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sábado, 14 de janeiro de 2012

PSICOLOGIA COMUNITÁRIA E MARTIN-BARÓ:

REFLEXÕES SOBRE O PAPEL DO PSICÓLOGO
Por David Vieira



Um dos principais pontos que deve ser abordado dentro da Psicologia Comunitária é a reflexão sobre qual deve ser o papel do psicólogo. Antes de começar, cabe colocar que esta reflexão não abrange apenas o papel do psicólogo comunitário, mas o papel do psicólogo de maneira geral, isto é, se este psicólogo de maneira geral conseguir superar o grande vício que perpassa sua caminhada deste a formação: o sectarismo de área de atuação.

Isto porque as reflexões da Psicologia Comunitária partem de um teórico (que considero muito importante) chamado Ignácio Martín-Baró, que teceu reflexões sobre o papel do psicólogo latino americano de maneira geral.

Ignácio Martín-Baró, ao refletir sobre qual deveria ser o papel do psicólogo, começou por um caminho diferente do qual a maioria dos psicólogos segue, realizando uma análise de conjuntura da situação do povo de El Salvador. Uma análise de conjuntura é uma análise de fatos, idéias e formas de organização que se dão em determinado contexto ou tempo histórico, de forma a entender um quadro.

A escolha por tal caminho se deu segundo um princípio lógico: Se há a necessidade de colocar a psicologia a serviço do povo de El Salvador (Realidade de Martín-Baró) é necessário entender como vive (e sobrevive) este povo, e que problemáticas psicológicas, culturais e estruturais se apresentam a ele. Apenas com este entendimento seria possível colocar o a psicologia latino-americana a serviços das reais necessidades de seu povo.

Este caminho também foi um caminho contra-hegemônico. Haviam diversos indicativos vindos dos estados unidos sobre quais deveriam ser as atribuições dos psicólogos latino americanos, principalmente a aplicação de testes psicológicos no sentido de melhor selecionar mão de obra – para ser explorada e prol do imperialismo norte-americamo, travestido de desenvolvimento do país. Entretanto tal autor optou por deixar de lado tais indicativos considerados “legitimamente científicos e respaldados”.

E, a partir deste ponto, cabe uma pergunta que faço a você, meu caro leitor: nós, psicólogos ou psicólogos em formação do Brasil temos coragem de seguir este mesmo caminho? Não digo nem de chegar a mesma resposta que Martín-Baró (Martín-Baró elencou a conscientização como quehacer do psicólogo latino-americano salvadorenho a partir de suas análises); mas de fazer uma real análise de como vive o nosso povo, brasileiro, cearence, nordestino ou nortista, ou amazonense, ou potiguar, tão séria a ponto de estar disposto a deixar de lado aquilo que nos empurram enquanto verdades prontas do saber psicológico sobre determinadas situações. Será que os psicólogos em geral estão dispostos a tal?

Será que realmente refletimos sobre quais as reais necessidades das populações que estão sendo ameaçadas de remoções por conta da copa do mundo? Será que refletimos quais as reais necessidades dos usuários dos serviços de saúde, dos serviços de saúde mental ou dos serviços de assistência social? São reflexões comprometidas, para além do senso-comum e pensando a psicologia politicamente, inclusive?

A psicologia comunitária nasceu a partir de reflexões voltadas neste sentido, seguindo o caminho de Martín-Baró. A exemplo da cearense, houve um grande cuidado em se pensar “Qual a realidade do povo nordestino e cearense? Qual a realidade dos moradores da comunidade do Pirambu, em Fortaleza? E como poderíamos construir uma psicologia que realmente atendesse as reais demandas deste povo, estando voltada para a sua libertação (superação das condições de opressão)? Assim nasceu a psicologia comunitária voltada para análise, vivência e potencialização das atividades comunitárias, facilitação dos processos de conscientização em uma relação de cooperação com os moradores.

Hoje eu me considero psicólogo. E ponto final. Nada de dizer que sou de abordagem x ou y, ou de área a ou b. Me considero psicólogo, sem segregarismos ou fragmentações. Tenho preferências e reivindico a psicologia comunitária como forma de atuação em alguns espaços que mais me atraem. Porém, segundo aquilo que minha caminhada me ensinou, tenho a preocupação de estar sempre refletindo se minhas práticas realmente atendem as necessidades do meu povo. E, caso chegue a conclusão em minhas reflexões de que a psicologia comunitária não atende as necessidades deste povo em certas circunstâncias, não hesitarei em deixar a psicologia comunitária de lado para adotar (ou mesmo construir) outras práticas melhor alinhadas com a libertação deste povo a qual servirei.

A questão é: estariam os psicólogos clínicos, ou educacionais, ou organizacionais dispostos a abandonar suas verdades no sentido da construção de uma prática mais comprometida? Ou mesmo você, meu caro leitor?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

PSICOLOGIA COMUNITÁRIA É PSICOLOGIA?


Por David Vieira


Às vezes, em discussões que possuem como tema formação ou atuação em psicologia, me deparo com alguns dizeres de que a Psicologia Comunitária não deveria estar no currículo como obrigatória ou que não consegue entender o que há de psicologia na psicologia comunitária.

Estudo em uma universidade que tem a disciplina dentro do seu quadro de obrigatórias. Apenas uma disciplina de psicologia comunitária, e que alguns estudantes consideram demais. “Nosso curso é muito voltado para psicologia comunitária”, dizem. Aqui no Ceará é assim mesmo: enquanto muitos estudantes de outros currículos pelo norte e nordeste sonham em ter a disciplina pelo menos dentro do quadro de optativas, desfrutamos de uma disciplina inteira que é desvalorizada.

Um movimento que é muito engraçado, aliás. A psicologia comunitária que estudamos aqui no Ceará é uma psicologia comunitária que nasceu no Ceará, contextualizada com a realidade do Ceará, e comprometida com a transformação da realidade do povo oprimido e explorado do Ceará, através do seu quehacer psicológico. Entretanto, na Universidade Federal do Ceará, que tem como missão produzir e colocar seus conhecimentos a serviço da população do Ceará, possuir uma disciplina para um modelo de psicologia nascida no e para o Ceará é encarada como muito.

Mas, voltando a pergunta... A Psicologia Comunitária é Psicologia?

Para responder a esta pergunta, é preciso responder outra: O que é psicologia? O que é necessário a um saber para que ele seja considerado um saber psicológico? Basicamente todo projeto de ciência psicológica ou saber psicológico tem como fundamento que seu problema e que seu objeto de estudo se proponham as questões do psiquismo ou da subjetividade humana. Ou, em outros termos, sua consciência (ou inconsciência). E, caso seja este o referencial de saber psicológico adotado, a Psicologia Comunitária, ou pelo menos a cearense, é uma psicologia, sim!

Por quê?

Seu objeto de estudo não é a comunidade, mas o “Reflexo psíquico do modo de vida comunitário”, ou em outras palavras, a consciência. Embora não qualquer consciência. Trata-se de uma visão de consciência (o que implica em uma visão de homem) que parte da Psicologia Histórico Cultural, de Vigotsky, Leontiev e Luria; e com toques de Paulo Freire.

Este saber sobre a consciência pressupõe que a consciência não é uma existência a priori e isolada do mundo, mas uma existência a posteriori, que se dá em contato com a realidade material e concreta, sendo, assim constituída a partir do lócus de subjetivação humano, seja um condomínio ou uma comunidade. No caso da Psicologia Comunitária, por causa de seu compromisso ideológico de estar a serviço das camadas exploradas da sociedade, que falamos de uma consciência que parte do modo de vida comunitário. Por isto seu nome, reflexo psíquico, pois a consciência é reflexo do modo de vida material e concreto, embora também simbólico e afetivo, que se dá em seu lócus de subjetivação.

E qual o seu problema? Seu problema é um problema de consciência: como um sujeito que é explorado, mas que, de forma coletiva, possui o poder para romper com esta relação de exploração, não se reconhece enquanto explorado, não se reconhece enquanto parte de uma coletividade, de uma classe, e como ele não reconhece que, coletivamente, é capaz de transformar as condições concretas de sua existência?

E a atuação em psicologia comunitária se coloca no caminho da facilitação, em cooperação com os moradores e sujeitos comunitários, dos processos de aprofundamento de uma consciência de si e do mundo mais críticas, que rompam com o fatalismo (um processo profundamente subjetivo) e com a ideologia de submissão e resignação.

Assim, concluo colocando que a psicologia comunitária é considerada sim uma psicologia, pelas suas especificidades. Uma psicologia Cearense e para os Cearenses, sertanejos e nordestinos. E cabe a problematização: Por que há de se querer tirar do campo da psicologia teorias que fujam da atuação tradicional e impregnada da neutralidade cientifica? Por que querer tirar do campo da psicologia teorias que não foram importadas, mas que nasceram da tentativa de responder aos problemas locais de forma mais contextualizada? Por que chamar de sociologia as teorias psicológicas que buscam maior cuidado com o contexto, como se o contexto e a sociedade não coubessem à psicologia?

Por que insistimos em reproduzir na psicologia moldes individualistas, assépticos e (supostamente) neutros, ao invés de nos questionarmos o quanto que nossos modelos de atuação realmente respondem as necessidades de nosso povo ou não?