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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

INSÔNIA E DEPRESSÃO

Por Jéssica Fernanda

Atualmente, diante das demandas sociais cada vez mais estressantes, vem tornando-se mais comum a ocorrência de transtornos do sono, assim como de transtornos psicológicos. Dentre as causas mais citadas pelos indivíduos, encontram-se a insônia como distúrbio mais prevalente na vida diária dos sujeitos, a qual ocasiona um prejuízo considerável na qualidade de vida destes indivíduos insones.

O sono considerado normal e reparador, geralmente segue um padrão de estágios ou fases. As duas principais fases do sono são: REM ( Rapid Eye Moviments – movimentos oculares rápidos) e NREM (movimentos oculares não rápidos). O sono NREM é composto de quatro estágios, cada um sendo progressivamente mais profundo.

O sono normal é cíclico, em condições normais um indivíduo inicia o sono pelo estágio I do sono NREM, com um tempo de latência (quantidade de tempo necessária para adormecer) aproximada de 10 minutos. Após alguns minutos no estágio NREM – I, há a passagem do indivíduo para o estágio NREM – II, em que se torna mais difícil o despertar. Após 30 a 60 minutos, instala-se o sono de ondas lentas, os estágios III e IV do sono NREM. Passados em média 90 minutos acontece o primeiro sono REM, que dura no início da noite aproximadamente 5 a 10 minutos, completando-se assim o ciclo REM – NREM do sono noturno. Deste modo, diariamente cumpre-se em média 5 a 6 ciclos de sono NREM-REM durante uma noite de 8 horas de sono (FERNANDES, 2006).

A insônia pode ser definida como uma dificuldade em iniciar e/ou manter o sono, presença de sono não reparador, ou seja, insuficiente para manter uma boa qualidade de alerta e bem-estar físico e mental durante o dia, com o comprometimento consequente no desempenho nas atividades diurnas (TUFIK org. on-line 2003).

De acordo com Muller e Guimarães (2007) o sono desempenha importante papel na consolidação da memória, da conservação e restauração de energia e da restauração do metabolismo energético cerebral. Devido a estas importantes funções biológicas, os transtornos do sono podem comprometer significativamente o funcionamento físico, cognitivo e social do indivíduo, além de afetar a qualidade de vida do mesmo.

INSÔNIA EM INDIVÍDUOS DEPRESSIVOS

Para Chelappa (2010) o transtorno do sono mais comumente encontrado no transtorno depressivo é a insônia, com consequências diurnas como irritabilidade, deficit de concentração, de memória e Sonolência Excessiva Diurna (SED).

Ainda conforme Chelappa e Araújo (2006) a partir de investigações do padrão eletroencefalográfico do sono de sujeitos depressivos notaram-se diversas alterações. Dentre estas alterações, a mais evidente é a diminuição do tempo total do sono. Esta redução é decorrente do aumento da latência do sono, pelo aumento da vigília noturna e pelo despertar precoce.

Para estes autores, a comparação de estudos de neuroimagem em indivíduos sadios e em indivíduos depressivos, é extremamente relevante. Estes estudos demonstram que em indivíduos sadios há uma drástica redução das atividades corticais envolvidas com a vigília durante o período de sono N-REM. Já em pacientes depressivos, há uma incapacidade em reduzir estas atividades corticais, principalmente as corticais frontais, o que resulta em alterações do sono, queixas de sono não restaurador e sonolência diurna.

Cerca de 80% dos pacientes diagnosticados com depressão, relatam sofrer alterações significativas no sono. Em estudos epidemiológicos, a insônia encontra-se como um importante preditor no aumento de risco de transtorno depressivo no seguimento de um a três anos. Além disso, a persistência desta é associada ao aparecimento de um novo episódio depressivo (LUCCHESI et al., 2005).

Entre alguns estudos existentes acerca do tema em questão, apresenta-se o modelo de hiperativação do eixo Hipotálamo-Pituitária-Adrenal (HPA), o qual desregula-se a partir dos altos índices de produção de cortisol. Este, por sua vez, desempenha um papel fundamental no aumento da atividade do sistema nervoso simpático mediante a situações de stress (SARAIVA; FORTUNATO; GAVINA, 2005).

Diante de tais pesquisas, encontram-se dados de que pacientes acometidos pelo transtorno depressivo apresentam concentrações elevadas de cortisol na urina, no plasma e no líquido céfalorraquidiano. O excesso de cortisol presente no organismo destes pacientes, aumentam considerávelmente os sintomas afetivos presentes na depressão (humor depressivo, anedonia, anergia, e outros.) (SARAIVA; FORTUNATO; GAVINA, 2005).

Segundo Palma et al. (2007) a internalização de sentimentos como o stress, pode causar uma ativação psicológica ou fisiológica resultando na insônia. Alguns estudos propõe que a atividade intensificada do eixo HPA produz a fragmentação do sono, que, por sua vez, eleva os níveis circulantes de cortisol. Deste modo, esta hiperatividade exacerba a vigilância e tem impacto negativo sobre o sono, formando assim um círculo vicioso em que a dificuldade para dormir se torna o próprio fator estressante.

Segundo Silber (apud DALGALARRONDO, 2008) a insônia caracteriza-se pela dificuldade em adormecer, pela dificuldade em permanecer adormecido, despertar muito precoce, acordando de madrugada e não conseguindo voltar a dormir.

De acordo com Dalgalarrondo (2008) a insônia inicial e/ou o sono entrecortado (dificuldade em permanecer adormecido), geralmente ocorrem associados a casos de ansiedade aguda ou crônica, tensão ou preocupação excessiva ou depressão. Já a insônia terminal, associa-se frequentemente a quadros depressivos.

O distúrbio do sono nos quadros depressivos apresenta características que fazem parte dos critérios diagnósticos de depressão, como: dificuldade para dormir, alterações da continuidade de sono e despertar precoce, sono leve, interrompido e agitado (PRIMO, s.d.), para este autor, as anormalidades polissonográficas mais encontrados em sujeitos depressivos são: ruptura dos padrões de sono, diminuição do tempo total de sono, latência diminuída para o sono REM e sono NREM diminuído.

Segundo Poyares e Tufik (2003) a insônia quando relacionada aos transtornos do humor, acarretam uma diminuição na latência do REM e despertares precoces durante a manhã.

Conforme o DSM IV (BRASIL, 2003) a insônia relacionada a outro transtorno mental é caracterizada por uma queixa de dificuldade para adormecer, frequentes despertares durante a noite, ou uma sensação acentuada de sono não reparador que dura pelo menos 1 mês, e está associada a fadiga diurna ou funcionamento diurno prejudicado.

Os distúrbios do sono são aspectos comuns de outros transtornos mentais. Um diagnóstico adicional de insônia relacionada a outros transtornos mentais só é feito quando o distúrbio do sono é uma queixa predominante, suficientemente grave

a ponto de indicar atenção clínica independente. Os indivíduos com transtorno depressivo maior geralmente se queixam de dificuldades para conciliar e manter o sono ou de um despertar nas primeiras horas da manhã, com incapacidade de voltar a dormir (BRASIL, DSM IV, 2003).

Contudo estudos epidemiológicos indicam que a insônia é o distúrbio do sono com ocorrência mais frequente na população geral. De acordo com Robaina et al. (2009) a insônia está sendo reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um problema de saúde pública, frente aos prejuízos causados por ela nos indivíduos.

De acordo com Souza e Reimão (2004), os transtornos do sono estão entre os distúrbios clínicos com maior impacto de saúde e socioeconômico. Apresentam grande frequência assim como asma e diabete; porém, poucos são diagnosticados e tratados adequadamente.

Segundo Dalgalarrondo (2008) estima-se que no Brasil 10 a 40% das pessoas apresentam queixas de insônia, sendo 5% destas queixas, de insônia crônica.

Sendo assim para Vgontzas e Kales (apud SOUZA; REIMÃO, 2004) os distúrbios do sono são muito prevalentes entre a população e a insônia é o mais comum,e, quando crônica, geralmente reflete distúrbios psicológicos e/ou comportamentais.

Conforme o DSM IV (2003) a ocorrência dos transtornos do sono relacionado a outro transtorno mental são mais predominantes em mulheres, o que provavelmente se relaciona com a maior prevalência dos transtornos do humor e da ansiedade neste grupo.

Pois como afirma Poyares e Tufik (2003) a prevalência da insônia varia de 30 a 50% na população. Já a prevalência de insônia crônica é de 10%. São considerados fatores de risco para a insônia: o sexo feminino, o envelhecimento, a ocorrência de transtornos mentais ou de doenças clínicas e trabalhos em turnos alterados ou não habituais.

Diante o exposto pode-se notar que a insônia além de acarretar grandes prejuízos aos sujeitos acometidos também apresenta um índice de ocorrência alarmante. Conforme citado acima, este distúrbio do sono está tornando-se a cada dia mais frequente entre a população alcançando patamares de um problema de saúde pública.

A insônia como sintoma das patologias mentais, além de causar prejuízos sociais, profissionais e cognitivos aos sujeitos acometidos, também ocasiona um declínio considerável na qualidade de vida destes indivíduos, inclusive aumentando o risco de acidentes domésticos, no trabalho e no trânsito.

Verifica-se nos estudos realizados acerca da insônia uma falta de uniformidade em suas linhas de pesquisa, o que ocasiona uma ampla variabilidade dos dados epidemiológicos encontrados. A esta variabilidade de dados atribui-se os critérios de definição de insônia, a escolha da amostragem, a faixa etária e a amplitude das respostas coletadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM IV. Trad. Claudia Dornelles. 4.ed. Texto revisado. São Paulo: Artmed,2003.

CHELLAPPA, Sarah Laxhmi. Sonolência excessiva diurna e depressão: causas, implicações clínicas e manejo terapêutico. Disponível em:

< http://www.scielo.br/pdf/rprs/v31n3s0/v31n3a01s1.pdf>. Acesso em: 24 de abr. 2011.

CHELLAPPA, Sarah Laxhmi; ARAÚJO, John Fontenele. O sono e os transtornos do sono na depressão. Disponível em:

< http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34n6/v34n6a05.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2011.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.

FERNANDES, Regina Maria França. O sono normal. Medicina (Ribeirão Preto) 2006; 39 (2): 157-168. Disponível em:

< http://www.fmrp.usp.br/revista/2006/vol39n2/1_o_sono_normal1.pdf>. Acesso em: 13 mar. 2011.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 3. ed. São Paulo : Atlas, 1991.

LUCCHESI, Ligia Mendonça et al . O sono em transtornos psiquiátricos. Rev Bras. Psiquiatria 2005;vol. 27; 27-32. Disponível em:

< http://www.scielo.br/pdf/rbp/v27s1/24473.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2011.

MULLER, Mônica Rocha; GUIMARÃES, Suely Sales. Impacto dos transtornos do sono sobre o funcionamento diário e a qualidade de vida. Disponível em:

< http://portalsaudebrasil.com/artigospsb/medic020.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2011.

PALMA, Beatriz Duarte et al. Repercussões imunológicas dos distúrbios do sono: o Heixo hipotálamo-pituitária-adrenal como fator modulador. Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Disponível em:

< http://www.scielo.br/pdf/rbp/v29s1/a07v20s1.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2011.

PRIMO, Pedro Carlos. Insônia nas pessoas ansiosas e depressivas. Disponível em:

< http://www.institutotelepsi.med.br/Links_imagens/ainsonia.htm> Acesso em: 13 mar. 2011.

POYARES, Dalva; TUFIK, Sérgio (coord). I Consenso Brasileiro de Insônia. Hypnos – Journal of Clinical and Experimental Sleep Research 4 (Supl 2), p. 9-18, out. 2003.

ROBAINA, Jaqueline R. Et al. Stressfull life events and insomnia complaints among nursing assistants from a university hospital in Rio de Janeiro: The Pro-saude study. Rev. Bras. Epidemiol. Vol. 12, n. 3. São Paulo: setembro de 2009. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415-790X2009000300018&script=sci_arttext&tlng=en>. Acesso em: 13 mar 2011.

SARAIVA, Eduardo Marinho; FORTUNATO, J.M. Soares; GAVINA, Cristina. Oscilações de cortisol na depressão e sono/vigília. Rev Portuguesa de Psicossomática 2005; vol. 07, p. 89-100. Disponível em:

< http://redalyc.uaemex.mx/pdf/287/28770207.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2011.

SOUZA, José Carlos; REIMÃO, Rubens. Epidemiologia da Insônia. Psicologia em estudo, Maringá, v. 9, n. 1, p. 3-7, 2004. Disponível em:

< http://www.scielo.br/pdf/pe/v9n1/v9n1a02.pdf>. Acesso em: 13 mar. 2011.

OBRA CONSULTADA

LAMBERT, Kelly; KINSLEY, Craig Howard. Neurociência Clínica. Trad. Ronaldo Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2006.

terça-feira, 26 de junho de 2012

ALTAS HABILIDADES E SUPERDOTAÇÃO


Por Jéssica Fernanda


As altas habilidades são caracterizadas como uma potencialidade intelectual elevada com domínios multidimensionais, que se concretizam durante o desenvolvimento dos sujeitos diferenciando-o intelectualmente dos demais (SASTRE, 2008; SASTRE, 2011; ANTUNES, 2008; PINTO & FLEITH, 2004)

O indivíduo superdotado caracteriza-se pelo desempenho superior a de seus pares em uma ou mais das seguintes áreas: acadêmica, motora ou artística, criatividade e liderança (CUPERTINO, 2008).

A definição de superdotação que consta nas diretrizes gerais para o atendimento educacional dos alunos superdotados e talentosos (Ministério da educação, 2005) e que é adotado por alguns programas brasileiros, considera crianças superdotadas e talentosas as que apresentam notável desempenho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual superior, aptidão acadêmica específica; pensamento criador ou produtivo; capacidade de liderança, talento especial para artes visuais, artes dramáticas e música e capacidade psicomotora.

Os estudos acerca das altas habilidades e superdotação adotam concepções diferenciadas. Inicialmente estavam relacionados à inteligência, campo estritamente genético (Passos & Barbosa, 2011). Os primeiros estudos investigando a inteligência tiveram início com Galton, em 1969, quando publicou “A hereditariedade do gênio”, demonstrando que as habilidades do homem são herdadas assim como os traços físicos (Simonetti, 2008 apud Passos & Barbosa, 2001).

Kaufman e Stenberg (2008) propõem que a caracterização de um indivíduo com altas habilidades deve ser baseada num conjunto de critérios. Estes autores abordam a existência de diversas concepções ao longo do tempo, as quais os mesmos dividem em: modelos de domínio geral; modelos de domínio específico; modelos sistêmicos; e modelos desenvolvimentais.

Stenberg (1993) desenvolveu a Teoria Pentagonal da Superdotação. Nesta, define cinco critérios a considerar na definição de uma pessoa superdotada, ou seja, a excelência (superioridade numa dimensão, ou em várias dimensões, em relação aos colegas), a raridade (presença de um atributo excelente não frequente), a produtividade (demonstrar potencial produtivo ou real), a demonstrabilidade (a superioridade deve ser demonstrada através de provas fiáveis) e a valoração (o rendimento superior deve acontecer num domínio valorizado individual e socialmente (ANTUNES, 2008; SASTRE 2011).

O modelo teórico de Renzulli (ANTUNES, 2008) define a superdotação como: superdotação escolar, relacionada com os resultados encontrados nos testes de QI e de aptidões ou relacionada com a aprendizagem escolar; e a superdotação criativo-produtiva. Neste modelo a superdotação é definida em função de três domínios, são estes: habilidade acima da média; motivação e criatividade, dando origem ao que se chama de “teoria dos três anéis”.

Conforme um estudo realizado por Sastre (2008) os indivíduos superdotados apresentam características peculiares, estes são considerados um produto da contínua interação entre fatores neurobiológicos, motivacionais e ambientais

Há também uma diferenciação entre indivíduos superdotados, talentosos e gênios (SASTRE,2008; ANTUNES, 2008; SASTRE 2012) onde superdotados demonstram perfil global de inteligência com percentis maiores que 75; talentosos apresentam habilidades intelectuais podendo ser simples (ex.: criatividade), ou múltiplas (habilidades lógicas criativas e verbais) com percentis maiores que 90; e sujeitos considerados gênios, sempre tendo uma capacidade intelectual elevada aliada a uma alta produtividade.

Acerca do funcionamento cognitivo dos sujeitos com altas habilidades, pode-se caracterizar as seguintes capacidades intelectuais: maior capacidade de resolução de problemas complexos; uso de estratégias mais completas e adequadas a determinadas tarefas e situações; compreensão global de problemas; maior dedicação ao planejamento na resolução de problemas discrimando informações relevantes e irrelevantes; maior facilidade em visualizar novas estratégias (SASTRE, 2008 p. 06).

Observa-se dentre os estudos sobre altas habilidades uma vasta conceituação do tema, abordada por diferentes abordagens e diferentes pontos de vista. Dentre as abordagens mais atuais encontram-se estudos relacionando as altas habilidades não só a fatores genéticos, mas também a fatores neurobiológicos, os quais se potencializariam com os estímulos ambientais.

Conforme estudos de Mrazik & Dombrowski (2010) há uma tendência no envolvimento do hemisfério direito nos aspectos cognitivos dos indivíduos superdotados. Ainda conforme os autores supracitados crianças superdotadas e com habilidades matemáticas e musicais apresentam uma bilateralidade hemisférica e também uma simetria nos usos das funções cognitivas (participação dos 2 hemisférios nos processos cognitivos).

O Hemisfério direito parece estar categoricamente mais envolvido em processos que em indivíduos com inteligência normal são atribuídos ao hemisfério esquerdo. Em um estudo realizado com estudantes com altas habilidades coreanos, comparando os padrões eletroencefalográficos com jovens estudantes com inteligência normal, mostraram que o hemisfério direito é dominante na alocação de funções corticais em indivíduos superdotados.

Estes estudos apontam uma consistência em pesquisas que relacionam uma assimetria frontal, maior atividade do córtex direito em sujeitos superdotados, sendo assim este podendo se caracterizar como um marcador fisiológico da superdotação.

Um estudo realizado por O’Boyle (2005) nos EUA, submeteu indivíduos normais e superdotados a FMRI (Functional magnetic resonance imaging – ressonância magnética) para analisar os padrões de ativações cerebrais destes sujeitos. Esta pesquisa revelou uma ativação de regiões como o córtex pré-frontal; cingulado anterior e regiões parietais posteriores, as quais encontram-se relacionadas com atividades que demandam maior carga de raciocínio. No entanto este estudo revelou que indivíduos superdotados não têm uma estrutura cerebral diferenciada, mas sim interconexões cerebrais mais fortes do que indivíduos com padrões de inteligência normal, corroborando assim com estudos que sustentam a teoria de que superdotados tem “esquemas” cerebrais mais sofisticados que se tornam ativos em tarefas cognitivas de alto nível.

Um estudo realizado por Klingberg (2002), comparando a ativação cerebral de sujeitos superdotados, utilizando como critério a faixa etária, submeteu crianças de 9 anos e adolescentes mais velhos ao FMRI, os resultado apontaram uma maior ativação de regiões parietais, porém com o aumento da idade vai ocorrendo um menor envolvimento das funções do córtex pré frontal nos aspectos cognitivos destes indivíduos.

Um atributo exclusivo dos indivíduos com altas habilidades é a criatividade, estes sujeitos conseguem olhar para determinadas situações por perspectivas diferentes, autores como Carson et al. (2003) relacionam esta capacidade a um rebaixamento das funções inibitórias. O córtex pré frontal é responsável pelo controle inibitório, função esta que encontra-se visivelmente diminuída em indivíduos superdotados, o que os faz ficarem livres das restrições típicas do raciocínio.

De certo modo esta capacidade singular dos indivíduos com altas habilidades pode estar relacionada com a habilidade que os mesmos apresentam em perseverar em suas tarefas e melhorar a sua performance em tal atividade, o que relaciona-se com o menor envolvimento do córtex pré-frontal e um maior envolvimento de áreas parietais (Mrazik & Dombrowski, 2010).


HIPÓTESE PRÉ-NATAL PROPOSTA POR MARTIN MRAZIK & STEFAN C. DOMBROWSKI (2010)

Estes autores propõem que uma interrupção microscópica dos processos cerebrais durante o desenvolvimento fetal: como proliferação neuronal; migração; mielinização e apoptose, possa estar intimamente relacionada com os aspectos da superdotação.

Considerando uma proliferação neuronal reforçada em certas partes do córtex; Apoptose (poda neuronal) não ocorrer em determinadas partes do cérebro; ou uma migração desordenada de neurônios que deveriam ir para áreas de linguagem irem para áreas parietais, por exemplo, que encontram-se relacionadas com habilidades matemáticas, raciocínio visuo-espacial e musical, explicariam a atividade aumentada nos lobos parietais de indivíduos com altas habilidades.

Desta forma, este redirecionamento da migração neuronal pode ser a explicação para os problemas de linguagem frequentemente encontrados em indivíduos com altas habilidades, como dislexia por exemplo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Alexander, J. E., O'Boyle, M. W. and Benbow, C. P. 1996. Developmentally advanced EEG alpha power in gifted male and female adolescents. International Journal of Psychophysiology: Official Journal of the International Organization of Psychophysiology, 23(1/ 2): 25–31.

  1.  Carson, S. H., Peterson, J. B. and Higgins, D. M. 2003. Decreased latent inhibition is associated with increased creative achievement in high-functioning individuals. Journal of Personality and Social Psychology, 85: 499–506.

  1. Klingberg, T., Forssberg, H. and Westerberg, H. 2002. Increased brain activity in frontal and parietal cortex underlies the development of visuospatial working memory capacity during childhood. Journal of Cognitive Neuroscience, 14(1): 1–10.

  1. Mrazik M, Dombrowski SC. 2010. The neurological foundations of giftedness. Roeper Review; 32: 224-34

  1. Sastre S.R. 2008. Niños con altas capacidades y su funcionamiento cognitivo diferencial. Rev. Neurología, 46 (supl 1): p. 11 – 16.

  1. Sastre S.R. 2011. Funcionamiento metacognitivo en niños con altas capacidades. Rev. Neurología – neurodesarrolo, 52 (supl 1) p. 11-18.

  1. Sastre S.R. 2012. Alta capacidad intelectual: perfeccionismo y regulación
            Metacognitiva. Rev. Neurología - Neurodesarrollo y dificultades del aprendizaje, 54        (supl 1) p. 21-29.

  1. PINTO R.R.M.; FLEITH D.S. 2004. Avaliação das práticas educacionais de um programa de atendimento a alunos superdotados e talentosos. Rev. Psicologia escolar e educacional. Vol 8, num. 1; p. 55-66.

  1. ANTUNES A.M.P. 2008. O apoio psico-educativo a alunos com altas habilidades: Um programa de enriquecimento numa escola inclusiva. Tese de doutorado. Disponível em: < http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/8817/1/Tese%20de%20Ana%20Maria%20Pereira%20Antunes.pdf>. Acesso em: 05 Mar. 2012.

  1.  Kaufman, S. B. & Sternberg, R. J. (2008). Conceptions of giftedness. Em S. I. Pfeiffer (Ed.). Handbook of giftedness in children (pp. 71-91). Tallahassee, FL: Springer.

  1.  Sternberg, R. J.1993. Procedures for identifying intellectual potential in the gifted: A perspective on alternative “Metaphors of Mind”. In K. Heller, F. Mönks, & A. H. Passow (Eds.), International handbook of research and development of giftedness and talent (pp. 185-208). Oxford: Pergamon Press.

  1.  PASSOS C.S.; BARBOSA A.J.G. 2011. Características de superdotação em um par de gêmeos monozigóticos. Rev. Psico-USF, vol.16, num. 03. Set/dez, p. 317-326.

  1.  Um olhar para as altas habilidades: construindo caminhos. Secretaria da Educação, CENP/CAPE; organização, Christina Menna Barreto Cupertino. – São Paulo : FDE, 2008.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

VOCÊ CONHECE A NEUROPSICOLOGIA?


NEUROPSICOLOGIA
Por Jéssica Fernanda


A neuropsicologia é um ramo da psicologia que se interessa pelo estudo da relação entre cérebro e comportamento (LURIA, 1981). Talvez esta seja a definição mais utilizada pelos autores atualmente e possivelmente a que mais se aproxime do que vem a ser este campo de estudo.

O termo neuropsicologia foi utilizado pela primeira vez em 1913 em uma conferência proferida por Sir William Osler, nos Estados Unidos. Apareceu ainda como um subtítulo na obra de 1949 de Donald Hebb chamada “The Organization of Behavior: A Neuropsychological Theory.” (KRISTENSEN, ALMEIDA e GOMES, 2001).

Inicialmente os estudos da neuropsicologia estavam voltados mais para as conseqüências comportamentais e cognitivas ocasionadas por lesões cerebrais mais específicas (PORTELLANO, 2005). No entanto, hoje em seus estudos a neuropsicologia busca investigar as funções cerebrais superiores inferidas a partir do comportamento cognitivo, motor, sensorial, emocional e social dos indivíduos (COSTA et al., 2004).

Ainda conforme Costa et al. (2004) propõe-se que é a partir do conhecimento do desenvolvimento normal do cérebro que se pode compreender suas alterações, como: disfunções cognitivas e comportamentais resultantes de lesões, doenças ou desenvolvimento anormal do cérebro.

Como área específica de estudo, a neuropsicologia tem um caráter relativamente recente, embora sua fundamentação científica venha de várias décadas de estudos e investigações (KRISTENSEN, ALMEIDA e GOMES, 2001).

Entretanto, o reconhecimento formal da neuropsicologia no Brasil só veio em 2004, com a resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que passou a regulamentar esta especialidade aos psicólogos (Resolução 02/2004)

A resolução 02/2004 (CFP) propõe que a atuação do neuropsicólogo deve ser pautada no acompanhento, no tratamento e na pesquisa da cognição, das emoções, da personalidade e do comportamento sob o enfoque da relação entre estes aspectos e o funcionamento cerebral.
           

FUNÇÕES E AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA

De acordo com Ambrózio et al. (s.d.) a avaliação neuropsicológica busca investigar quais são as funções neuropsicológicas que estão envolvidas em processos cerebrais mais complexos.

A avaliação neuropsicológica é considerada procedimento fundamental, por exemplo, no diagnóstico diferencial de demências, na investigação da natureza, grau e extensão de diversos quadros neurológicos, bem como para o planejamento de intervenções direcionadas aos déficits cognitivos e comportamentais identificados no processo de avaliação (MIOTTO, 2007).

Deste modo faz-se necessário o conhecimento de quais são estas funções avaliadas pela neuropsicologia, o que elas compreendem e a que estão relacionadas.
            
Segue-se abaixo uma breve descrição das funções cognitivas investigadas em uma avaliação neuropsicológica:



AMBROZIO et al. (s.d.)
            

A investigação destas funções permite a visualização das dificuldades e potencialidades dos pacientes. Os resultados desta, geralmente são descritos através de um check list, que consiste na descrição das funções cognitivas avaliadas.
            
Dentre as práticas da neuropsicologia a avaliação neuropsicológica consiste em apenas um dos campos de atuação. Esta, também conta com campos como a reabilitação neuropsicológica e as áreas de pesquisas, as quais encontram-se também em pleno desenvolvimento.
            
Atualmente os desafios da neuropsicologia no país é expandir seu campo de atuação em diversos Estados e realizar pesquisas, contribuindo assim com o avanço desta área em âmbito nacional e internacional.
            
Deste modo, finalizo com a frase de uma importante Neuropsicóloga que propõe: “O futuro da neuropsicologia no Brasil dependerá em grande parte da capacidade, dedicação e eficiência dos novos profissionais que se especializarão neste campo” - Eliane Correa Miotto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COSTA, D. I., Azambuja, L. S., PORTUGUEZ, M. W. et al. (2004), Avaliação
neuropsicológica da criança. Jornal de Pediatria, 80 (4), p.111-116.

KRISTENSEN, C.H.; ALMEIDA, R.M.M.; GOMES, W.B. (2001). Desenvolvimento Histórico e Fundamentos Metodológicos da Neuropsicologia Cognitiva. Psicologia: Reflexão e Crítica, 14(2), p. 259-274.

AMBRÓZIO, C.; RIECHI, T.; BRITES M.; JAMUS, D.; PETRI, C.; ROSA, T; FAJARDO, D. Neuropsicologia teoria e prática. Disponível em: < http://www.proec.ufpr.br/enec2005/download/pdf/SA%DADE/PDF%20SAUDE/45%20-%20NEUROPSICOLOGIA%20TEORIA%20E%20PR%C1TICA%20-%20rev.pdf>. Acesso em: 21 de maio de 2012.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução 02/2004. Disponível em: < http://www.crp11.org.br/legislacao/resolucoes/federais/2004/resolucao2004_2.pdf>. Acesso em: 21 de maio de 2012.

PORTELLANO, J.A. Introducíon a la neuropsicología. MCGRAW-HILL/INTERAMERICANA DE ESPAÑA, S. A. U, Madrid: 2005.

MIOTTO, E.C.; LUCIA, M.C.S.; SCAFF, M. (Organizadores). Neuropsicologia e as interfaces com a Neurociência. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.

LURIA, A.R., (1981), Fundamentos de Neuropsicologia, São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo.