quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O AUTISMO NA IDADE ADULTA

No universo infantil, os quadros de autismo são bastante debatidos, tanto na mídia como entre os profissionais da área. O mesmo não se pode dizer em relação aos adultos portadores de transtornos do espectro do autismo (TEA), dos quais pouco se fala.

O que acontece quando essas crianças crescem? Quais as perspectivas para um adulto que desenvolveu, nos primeiros anos de vida, algum TEA? Há formas de subverter o processo de exclusão social aos quais, com frequência, esses indivíduos estão expostos?

A entrevista abaixo, com a Dra. Vera Regina Fonseca, psicanalista, psiquiatra e membro da SBPSP, tem como objetivo trazer à tona esse tema e refletir sobre as principais questões que o permeiam.

1) Em psicanálise, fala-se da importância do diagnóstico precoce e de tratamentos adequados para as crianças que possam apresentar aspectos autistas. Já sobre autismo em adultos muito menos se fala ou discute. Como a psicanálise entende/estuda o autismo em adultos? É comum/usual os psicanalistas usarem essa categoria diagnóstica na clínica de paciente adultos? Se sim, como isso se dá?
Um número menor de adultos do que de crianças chega ao consultório dos psicanalistas. Algumas hipóteses para explicar tal fato seriam a acomodação da família ao quadro, a aparência de déficit ao invés de conflito e a típica dificuldade relacional do paciente que faz com que seja mais raro surgir dele a demanda de ajuda e tratamento. Mas os que chegam serão abordados de modo semelhante a qualquer outro paciente, na tentativa de compreender seu mundo mental e seu funcionamento, auxiliando-o a expandir seus recursos para viver as emoções relacionais sem ser massacrado pelas mesmas. Ainda que em tais pacientes haja maior prevalência de modos autísticos de funcionar, sua personalidade é singular e única, o que faz com que o diagnóstico seja pouco útil, a priori, no processo analítico propriamente dito.
2) Como poderia ser feita a inserção de adultos autistas na sociedade (no mercado de trabalho, por exemplo)? E qual poderia/deveria ser a participação dos pais nesse processo?
O processo deve ser incluído desde cedo na programação terapêutica global da criança, sob forma de apresentação da realidade, ainda que se leve em conta seus limites (por exemplo, propiciando experiências com os fatos da vida diária). Do ponto de vista prático, isto implica um esforço contínuo de intermediar o contato da criança com a realidade, sem excluí-la das trocas sociais. Deste modo, ao chegar à adolescência, alguns caminhos de inserção já poderão ser identificados. Acredito que a escola e os pais têm um papel central neste trajeto, sendo fundamental para a saúde mental do indivíduo que ele participe dos processos de trabalho do modo que lhe for possível.
3) Um adulto autista pode se beneficiar de um tratamento analítico? Se sim, de que forma?
De modo geral, sim. Com freqüência a experiência de ser compreendido leva a um ganho na capacidade de regular as próprias emoções, de se comunicar e de se interessar pelas relações com os outros. Um aspecto dramático das pessoas com TEA é que, ainda que aparentem não ter motivação para o contato humano, dele necessitam como qualquer pessoa, ou até mais. É importante ter em mente que o desenvolvimento da mente se processa de um modo diverso nos TEA: a busca por relações é substituída por uma busca por sensações, o que leva a dificuldades frente às demandas do viver com as pessoas, já que as experiências de relação com o outro ficaram prejudicadas. Geralmente, constitui-se uma organização mental mais rígida, menos apta para as adaptações necessárias à imprevisibilidade do mundo humano. A análise, tanto em crianças quanto em adultos, tem por objetivo criar novos caminhos para lidar com a vida e com as emoções a ela associadas.
4) O que podemos esperar de um adulto que, na infância, tenha recebido o diagnóstico de autismo? É possível que, por meio de tratamento adequado, este sujeito saia do espectro autista na idade adulta? Será que a inserção social contribui para minimizar os sintomas e manifestações autistas?

Tudo dependerá da gravidade do quadro E da cristalização dos modos autísticos de funcionar.
Por vezes crianças com um desenvolvimento menos comprometido apresentam resistência a mudanças e, outros mais graves, podem até evoluir melhor, ainda que não seja esta a regra.
Mas estamos vendo várias crianças (que logo se tornarão adultos) saindo do espectro com o tratamento adequado, mesmo que não sempre. Na grande maioria dos casos, o ganho é marcante. Propiciar experiências sociais regulares e bem dosadas é, sem dúvida, positivo para a evolução.

5) O que você diria aos pais de um adulto autista? Como orientá-los na educação e nos cuidados com o filho?
Provavelmente os pais de um adulto já desenvolveram estratégias para lidar com o filho, daí meu uso do termo acomodação, acima. Como os primeiros anos, em geral, são muito sofridos para os pais, criança e família, na idade adulta pode-se chegar a certa “calmaria”. Talvez a pergunta importante que os pais devam se fazer é se a acomodação se tornou rígida, constituindo uma barreira para as mudanças inevitáveis que são demandadas pela própria vida, ou se tem alguma plasticidade para os ajustes necessários.
6) De que modo a psicanálise poderia contribuir/está contribuindo para propostas de políticas públicas para o tratamento de adultos autistas?
O MPASP (Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública), que já existe há dois anos, tem se dedicado a discutir e tentar influir nas políticas públicas para o indivíduo com um TEA. Este é um bom exemplo que responde a pergunta feita.
7) Você considera que existam preconceito e discriminação em relação aos adultos autistas (por exemplo, no momento de disputar uma vaga de emprego, ou mesmo nas relações pessoais)? Se sim, de que modo a psicanálise poderia contribuir para a redução desse preconceito?
Acredito que preconceitos haja sempre e que eles fazem parte do programa humano: preconceito frente ao estrangeiro, ao diferente, ao novo etc.
Na medida em que o diferente e desconhecido ficam apreensíveis, atenua-se a tendência à exclusão. Tornar mais compreensível o universo autístico é uma das tarefas particulares da psicanálise, que pode contribuir para trazer mais familiaridade com o mesmo.
Ainda assim, corremos o risco de divulgarmos clichês: daí a importância de levarmos em conta a diversidade e a singularidade de cada um de nossos pacientes.

*Vera Regina J. R. M. Fonseca é psiquiatra, psicanalista, membro e atual Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

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