quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

SOBRE O POEMA "HUMILDADE" DE CORA CORALINA



Gostaria de compartilhar nesse espaço um texto que recebi de Marília Parreiras Maia Siqueira, uma de minhas alunas do curso de “Psicoterapia Fenomenológico-Existencial – dos conceitos à prática”, curso dado na modalidade à distância aqui no Espaço Cuidar.
Transcrevo, a seguir, o texto de Marília Parreiras Maia Siqueira.

“Humildade
Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.
Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.
Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”
Percebo, através dos textos lidos, que o Existencialismo se divide em duas dimensões: existencialismo de Sartre, Heidegger, Nietzsche e Merleau Ponty e o existencialismo teísta de Victor Frankl, Kierkegaard, Ranier Maria Rilke. Independente de base teológica, e, a seu modo, todos existencialistas são provocadores, críticos, inquietos, poéticos, instigadores, realistas, sem medo de ser o que são…
Quando li este poema de Cora Coralina, uma poeta do interior do estado de Goiás, como Drumond e Adélia Prado em Minas, fiquei encantada com a “pobreza”. Adélia mora em uma casinha de pedra, um carrinho simples na garagem, árvores no quintal, com uma mesa de madeira mineira na sua sala de jantar, e escreve a luz de velas…  a vejo na feira, na igreja, conversando com os visinhos…tudo muito pobre…estar com ela e ouvi-la falar, pois, tenho esta graça, sou praticamente sua vizinha, é embeber-se de sabedoria. Parece que a sabedoria anda de mãos dadas com a pobreza.
Estes versos falam de nossa condição existencial: a pobreza. Só a sabedoria com nossa existência trágica, nos fará descobrir esta nossa condição. E demora… até chegarmos lá, onde Adélia e Coralina chegaram, aja peleja, aceitação, tolerância, amor… Do contrário ufanamos fortes, poderosos, damos conta de tudo, e nosso corpo vivido acaba por carregar um peso morto, das nossas ilusões…
Neste poema, a Aninha, como era chamada, faz uma prece. Pede. Pede que aceite sua condição de pobreza, pois é assim que se é. Aceitar o que se é. Assumir a responsabilidade do que se é. Ser livre para ser o que é, e, para vir-a-ser, sem lamentações. Heidegger não fala de pobreza. A pobreza é melhor entendida pela boca dos poetas. Eles sabem falar de coisas sagradas, mesmo que seja para revelar-nos: homens desamparados, lançados ao devir, ser-para-a-morte. Heidegger e Coralina se aproximam.
Eles entenderam o existir. Nossa existência é trágica, há morte, dor e sofrimento. O Dasein se angustia diante de tanta pobreza. Vive uma vida inautêntica, provisória, agitada, vazia. Os apelos do ontológico, que mostram nossa pobreza, falam da nossa condição. O homem tem uma relação peculiar com o Ser. Não é como os demais entes.  Ele encontra sentido nas coisas. Sofre os condicionamentos de sua existência, mas é mais que seus próprios condicionamentos, pois é abertura às possibilidades…
O Dasein pode se fortificar. Ele pode aceitar a inexorabilidade da existência: somos seres-para-a-morte, há em nós uma pobreza ontológica, originária. Superar a angústia de morte e assumir a finitude da vida. Esta é a liberdade do homem: “agradecer a vós, minha cama estreita, minhas coisinhas pobres…”
Frankl fala de valores vivenciais. Encontramos o sentido da vida por meio de valores de vivência. Apreciar o seu próprio existir e felicitar. Degustar e saborear a vida, os momentos que acontecem. Estamos na lua quarto crescente…o sabiá laranjeira na minha janela, o pé de feijão que nasceu sem pedir na trinca da soleira, a  maria-sem-vergonha no caminho para o trabalho…contemplar o belo, valorizar a estética da vida, surpreendermos, encantarmos com a existência: “acender eu mesma o fogo alegre da minha casa, na manhã de um novo dia que começa”.
Não há neutralidade. Sou-ser-no-mundo. Minhas vivências são lotadas de sentido e a partir delas que faço ciência. A começar em mim. No mundo, na vida, mundo-da-vida. O que tenho é minha subjetividade, minha história real, minha existência, e ela não pode ser negada, pois corre o risco de ser instrumentalizada, reificada. A existência contrapõe a essência.  A existência é dinâmica, mutável, a essência é estática. Sou, logo penso. Primeiro existo, sou existente, e assim posso pensar e buscar minha essência.

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