segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

FREUD EXPLICA?

A expressão “Freud explica” tornou-se popular entre as pessoas. Mas será mesmo que Freud quis explicar? É nessa dimensão que opera a Psicanálise? Veja abaixo a interessante reflexão da psicanalista e membro da SBPSP Luciana Saddi, sobre o tema.
*Por Luciana Saddi
Sobre um dito bastante usado entre nós: Freud explica.
Quando um ato falho surge ou quando cometemos um lapso de linguagem é comum que alguém nos diga a frase: Freud explica. Mas o que essa frase quer dizer? Freud quis mesmo explicar?
Nós, psicanalistas, somos mais humildes do que o senso comum imagina que somos, pois nossa pretensão não é jamais explicar. Podemos apenas afirmar que Freud interpreta. Existe diferença entre explicar e interpretar.
A interpretação está na base de funcionamento de todas as psicoterapias de base analítica. Indica que há um trabalho pelo surgimento de sentido para as vivências do paciente. Algumas vezes o sentido parece se ocultar num segredo, que desvendado faz o sujeito avançar no conhecimento sobre si. Outras vezes, interpretar significa favorecer a ligação entre pontos aparentemente desconexos, possibilitando a emergência de novos sentidos e novas percepções.
Interpretar também pode ser entendido como contar, narrar e expor. São referências para o mundo da ficção literária e do teatro, referências que lidam com dar vida aos personagens, exibir certas questões ou mesmo contar histórias que não devem ser esquecidas.
Ao analista resta levar em consideração o que emerge. Trata-se mais de penetrar e de identificar as entranhas que dão suporte às visões que temos de homem e mundo e menos, muito menos, de procurar explicações sobre como se formam tais pensamentos e afetos.
Interpretar significa promover sentido e saber singular. Tomar o discurso do paciente de tal forma que o faz revelar uma verdade intrínseca e, ao mesmo tempo, deixar ao encargo do paciente a elaboração desse momento. Pois cada descoberta leva a quebra da rotina psíquica, cria uma pequena crise e leva ao aumento de patrimônio sobre nós mesmos.
Assim, da próxima vez que alguém lhe disser, Freud explica, replique dizendo, não, de jeito nenhum, Freud interpreta!
*Luciana Saddi é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

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