terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

HEIDEGGER E A ESPECIALIDADE

Começarei a escrever uma série de textos que abordam ideias contidas em Ser e Tempo, livro de Heidegger no qual ele expõe sua ontologia. Começarei pelo parágrafo 24, do capítulo três, que tem como título: “A espacialidade da presença e o espaço”. É importante dizer que a proposta não é seguir o livro em sua ordem de apresentação, mas destacar alguns temas e aproximá-los de uma compreensão mais acessível.
Nesse parágrafo, Heidegger nos mostra como ele concebe o espaço de forma originária, contrapondo-se ao espaço que o modo de pensar ocidental nos incute dentro da tradição. Isso ficará mais claro ao longo do texto.
Iniciando nosso tema, é necessário pontuar que o espaço que nós vemos não é como uma coisa, mas é o lugar onde todas as coisas estão. Heidegger diz que nós estamos condicionados a ver o espaço de forma objetivada, como se usássemos o mesmo tipo de olhar que vemos os objetos do mundo para ver também o espaço. E Heidegger vai descontruir essa concepção e nos apresentar uma nova forma de perceber o espaço. Por exemplo, uma mesa me fala de um lugar onde eu coloco meu caderno, meu café ou tudo aquilo que é simplesmente dado, aquilo que não tem nenhuma característica a não ser a sua presença física – as coisas em si. O espaço que nós falamos no início deste parágrafo compreende esse mesmo modelo – e é, portanto, um espaço vazio, homogêneo. Mas Heidegger diz que o espaço não é originariamente apreendido assim, mas de forma regionalizada: aqui é o lugar para eu estudar, aqui é para eu trabalhar, aqui é o lugar para eu descansar… É assim que compreendemos o espaço e nunca, de cara, como um vazio que contem coisas.
Quando um ente chega ao encontro, o mundo ao qual pertence esse ente já foi descoberto. Mundo é uma totalidade conjuntural compreendida por Dasein. A região é um ‘para onde’, em que as coisas vêm ao encontro. Região é onde se estabelece uma conjuntura de encontro.
Portanto, o ente vem ao encontro de Dasein, que já descobriu o mundo, que já apreendeu o espaço e que aloca esse ente em uma rede de remessas significativas, de acordo com sua historicidade. Nesse momento, Heidegger fala de ‘arrumação’ – darei um contorno a experiência de acordo com o momento conjuntural que posso perceber. Deixar vir ao encontro é dar espaço para que as coisas aconteçam.
Assim, podemos dizer que o nosso espaço é arranjado, marcado por regiões, que as coisas que vêm ao encontro estão em determinada distância e direção. Dessa forma, damos espaço e arrumamos às coisas que irão compondo a nossa história.
Na medida em que Dasein é abertura, as coisas já chegaram e aí resta a arrumação, que é o mesmo que colocar as coisas na ordem do aceitável. Este é o processo de familiaridade e envolvimento com aquilo que chega a uma rede de remessas do seu cotidiano. É o dar espaço. E tem coisas que chegam independente de se querer dar ou não espaço – uma perda de um ente querido, por exemplo, ela chega e o que resta é o processo de arrumação, e buscar a familiaridade com a ausência da pessoa.
O espaço, então, é descoberto enquanto essa espacialidade, porque ele não é o espaço tridimensional, que pode ser medido, objetivado. Heidegger nos fala do espaço no qual nós vivemos e acontecemos.
Eu posso até medir o espaço, dizer que ele é homogêneo, não diferenciado, tridimensional e dar significado a isso. Mas preciso ter claro que não é dessa forma que eu vejo inicialmente o espaço, porque esse não é o espaço que Dasein descobre inicialmente. Essa é a questão central desse parágrafo.
Esse espaço que estamos acostumados a nos referir é um espaço concebido apenas intelectualmente, pois ele é espaço vazio. Mas uma questão é levantada: uma coisa é você conceber intelectualmente algo – e isso é, sem dúvida, um projeto de compreensão (isso é ser ocidental – é lidar com a coisa de modo que se possa mensurar, controlar, etc.). Mas isso não é o que vem em primeiro lugar; o que vem em primeiro é o que ele chama dessa espacialidade – a descoberta de regiões, que vêm em um contexto à mão, distanciado e direcionado, porque eu descubro o espaço na vivência. Esse é a primeira forma de apreender o espaço pelo Dasein. Eu descubro o espaço andando, indo para a faculdade, para a minha casa… E não de forma puramente intelectual. Heidegger, então, pergunta: porque esse espaço vivido fica em segundo plano e as pessoas colocam o espaço vazio como o primeiro a ser descoberto?
Só posso descobrir o espaço na vivência. Na vivência eu já descobri o espaço! E espaço como conjunto de regiões, em um contexto à mão.
Interessante perceber que sendo o espaço dado em regiões, eu não as vejo, mas me movo nessas regiões. Nem o espaço está no sujeito e nem o mundo está no espaço.
Heidegger vai enfatizar a descoberta fenomenológica de que o espaço está no mundo (mundo como rede de significados). Observe: o ser-no-mundo constitutivo do Dasein já sempre descobriu o espaço. Então, quem descobre o espaço? Dasein. Dasein é ser-no-mundo. Portanto, o espaço está no mundo.
Dasein descobre o espaço, originariamente, da mesma forma como ele descobre as coisas: a partir de sua acessibilidade. Eu não vejo as coisas isoladamente, mas eu vejo um todo, já percebido. Não vejo uma mesa e depois o copo que está sobre a mesa. Eu já vejo a mesa que serve de base para tal copo, que serve de recipiente para meu café e assim por diante…
Tudo o que está aí, no mundo, no espaço, está radicado no descobrir originário de Dasein.
Heidegger dirá que a mesa é intraespacial e que Dasein é espacial. Dasein é mundano, porque o mundo é uma parte do seu ser. Já o lápis que eu utilizo para escrever é intraespacial.
Porque Dasein é espacial, o espaço se apresenta como uma apriori.
Heidegger não nega que exista o espaço formal, puro, passível de ser mensurado, controlado – por exemplo, compro um terreno com tal metragem para poder construir uma casa que eu projetei para atender a tais e tais necessidades. Mas ele diz que simplesmente, esse é um espaço que vem depois daquele que é captado originariamente, na vivência.
A espacialidade está no plano ontológico. O espaço está no plano ôntico, e aí sem eu posso tematizar, tirar medidas, etc. Mas até a medição é a medição para alguma coisa, porque eu olho para um terreno e apreendo aquele espaço como o espaço que eu posso construir uma casa. Eu vejo com um direcionamento. Não é o ver isoladamente, não é o espaço formal, puro. Dasein já viu e compreendeu tal espaço – no âmbito da ocupação.
Primeiro vem uma base fenomenal – o espaço descoberto na vivência – que apoia a descoberta e a elaboração temática do espaço puro – a construção de uma casa nesse terreno, com essas e essas medidas.
Dasein é sempre ser-no-mundo que se ocupa desse espaço. Ampliando o que estamos dizendo, vamos falar sobre o cuidado. Dasein está sempre cuidando do seu se e apreende as coisas nesse cuidado, que engloba um todo. Isso não significa que Dasein não consiga recortar um elo dessa rede de conexões e objetivar. Tirar de um contexto ocupacional e apenas olhar. Eu não sou um sujeito da visão pura, mas sou um sujeito da circunvisão – que olha remetendo sempre uma coisa à outra.
Heidegger coloca a circunvisão em contraposição à visão pura, e por isso podemos concluir que Dasein é muito mais um ‘compreendedor’ do que um ‘perceber’. Se estou sempre ocupado em uma circunvisão, remetendo uma coisa a outra, então eu sou menos um percebedor do que um compreendedor, porque remeter algo a outro significa que eu já consegui compreender um todo articulado. E aqui temos o elemento hermenêutico da existência humana que mostra que somos, antes de qualquer coisa, um ser que compreende, que interpreta mundo. Antes de saber o tamanho do espaço, eu já compreendi o espaço servindo ou não para tal coisa.
Quando eu olho o espaço abstrato, independente de uma rede de remessas significativas, eu tenho o espaço puro e aí as regiões somem. O olhar se torna homogêneo e passa por cima daquilo que já foi descoberto previamente, ele passa por cima do mundo. O mundo perde seus contornos, suas especificidades.
Com essa exposição, podemos perceber a importância de refletirmos sobre essa questão, fazendo com que nossa relação com esse espaço originário, descoberto na vivência, possa ser considerado e validado em nossa própria experiência cotidiana, afinal somos ser-no-mundo, somos espaciais!

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