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terça-feira, 11 de março de 2014

MORRE MAIS UM JOVEM KARAJÁ

Por Hudson Eygo


A jovem Narubia Werreria é brasileira, índia e representante da nação Iny (Karajá e Javaé), em um
manifesto que circula na internet desde o dia 04 de fevereiro de 2014.

Seu objetivo é abrir os olhos da Presidenta Dilma Rousseff, e consequentemente do país, para o alto índice de suicídios que vem acontecendo entre o povo Iny (Karajá e Javaé).

Segundo Narubia, a Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão responsável pela assistência e garantia de acesso a serviço e direitos do índio no Brasil desde sua fundação em 1967 pela lei nº 5.371, e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) têm fechado os olhos para essa realidade e, em outros tempos, quando o caso chegou a ser noticiado pelas mídias televisivas, o órgão fez um prévio diagnostico e interviu com medidas paliativas, que, de longe, correspondiam à real necessidade daquele povo.

Em meio a seu manifesto, a jovem Narubia Werreria que é acadêmica de direito da Universidade Federal do Tocantins (UFT) relata que “pensar sobre o suicídio que vem acontecendo em meio ao nosso povo me deixa paralisada, falar e não encontrar as lágrimas no rosto parece impossível. Não sei se saberei descrever nossa dor, nem o quanto esses últimos anos estão sendo aterradores para nós. Queria manchar essa tela de sangue, talvez o nosso sangue clame mais por socorro que minhas palavras!”.

Seria uma epidemia na Ilha? - Se é que o termo pode ser empregado nessa situação - Não se sabe, mas o número já chega a 3 óbitos e 1 tentativa de suicídio só em 2014, numa população de aproximadamente 6 mil indígenas em toda a Ilha do Bananal. Narubia reforça que “os órgãos competentes nada fizeram de REAL E EFICAZ para sarar nosso povo, estamos cansados de reunião que não produz, cansados de gastar tanto sol, sem nada iluminar.”

A situação de desassistência e luta por igualdade e asseguração de direito dos indígenas no país não é nova. Em Outubro de 2013 a Organização não Governamental (ONG) Survival Internationalde São Paulo (referência nacional na defesa pelos direitos dos indígenas) denunciou as altas taxas de suicídio entre índios Guaranis. Segundo a entidade, os Índios têm se sentindo inferiorizados ao tentar recuperar uma pequena parte de seus territórios originais, mas frequentemente, enfrentam a resistência violenta dos grandes proprietários de terras e dos interesses do governo que preza o desenvolvimento financeiro dos pais a qualquer custo.

“Nós não temos mais segurança. O alcoolismo, drogas e prostituição invadiram nossas aldeias. O atendimento básico a saúde e educação são precárias. A assistência em saúde mental não consegue cuidar dos atuais transtornos de nossos jovens e nós não sabemos lidar com esses problemas que vieram com a sociedade não nativa (não indígena).” Em suas palavras Narubia, coloca os prejuízos desse choque cultural resultante do contato entre seu povo e o “não indígena”.

Em seu texto, encerra o manifesto clamando por igualdade, ao dizer que “queremos viver. Não queremos apenas resistir, queremos existir com dignidade”. Ela deixa expresso o desejo e vontade de um povo que nada mais quer que respeito, dignidade e asseguração de todos os seus direitos.

A carta aberta deixa claro o caráter de extrema urgência do povo Iny (Karajá e Javaé) em obter uma solução para o seu problema, que abrange desde questões de assistência básica em saúde (já que toda vez que um índio adoece precisa se deslocar para o município mais próximo por não ter assistência médica), como profissionais capacitados, atuando na promoção de saúde indígena. Hoje, a região da Ilha do Bananal conta com o apoio de uma equipe multiprofissional que atual no controle epidemiológico, medida essencial para a promoção de saúde desse povo, mas não são disponibilizados profissionais que atuem no tratamento e assistência dessas aldeias in loco, e sempre que necessário, o índio precisa se deslocar de sua tribo para ir à cidade mais próxima, o que claramente aumenta os gastos e a morosidade no tratamento do índio.

Diante dessa gama de questões, a contribuição de cada um ao assinar e apoiar uma petição publica pode fazer toda a diferença na vida desses jovens indígenas. O que para você pode não ser nada além de alguns cliques, para esse povo pode ser a garantia de uma vida.

Assine a petição

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O PRÍNCIPE DAS MARÉS

Por Hudson Eygo
 
 
 
O Príncipe das Marés (1991) é um drama americano, inspirado no romance The Prince of Tides de Pat Coroy, dirigido por Barbra Streisand. O longa-metragem conta a história da família Wingo que enfrenta sérios problemas com as recorrentes tentativas de suicídio de Savannah Wingo. Na última tentativa, sua psiquiatra Susan Lowenstein (interpretada por Barbra Streisand) solicita a presença de um dos membros da família para auxiliá-la no tratamento.
 
A pessoa escolhida é Tom (Nick Nolte), irmão gêmeo de Savannah que tem enfrentado problemas no seu casamento. Mesmo relutante Tom viaja para New York com o propósito de ajudar sua irmã. O filme é atravessado por flashbacks que contam a história da família e nos ajudam a entender o motivo de ela hoje estar tão fragmentada.
 
O encontro de Tom com Susan é, no início, conflitante. Ele tem uma personalidade sarcástica, com o hábito de ironizar todos os problemas. No passado a família era formada por cinco membros: Henry (pai), Lila (mãe), Luke (o filho mais velho), Tom e Savannah (gêmeos). Atualmente os pais estão divorciados e Lila vive com outro homem. Tom têm sérios problemas com a mãe, o que é confuso, já que na infância ele demonstrava ser o mais apegado a ela.
 
A psiquiatra de Savannah pede a Tom que se encontre com ela regularmente para contar-lhe detalhes da infância de ambos. Susan parte do viés psicanalítico, o determinismo psíquico, onde se acredita que a análise de eventos ocorridos na infância (passado) tem relevância no modo como o sujeito atua no presente (FREUD, 1910. p. 19).

No inicio Tom resiste a essa ideia e se nega a participar dessas sessões, mas logo entende a importância de falar abertamente do seu passado no tratamento de sua irmã e, por amor à família, ele consente em cooperar com Susan, acontece nessa fase a aliança terapêutica. A aliança terapêutica pode ser definida como “o relacionamento não neurótico, racional, sensato que o paciente tem com o seu analista e que lhe possibilita trabalhar com afinco na situação analítica” (SANDLER, 1986 p. 24 apud GREENSON E WEXLER, 1969).
 
As sessões são conflitantes e a psiquiatra logo percebe que a família esconde muitos segredos em seu passado. As brigas constantes do casal, a violência doméstica e o alcoolismo de Henry parecem ter marcado profundamente as crianças durante sua infância, que procuravam, uns nos outros, apoio para lidar com esse sofrimento. Eles tinham um ritual de correr para o mais longe possível da casa dos pais sempre que estes estavam brigando. As crianças mergulhavam no rio, e permaneciam lá até não poderem mais escutar os gritos. Um fato marcante é que, depois de crescidos, com a morte trágica de Luke (irmão mais velho), Savannah e Tom saíram de casa e foram morar bem longe da ilha onde haviam crescido, era uma tentativa inconsciente de abandonar aquele lugar que trazia consigo tantas lembranças ruins.
 
Tom até hoje não aceita esses eventos de sua infância, estando em constante negação da gravidade dessa violência doméstica e de como isso marca sua vida até hoje. A negação é descrita por Fadiman & Frager (1986, p. 20) como um mecanismo que aparece pelo fato de o ego não aceitar na realidade um fato que o perturba. Ele demonstra ter um sentimento ambivalente e inconsciente de lealdade com sua mãe, ao mesmo passo que parece não suportar mais essa hipocrisia dos segredos familiares.
 
Savannah tornou-se escritora infantil, sobre o pseudônimo Renata Halpern, ela havia escrito fatos de sua infância. Eram histórias felizes sobre crianças que viviam muito felizes em uma ilha no Sul da Califórnia. Um meio de sublimação dos eventos traumáticos da sua infância. A sublimação é definida como a “defesa bem sucedida” (FADIMAN & FRAGER, 1986, p. 20 apud FENICHEL, 1945). Para esses autores, na sublimação a libido dirigida a propósitos sexuais é catexizada para novas finalidades, em geral, atividades artísticas intelectuais e/ou culturais.

Contudo, Tom ficou furioso ao descobrir que a irmã, incentivada por sua psiquiatra Susan, havia revelado fatos que pactualmente todos haviam concordado em manter segredo. Os membros da família carregavam consigo marcas desse passado que estava gravado no pré-consciente de cada um, tentando emergir a consciência a todo o momento. Sandler (1986, p.14) fala do Pré-consciente como um tipo de inconsciente que “encerra em si os conhecimentos e as ideias que se encontravam fora da consciência”, porém esse conteúdo, não está reprimido no inconsciente, tornando-se uma memória acessível, ou não.

Nas sessões com Tom, o setting terapêutico é tenso, ele não aceita as investidas da psiquiatra que insiste para que ele fale abertamente sobre a família. Tom em vários momentos transfere para a terapeuta a raiva que sente de sua mãe e seu sofrimento inconsciente por não ser o preferido dela. Lila, em sua infância, havia chamado Tom em particular e dito que ele era seu preferido, anos depois ele descobriu que ela havia feito isso com todos, e não conseguiu perdoá-la por mentir para ele.
 
A transferência é um fenômeno clínico no qual o terapeuta se torna, para o cliente, um recipiente para as investidas, impressões ou reedições de modelos de comportamento inspirados em experiências anteriores (Sandler, 1986, p. 34).Em contratransferência, Susan é impactada pelos relatos de Tom, mas não se diminui diante da raiva dele, a psiquiatra continua investindo contra a resistência de Tom em se abrir. O termo contratransferência é geralmente utilizado para “caracterizar a totalidade de sentimentos e de atitudes do terapeuta para com seu paciente e mesmo para descrever aspectos de relacionamento comuns não-terapêuticos” (Sandler, 1986,  p. 56,  apud KEMPER, 1966).

O tratamento é gradual. Em cada sessão são trabalhadas as situações traumáticas, do mais leve até chegar à fonte principal do problema. Nesse ponto da trama, o casamento de Tom já estava falido, e mesmo assim ele não conseguia com a carga afetiva dessa separação.
 
Umas das principais queixas da esposa era o jeito de Tom de negar-se em conversar abertamente sobre a relação, sempre fazendo piadas e ironizando tudo. Tom transfere para sua esposa, assim como para Susan nas sessões de terapia, toda a frustração e descontentamento por ter sido enganado por sua mãe.
 
Com o passar do tempo Susan consegue chegar ao trauma principal que havia marcado a vida da família para sempre: Em uma noite de chuva, enquanto Henri estava pescando, a casa foi invadida por três fugitivos de um presídio de segurança máxima das redondezas.
 
Eles estupraram Lila, Savannah e Tom, que foram salvos pelo irmão mais velho. Luke apareceu com a espingarda do pai e atirou, matando os fugitivos. Com vergonha do que a sociedade poderia pensar do ocorrido, a mãe dos meninos fez com que todos enterrassem os corpos, limpassem a casa e concordassem em nunca mais falar sobre o ocorrido, nem para seu pai.

A forte resistência de Tom em falar abertamente sobre esse assunto e, principalmente, em não conseguir assumir que também havia sido estuprado demonstram ser esse o trauma original que deu origem as conflitivas da família. O próprio Tom assume para Susan que nunca poder falar sobre o ocorrido era pior que o estupro em si. O seu principal dilema era que ele tinha em Luke uma identificação paternal. Por ser o irmão mais velho, e o mais próximo, inconscientemente Luke era uma figura paterna para Tom. Ser estuprado na presença do irmão foi uma situação traumática, como se ele tivesse perdido sua masculinidade e o respeito do irmão mais velho.
 
Por não poder lidar com a dor do estupro, o ego de Tom dissociou a carga afetiva (dor) do trauma da realidade, para que ele pudesse continuar a viver. Desse modo, ele fixou algumas características da idade de 13 anos, que se repetiram ao longo da sua vida adulta, em especial, o humor ácido (sarcasmo) como mecanismo para não lidar diretamente com situações de estresse ou desgaste afetivo. É importante frisar que essa regressão de Tom se dava exclusivamente na relação com a figura feminina, na qual havia uma identificação e transferência da imagem materna (Esposa e Psiquiatra). No trabalho, por exemplo, ao treinar o filho de Susan, Tom não demostra características dessa regressão.

A memória do episódio do estupro, por sua vez, não foi suprimida pelo ego de Tom, pelo contrário, ela continua no subconsciente atormentando todos os membros da família, que se sentiam culpados pela necessidade mútua de guardar tal segredo. Com as sessões de análise Tom demonstra uma atuação positiva para dentro, trazendo à consciência fatos traumáticos de sua infância a cada sessão.
 
No caso de Savannah, a necessidade constante de negação do ocorrido foi mais do que seu ego podia aguentar, por não conseguir lidar com aquela realidade, ela tentou fugir, indo morar em outro estado.
 
Mas isso não era o suficiente. Ela então buscou no suicídio o fim para todo aquele sofrimento. Desse modo, Savannah criou um perfil neurótico compulsivo suicida. Com o passar do tempo, no decorrer de sua análise, ela entende que esse perfil se dava pelo modo como o estupro marcou sua vida. Após a elaboração, ela integra as análises da psiquiatra com sua própria história, partindo para a cura e superação do trauma.

Lila (a mãe) parece ser a menos afetada pelo episódio. Por ser uma adulta, e ter um aparelho psíquico melhor preparado para lidar com situações conflitivas, seu ego utilizou-se do mecanismo de negação para suprimir o trauma no subconsciente, sem maior sofrimento. Contudo, ao contrário de Tom, ela nunca aceitou falar abertamente sobre o assunto, era uma estratégia pessoal para evitar que a carga afetiva retornasse a consciência.
 
Susan ajudou Tom a finalmente entrar em contato com essa dor e, gradativamente, ele começa assumir a responsabilidade pela direção de sua vida. Ao verbalizar para um completo desconhecido o “grande segredo” ele torna consciente o problema. Entrando em contato com a dor, ele obriga seu ego a aceitar essa realidade.

A partir da aceitação, Tom começa a trabalhar na reconstrução da sua vida e família. Ele assume a responsabilidade pelo seu casamento e se implica na função de resgatá-lo. Ao resolver seu medo de confiar intimamente em outras pessoas, Tom deixou vir à tona seu verdadeiro ego e se empenhou em resolver os problemas do seu passado reprimido. Ele deixa de transferir toda a insegurança que sentia com sua mãe para as outras pessoas, e se torna capaz de perdoá-la. Mas, principalmente, por meio da análise, ele entra em contato com a intensidade afetiva produzida do estupro e se torna capaz de perdoar a si mesmo, integrando que não havia nada que ele pudesse fazer naquela situação, que ele não era o responsável pelo mal que aconteceu naquela noite com sua família.
 
 
 
Referências:
 
FADIMAN & FRAGER. Sigmund Freud e a psicanálise. In: Teorias de Personalidade. São Paulo - SP: Harbra LTDA. p.03-40. Ed. Brasileira. 1986.
FREUD, 1910. Cinco lições de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v.11).
PRINCIPE das Marés.The Prince of Tides.Direção: Barba Streisand. Columbia Pictures Corporation. EUA: 1991. 2h12min. Inglês, Color, Formato: 35 mm.
SANDLER, Joseph. O paciente e o analista: fundamentos do processo analítico. Rio de Janeiro - RJ: Imago Editora LTDA. 2 ed. 1986.

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO

Por Hudson Eygo
 
 
 
“Tem-se uma sexualidade desde o século XVIII, o sexo desde o XIX. Antes, tinha-se, sem dúvida, a carne”. (Foucault, [1977] 1994: 313)
 

Falar de assuntos complicados, mas de uma forma simples, com uma linguagem leve e casual, do jeito que deve ser. Esse é o desafio do diretor Daniel Ribeiro em “Eu não quero voltar sozinho”, (2010). Afinal, como falar da descoberta do amor entre dois adolescentes gays?


 Gabriel (Fabio Audi), Leonardo (Guilherme Lobo) e Giovana (Tess Amorim).

O curta promete ser polêmico, não apenas por tratar da homoafetividade na adolescência, mas também por trazer à tona tabus de nossa sociedade, como a resistência de uma parcela das instituições educacionais em falar de homoafetividade na infância e adolescência dentro das escolas. Diante disso, há o despreparo e o sofrimento de crianças e adolescentes que não sabem como lidar com sua afetividade de orientação homossexual.
 
O assunto se torna mais grave no caso do protagonista do curta-metragem. Leonardo (interpretado por Guilherme Lobo), além de se descobrir apaixonado por seu colega de escola: Gabriel (Fabio Audi), é deficiente visual e ainda, precisa administrar os ciúmes de sua melhor amiga: Giovana (Tess Amorim) que demonstra estar apaixonada por ele.
 
O curta se propõe a trabalhar um assunto desafiador: o despertar da sexualidade na adolescência de um deficiente visual de orientação homossexual. Como ele não conta com a visão para perceber seu objeto de desejo, Leonardo tem que explorar outros sentidos no ato da conquista como o tato, a audição e o olfato. Nesse jogo, ele começa se aproximar ainda mais de Gabriel. O seu dilema está em não saber se o sentimento é reciproco.
 
A leveza e a simplicidade com que o assunto é tratado parece ser a fórmula de sucesso que fez do curta o ganhador de mais de 80 prêmios nacional e internacional. Como a repercussão, o filme foi inserido noprograma Cine Educação por meio de uma parceria com a Mostra Latino-Americana de
 
Cinema e Direitos Humanos. Mesmo assim, ele foi censurado no estado do Acre, pois o governo associou o curta ao “kit anti-homofobia”
distribuído pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), fortemente criticado e rebatido pelo seguimento religioso.
 
Em carta aberta, a produção do curta enfatiza a importância do uso de recursos alternativos como os filmes em sala de aula, pois além de serem excelentes instrumentos de auxílio pedagógico na prática do docente, têm potencial de formação crítica e da construção do perfil cidadão em crianças e adolescentes.
 
É fato que existe a resistência das instituições educacionais em abordar temas como a homoafetividade no ensino básico, fundamental e médio. A resistência também aparece na dificuldade em abordar a orientação sexual homoafetiva em sala de aula, prova disso são os fortes movimentos de resistência contrários ao – assim denominado - “kit anti-homofobia” do MEC.
 
As limitações são diversas. Às vezes pelo despreparo do profissional ou pela própria intolerância da instituição que (mesmo que involuntariamente) carrega valores da sociedade civil e/ou religiosa, que por sua vez, insiste no caráter patológico da homoafetividade. Nesse sentido, vale ressaltar, o que é orientado pela Resolução 01/1999 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que afirma: a homossexualidade “não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”, existe “na sociedade, uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente” e “a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações” (CFP, 1999: s/p).

Em seu artigo “Diversidade Sexual na Escola”, resultado de mais de 2 anos de pesquisa realizando oficinas em escolas públicas do Rio de Janeiro para tratar do tema homoafetividade, Bortolini (2008) - entre outros dados -  mostra que os educadores de escolas públicas do Rio, ao falarem sobre demonstrações de afeto no ambiente escolar por casais homoafetivos, mesmo sob permissão da instituição, em seus discursos apontaram não apenas que a homossexualidade é algo que deve ficar restrito à vida privada dos homossexuais (embora o mesmo não seja pedido aos heterossexuais), como também entendem a expressão das identidades sexuais (seja pelo afeto, seja pelo jeito de ser em contradição com as normas hegemônicas de gênero) como algo que pode “agredir” aos heterossexuais. Ou seja, a simples expressão dessa sexualidade não-hegemônica já seria, em si, uma violência aos que compartilham da norma (BORTOLINI, 2008, p.667).



Para além de demagogias, é preciso recordar e instituir valores perdidos que dizem respeito a uma educação democrática, pública e inclusiva. É preciso entender a diversidade como um direito de ser. Na expressão dessa diversidade está o sentido para a transformação e para o desenvolvimento humano.
 
A escola precisa reconhecer que estes alunos (homossexuais, transexuais, travestis, bissexuais, bem como aqueles –inclusive heterossexuais – que não seguem os padrões hegemônicos de comportamentode gênero) têm sim direito à educação pública. E educação plena,que não tenha como preço a invisibilização de suas identidades, a negação dosseus jeitos de ser, muito menos a mutilação de seus próprios corpos (BORTOLINI, 2008, p.687).
 
Nesse sentido, acredita-se que ao abordar temas como a homoafetividade em sala de aula de maneira rotineira, seja positivo no sentido de eliminar preconceitos e de melhor orientar/acolher crianças e adolescentes que se identifiquem como homossexuais. A utilização de filmes como o curta: “Eu não quero voltar sozinho” pode ser um importante instrumento de auxílio pedagógico aos docentes para fomentar outro aspecto da homossexualidade muitas vezes negligenciado pela sociedade: o direito a singularidade e de amar alguém do mesmo sexo, independente de faixa etária e/ou limitações físicas.

 
 
 
Referências:
 
BORTOLINI, Alexandre. Diversidade Sexual na Escola, 2008. Disponível em:http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Repositorio/39/Documentos/diversidade_sexual_na_escola.pdf
Carta aberta - Censura do curta no Acre: http://www.lacunafilmes.com.br/sozinho/censura.html

Assista ao curta metragem “Eu Não Quero Voltar Sozinho”:  http://www.youtube.com/watch?v=1Wav5KjBHbI&feature=c4-overview-vl&list=PLE47C76FAE9FC0663 Texto originalmente publica em: http://ulbra-to.br/encena/2013/09/09/Eu-nao-quero-voltar-sozinho

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

GILBERT GRAPE - APRENDIZ DE SONHADOR

Por Hudson Eygo
 
 
 
Como seguir em frente e continuar a ter esperança mesmo quando a vida parece sufocar todos os nossos sonhos?
 
O filme conta a história do jovem Gilbert Grape (interpretado por Johnny Depp). Ele, morador de Endora, uma pequena cidade no interior Iowa (EUA), é responsável pelo sustento de sua família desde a morte do seu pai, que cometeu suicídio há 17 anos.
 
Gilbert mora com a mãe; duas irmãs (Ellen e Amy); e o irmão caçula Arnie (Leonardo Di Caprio) que tem retardo mental grave. Segundo os médicos, Arnie deveria ter vivido, no máximo, até os dez anos de idade, mas ele já iria completar 18 anos. O fato de o irmão ter sobrevivido e contrariado o diagnóstico dos médicos era motivo de festa para essa família.
 
A mãe de Gilbert, Bonnie, entrou em depressão após o suicídio do esposo. Ela é obesa mórbida e precisa dos cuidados diários de seus filhos. Devido a seu excesso peso, ela já não pode mais sair de casa.

Arnie, por sua vez, sempre se mete em problemas, entre outras coisas, ele tem o hábito de subir na caixa d’água da cidade, o que deixa a cidade em alvoroço trazendo problemas para Gilbert, que é o único que consegue fazê-lo descer de lá.

Por sua dificuldade de se comunicar e de se relacionar com outras pessoas, Arnie não estuda e está sempre acompanhando o irmão. Gilbert tem um papel paternal na vida de Arnie, ele sempre conversa com o irmão, o apoia, o educa, dá banho, ensina valores e preceitos.
A vida de Gilbert muda com a chegada de uma jovem à cidade. Becky (Juliette Lewis) mora com sua avó em um trailer e está atravessando o país em uma caravana, por problemas mecânicos elas ficam na cidade por alguns dias. Assim ela e Gilbert se conhecem. Esse encontro marca a vida dos dois para sempre. O amor entre eles é instantâneo.

Conviver com sua família está cada vez mais difícil.  Gilbert não suporta mais as cobranças e nem as responsabilidades que tem, mesmo sendo tão jovem. Em uma determinada ocasião ele perde a paciência com Arnie e acaba agredindo o irmão fisicamente. Gilbert se arrepende e não se perdoa por isso.

Na festa de aniversário de 18 anos de Arnie eles fazem as pazes. O amor entre os dois irmãos é genuíno.
 
O relacionamento com a família passa por momentos bons e conflituosos, como todo núcleo familiar, mas Gilbert encontra em sua namorada um apoio para lidar com essas divergências. Becky tem uma personalidade forte e ao mesmo tempo doce, ela incentiva Gilbert a lutar por seus sonhos e ele, por sua vez, aprende com ela que pode ser alguém diferente, alguém que realmente gostaria de ser.

O amor entre os dois cresce cada vez mais. Gilbert Grape aprende a sonhar.
 
A família aos poucos vai encontrando seu caminho quando outra tragédia acontece. A obesidade da mãe acaba levando-a a morte. Gilbert e os irmãos enfrentam um dilema, pois se veem obrigados a incendiar a casa com o corpo da mãe dentro, já que não podem carregá-lo para um funeral tradicional.

E mesmo em meio a tanto sofrimento a família encontra, uns nos outros, o apoio necessário para lidar com mais essa situação.
 
Nos momentos em que o núcleo familiar parece mais conturbado, podemos perceber que o amor é o sentimento que motiva esta família. Mesmo com suas divergências, todos cuidam uns dos outros, mutuamente, com carinho e cumplicidade. Sob um panorama sistêmico, pode se inferir que a família ao fugir dos padrões tradicionais de estrutura nuclear, obriga cada um de seus integrantes a assumir para si papeis específicos e fundamentais para o bom funcionamento da dinâmica familiar (SANCHEZ, 2012).
 
Cada um dos membros da família, com sua particularidade, parecem somar com a dinâmica do grupo; Gilbert é o provedor, ao manter o lar; suas irmãs cuidam da casa e das necessidades básicas e da família, sendo a irmã mais velha a figura maternal; e Arnie é o elo que liga todos eles. Eles nem percebem, mas todas as ações da família giram em torno de Arnie.
 
Acompanhando o desenvolvimento da trama é possível compreender os motivos que os levaram a tomar cada uma das decisões que mudaram suas vidas, principalmente, no que diz respeito a compactuarem com o incêndio do lar, culminando na incineração do corpo da mãe.  A família exercita a resiliência, permitindo-se, por meio da experiência e da superação dos conflitos anteriores, formar esquemas que lhes permitem lidar com os novos problemas, progressivamente.
 
Não há como não se envolver nos dilemas de cada um dos personagens, nem como não desejar um destino melhor para todos eles.

 
 
Referência:
 
SANCHEZ, Fatima Abad. A família na visão sistêmica. In Makilim Nunes BAPTISTA, M. N.;TEODOR, Maycoln L. M.  (Org.). Psicologia de Família: Teoria, Avaliação e Intervenção. Porto Alegre: Artmed, 2012. p. 39-47.
 
 
Originalmente publicado em: http://ulbra-to.br/encena/2013/06/10/Gilbert-Grape-Aprendiz-

segunda-feira, 18 de março de 2013

A DESVALORIZAÇÃO DO POTENCIAL HUMANO

Por Hudson Eygo



Somos, até aqui, resultado direto do modelo capitalista narrado por Karl Marx. É verdade que ocorreram mudanças. O modelo de produção, assim como o de dominância burguesa, não é tão literal como no modelo inicial do sistema, já que sobrepujamos o formato/processo de trabalho pregado por Taylor e Ford. A própria concepção de “Ser” do homem contemporâneo supera a do moderno, hoje vista por alguns teóricos como mecanicista.

É certo que a visão de homem, assim como a de produção de vida, sempre esteve ligada ao trabalho. Contudo, não foi sempre que o capital esteve ligado à atividade laboral. Seus primeiros relatos na história estão ligados à exploração de um sobre a força do outro.

No homem contemporâneo, as constantes transformações no modo de vida, paralelo ao avanço tecnológico e ao ritmo cada vez mais acelerado do trabalho, resultam em uma sobrecarrega física e psíquica. Esse ritmo desenfreado e abusivo de trabalho virou sinônimo de acumulo de capital e melhoria de vida. Assim, sem perceber, o homem tornou-se produto ao produzir seu modo de vida. O sistema criou as necessidades, e nós as abraçamos sem pestanejar.

O trabalhador habituou-se ao formato desenfreado e abusivo das empresas, não obstante surgiram as doenças ligadas a essa relação institucionalizada do homem com o trabalho. Como analisador, e de modo a intervir nesse estilo – forçado ou não - de vida do homem contemporâneo, a psicologia passa a atuar no mercado de trabalho. Uma condição antagônica do serviço; hora em função do administrador, hora em função do trabalhador, mas sempre buscando o bem estar comum. Os desafios para a profissão nesse contexto não são poucos. Diante da realidade de vida desses trabalhadores, e da desigualdade social de nosso país, onde até mesmo o Estado – única instituição política que temos – ao invés de garantir a qualidade de vida, quase sempre corrompe sua função, agindo em prol das empresas e dos empresários, o trabalhador em muitos casos aparece como vitima do sistema, sem acessos a meios para garantir a efetivação de seus direitos.

Por meio do trabalho que o homem também atribui significado para sua existência, na realização e no desenvolvimento de suas capacidades. Contudo, não é sempre que a atividade laboral cumpre esse papel. Quando exercida de modo abusivo, passa a ter influência negativamente sobre sujeito, produzindo doenças ligadas ao processo de trabalho. A própria insatisfação do trabalhador, casada à sobrecarga de trabalho exigida por muitas instituições destitui do trabalhador seu tempo de descanso; lazer; convivo social, familiar; etc. Resultando não raramente, em tensões e conflitos que culminam em doenças de ordem física e/ou psíquica. O ritmo acelerado de trabalho parece atingir principalmente o trabalhador que ganha por produção.

Em nosso século, criou-se uma visão deturbada de felicidade, onde a qualidade de vida está intimamente ligada à produtividade, uma vez que está resulta em salários cada vez melhores. O modelo capitalista, visando ganho e produção, criou as doenças ligadas ao trabalho, como o Estresse, a Síndrome de Bunoult e a LER/DORT, etc. Isso sem mencionar os conflitos no ambiente de trabalho, gerados pelo desgaste físico e de relações superficiais de convivência, pautadas apenas no ganho individual, atravessado pelo trabalho coletivo.

Para CANETE (2001), estes transtornos acompanharam a evolução do processo de trabalho e chegaram a nosso tempo, alguns com agravo, outros são novos, acometidos pela tal modernização do processo de trabalho. Mesmo com a redução da jornada de trabalho, parece ter aumentado a pressão sobre o trabalho/trabalhador ocasionando um desgaste tanto psíquico quanto fisiológico, é importante frisar que não dá para dissociar um do outro.

São varias as causas desses males, em especial, podemos apontar a falta de motivação do trabalhador. Sabe que o bem estar está diretamente associado à liberação de substancias na corrente sanguínea que melhoram a condição física e psíquica do homem, potencializando a produção. Apostando nisso, empresários têm investido em atividades físicas no ambiente de trabalho e na famosa ginastica laboral, como meio de otimizar a produção.

Condições como estresse, fadiga e esgotamento se tornaram cada vez mais comuns no ambiente de trabalho. A autora alerta para o fato de a

medicalização do trabalho investir nos fármacos como meio de mascarar os sintomas, negligenciando o sofrimento na raiz do problema. Outro fator preocupante de nosso tempo são os altos índices de acidentes de trabalho, cada vez mais comuns, que estão intimamente ligados ao baixo nível de instrução e qualificação profissional. Também as lesões por traumas acumulativos são um problema recorrente, que resultam em aumento da rotatividade de funcionários e obrigou os empresários a investirem na prevenção, e em um melhor cuidado desse profissional.

Esse quadro de empresários que não cuidam do seu trabalhador, tem mudado. Sabe-se que os empresários se conscientizam de que investir no trabalhador, em todas as esferas (capacitação, benefícios, valorização do trabalho, aumento de salário, melhora no espaço físico, etc), reflete diretamente no progresso da empresa. Essa nova forma de gestão, preocupada com o homem em suma, resulta em ganhos para ambas as partes.

A psicologia no âmbito do trabalho, prevenindo e promovendo a saúde mental – deixando claro que o conceito de saúde mental deve abranger uma visão holística do sujeito, não significando apenas o estado de ausência de doença, tão pouco ligada apenas uma instancia psíquica do homem, mas sim, em uma relação de interdependência de um completo bem estar físico, psíquico, social, econômico, cultural e espiritual desse sujeito - age como um analisador do sistema de produção, não apenas no campo de trabalho, mas no meio social, como promotora de saúde, buscando um equilíbrio entre emprego/empregador, trabalho/trabalhador, produção/produtor.

REFERÊNCIAS:

Humanização: Desafios da Empresa moderna, de CANETE, Ingrid. Ed Icone, 2001;



domingo, 3 de março de 2013

O VERMELHO DE FRIDA KAHLO

Por Hudson Eygo


                                                          “No se si mis pinturas son o no surrealistas pero que lo si estoy segura es que son la expresión más franca de mi ser.” 


Auto-retrato em um vestido de veludo (1926).


Assustadoramente excitante. Essa definição é – a meu ver – a melhor forma de descrever a obra de Frida Kahlo (1907-1954). A artista mexicana de traçado firme e formas surreais teve sua vida marcada pelo vermelho de seu sangue e de suas paixões. Consumida pela agonia incessante de ser ela mesma, Frida sempre preferiu apoiar-se em suas próprias verdades para escapar da viva, da dor e de suas agonias.

Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, de nascença, Frida Kahlo por opção, a artista tinha uma personalidade forte e marcante. Talvez tenha sido – em uma análise superficial - essa devoção com que enxergava a vida, e o viver, o melhor modo que ela encontrou para lidar com as tragédias de sua história. Digo “em uma análise superficial”, pois Frida não é, nem nunca foi, uma dessas personalidades que se permitem ser entendidas. Sejam lá quais foram os motivos dessa pintora, nobres ou torpes, uma coisa é certa: mergulhar no mundo cheio de formas de Kahlo é uma viagem sem volta.

As Duas Fridas (1939).


Imprevisível e autêntica - como somente ela sabia ser - a originalidade sempre esteve presente em cada instante da existência dessa artista mexicana. O colorido de sua vida foi consecutivamente marcado pelo gosto intrínseco e ferroso do vermelho que, em um momento ou outro, lhe era empurrado garganta a baixo. 

A primeira vez foi aos seis anos de idade quando, vítima de poliomielite, Frida se viu fadada a passar o resto de sua vida com uma deficiência, uma perna fina e um pé torto, que rederam a ela o apelido de “Frida pata de palo”.

A segunda vez em que ela se viu assediada pelo aconchego do vermelho foi quando, embalada pelos sonhos de cursar medicina, entrou para o “Las Cachuchas” a Liga da Juventude Comunista Mexicana onde, inesperadamente, conheceu o jovem Alejandro Gómez Arias. E o aroma doce do vermelho preenche o vazio de uma vida solitária. Nos braços de seu eterno “Alex”, Frida se rendeu a seu primeiro amor sem reservas. Essa foi a terceira vez que sua vida foi marcada pelo vermelho. 

A Coluna Partida (1944).


Na quarta vez em que o vermelho atravessa a vida de Frida, foi sem pedir licença, de um modo menos quente e romântico, na forma de uma viga de ferro que violentou sua pélvis e lhe saiu pela vagina. No súbito acidente de um ônibus contra um trem, ela perdeu sua virgindade, seu corpo, seu sangue e seu grande amor.  

Frida experimenta, literalmente e integralmente, o que é a morte, e todos os limites do que chamamos de dor, mas que, para ela, adquirem um novo significado. É em meio aos pedaços de seu corpo todo desfeito e refeito, fadada à sua própria forma desconstruída e cirurgicamente recriada, que Frida entra em contato com a pintura. 

 “Pinto autorretratos por que estoy gran parte de mi  tiempo sola,
por que soy la persona a quien mejor conozco” 

E no quinto encontro, o vermelho molhado da tinta, esboça nas telas a dura realidade com a qual Frida tem que viver e conviver diariamente. Sua verdade. Seu modo de enxergar a sua própria vida, para muitos, insano e surreal, para ela, nada mais era que sua realidade expressada em pincel e tinta. Frida tinha um traço forte, marcante e encharcado de sentimento. 

Depois de ter a coluna vertebral destruída, e de passar por diversas cirurgias, a jovem Frida teve seu corpo reconstruído. Foi nesse período, fadada a usar um corselete de gesso que ia de sua clavícula até a pélvis, presa em seu leito várias horas por dia, que ela começou a pintar. Utilizando a velha caixa de tintas de seu pai, um cavalete especial e um espelho instalado sobre sua cama, Frida arriscava-se em pintar autorretratos. 

Venadito (1946).


Aos 21 anos ela entrou para o Partido Comunista, onde conheceu pintor Diego Rivera (1886-1957), seu inferno e sua salvação. É possivelmente aqui que o vermelho se apresente à Frida em sua forma mais densa e escura. Em sua paixão por Rivera, Frida se viu corrompida e impelida a despir-se de seus preconceitos, tornando-se permissiva, experimentou a lesividade de seus mais primitivos instintos¹.

O dia 21 de agosto de 1929 é eternizado como a data de seu casamento com Rivera, e o início de uns dos relacionamentos mais intensos, sedutores, turbulentos e inebriantes de todos os tempos. O sexto encontro de Frida com o vermelho é marcado a lápis nessa data no calendário. Ela se entregou de corpo e alma a essa paixão que mudaria sua vida e obra para sempre.

Moisés o núcleo Solar (1945). 


No momento mais frágil de sua vida, em que ela se encontrava perdida e assustada, estranha de seu próprio eu, aprisionada em um corpo destroçado, Rivera lhe apareceu como uma base sólida, transmitindo segurança, acreditando nela e, principalmente, acreditando em sua arte. A pintora nunca negou saber dos casos extraconjugais de Rivera, todavia sujeitou-se a eles. Estimando não perder seu grande amor, acabou perdendo-se de si mesma. Nessa busca, Frida foi mais longe que qualquer um e, ao assumir essa nova identidade, perdeu-se em si mesma e se reinventou, descobrindo novos prazeres. 

As próximas vezes em que o vermelho se mostra para Frida são tentativas menos sedutoras, inebriadas pelo aroma torpe da morte e do adultério. A série de acontecimentos que segue marca profundamente seu casamento, sua obra e sua vida. Em meios aos vários adultérios de seu marido, às brigas exaustivas e violentas no casamento, à morte de seus pais, Frida sofre a amargura de três abortos - por complicações herdadas do acidente de ônibus - e descobre um caso de seu marido com sua irmã mais nova.

Abrazoamoroso (1949).


Impedida da realização de seu maior sonho, o de se tornar mãe, e diante da traição imperdoável de seu amor com sua irmã, ela pede o divorcio. E, mais uma vez, e sem explicação, Frida encontra no sofrimento a inspiração necessária para criar, com seu estilo único e tracejado particular. 

Aos poucos Frida vai ganhando espaço entre os maiores pintores de seu tempo, e conquistando admiradores em todo o mundo. Sua parceria com André Breton resulta em exposições em Nova Iorque e Paris, a artista mexicana agora tem renome internacional. Mas seu amor por Rivera ainda persiste, e eles reatam o relacionamento conturbado. 

Treze de julho de 1954 marca a última vez que o vermelho, agora silencioso e embebido de mistérios, cruza o caminho de Frida Kahlo. Ela é encontrada morta em sua casa. Em seu diário, as últimas palavras "Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar", deixa em aberto a suspeita de um possível suicídio, ou simples embolia pulmonar, resultando de uma forte pneumonia que havia contraído. Frida Kahlo deixa a vida, mas permanece eternizada em suas telas que, mudas, carregam consigo todo o peso e força da história de vida de uma mulher como poucas, autêntica até no seu ultimo ato. 



Nota:
1 -  Essa parte da vida de Frida parece obscura. Em uma das fontes pesquisadas afirmava que a pintora, para satisfazer a si e a seu marido, começou a ter relacionamentos homossexuais. Em outra, a pintora os fazia para se vingar da infidelidade de Rivera, e ainda, em uma terceira fonte, Rivera seria contrário a bissexualidade da esposa, até permitindo ela ter relacionamento com outras mulheres, mas jamais com homens. Orientação que ela não seguia, e que provocava diversas divergências no relacionamento. Independente dos reais motivos, o fato é que o comportamento poligâmico de Rivera, e a bissexualidade de Frida trouxeram sérios problemas ao casamento de ambos. 


Para saber mais: http://www.fkahlo.com/ 
http://pt.wikipedia.org/wiki/Frida_Kahlo 
http://fuzuedasartes.blogspot.com.br/2012/08/frida-kalho-vida-obra-e-superacao.html http://bravonline.abril.com.br/materia/frida-khalo-sangue-cores-vivas http://www.pinturasemtela.com.br/frida-kahlo-pintora-mexicana/ http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/frida-kahlo-mulher-tintas-fortes-434599.shtml 

Texto originalmente publicado em: (En)Cena



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

CORINGA E O ARQUÉTIPO DO LOUCO

Por Hudson Eygo

“Era através de suas palavras que se reconhecia a loucura do louco; elas eram o lugar onde se exercia a separação; mas não eram nunca recolhidas nem escutadas.” 
(Trecho do discurso de Michel Foucault na sua aula inaugural no Collège de France, 
pronunciada em 2 de dezembro de 1970.)



Coringa
Personagem de histórias em quadrinhos da DC Comics
Arte: Alex Horley
Joker (Piadista, na tradução), ou Coringa, é um dos principais e mais famosos vilões da HQ’s do Batman. O personagem sempre fez sucesso entre os leitores de HQ, mas caiu mesmo no gosto popular com a interpretação de Heath Ledger em The Dark Knight (2008). O longa dirigido por Christopher Nolan, nos apresenta uma leitura mais realista, psicótica e cruel do personagem. É tão real, que quase podemos nos ver no personagem, e talvez seja este o diferencial que atraiu a atenção do público nessa franquia. Por meio da projeção de nosso eu na personalidade doentia do palhaço, trazemos à tona características particulares até então negligenciadas. A conscientização dessas características tão nossas, ou que almejamos serem nossas, nos permite perceber aspectos desconhecidos de nossa própria personalidade, auxiliando no autoconhecimento.

Em realidade, a projeção acontece de forma tão contínua e inconsciente que costumamos não dar atenção de que ela está acontecendo. Não obstante, tais projeções são instrumentos úteis à conquista do autoconhecimento. Contemplando as imagens que atiramos na realidade exterior, como reflexos de espelho da realidade interior, chegamos a conhecer-nos. (NICHOLS, 1997, p.20).

Não há consenso na história, e nem no surgimento do personagem do Coringa. Sua primeira aparição nos quadrinhos foi na revista Batman #1 de 1940. O personagem teria sido criado por Bill Finger (1914 - 1974) co-criador e roteirista do Batman. Finger teria se inspirado em uma foto de Conrad Veidt no filme "The Man Who Laughs" (1928).

(Conrad Veidt em The Man Who Laughs, 1928)
O passado mais aceito, e popularmente mais citado vem da HQ A Piada Mortal editada por DC Comics em 1988. A edição especial traz um Coringa assombrado pelo seu passado, e disposto a provar a qualquer custo, que a loucura está ao alcance de todos os homens. Nas falas do próprio personagem: “A loucura é a saída de emergência” de nossa sanidade.


Nessa edição, nos vários flashbacks o Coringa aparece como o saqueador Capa Vermelha que na tentativa de dar uma vida melhor à esposa grávida, planeja assaltar a fábrica de cartas de baralho onde trabalhou. O vilão seria originalmente um engenheiro em uma fábrica de produtos químicos que, ao perder o emprego, tenta a vida, sem sucesso, como comediante. Enquanto planeja o assalto, ele é informado pela policia que sua esposa gravida morre em um acidente doméstico. Desolado, o vilão prossegue com a ideia do assalto, mas ainda sem muita experiência, acaba sendo flagrado no ato e, num rápido confronto com o Batman, cai no tonel de produtos químicos. Todos acreditam que Capa Vermelha teria morrido no incidente, mas ele reaparece saindo da água, já com a pele branca e cabelo verde, sendo o Coringa.

Contudo, essa teoria é desacreditada pelo próprio palhaço, quem em uma das falas afirma não ter certeza quanto ao seu passado, nem de como teria se tornado o coringa: “Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltiplas escolhas.” (Coringa – A Piada Mortal - DC Comics, 1988, p 40).

A história incerta do Palhaço se confunde com a do arquétipo do Louco do Tarô de Marselha. Segundo Sallie Nichols, O Louco (em nossos tempos a carta do Coringa, outro símbolo utilizado pelo vilão tanto nas HQ’s quanto nos cinemas) é um andarilho, enérgico, ambíguo e imortal. Segundo o autor, o Coringa seria o mais poderoso de todos os Trunfos do Tarô. “Por não ter número fixo, está livre para viajar à vontade, perturbando, não raro, a ordem estabelecida com as suas travessuras” (NICHOLS, 1997, p.35).

Nos quadrinhos o Coringa se diferencia dos demais vilões por ser o único a não querer a morte do Batman, mesmo quando tem a oportunidade de fazê-lo. Em seu discurso, ele parece ter um desejo inquietante de mostrar ao herói que ambos necessitam um do outro, em uma relação antagônica e de dependência mútua. Se considerarmos que o Coringa fora capaz de atos brutais como molestar e deixar paralítica a Batgirl Barbara Gordon, matar sem misericórdia tanto o Robin Jason Todd quanto a esposa do Comissário Gordon, pode-se concluir que a sobrevivência do homem morcego tem um significado maior para o vilão.

[...] o Louco se acha em tão estreito contato com o seu lado instintivo que não precisa olhar para onde vai no sentido literal: sua natureza animal guia-lhe os passos. Em algumas cartas do Taro o Louco é retratado como se tivesse os olhos vendados, o que lhe enfatiza ainda mais a capacidade de agir antes por introvisão do que pela visão, utilizando a sabedoria intuitiva em lugar da lógica convencional. (NICHOLS, 1997, p.36).

Em A Piada Mortal, Coringa está determinado a mostrar ao herói que há um limite tênue entre sanidade e loucura, e que em muitos momentos a insanidade é o melhor conforto, um abrigo encontrado pelo homem. Batman parece ser um dos poucos que sempre entendem o real propósito de Coringa por trás de seus feitos lunáticos. Apesar da impetuosidade e do perfil sádico, psicótico, perverso e homicida, e de seus propósitos duvidosos, o vilão esconde uma inteligência superior, com conhecimento preciso em química, genética e engenharia; confundindo a mente daqueles que o desacreditam por sua aparência demente e improvável.

(A Piada Mortal - DC Comics, 1988, p 36)

Desde a alta Idade Média, o louco é aquele cujo discurso não pode circular com o dos outros: pode ocorrer que sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância, não podendo testemunhar na justiça, não podendo autenticar um ato ou um contrato, não podendo nem mesmo, no sacrifício da missa, permitir a transubstanciação e fazer do pão um corpo; pode ocorrer também, em contrapartida, que se lhe atribua por oposição a todas as outras, estranhos poderes, o de dizer uma verdade escondida, o de pronunciar o futuro, o de enxergar com toda ingenuidade aquilo que a sabedoria dos outros não pode perceber. (Foucault, 1970, p.11).

Nos quadrinhos o personagem chama a atenção pela caraterização: pele branca, cabelos verdes, boca vermelha, terno roxo, sempre ostentado um sorriso sádico.

(Representações da Carta do Louco (Coringa) em baralhos antigos, Fonte: NICHOLS, 1997)


A roupa colorida do Louco é o símbolo por excelência da união de muitas espécies de opostos. Suas cores variegadas e o seu desenho fortuito parecem indicar um espírito discordante: no entanto, dentro daquele caos aparente, discerne-se um modelo. Dessa maneira, o Louco se apresenta como ponte entre o mundo caótico do inconsciente e o mundo ordenado da consciência. (NICHOLS, 1997, p.36).

O sorriso constante e cristalizado do vilão se tornou uma marca, e o que deveria ser cômico e gracioso, passa a ser, nas mãos do Coringa, aterrorizador. Esse sorriso constante, mesmo diante da derrota em suas batalhas com Batman, às vezes, parece incomodar o herói. Aliás, perverter a real significação das coisas parece ser a principal habilidade do palhaço, que o faz, sempre com uma pitada de loucura. Seja nas suas vestes de palhaço, com senso de humor doentio, ou nas suas armas: uma luva com dispositivo elétrico que dá um choque letal; uma flor que jorra ácido; tortas de cianureto; e o gás do riso, que força a vítima a rir até a morte.

É preciso dar destaque ainda para a habilidade de adaptação do palhaço que parece nunca morrer, mesmo depois de ser baleado, cair de prédios, etc. O vilão sempre reaparece depois de ser dado como morto em várias ocasiões.

À esquerda Jack Nicholson em Batman, 1989
e Heath Ledger em The Dark Knight, 2008 à direita
No cinema, os diretores sempre apostaram no sadismo cômico para a criação e representação do personagem que, sem origem definida, acaba por tomar rumos diferentes em cada roteiro. Em 1989, na versão de Tim Burton, Batman traz uma identidade nova ao Coringa (interpretado por Jack Nicholson) que desagrada seus fãs, fazendo do filme um fracasso de bilheteria. Nesse filme além de um colaborador da máfia, o vilão teria ainda sido o responsável pela morte dos pais de Bruce Wayne, teoria que contraria todas as HQ’s.

Na versão mais recente do vilão, interpretada por Heath Ledger em The Dark Knight, o personagem traz algumas características novas, como a pele de cor natural, apenas com maquiagem branca, sorriso feito por uma cicatriz, e cabelo comprido. Nessa versão também não há consenso sobre a origem do Coringa, que conta duas teorias diferentes para sua história. Na primeira, as cicatrizes teriam sido feitas pelo seu pai que, bêbado e drogado, cortara sua boca e bochechas para que ele sorrisse sempre, fazendo menção à famosa frase que caracterizou o personagem: “Why so serious?”. Na segunda história, contada à personagem Rachel Dawes, o palhaço diz ter ele mesmo produzido as cicatrizes ao tentar consolar sua mulher, que teria sido desfigurada por agiotas, mas a esposa não teria ficado satisfeita com o sacrifício do marido, desfazendo o casamento.

Em ambas as histórias não há consenso, e a sensação que paira é a de que em em todas o vilão apenas se propõe a aterrorizar suas vitimas, e não há compromisso com a verdade.

Na versão de Christopher Nolan, o Coringa (que segundo o ator Heath Ledger fora inspirado em Alex DeLarge de “A Clockwork Orange") parece mais cruel, dramático e agressivo do que nunca, e se apóia no estereotipo da loucura para justificar seu comportamento perverso. Sua sagacidade se confirma o criar em Harvey Dent (o promotor da cidade) o vilão Duas Caras. O personagem, eloquente, parece ter bastante clareza de seu objetivo, e um compromisso em trazer a Gotham City a verdade sobre quem é o Batman, e que ambos (herói e vilão) são iguais, o único diferencial seriam seus propósitos, em uma relação de dependência mútua.

(Imagem de divulgação do filme The Dark Knight)

Segundo Seino (2011), temos na figura do Coringa a personificação do arquétipo do Embusteiro (Trickster – O Trapaceiro). Esse arquétipo pode ser tanto bom quanto mal. No caso do personagem Coringa, ele representa apenas os aspectos negativos deste arquétipo.

O arquétipo do Embusteiro ou do Louco é também encontrado na mitologia nórdica sob a figura de Loki, o deus anárquico que sempre está tramando contra os outros deuses, que também é o equivalente a Hermes da mitologia grega. Hermes é o deus grego astuto, com trânsito livre entre os mundos, portador da mensagem, está sempre pregando peças nos deuses do Olimpo. Hermes é também conhecido como Mercúrio no panteão romano, o elemento mercúrio, por sua vez, é reconhecido por sua volatilidade.

A presença e as ações do Coringa no filme desencadeiam a desordem, trazendo o terror e o caos à cena, e libera em cada um, sentimentos antagônicos e contraditórios. À medida que tais emoções afloram e se tornam conscientes permite-se uma melhor análise das potencialidades e conflitos das figuras do ego real e o ego ideal.


Nesse processo de assimilação, a consciência se amplia e se modifica. De modo paralelo, os processos inconscientes também se modificam. O que ocorre é uma verdadeira transformação da personalidade, o processo de individuação. (MAGALHÃES, 1984, p.146).

Segundo Nichols (1997),

Os Trunfos são ideais para esse propósito porque representam simbolicamente as forças instituais que operam de modo autônomo nas profundezas da psique humana e que Jung denominou arquétipos. Tais arquétipos funcionam na psique de maneira muito parecida com a que os instintos funcionam no corpo. (...) Está claro que não podemos ver essas forças arquetípicas, como, de fato, não podemos ver os instintos; mas experimentamo-las em nossos sonhos, visões e pensamentos de vigília onde aparecem como imagens. (NICHOLS, 1997, p.35).

O final confuso de Batman: A Piada Mortal se dá com as gargalhadas trocadas entre o Homem Morcego e o Palhaço, após o Coringa contar a seguinte anedota:

- Tinham dois caras no hospício... Uma noite eles decidiram que não queriam mais viver lá... E resolveram escapar pra nunca mais voltar. Aí eles foram até a cobertura do lugar e viram, ao lado, o telhado de um outro prédio apontando pra lua... Apontando para a liberdade! Então um dos sujeitos saltou sem problemas para o outro telhado, mas o amigo dele se acovardou... É que ele tinha medo de cair. Aí, o primeiro cara teve uma ideia. Ele disse: - Ei! Eu estou com minha lanterna aqui. Vou acendê-la pelos vãos dos prédios e você atravessa sobre o facho de luz! Mas o outro sacudiu a cabeça e disse: - O que você acha que eu sou? Louco??? E se você apagar a luz quando eu estiver no meio do caminho?!" (A Piada Mortal - DC Comics, 1988, p. 48)

(Coringa, The Dark Knight, 2008)
A imagem arquetípica do Louco e o personagem do Coringa parecem se confundir e se completar em vários aspectos. Em Batman, a imagem do vilão se sobrepõe à do herói, provocando fascínio e admiração dos telespectadores desejando o sucesso do Coringa ao final da trama e mudando a concepção de que é certo ou errado, do que é bom e mau, de loucura e normalidade. A análise do personagem, de sua história contraditória, sem fatos concretos e de propósitos insanos, nos faz refletir sobre o que faz de nós sãos? E mais uma vez o personagem cumpre o seu propósito, ao trazer luz às mentes obscuras, perverte o real significado das coisas.



Referências

FOUCALT, Michel. A Ordem do Discurso. 12. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

MAGALHÃES, Lucia Maria Azevedo, et. al. Teorias da personalidade: Freud, Reich e Jung. 4. ed. São Paulo: EPU, 1984.

NICHOLS, Sallie. Jung e o Tarô: uma jornada arquétipa. 13ª. ed. São Paulo: Editora Cultrix, 1997.

SEINO, Everton. Batman: Arquétipos numa época sombria. Disponível em:http://tcconline.utp.br/wp-content/uploads//2011/11/ARTIGO-BATMAN-ARQUETIPOS-EM-TEMPOS-DE-SOMBRAS.pdf Acesso em 16 de janeiro de 2013.

Batman: A Piada Mortal. Edição Especial. ed. DC Comics, 1988.


Saiba mais: http://super.abril.com.br/blogs/nerdices/tag/coringa/ http://super.abril.com.br/blogs/cultura/novo-batman-fecha-bem-a-historia-do-heroi/comment-page-1/ 

http://super.abril.com.br/blogs/cultura/tag/cavaleiro-das-trevas/ 

http://vidaehistoriadocoringa.blogspot.com.br/


Nota: Texto originalmente publicado em: (En)Cena






sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ONDE VIVEM OS MONSTROS


Por Hudson Eygo


"...existe algo selvagem dentro de todos nós."


O filme é baseado no Best-Seeler americano “Onde vivem os monstros”, de Maurice Sendak, e conta a história de Max, uma criança solitária que vive com a mãe e a irmã. Ele ama brincar, tem uma imaginação fantasiosa e muito fértil. Tem dificuldade para lidar com o “Não”, e se torna impulsivo, agressivo e inconsequente quando contrariado.

Max se sente muito só. Sem ter com quem brincar, vê na mãe a figura de referência e deposita nela toda sua carência.

Quando o namorado da mãe vai jantar em sua casa, ele se sente ameaçado. E, com medo de perder sua mãe, ele começa a agir impulsivamente e de maneira infantil, chegando a morder sua mãe. Pode-se destacar aqui um dos mecanismos de defesa do ego: a regressão.

Quando percebe sua atitude rude e fora de contexto, ele sente-se na obrigação de fugir, e sai correndo pela cidade, sem direção certa, fantasiado de lobo.

Max chega ao litoral, e vê um barco abandonado na água, entra nele, e depois de atravessar o mar agitado chega a uma ilha diferente de tudo o que já viu. A ilha é habitada por seres inimagináveis, sete monstros enormes: Carol, Douglas, Janeth, Ira, Alexander, Touro e KW. Seres antropozoomorficos muito fortes.

A viagem é um mergulho profundo no mundo fantasioso de Max, e vital para sua maturação. Nesse lugar, fora da realidade, e interagindo com esses seres o garoto consegue lidar com o mundo real, e aprende regras de convívio social.

Há uma identificação instantânea entre Max e cada um dos monstros. É importante frisar que casa um dos seres tinham características muito humanas, e cada uma muito próxima com a realidade de Max: Carol era impetuoso, intenso, dramático; não por ser um ser mau, mas por estar perdido e se sentir abandonado. 

Douglas (a ave) era o grande amigo de Carol, e mesmo quando é agredido e perde uma asa, continua fiel à sua amizade. Alexander (o bode) é carente, inseguro, e se sente negligenciado, incompreendido. Judith é muito agressiva, inconsequente, fala o que vem à sua cabeça. Ira é amável e companheiro, sempre está ao lado de Judith. Touro era sempre calado, e nunca fala nada, mas no final do filme, demonstra ser melancólico e amigável. KW – dócil, gentil, maternal, e sempre evita discutir.

Em seu primeiro contato com o grupo, Max se percebe que todos estão muito infelizes, e que eles estão se fragmentando, mas o garoto ainda não entende o motivo. Para não ser devorado, Max se diz ser rei em outro mundo, com poderes especiais. Ao prometer fazer com que todos sejam eternamente felizes ele acaba sendo eleito rei.

Todos os monstros aceitam a autoridade de Max, e os primeiros momentos de governo são cheios de muita diversão. Ele está feliz em meio aquele grupo, é quando ele começa a
conversar com KW, um monstro feminino, que carrega traços de sua mãe. Ela é seu referencial de segurança e proteção.

Com o passar do tempo Max fica cada vez mais intimo do grupo e começa a perceber os problemas que surgem ali, e que a maioria é causada por Carol. Ele se projeta em Carol e consegue ver nele características particulares suas. Melhor que ninguém Max consegue entender porque o monstro tem aquela atitude agressiva e desesperada quando percebe que o bando está se desfazendo, mas inserido no contexto, ele entende como aquilo afeta todo o grupo, e passa a refletir sobre sua própria postura em relação à sua família.

A ver todos tristes, Max sugere que brinquem de “Policia e Bandido” jogando bolo de barro uns nos outros. Logo a brincadeira passa de divertida para agressiva. E ao ver que Alexandre se machucou na brincadeira, ele entende que para cada escolha sua existe uma consequência.

Com o fim trágico da brincadeira KW decide se afastar do grupo, e Carol culpa Max por isso. Ao perceber que ele não é rei, e que não tem poderes sobrenaturais nenhum, Carol começa a perseguir o garoto pela floresta cheio de fúria. Max consegue se esconder no estomago de KW, e é ai que o garoto entende como ele próprio age com sua família.

Na manha seguinte, ele decide que é hora de voltar para casa, se desculpa com os monstros e conta a verdade, inclusive para Carol. Nesse ponto, quando ele enfrenta todos os “seus” monstros, ele consegue superar todo o medo que estava da mudança, o medo profundo e inconsciente que Max tinha de amadurecer.

Na frase final de KW ao se despedir de Max: “eu poderia comer você de tanto amor”, é que entendemos o ato de profundo desespero e medo de perder a mãe que motivou Max a mordê-la, neste momento ele demonstra um arrependimento genuíno.

Max volta para casa, e ainda é noite. Ele percebe que nada mudou ao ser recebido calorosamente e cheio de amor por sua mãe. E nesse ponto, no final do filme a reflexão que fica é: Que tal encarar seus monstros?


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FICHA TÉCNICA DO FILME


ONDE VIVEM OS MONSTROS

Título Original: Where The Wild Things Are. 
Origem: Estados Unidos, 2009. 
Direção: Spike Jonze. 
Roteiro: Spike Jonze e Dave Eggers, baseado em livro de Maurice Sendak. 
Produção: John B. Carls, Gary Goetzman, Tom Hanks, Vincent Landay e Maurice Sendak. 
Fotografia: Lance Acord. 
Edição: James Haygood e Eric Zumbrunnen. 
Música: Carter Burnwell e Karen Orzolek.


Texto originalmente publicado em: http://ulbra-to.br/encena/2012/12/24/Onde-vivem-os-monstros