segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

QUANDO A ANÁLISE CHEGA AO FIM

A psicanálise é, muitas vezes, tida como um processo longo e interminável. Quando saber que um processo analítico chegou ao fim? Em que momento se pode considerar que o analisando está curado? Faz sentido falar em “cura”, em psicanálise? Tais questões, complexas, são o objeto do artigo a seguir, da psicanalista e membro da SBPSP, Yeda Saigh. Sem colocar um ponto final nessa reflexão, a autora nos abre caminho para compreender o que significa o término de um processo analítico.
Por Yeda Acide Saigh*
Minha intenção ao escrever esse artigo é refletir não apenas sobre o término de análise como processo, mas também sobre a dificuldade de desligamento entre analista e analisando. O analisando que não consegue desvincular-se do analista parece não ter ainda um objeto interno com o qual possa contar para exercer a função analítica. Desse modo, podemos ver a análise como um aprendizado, que consiste na introjeção, pelo analisando, da função analítica; ou como uma tentativa de o paciente conviver com uma dependência de seus aspectos infantis em relação ao objeto provedor (analista). Se a sua dependência for aterrorizante, o analisando exigirá um objeto idealizado, um analista fantástico. Se a dependência puder ser controlada, se o analisando aceitar conviver com suas carências, suas dependências, se tiver algum objeto com o qual possa lidar, não-idealizado, mas que o ajude a dar conta da situação de dependência, ele não regredirá tanto. Em um certo momento, espera-se que possa superar tal situação e continuar a caminhada sozinho.
Trata-se de avaliar como o analisando se relaciona com a sua vida mental – e isso é limitado –, pois não se espera que o analisando saia “curado”, que saia sem “atuar”. Não é esta a idéia. O objetivo da análise é ajudar o analisando a ganhar uma maior familiaridade com o seu mundo interno, com o seu universo psíquico. Nesse sentido, a análise é interminável, não há interrupção. O que termina é a relação analista-analisando, a situação de análise. A análise terminaria, assim, quando analista e analisando deixassem de encontrar-se para a sessão analítica. Na minha experiência, uma análise termina geralmente quando o paciente está muito mais apto emocionalmente para começá-la; é uma pena! Porém, a vida não é só análise. O analista e o analisando que se dão conta desse tempo, que é um dos aspectos que delimita o processo analítico, poderão elaborar de maneira mais satisfatória quando deverá se dar o término da análise. Para tudo, no entanto, sempre haverá um tempo certo, não-datado, não-estabelecido, que dependerá da história de cada análise.

*Yeda Acide Saigh é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, diretora financeira da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, doutora em psicologia clínica na Universidade de São Paulo é membro da Budget & Finance Committee – International Psychoanalytical Association.

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