. Estes, só serão válidos quando o sujeito sonhante se pôe a falar sobre o seu sonho em um processo de analise. Não se trata de interpretar as imagens do sonho, elas por si só, são estéreis, carecem de sentido. Já as palavras que tentam preencher esse vazio de sentido implicam outra parte do trabalho do sujeito sobre si. É trabalho para o sujeito  interrogar-se quanto ao conteúdo de seus sonhos, trata-se de simbolizar a imagem. Ao fazê-lo, o sujeito aceita o convite do desejo e com ele pode flertar aquilo que irrompe do reprimido e esta entrelaçado ao sintoma e  a queixa, a sua dor.  

Todos nós sonhamos cotidianamente, pouco damos de importância a eles, isso quando aparentemente tudo vai bem, do ponto de vista  psíquico. Mas é interessante quando pensamos na hipótese de  que fazemos sonhos, as vezes, em algumas situações ou momentos na vida que parecemos fabricar sonhos que estão inteiramente relacionados ao que vivemos quando acordados. O sonho parece nos comunicar  de algo que esta  debaixo de  grossas camadas de contenção, grossas camadas de representações que parecem estar em processo de falência ou de transformação, que parecem vacilar diante do reprimido. O sonho carece da palavra acordada, portanto é preciso que tomemos um exemplo, um campo de acontecimentos na vida de um sujeito, onde o sonho assume esse papel de mensageiro de um aquém da palavra.

Nesse sentido, podemos mencionar  os sonhos somáticos, isto é, os sonhos para aqueles que estão acometidos por alguma enfermidade ou ameaça de um agravamento propriamente orgânico, do real do corpo. Para esses, os sonhos parecem falar de certa verdade do corpo, parece dizer algo do corpo que ainda não o atravessou, no que há de real do corpo, isto é, sua organicidade. Mas antecipa a necessidade de escutá-lo naquilo que ele tem de mais silenciado, pois há em muitos casos, um corpo silenciado, um corpo que possui sua corporeidade inerte, silenciosa. Dessa forma o sonho parece irromper-se quando as defesas dormem, vacilam. Parecem trazer à tona através da imagem algo da ordem da denuncia, da delatação, algo da ordem do desejo, que pode ou não impor-se como um trabalho psíquico para o sujeito. De qualquer forma, trata-se de certa comunicação, de certa via que carece de sentido, e que esse sentido só o sujeito pode atribuir. Os sonhos possuem algo de comunicativo, portanto de uma linguagem.

Por tanto, el sueño advierte elementos del lenguaje, simplemente por el hecho de tratarse de elementos mediados por representaciones simbólicas donde se evidencia el deseo, pues, hay que recordar que los sueños son la manifestación de éstos. 
                                                               Bacerra (2009)

Para ir encerrando, até aqui, um assunto quase inesgotável, devemos entender a partir dos postulados de  Jacques Lacan e a importância que deu aos sonhos em uma releitura de Freud sobre o valor da palavra. Lacan concebe o inconsciente como linguagem através dos estudos sobre os sonhos. Como vimos, o sonho possui um conteúdo manifesto e outro latente, e que possui certo valor de mensageiro.
Nos sonhos, o conteúdo manifesto é na realidade um disfarce do conteúdo real, ou seja, as manifestações psíquicas possuem em comum a faculdade de significar outra coisa do que significam imediatamente. Portanto, é justa a idéia de que o sonho é um discurso disfarçado, encoberto, condensado, deslocado, que o sujeito não logra decifrar senão com a ajuda de um processo associativo que se dá pela palavra. Lacan concebe  importância  às características da linguagem que possuem os sonhos, estabelecendo uma analogia a partir dos mecanismos de condensação e de deslocamento com os da metáfora e da metonímia, próprios da lingüística.
Com isso, pode-se concluir que, no inconsciente ocorrem uma serie de  sistemas de representações, e este sistema alude  uma ordem ou organização sobre uma relação de signos que determinam tal conteúdo composto de representações. Sendo desta maneira uma relação de linguagem no inconsciente, onde estes conteudos se manifestam como uma especie de mensagem a descifrar, devido ao fato de que, no sonho se adverte o particular no signo, na imagen, na cena, como um elemento onde se condensan e se deslocam varios sentidos devido  se encontrarem imersos em uma linguagem inconsciente, em uma linguagem feita de representações, de representantes da pulsão e outra linguagem feita de palavras. Freud interpela de entrada o sonho em referencia a um sistema de elementos significantes análogos aos elementos significantes da linguagem. Desde Freud podemos pensar em uma relação coextensiva entre o sistema ou estrutura do inconsciente com o sistema ou estrutura da linguagem, assemelhando-se a determinação lingüística do termo.


BIBLIOGRAFIA

ALGUNAS CONSIDERACIONES ACERCA DEL LENGUAJE EN EL PSICOANÁLISIS: Fabián Becerra,Psicólogo, Universidad Autónoma de Bucaramanga (UNAB). Fundador y miembro del semillero de investigación: Sujeto y Psicoanálisis, de la UNAB. Estudiante de Filosofía de la Universidad Industrial de Santander.Correo electrónicofabian.bfuquen@gmail.com Ciudad: Bucaramanga - Colombia.
Dor, Joël. (2000). Introducción a la lectura de Lacan. El inconsciente estructurado como un lenguaje. Barcelona, España: Gedisa editorial.
Freud, Sigmund. (1991). Interpretación de los sueños (1900). En: Obras completas. Vol. 4. Buenos Aires, Argentina: Amorrortu  editores.
Freud, Sigmund. (1992a). Justificación del concepto de lo inconsciente.  [Lo inconsciente (1915)]. En: Obras completas. Vol. 14. (1914-16). Buenos Aires, Argentina: Amorrortu  editores.
Freud, Sigmund. (1992b). Sentimientos inconscientes. [Lo inconsciente (1915)]. En: Obras completas. Vol. 14. (1914-16). Buenos Aires, Argentina: Amorrortu  editores.