sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

TOC - RITUAIS, MANIAS E APRISIONAMENTO

Rituais e manias, em alguma medida, fazem parte do nosso dia a dia e o ideal é que sejam formas de nos ajudar com a organização da rotina, das nossas tarefas, ou mesmo no trabalho. Mas pode não ser sempre assim. A partir do momento em que tais comportamentos tornam-se imperativos e controlam a vida do indivíduo, causando sofrimento e prejuízo em sua vida social e emocional, podemos estar diante de um transtorno grave, que requer tratamento. Confira na sequência mais informações sobre transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e sinta-se à vontade para deixar comentários e dúvidas.
Transtorno Obsessivo-compulsivo: rituais, manias e aprisionamento.
O Transtorno Obsessivo Compulsivo, mais conhecido como TOC, é um Transtorno  Mental caracterizado pela presença de ideias estranhas e incontroláveis que atormentam incessantemente o sujeito, e pela constante luta contra esses pensamentos. Há também compulsão a realizar atos indesejáveis, rituais esconjuratórios e um modo de pensar ruminante. Pensamentos mágicos e dúvidas que levam à inibição do pensamento e da ação, também fazem parte do quadro (esses pensamentos dominam as ações da pessoa e impedem que ela se comporte livremente).
Segundo a psicanalista Luciana Saddi, membro da SBPSP, nas primeiras iniciativas de se estudar os transtornos mentais, entre 1894 e 1895, a neurose obsessiva foi isolada por Freud de outros sintomas psiquiátricos. Naquele momento, Freud compreendeu-a como um quadro psiquiátrico autônomo e independente, pertencente à família das psiconeuroses. Na época, os médicos consideravam que era uma degeneração e que o quadro era incurável.
De acordo com ela, atualmente, na Psicanálise, fala-se em uma estrutura mental obsessiva ou em traços obsessivos de personalidade e a formação dos sintomas ocorre quando conflitos irremediáveis, recheados de afetos intensos e simultâneos de amor e ódio surgem e, por algum motivo, não se resolvem. Diante disso, nasce a necessidade de controlar a vida pulsional e desviar a sexualidade e a agressividade para fins aceitáveis. Mas, como é característico das formações sintomáticas, o ‘tiro sai pela culatra’ e a defesa se torna adoecimento. No caso desse transtorno, os mecanismos de defesa mais evidentes são: o deslocamento de afetos para ideias distantes das que originaram o conflito e o isolamento, que quebra as conexões do pensamento, e desliga o sujeito de sua própria história e de seus afetos.
Segundo a psiquiatra e psicanalista Suzana Grunspun, esse é um dos transtornos mais prevalentes na população e considera-se que sua variabilidade clínica e diversidade de sintomas são fatores complicadores de diagnóstico. Isso preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS), pois o TOC é considerado uma doença incapacitante.
Desde a década de 50 a Associação Psiquiátrica Americana publica o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, cujo objetivo é fornecer uma fonte segura e científica para fundamentar a pesquisa e a prática clínica. A psiquiatria preconiza a identificação de sintomas, segundo as normas estabelecidas pelo manual DSM V, para fins de diagnóstico e para o tratamento dos pacientes. A psiquiatria não se dedica tanto, como a psicanálise, à compreensão dos aspectos emocionais que podem estar subjacentes ao quadro estabelecido.
No DSM V, o TOC é descrito pela presença de obsessões, compreendidas como pensamentos repetitivos e persistentes, imagens ou impulsos e/ou compulsões que são comportamentos com rituais repetitivos ou atos mentais, nos quais a pessoa se vê obrigada a fazer em resposta a uma obsessão. O psiquiatra, baseando-se na presença quantificada  de obsessões e/ou compulsões e a partir de critérios estabelecidos, proporá o diagnóstico. Atualmente, existem medicamentos indicados para o tratamento, que devem ser prescritos com rigor e que ajudam no alívio dos sintomas. Isso reduz a carga de sofrimento do indivíduo e propicia uma melhora em sua qualidade de vida.
Mas como a Psicanálise compreende o TOC?
Como se sabe, a noção de inconsciente é fundamental na Psicanálise e, segundo Luciana Saddi, no núcleo desse sofrimento e desse conjunto de sintomas está a imperativa necessidade inconsciente de controlar. Controlar afetos indesejados, ideias que podem surgir de repente causando desordem ao sujeito e impulsos de natureza sexual ou hostil que perturbam a ordem estabelecida. Se juntarmos a necessidade de controle com o pensamento mágico e acrescentarmos, nessa equação, a confusão entre desejo e ação, teremos todos os ingredientes para a estrutura mental obsessiva.
Além do tratamento com medicamentos, também a análise pode contribuir para a melhora dos sintomas. Analista e analisando trabalham no sentido do surgimento de um saber singular sobre o sujeito em análise. Trata-se, assim, de identificar as entranhas que dão suporte aos sintomas, aquilo que está na base dessas defesas. Procurar eventuais explicações sobre como se formam tais pensamentos e afetos que geram os sintomas não é, na Psicanálise, o foco do tratamento. O discurso do paciente revela uma verdade intrínseca a ele e o trabalho de análise oferece uma oportunidade única: o analisando pode ser escutado por alguém que não participa de sua vida familiar e que não deseja lhe impor nenhuma verdade ou saber pronto. O analisando pode falar e se escutar ou se calar. O espaço é livre de obrigações e performances, e a ideia é que, por meio de trocas e experiências que só dizem respeito àquela dupla, seria possível chegar aos núcleos inconscientes que mantém os sintomas ativos.
Em relação à cura, sim, ela pode ser alcançada em muitos casos. Em outros, trabalha-se em busca do abrandamento dos sintomas, para que o sujeito possa seguir com sua vida, sem tantos prejuízos. O importante é que as pessoas busquem ajuda, pois existe sim tratamento, tanto do ponto de vista psiquiátrico como psicanalítico. Se vai haver a supressão total da sintomatologia, ou apenas seu abrandamento, é impossível saber de antemão. O que se sabe é que atualmente as ciências da área da saúde dispõem de recursos que se complementam e que não só podem como devem ser utilizados em conjunto, buscando o alívio do sofrimento e a recuperação da energia de vida que os transtornos mentais subtraem dos indivíduos.
Fontes:
Luciana Saddi – mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).
Suzana Grunspun – psiquiatra, psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). 

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