sexta-feira, 3 de outubro de 2014

HOMOAFETIVIDADE, HOMOSSEXUALIDADE E PSICANÁLISE

Na psicanálise, a homossexualidade não é tratada em momento algum como uma doença, mas sim como um conjunto de sintomas. Dito em outras palavras, conforme estaremos vendo, é uma defesa maníaca , uma maneira do ego se proteger face a determinadas ansiedades de ordem essencialmente paranóide, mas também depressiva. No que se refere às defesas maníacas sabemos, com Melanie Klein, que elas surgem já na posição esquizo-paranóide e que estão também presentes na posição depressiva; por esta razão, as defesas maníacas podem relacionar-se às ansiedades - e mecanismos - tanto paranóides como depressivas.

Ferrão, em seu trabalho "Homossexualidade e defesas maníacas", salienta a importância de mecanismos de defesa maníacos nos psicodinamismos da homossexualidade.

Mas vamos às primeiras discussões abordadas pelo presente estudo; elas datam por volta de 1908, quando Freud discutiu, com alguns psicanalistas da época, especialmente Ferenczi e Jung, a relação íntima que invariavelmente, sentia existir entre paranóia e homossexualidade latente; desde então, diversos artigos sobre paranóia apareceram na literatura psicanalítica. Em seu texto de 1911, "Observações psicanalíticas sobre um caso de paranóia autobiograficamente descrito", Freud estabelece sua fórmula sobre a paranóia, sendo considerada como uma defesa contra impulsos homossexuais reprimidos. A seguir, em "Três ensaios sobre a sexualidade", o homossexualismo assume o caráter de um "comportamento invertido", e que varia grandemente sob diversos aspectos. 

Pode ser o invertido absoluto, no qual se estabelece a escolha do objeto sexual exclusivamente a partir de seu próprio sexo (essa escolha decorre de uma origem narcísica). Podem haver também os invertidos anfigênicos, ou seja, os hermafroditas psicossexuais; nesse caso seus objetos sexuais tanto podem ser do mesmo sexo como do sexo oposto, não possuindo a característica da exclusividade. 

Existem também os invertidos ocasionais, os expostos às influências de certas condições exteriores, como por exemplo, os presidiários, que na falta do objeto sexual normal (termo utilizado por Freud), obtém prazer com o objeto do mesmo sexo. 

Para Freud, o comportamento invertido tanto pode datar do princípio da existência do indivíduo, de uma época tão remota quanto a sua memória possa alcançar, como também pode se manifestar um pouco antes ou depois da puberdade. Pode persistir por toda a vida ou desaparecer temporariamente, ou pode ainda constituir um episódio isolado no processo de um desenvolvimento normal. Pode até surgir pela primeira vez tarde na vida, depois de um longo período de atividade sexual normal, ou depois de o indivíduo ter passado por uma experiência penosa com o objeto do sexo oposto.

Quanto à natureza da inversão, Freud pondera que não ela pode ser explicada nem pela hipótese de que é congênita, nem pela hipótese de que é adquirida, mas que pode estar relacionada com uma disposição bissexual e que se constitui um distúrbio que afeta o instinto sexual no curso de seu desenvolvimento. 

Também considera que, sem dúvida, os invertidos, nos primeiros anos de sua infância, atravessaram uma fase de fixação muito intensa porém muito curta, em uma mulher (geralmente sua mãe); e, depois de ultrapassada esta fase, eles se identificam com uma mulher e se consideram, a si próprios, seu objeto sexual. Isto é, partem de uma escolha narcísica, procuram um rapaz que se pareça com eles próprios e a quem possam amar como amaram e foram amados por sua mãe.

Posteriormente, as investigações de Melanie Klein e dos adeptos de suas idéias demonstraram a importância das situações precoces de ansiedade no desenvolvimento normal e patológico da criança e do adulto. Klein apresentou as duas conhecidas posições: a esquizo-paranóide e a depressiva e, em 1932, postulou que a homossexualidade se desenvolve como uma defesa contra a angústia paranóide, o que pode explicar a frequência da combinação da homossexualidade com idéias paranóides. A ênfase que M. Klein dá está na função defensiva da homossexualidade, que pode surgir na sua forma latente ou manifesta, pelo aumento das ansiedades paranóides. Em seu livro "Psicanálise da criança", Klein menciona que as perturbações do desenvolvimento sexual se seguem a uma fantasia infantil, onde existe o registro da figura dos pais perpetuamente unidos em coito (pais combinados na relação sexual). Se a devida separação dessa imago combinada dos pais não ocorrer em grau suficiente (pai plenamente diferenciado da mãe) durante o curso do desenvolvimento, o indivíduo sofrerá de graves perturbações em seu relacionamento objetal como em sua vida sexual. Ou seja, se houver a predominância dessa cena primária, ocorrerão perturbações na criança: primeiro nas relações primitivas que esta estabelece com o seio da mãe, e posteriormente com o seu objeto de desejo.

Essas perturbações aparecem nos ataques sádicos da criança para com o seio da mãe (objeto nutridor). Seus fortes impulsos orais farão com que rejeitem com ódio o seio dela. Essas tendências, que chamamos de destrutivas, vão dar origem à idéia de seio mau, ou mãe má e perseguidora.
Haverá, por conseguinte, um movimento brusco de abandono da mãe, seguido de introjeção da figura do pênis do pai (como objeto idealizado), utilizada para negar a existência do perseguidor. Esse sentimento de ódio e destruição acompanhará a criança, pois trata-se de uma percepção a respeito de sua mãe, e não necessariamente de uma verdade sobre ela (a maneira como a criança introjeta a figura da mãe - boa ou má - não corresponde a uma mãe real). A identificação com o pai se dará com base nesses sentimentos destrutivos, e o ódio se tornará ainda maior se a criança não for acolhida por ele. Sobrepõem-se, então, ao ódio e raiva sentidos pela imagem introjetada da mãe, o ódio e a angústia sentidos pela figura do pai, objeto de amor que desilude, rival da situação edípica e portador de toda a maldade a agressividades projetadas . 

Seguindo esse raciocínio teórico contemplado por Klein, a tendência homossexual se instala pela falta de uma boa imago materna. É um processo de deslocamento, no qual tudo que é terrível e inquietante está situado no interior do corpo da mulher, da qual o indivíduo vai se aproximar, buscando uma atitude apaziguadora, ou se afastar, podendo estabeler assim uma preferência homossexual, no fundo sempre indo atrás do que lhe falta: a boa imago materna. Todos esse fatores cumulativos presentes ao longo do desenvolvimento da criança podem fazer com que ela se afaste de seu primeiro objeto de desejo (mãe) e, segundo o caráter de suas primeiras experiências, podem perturbar gravemente sua potência heterossexual ou levá-la a se tornar homossexual. Fica claro, então, que a relação primária com a mãe é fundamental para o organização psíquica do feminino e masculino.

H. Rosenfeld, em 1949, em trabalho publicado sobre o assunto, relatou que a homossexualidade pode ser usada pelo sistema de defesa maníaco e também mencionou a importância dos mecanismos de projeção - e especialmente da identificação projetiva - em alguns casos de homossexualidade.

Após essa caracterização global das defesas em jogo na homossexualidade, destacaremos três características do homossexual, decorrentes do caráter sádico de seu superego extremamente rígido, conforme acentua Franco Filho:


1. A falsa sensualidade do homossexual

A pretensa sensualidade desses indivíduos não lhes propicia um prazer proporcionalmente correspondente, por conta da fragilidade dos vínculos que conseguem estabelecer com as pessoas, as depressões frequentes que suportam, e um estado comum de frustração por eles mesmos provocados inconscientemente. Comenta Franco Filho que por esse motivo não é possível crer que uma maior permissividade da sociedade em relação ao homossexual venha a fazê-los desfrutar mais livremente de suas ligações amorosas.


2. As atuações e o caráter masoquista

Por força desse superego antilibidinoso, o homossexual vê-se, muitas vezes sob o disfarce de uma procura de prazer, inclinado a condutas nitidamente auto-destrutivas


3. O parceiro como um perseguidor

Na ausência de defesas pode haver um processo de idealização do objeto perseguidor e, como consequência, o que é temido passa a ser procurado como bom. Dessa forma, o perseguidor se transforma em parceiro, que é procurado. Isso explica a submissão passiva de muitos homossexuais. 

Essa submissão tem a finalidade de seduzir e aplacar o objeto, controlando-o e assim tornando-o menos perigoso. É evidente que isso acarreta um aumento das atitudes masoquistas, levando ao dano que o próprio indivíduo a princípio queria evitar.

Diante das observacões feitas, pode-se verificar que a homossexualidade toca a fundo uma questão importante que é a da identidade pessoal daquele que se desvia da trajetória comum a todos nós. São pessoas que sofrem perturbações de ordem psíquica e relacional e que, por detrás de toda exuberância de uma pessoa homossexual, hospedam sentimentos de intensa angústia e ansiedades incontroláveis (ou controladas de maneira pouco eficaz, apenas para garantir sua sobrevivência). 

Precisamos encontrá-los com o coração e cuidar desse sofrimento que persiste desde a tenra infância, sofrimento esse subjacente ao estereótipo, mas que está acima de qualquer escolha que a pessoa do homossexual venha fazer. 

Cabe a nós, profissionais da área psi: o empenho na recuperação dessas imagos, proporcionando a felicidade de vínculos mais saudáveis e estáveis; conter as identificações projetivas e introjetivas destrutivas, na relação transferencial, aliviando suas angústias e ansiedades; e encaminhá-los para uma autêntica comunicação e vida interpessoal.


Referências Bibliográficas

FERRÃO, L. M., Homossexualidade e Defesas Maníacas. Rev. Bras. Psican., 1967,I,1, pg. 85-90.
FRANCO FILHO, O. de M., Caracterização e Gênese da Homossexualidade. Boletim de Psicologia, Jan/junho de 1972, XXIV, 63, Pg. 3-10.
FREUD, S. Observaciones Psicoanaliticas sobre um caso de Paranóia. (Domentia Paranoides) Autobiograficamente Descrito. Obras Completas, Editora Nueva, B. Aires, Arg., 1948, II, pg. 661.
FREUD, S. (1901-1905) Três ensaios sobre a sexualidade. Obras Completas. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1972.
HINSHELWOOD, R.D. Dicionário do pensamento kleiniano (Tradução José Otávio de Aguiar Abreu). Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
KLEIN, M. Psicanálise da Criança. Editora Mestre Jou, São Paulo, 1969.
LAPLANCHE & PONTALIS (1967). Vocabulário de Psicanálise. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1988.
QUILES, M. I. Neuroses. Série princípios, Editora Ática, São Paulo, 1986.
ROSENVELD, H., Remarks on the Relation of Male Homossexuality to Paranóia, Paranoid Anxiety, and Narcisism. Intrn. J. Psychoanl., 1949, XXX, 1.
SEGAL, H. Introdução à obra de Melaine Klein. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1975


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Angela Louzada Santos é psicóloga clínica e mestre em psicologia e educação em São Bernardo do Campo, SP. 
Coordena o núcleo ABC do CPPC. 
E-mail: louz-angela@bol.com.br

4 comentários:

  1. Não estou acreditando no que meus olhos veem.
    "Pode-se verificar que a homossexualidade toca a fundo uma questão importante que é a da identidade pessoal daquele que se desvia da trajetória comum a todos nós. São pessoas que sofrem perturbações de ordem psíquica e relacional e que, por detrás de toda exuberância de uma pessoa homossexual, hospedam sentimentos de intensa angústia e ansiedades incontroláveis (ou controladas de maneira pouco eficaz, apenas para garantir sua sobrevivência)."???????? GENTE

    Medo de um site de psicologia divulgando um conteúdo tão determinista e absurdo para o mundo. Medo de quando o "desvio da trajetoria comum a todos" é tachado como um transtorno ou perturbação!
    Reflitam antes de publicar um conteúdo desse tipo que pode servir de embasamento pra um monte de atitudes preconceituosas e discursos de odio. Isso é o que se chama de "patologização do diferente"! Vocês, como psicólogos, deveriam buscar a inclusão e não a diferenciação das minorias, deveriam buscar questionar e refletir de forma crítica sobre essas questões, e saber que cada caso é um caso, ao invés de determinarem causas e ao invés de determinarem como "portadores de transtornos" um grande grupo de pessoas que sofrem e morrem de preconceito a cada dia.

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  2. Olha... eu comecei aberto à uma bibliografia diferente da que eu leio, na metade me encontrei incrédulo e dai terminei a leitura com vergonha alheia. A autora está reafirmando a falácia da interpretação entre impulso e instinto na errada tradução de Freud.
    Tudo bem, talvez não seja culpa dessa psicóloga, afinal, ela devidamente referenciou os autores.
    Mas cabe salientar que até os psicanalistas fizeram mal uso da interpretação da literatura de Freud, ainda mais no quesito homossexualidade. Lembro-lhes dos que queriam canalizar a libido para o sexo oposto, fazendo uso de uma psicanálise pedagógica, longe da de Freud.
    Acho que faltou garimpar a melhor literatura para isso.

    Leia algo que condiz com a teoria tanto freudiana quanto lacaniana:
    http://leiturapsicanalitica.blogspot.com.br/2014/09/sociedade-que-acomete-as-diferencas.html

    Abraços.

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  3. Caramba eu como estudante de psicologia fiquei assustada ao ler esse texto, lia e pensava que absurdo nao é isso, confesso que estava ficando incomodada, mas ao ver os 2 comentarios acima percebi que nao eh minha visão que está errada, mas sim a leitura de um contexto de vida, ainda tenho muito a aprender mas pelo menos ja consigo discenir o que esta correto eo que eh absurdo

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  4. Olha, já estou acostumado com a desatualização da galera, mas má fé, porra, depois perguntam por que os gays são tão reticentes em procurar terapia... ta aí psico-patos.

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