Para muitos que conhecem apenas a base do Behaviorismo Radical e da Análise do Comportamento, a ACT não se parece com nada disso. Como pode uma terapia que une um foco em emoções, pensamentos, ou seja, eventos privados – supostamente relegados pelos behavioristas a um segundo plano, como muitos ainda acham – a preceitos budistas e belas metáforas sobre o sentido de nossas experiências humanas ser uma terapia comportamental, daquelas que renega a existência da mente como instância controladora das nossas ações e se baseia em leis aplicáveis tanto a ratinhos simpáticos quanto a humanos, com toda a sua complexidade incomparável?
A ACT tem a sua base empírica assentada na chamada Teoria dos Quadros Relacionais (Relational Frame Theory, ou RFT), originada das pesquisas experimentais de Steven Hayes e sua equipe na área de linguagem e cognição (Hayes & Pistorello, 2011). Basicamente, a RFT analisa as relações entre estímulos, ampliando os estudos de equivalência em que Sidman se aprofundou durante suas pesquisas1 (Sério, Andery & Micheletto, 2008). As relações arbitrárias que emergem entre os estímulos no decorrer das nossas experiências ampliam nossa forma de se comportar frente a contingências que a princípio não tinham relação direta. Isso é muito importante para que possamos reagir efetivamente ao mundo, mas pode criar problemas ao ampliar também a potencialidade de contingências aversivas.
Por exemplo: uma pessoa que tem medo de elevador pode, a princípio, ter medo apenas de entrar no elevador. Mas outros estímulos podem evocar o medo a depender da experiência desta com eles. Ver a porta de um elevador pode se tornar aversivo, e então a pessoa passa a evitar passar em frente a elevadores. O som de uma porta se abrindo, também. Prédios altos, onde a possibilidade de haver elevadores é grande, também podem ser evitados pelo sujeito. Depois, lugares pequenos semelhantes a elevadores; depois, até mesmo a palavra “elevador”, e por aí vai. O repertório de fuga/esquiva do sujeito em relação a tantas coisas pode então restringir bastante a vida deste. Imagine, além de evitar elevadores, ter de evitar tantas coisas - daí, pode surgir algum sofrimento com o qual a pessoa lidará.
Para a ACT, um padrão de esquiva como este, que se inicia baseado em algo normal – afinal, a fuga/esquiva por vezes são úteis, como para nos livrar de situações potencialmente perigosas – pode passar a ser um repertório problemático, que leva os clientes à clínica de Psicologia. Além de evitar se expor às contingências, uma pessoa pode mesmo passar a evitar pensar no problema ou em coisas relacionadas a ele, e aí surge uma nova dificuldade: evitar pensar em algo é muito difícil. Ao pensar em evitar determinado assunto, você já está pensando nele. “Não vou pensar no meu medo de elevadores” é justamente pensar no medo de elevadores; não tem jeito, as palavras já estão aí bem no meio dessa frase.
“Assim, as pessoas se ‘embaralham’ com seus eventos privados e deixam de resolver as situações concretas que geram os problemas, os eventos aversivos primordiais, que estão na interação entre os indivíduos e seus ambientes”. (Saban, 2011, p. 22)
A ACT entra tentando fazer o sujeito mudar essa forma de lidar com o mundo que o rodeia, envolvendo exatamente o que o nome sonoro sugere: agir com compromisso. O problema é enfrentado de acordo com os seguintes objetivos:
- Aceitação: passar a entender que coisas ruins acontecem na vida, mas evitar sofrer não as torna mais fáceis. Deixar o sofrimento acontecer, como natural que é, é proporcionar oportunidade para que ele vá embora. Em outras palavras, devemos desistir do controle sobre os eventos privados aversivos – é uma estratégia geralmente ineficaz e provavelmente ela foi grande responsável por levar o sofrimento àquele ponto.
- Escolha: compreender que o que aconteceu já passou e não define completamente nosso futuro. Tecnicamente, entender a nossa história de vida e a partir daí abrir espaço para a aprendizagem de novos repertórios.
- Ação: a partir da escolha e da aceitação, esclarecer que o futuro, que está a nossa frente, é o que pode ser mudado de acordo com os nossos objetivos. Em suma, após definir o que queremos mudar, o que resta é ir em frente e aprender a nos comportar de forma que a mudança aconteça.
De início, após definir o problema do cliente em terapia, a ACT leva o cliente a analisar as tentativas frustradas de resolvê-lo, comumente por meio de metáforas e exercícios. As metáforas são uma característica marcante da ACT e são úteis pois, por serem menos diretas, não são vistas pelo cliente apenas como um conjunto de regras a seguir e então o levam à reflexão (Saban, 2011). Uma outra vantagem das metáforas é que elas evitam racionalizações sobre o problema e, como a ACT é calcada num modelo que lida essencialmente com a linguagem, esse afastamento abre espaço para que o cliente ressignifique sua experiência de vida, sem construir "desculpas" cada vez mais elaboradas para justificar a forma como age2.
A identificação das tentativas malsucedidas de resolver o problema que levou o cliente à terapia deve desencadear a chamada desesperança criativa, que é o reconhecimento por parte do cliente de que tudo o que ele vem fazendo não deu certo, então, é hora de mudar as estratégias. Tudo isso focando na ineficácia do controle de eventos privados – levando o cliente a abrir mão desse controle – e na importância de identificar os elementos das contingências que vêm mantendo o problema – enquanto eles se mantiverem como estão, o problema não irá sumir, independentemente de pensar ou não nele. Um outro objetivo no início da terapia é a chamada desfusão, que é levar o cliente a encarar a linguagem de uma forma menos concreta – algo muito útil para aqueles que encaram regras sobre o problema de maneira muito rígida, ou que se identificam essencialmente com seus pensamentos (que são, enfim, feitos de palavras) sobre si e sobre o mundo. Após isto, o cliente está pronto para a aceitação dos seus eventos privados e dá o primeiro passo em direção às mudanças que foi buscar em terapia.
Tudo isso é favorecido pelo que se chama de mindfulness, outro termo central na ACT. Oriundo de filosofias orientais, o conceito se refere ao contato com o momento presente. A prática do mindfulness tem a ver com estar sensível ao que se vive agora, não se prendendo aos acontecimentos passados nem às expectativas futuras, e portanto estando mais sensível às contingências que vigoram, bem como aos seus próprios pensamentos, sentimentos e emoções – saindo do “piloto automático” (Vandenberghe & Sousa, 2006). O sentido de eu passa a se assemelhar mais a um contexto onde as experiências têm lugar, um observador dos eventos (Saban, 2011). A prática do mindfulness envolve, comumente, exercícios de meditação dentro e fora da clínica.
Após a aceitação ser cumprida vem a parte da escolha. O cliente é levado a investigar, afinal, qual é a mudança que ele gostaria de operar, avaliando quais são os seus valores, ou seja, que conseqüências a longo prazo ele quer que ocorram em várias esferas da sua vida. É importante, nessa fase, descobrir quais são os valores de fato do cliente – o que ele gostaria de fato que acontecesse consigo, removendo as pressões da família, do trabalho etc.; enfim, o que outros querem – e então passar a traçar quais são as ações necessárias para alcançar esses valores. É comum, nessa fase, que o cliente volte à esquiva que tencionava abandonar nas fases anteriores, já que agir é difícil – é sair de uma posição que está cômoda de alguma forma graças ao repertório que ele aprendeu. Para isso, retomam-se alguns exercícios e metáforas que reconhecem as dificuldades do momento, mas reiteram a importância da mudança.
A fase de mudança lança mão das técnicas de intervenção comportamental existentes na literatura e necessárias a depender do caso (Saban, 2011). Para que estas entrem em jogo, naturalmente, além de todo esse processo uma análise funcional do problema do cliente é indispensável e deve estar sempre sendo revista. Por fim, o terapeuta ACT deve estar sempre atento ao processo de terapia e aos seus próprios sentimentos, pensamentos e valores para conduzir um trabalho bem-sucedido.
A ACT é uma terapia bastante nova e já vem sendo alvo de algumas críticas. Primeiro, questiona-se a validade da RFT, que também é uma teoria recente sobre equivalência de estímulos e ainda em construção, embora já possua algum corpo, mas talvez ainda não suficiente para se destacar como teoria "independente". Segundo, o status de “terapia da moda”. As sessões de ACT costumam ser bastante mobilizadoras para os clientes e os livros e textos são cheios de frases de efeito, além da proximidade com o budismo emular um pouco a literatura de auto-ajuda. A ACT ainda é bastante calcada na carismática figura de Hayes e alguns dos seus parceiros e suas palestras e conferências, entremeadas de filosofia budista e exercícios de meditação que chamam a atenção e envolvem a plateia, além da natural empolgação que os bons resultados da terapia têm trazido dão uma certa aura de “panacéia” à corrente (Cloud, 2006). Isso tudo, espera-se, deve se dissipar à medida que a empolgação inicial passe e estudos tragam novas evidências em favor da ACT, se ela for realmente capaz de responder ao desafio que se propôs. Ainda é apenas o começo e, no mínimo, a ACT merece atenção da comunidade acadêmica e, por que não, daqueles que desejam mudar através da terapia.
Fonte: Behaviorist Lady



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