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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

SAÚDE MENTAL E ATENÇÃO PSICOSSOCIAL


Por Hudson Eygo


AMARANTE, Paulo. Saúde Mental e Atenção Psicossocial – obra completa – Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2007.

Amarante, em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, livro publicado pela Editora Fiocruz no ano de 2007, discorre sobre a história da psiquiatria, contextualizando seu enfrentamento ao transtorno mental. Partindo da descrição dos primeiros hospícios, concebidos em moldes pinelianos, ele situa-nos no enfrentamento a problemática da loucura, desde sua gênesis até a Reforma Psiquiátrica, enfatizado, dentre outros episódios, a reforma Italiana e a contribuição de Franco Basaglia para a superação do modelo manicomial. 

Amarante defende que a visão banalizada, e por vezes, até mesmo criminalizada de louco e de loucura não é fato recente.  Segundo ele, a sociedade vive um papel de antagonismo ao ser vítima e algoz do descaso que se faz em relação ao transtorno mental. Tal concepção parte do ideal de alienismo, onde, com a reclusão e o isolamento dos ditos loucos em asilos, a sociedade se via salva da periculosidade e do risco social que o transtorno mental incitava nas camadas sociais.

Essa visão deturpada que se faz do louco é fruto de séculos de descaso e preconceito ao sofrimento mental, exercidos por uma sociedade que, desde a implantação das primeiras instituições asilares, nega sua responsabilidade e cumplicidade frente ao transtorno mental. Amarante cita a contribuição de Pinel, sucessor do alienismo, na criação dos primeiros manicômios e implantação da psiquiatria como ciência preocupada com a saúde mental. Além disso, ele crítica a ambiguidade do contexto onde nasceram as primeiras instituições asilares: em plena Revolução Francesa. Os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade pareciam utópicos e, por que não dizer mesquinhos, diante das atrocidades cometidas contra seres humanos naqueles asilos psiquiátricos.

O autor denuncia a condição desumana em que viviam os pacientes nos primeiros hospícios, cujo cuidado comparava-se ao dos campos de concentração e de extermínio nazistas. Para Amarante, tais instituições eram verdadeiros “depósitos de gente”, onde os pacientes pereciam em situação de completo abandono, desprovidos de cuidados básicos como higiene e alimentação. O compromisso com a saúde do portador de transtorno mental pela sociedade resumia-se em apenas ignorá-los por completo. O enclausuramento de tais pessoas em manicômios, privando-os do convívio social, parecia ser a melhor medida para se isentar do problema.

Os questionamentos quanto à metodologia da psiquiatria frente ao sofrimento mental no século XX só foram possíveis pela mudança na ordem social e pela nova concepção de humanidade resultantes da segunda guerra mundial. Nesse período, aconteceram diversas mudanças legislativas na atenção ao transtorno mental em alguns países da Europa e nos EUA que, de acordo com o autor, teriam influenciado positivamente o movimento antimanicomial brasileiro. Dentre as medidas de enfrentamento ao sofrimento mental, Amarante cita a iniciativa da Itália em extinguir os hospitais psiquiátricos e reorganizar o seu modelo de políticas assistenciais ao portador de transtorno mental, visando melhor qualidade de vida e inclusão das pessoas com sofrimento mental. Fatos que culminaram com a institucionalização do dia 18 de maio como Dia Nacional da Luta Antimanicomial no Brasil.

O autor alude a importância das práticas de Comunidades Terapêuticas e da Psicoterapia Institucional, já praticadas na Itália e França, como estratégias pioneiras dessa nova forma de fazer saúde mental e, segundo ele, tal metodologia incitou a desistitucionalização manicomial brasileira. Tal desistitucionalização foi, no Brasil, encabeçada por membros e representantes da Psiquiatria de Setor, o que, por sua vez, resultou na criação de políticas alternativas de enfrentamento ao transtorno mental. Tais medidas só foram possíveis pela mobilização social de usuários dos serviços, familiares, artistas, civis e profissionais da área que, sensibilizados com a causa, organizaram-se e iniciaram a Luta Antimanicomial. O resultado disso é o que hoje chamamos de Atenção Psicossocial. Uma medida do estado, em conjunto com a psiquiatria, que acatando às novas diretrizes da OMS (Organização Mundial de Saúde), viu a necessidade de rever a situação da loucura no país. Surgiram dessa reformulação do serviço de saúde os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS); as Residências Terapêuticas; as Cooperativas e os Centros de Convivência.

Até o século XX não se pensava em políticas de enfrentamento do transtorno mental, e o cuidado se resumia à reclusão e ao isolamento social dos portadores de transtorno mental. O movimento nacional pela socialização e inclusão dos usuários do serviço saúde de mental percorreu uma longa jornada e enfrentou diversos desafios para a instauração e manutenção do modelo de saúde mental que se presta hoje no Brasil.

Diante disso, fica clara a importância de continuar pensando a saúde mental. O desafio agora é forjar na sociedade uma concepção distinta daquela concebida anteriormente, de uma loucura inaceitável, violenta e que agride a ordem social. Torna-se imprescindível dissociar a imagem de risco social que se fez do louco. 

Não podemos nos isentar de nosso papel como cidadãos sociáveis e corresponsáveis pela qualidade da saúde mental em nossas casas, nossos bairros, nossas cidades e em nosso país. Quer sejamos favoráveis ou contrários frente ao sofrimento mental, e às políticas nacionais de socialização de inclusão social dos portadores de transtorno mental, conhecer a obra e a visão de Paulo Amarante irá situar-nos historicamente frente aos fatos que fizeram da saúde mental esse desafio que ela é hoje.  É nesse quesito que a leitura de 

Saúde Mental e Atenção Psicossocial torna-se uma experiência válida, pela forma como o autor ilustra a problemática do transtorno mental no Brasil e mundo.

Paulo Amarante é Médico, Mestre em Medicina Social pelo IMS/Uerj e Doutor em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz.


Texto originalmente publicado em: (EN)CENA

quarta-feira, 25 de julho de 2012

HISTÉRICA E MAGÉRRIMA


DA BELEZA: HISTÉRICA E MAGÉRRIMA VISTA NA ATUALIDADE, E QUE, DE MODO NADA SUBLIMINAR, NOS AGRADA.
Por Hudson Eygo



O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, c. 1485.



Outro dia fiquei abismado ao ver, por indicação de uma colega de faculdade, um blog destinado a fotos de mulheres que fogem a padrões pré-estabelecidos de beleza.


Trata-se do The Nu Project, mas não o indico pra quem não quer sair da posição de comodismo, e muito menos quem não quer contestar sua realidade. As imagens são curiosas, criativas e, em muitos casos, chocantes.


A primeira coisa que me veio à cabeça ao observar o ensaio no site foi: O que diz que estas mulheres não são bonitas? Porque a gordura é tão desprezada por nossa sociedade? Qual o crime em se estar acima do peso? Em nossa contemporaneidade a falsa liberdade moralista roubou dos seres humanos até o direito sobre o próprio corpo, imprimindo em nossa personalidade uma imagem que deve ser mantida, seguida e copilada. Mas até que ponto meu corpo representa minha identidade? Sou o que ostento, ou o que ostento se corrompeu e assumiu a forma do que sou?


É fácil perceber esse movimento social em busca do corpo perfeito, basta nós nos atentarmos para o crescente número de pessoas, nas mais variadas faixas etárias, que frequentam as academias e se matam fazendo exercícios físicos, usam anabolizantes, tomam inibidores de apetite e mergulham em dietas milagrosas muitas vezes sem preparo algum, outras vezes, apoiados em dietas e na orientação profissional de pessoas que se justificam na ciência ao proclamar: Abaixo ao gordo!


Mas quem foi disse que gordura não é sinônimo de felicidade?


A imagem pré-concebida e difundida pelas mídias atuais é a de pessoas morbidamente gordas e depressivas. Essa imagem está embutida em minha cabeça quando penso em x-burguer ou em uma porção de batata frita, por exemplo. Não se pode mais sentir prazer em comer, assim como não existe mais felicidade, beleza e nem saúde fora de um corpo magro. E isso se torna um dos pretextos para as pessoas que não conseguem alcançar o peso ideal acabarem depositando na comida a solução para sua frustração. 
“E dali guloseimas pros gordinhos.” O mercado discrimina, mas o mercado estimula e sustenta produtos altamente calóricos que viciam e deprimem.


Porque corpos esculturais são tão ovacionados na atualidade?


É tudo culpa de nossa sociedade que prega uma saúde vinculada a um corpo magro, e moldado por horas e mais horas de dieta e academia. “Vamos lá, todo mundo, contabilizando calorias”.



Mas até que ponto o belo é magro?


Não podemos esquecer o outro lado: o dos corpos esqueléticos de pessoas que, na privacidade de seu banheiro, buscam no vômito uma solução patológica para seus problemas com a balança, vomitando até o copo d’água, muitas vezes, a única coisa consumida ao longo do dia inteiro.


E viva à bulimia, à idiossincrasia, e ao ceticismo!


Agora, perdido em meio às imagens do site, fico pensando que a mulher, por natureza, é um ser belo. Suas formas divinas, mais arredondadas ou não, são agradáveis e extremamente sensuais. A própria Vênus de Milo, imagem por centenas de anos aclamada e tida como ícone de beleza, é cheia de formas curvilíneas.


E o que mudou?


Fomos, ao longo das décadas, nos prendendo a estereótipos e padrões de beleza. Culturalmente o fora do comum tornou-se aversivo, ridicularizado e corrompido. A humanidade têm se perdido em acordos culturais mudos, que pregam a discriminação e retaliação de forma ativa e cientificamente estruturada. A
condição humana é hoje, tudo aquilo que é moralmente aceito. O resto é esquisito, irritante, dispensável! Aprendemos desde o berço a não conviver com o diferente. É o neoegoísmo de nossa sociedade, e porque não dizer, narcisista?


Foi o homem quem se corrompeu, e se perdeu em sua bestialidade. Em muitas situações somos mais parecidos que nossos parentes primatas, do que esperávamos. Por vezes, até menos racionais.


O site traz fotos de mulheres que carregam mais que um corpo fora de forma, são pessoas que carregam um rosto moldado por um sofrimento que não precisa de palavras pra se manifestar. O nu artístico dessas mulheres é carregado de significado.

Elas não estão exibindo seus corpos em troca de pena, nem implorando pela misericórdia de uma sociedade vil e hipócrita, do contrário, elas estão gritando sua dignidade, e direito à liberdade e igualdade diante de todos, sendo apenas elas mesmas.


O que o site almeja buscar com essas fotos vai muito além de uma simples aceitação social dessas mulheres, bem mais do que isso, as fotografias cobiçam despertar em cada mulher a redescoberta do amor por si mesma, pelo seu corpo, por sua autoimagem, seja ela como for.


Meu propósito aqui também não é o defender a obesidade, nem o de levantar a bandeira a favor dos gordinhos, longe de mim. Também concordo que se é comprovada uma patologia, a pessoa tem sim direito de buscar uma cura. Tampouco quero é o de desacreditar a ciência, mas sim, alertar todos para questões atuais, pertinentes e que precisam ser abertamente debatidas.



sexta-feira, 13 de julho de 2012

SOFRER ESTÁ NA MODA

Conversava com um amigo sobre coisas rotineiras do dia a dia, quando ele afirmou categoricamente, “O problema é que sou bipolar, sempre começo as coisas e não as termino...”.

Eu ri, e disse: “Acho que você quis dizer que você é inconstante, não?”.
Ele retrucou: “Mas é que bipolar é mais bonitinho...”.
E começamos a rir juntos.

Quem diria... Houve um tempo em que sofrer de um transtorno mental era vergonhoso. Por séculos a sociedade escondeu “o diferente” em asilos psiquiátricos. Mas hoje me dia as pessoas não se importam, e vestem-se do sofrimento mental porque é bonitinho, e está na moda.

Há um consenso coletivo das massas de que: Depressão, Transtorno Bipolar, Estresse, Transtorno Compulsivo Obsessivo (TOC) e Síndrome do Pânico estão em alta. É elegante e chamativo sofrer de um ou mais desses transtornos.

E o que falar das Psicopatias e da Esquizofrenia? Viraram sinônimo de comédia e divertem centenas de pessoas em forma de piada e/ou jargões na boca de comediantes da TV aberta.

A Hiperatividade por sua vez, é o mal do século desse ano... Quem é que não tem um filho, sobrinho, enteado ou filho do vizinho que sofre desse mal?

As pessoas ficam se diagnosticando a bel prazer, quem sabe já até não se medicam? Afinal, não é difícil ver na teledramaturgia um personagem ou outro que exibe uma cartela de comprimidos que precisa tomar para dormir, assim mesmo, como um troféu!

É uma carência generalizada meu povo, e tudo é válido só para receber atenção.
A quem devemos culpar?
Mas deve-se culpar alguém?
É o movimento das massas, do grupo. E nas palavras do celebre pai da psicanálise:

Um grupo é impulsivo, imutável e irritável. É levado quase que exclusivamente por seu inconsciente [...] não pode tolerar qualquer demora entre seu desejo e realização do que deseja. Tem um sentimento de onipotência: para o individuo num grupo a noção de impossibilidade desaparece. (CORRÊA e SEMINIOTTI, 2005, p. 144, apud Freud, 1921:101).

O Simão Bacamarte de nosso tempo certamente iria interditar o ser crítico. Afinal quem é louco de questionar o sistema? Fica aqui a reflexão e o convite a repensar nossa postura como sujeitos ativos e cheios de vontade frente à sociedade, para além de um idealismo, a fim de alcançarmos a real construção do mundo que queremos.
Hudson Eygo
REFERÊNCIAS
CORRÊA, Juliano; e SEMINIOTTI, Nedio. Contratransferência do psicólogo coordenador de grupos. Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 17,nº2, p.141- 155, 2005.