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segunda-feira, 25 de junho de 2012

MAL DE ALZHEIMER: DESABAFO DE UMA LEITORA


Algum tempo atrás, escrevi um texto sobre D. A.(Leia-o clicando aqui), e um dos emails que me chamou atenção foi o da leitora Claudia Mara de Aracaju.


O qual, transcrevo aqui para vocês.


"Olá, Daniel. 

Me chamo Claudia Mara, moro em Aracaju, sou Psicologa e mestranda em Psicologia Social pela Universidade Federal de Sergipe. 


Li sua matéria sobre o Mal de Alzheimer e me identifiquei com seu desabafo.

Ao ler o artigo, passou um filme sobre tudo que vivi com minha avó durante quase 10 anos da doença.
Perdi minha avó aos 100 com Alzheimer em estado avançado há três meses. No começo da doença, não sabíamos o que acontecia com ela.

Na época em que a doença foi diagnosticada, enquanto estudante de psicologia, me sentia incapaz por não poder ajudá-la a reverter a doença. O medo de perdê-la era notório em mim, durante esse período, busquei conhecer melhor a doença para tentar da melhor forma possível dar qualidade de vida para ela. Ficava assustada com o avanço da doença e as dificuldades que minha avó passava ao longo do tempo com a doença. Era muito difícil entender e aceitar que estávamos perdendo minha avó dessa forma.

Confesso que para mim e minha família foi difícil compreender a doença, por conta da alteração de memória e comportamento. Por ela ser uma pessoa muito ativa e com boa cognição.

Ao longo do tempo, os familiares não olhavam mais como "pessoa", as visitas dos parentes mais próximos se tornaram sociais... Pareciam que contavam o tempo para a sua morte. Isso era revoltante para nós que cuidávamos dela dia e noite. Cada resposta aos estímulos era uma forma de entendermos que aquela pessoa forte, ativa, guerreira continuava ali, lutando pela vida e mostrando que mesmo diante da doença em estágio muito avançado ainda tentava de alguma forma dizer: eu estou aqui com vocês. Tinha medo quando a doença avançava a cada dia, para não sofrer mais, ignoramos a doença e com muito amor e dedicação cuidamos dela durante 1 ano e 2 meses em casa numa cama de hospital, até que ela veio a falecer em casa durante a madrugada.

O tempo vai passando e estamos aprendendo a convivência com a perda de uma pessoa que amamos. Mas minha preocupação, assim como, de outras pessoas que tiveram ou têm familiares com Alzheimer, é quem será o próximo a apresentar os sintomas... Achei muito interessante seu desabafo e sua sinceridade nas palavras.

É necessário mais informações sobre o Mal de Alzheimer, para que famílias assim como a minha e a sua tenham uma melhor compreensão sobre a doença e possam dar melhor qualidade de vida e cuidado para o familiar.

Parabéns pelo artigo, pela coragem e sinceridade na escrita."







Pedimos a todos que tiverem relatos sobre a D. A. e que queiram compartilhar conosco, que nos envie no PSICOQUE@LIVE.COM.





quarta-feira, 2 de maio de 2012

MINHA MÃE COM ALZHEIMER

Por Dann Toledo


Faz algum tempo que sinto a necessidade de escrever com um maior comprometimento para o blog, porém, não achava um tema específico.

Aventurei-me sem muita emoção pelas bandas da esquizoanálise, mas confesso que essa definitivamente não é a minha área. Sendo assim, sentia-me em falta com os outros colunistas, com o blog e principalmente comigo mesmo. Todavia mais uma vez, venho confessar que ainda não encontrei O assunto que faça meus olhos brilharem. Porém, hoje, ao vivenciar uma situação - que mais tarde discorrerei sobre ela - senti a necessidade de começar a escrever sobre.

Pois bem, vamos lá.

Há pouco mais de um ano, minha avó veio a falecer. Viveu até seus 89 anos, e simplesmente foi apagando. Ela que sempre foi uma pessoa forte, com um raciocínio rápido e ótima resposta cognitiva, sofreu muito em seus últimos anos, por causa do Mal de Alzheimer.

Segundo a Wikipedia:

O Mal de Alzheimer, Doença de Alzheimer (DA) ou simplesmente Alzheimer é uma doença degenerativa atualmente incurável mas que possui tratamento. O tratamento permite melhorar a saúde, retardar o declínio cognitivo, tratar os sintomas, controlar as alterações de comportamento e proporcionar conforto e qualidade de vida ao idoso e sua família. Foi descrita, pela primeira vez, em 1906, pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer, de quem herdou o nome. É a principal causa de demência em pessoas com mais de 60 anos no Brasil e em Portugal, sendo cerca de duas vezes mais comum que a demência vascular, sendo que em 15% dos casos ocorrem simultaneamente. Atinge 1% dos idosos entre 65 e 70 anos mas sua prevalência aumenta exponencialmente com os anos sendo de 6% aos 70, 30% aos 80 anos e mais de 60% depois dos 90 anos.

Lembro-me mesmo muito novo, de uma conversa que tive com ela alguns anos antes de sua morte onde ela me relatava como se sentia;

"...É como se viesse uma borracha e apagasse tudo o que tem aqui dentro [mostrando a cabeça]!
Em um momento eu sei quem eu sou e quem é você, no outro, simplesmente tudo se vai; Não sei onde estou, quem sou eu e o que estou fazendo aqui..."

Os sintomas que minha avó apresentava, foram aumentando dia após dia, e mesmo com todos os esforços que meus tios fizeram, ela foi aos poucos esquecendo-se de tudo, esquecendo-se de quem era. Seu humor sofria uma constante mudança e muitas vezes nós, mesmo com toda a informação, não sabiamos como lidar com a situação.

Por diversas vezes lembro de meus tios e de mim mesmo discutindo com ela, durante os estágios primários da doença, pois minha avó estava mais teimosa do que já era. Toda essa situação gerou em nossa família um desgaste, e fez com que aos poucos os cuidados dela fossem postos ao encargo de uma tia minha que por uma feliz ou infelicidade é enfermeira.

Ao lerem isso, vocês podem até achar minhas palavras um tanto quanto rudes, porém sei que muitos aqui pensam a mesma coisa, e assim como eu, flagelam-se e repreendem-se por pensarem assim. Tivemos (os outros filhos e netos) a sorte de termos minha tia que é enfermeira, que tomou as rédeas da situação e com muitos erros e acertos, cuidou de minha avó até o fim da sua vida.

O restante da família reservou o dever/direito de manter visitas sociais a minha avó, coisa que aos poucos alguns deixaram de fazer. Sei que essa postura é quase que desumana, mas as coisas tenderam a acontecer assim.

No fim de sua vida, minha avó passou alguns dias na UTI de um hospital de minha cidade, o que fez com que a família adotasse uma postura mais preocupada, e de uma certa forma proporcionou à nós uma espécie de união. Ao final de dez dias minha avó, veio a falecer, e um ciclo foi encerrado, de uma maneira triste, porém, as coisas pareciam ter acabado.


O ALEMÃO VOLTOU

Ao olhar os filhos da minha avó hoje, eu começo a identificar neles, alguns desses primeiros sintomas do DA, e isso faz com que eu venha a pensar; "Será que vamos agir com eles, da mesma forma como agiram com minha avó?".

Tudo tem começado a se repetir, e cada vez mais próximo. Minha mãe está começando a apresentar alguns desses sintomas! Mesmo com toda a informação e com toda a vontade, eu temo que assim como eles fizeram com minha avó, meus primos e eu, venhamos a fazer o mesmo com eles. Não estou falando aqui sobre aqui se faz, aqui se paga, mas sim, sobre algo que pode sim ocorrer, talvez por medo, falta de capacidade, ou simplesmente por não querermos vivenciar novamente a experiência que já tivemos.

Temo por nós, temos por eles, temo por todas essas pessoas que passam por isso. O que parecia distante, tem a cada dia se aproximado, e eu me pergunto; "Como agirei quando esse momento chegar?" ou "Será que terei a capacidade e paciência para passar por isso?". Esse texto então torna-se pra mim uma válvula de escape, onde coloco o que estou pensando, não como profissional ou estudante de psicologia, mas sim como homem. Como filho!

Sei que não será nem um pouco fácil, e sei que meu conhecimento poderá ajudar nessa situação, sei também, que se para mim e meus primos, as coisas não serão fáceis, para meus tios e mãe, elas serão assustadoras.

Estarei escrevendo mais sobre essas experiências e espero que possamos nos ajudar em relação a tudo isso!

Muito Obrigado!

Dann Toledo