terça-feira, 30 de dezembro de 2014

SÍNDROME DA MÃE MORTA

Um dos conceitos centrais na obra de André Green é o de “mãe morta”. O psicanalista francês criou esse termo para falar de como a falta de interesse da figura materna em relação à criança se traduz, mais tarde, na sensação de perda de sentido, apatia e identificação inconsciente com o luto. Sobre o tema, confira o artigo da psicanalista Talya Candi, membro da SBPSP.
A síndrome da mãe morta
*Por Talya S. Candi
Com a noção de “mãe morta”, o psicanalista francês André Green coloca em evidência o vazio que subjaz à vida mental de todo ser humano. Expliquemos: para sermos capazes de nos apropriar dos afetos, sensações e fantasias que formam o tecido psíquico que chamamos de vida mental, precisamos de um suporte bem constituído pois, tal como um quadro que pode ser pintado somente se tiver uma tela branca segura, as percepções, fantasias e afetos que organizam nossos desejos e idéias necessitam de um “pano de fundo”, um continente vazio que permita que o desenho de fantasias e afetos tome forma e figura.
Essa descoberta foi feita por André Green com base em um trabalho psicanalítico com um tipo muito particular de pacientes: pessoas que se submetem ao tratamento proposto pelo terapeuta, conversam, associam, escutam as intervenções do analista, mas após longos anos de análise não apresentam sinais de melhora em sua vida afetiva. O autor tece uma hipótese sobre essa dificuldade em relação ao trabalho analítico: para ele, com certo tipo de pacientes a técnica analítica interpretativa reproduz o que chama de síndrome da mãe morta.
Forjando a expressão depressão de transferência para se referir a um sentimento de falta de vitalidade que impregna a relação entre paciente e analista, Green descreve um profundo sentimento de desesperança que faz com que todo o trabalho do terapeuta escorregue em um enorme vazio que suga todo o trabalho interpretativo.
A mãe morta (emocionalmente nesse estado, não necessariamente falecida de modo concreto) é definida como um “complexo transferencial” que reconstrói hipoteticamente a relação da criança pequena, ainda muito dependente do olhar materno, mas bruscamente “desinvestida” devido ao afastamento afetivo por parte da figura materna. Esse acontecimento incompreensível para a criança transforma brutalmente o objeto vivo, fonte da vitalidade, em figura distante, átona, quase inanimada, e põe fim a momentos felizes de sua infância.
Sugestões de leitura sobre o assunto:
1. A mãe morta, de André Green
2. Analisando formas de vitalidade e desvitalização, de Thomas Ogden

*Talya S. Candi é psicanalista e membro da SBPSP. É autora do livro “O aparelho psíquico de André Green”, publicado pela editora Escuta em 2010 .

0 comentários:

Postar um comentário