sexta-feira, 31 de outubro de 2014

HOJE O DIA FOI PERFEITO

Por Bruno Rodrigues



“Hoje o dia foi perfeito. O céu estava limpo, um azul turquesa de encantar os olhos. Consegui chegar no horário ao trabalho, trânsito fluiu bem. Melhor ainda que as pessoas ao meu redor no ônibus estavam, digamos, mais cheirosas do que de costume. Nenhum telefonema chato, meu chefe não veio hoje, viajou à negócios. Almocei com a galera, rimos demais, uma sensação tão boa. Ah… o melhor, postei uma foto no facebook, uma que tirei no espelho e teve quase 100 curtidas, que máximo! Na volta do trabalho, encontrei uma grande amiga de infância, havíamos perdido o contato, incrível, conversamos por quase uma hora. 

Agora estou contemplando o céu, estrelado e a luz da lua está envolvente, a temperatura está amena, devo dormir bem depois de dias de calor intenso. Um ventinho gostoso no meu rosto, que dia. E para encerrar com chave de ouro, minha mãe fez meu bolo preferido, que dia perfeito!”


Embora a história acima seja fictícia, poderia ser real.


Mas o que seria um dia perfeito? No exemplo acima, fica claro, que o dia só foi perfeito porque saiu exatamente como a pessoa queria. Então um dia perfeito seria um dia que correspondesse a todos os nossos caprichos?


Quem nunca teve essa sensação gostosa ao final do dia que tudo foi perfeito? É uma sensação deliciosa, mas atrelada a ideia que só é perfeito quando tudo sai conforme o enredo, até a cor do céu, a temperatura, a ausência do chefe, a cutucada daquela gatinha no facebook ou a curtida na sua foto daquele príncipe dos sonhos. E se a “alegria do dia perfeito” ficar atrelada ao que é externo tira totalmente nossa autonomia. E ficamos à mercê dos acontecimentos, e para dar “tudo certo” de novo pode demorar muito.


E aqui cabe nova pergunta, o que é dar certo? Dar certo é quando tudo sai do nosso jeito? Ou o certo seria aprender a admirar a adversidade?


Comer sempre o mesmo sabor de bolo é dar certo? Ou Experimentar novos sabores e quiçá ampliar o paladar, as opções?


E existe o inverso, que é mais corriqueiro, as coisas não saírem do nosso jeito. A temperatura não estar do nosso agrado, a pessoa pisar no seu pé no ônibus lotado, chover no dia que você não levou o guarda chuva, ou a pessoa que você tanto queria que falasse com você nem notou sua presença. E isso acaba com o dia de muita gente.


Será que a perfeição de um dia está nas coisas saírem do nosso jeito ou será que podemos aprender a ver perfeição no dia como ele é, todos dias? Se isso for possível, muda-se o foco, trazemos autonomia e valorizamos nosso olhar sobre a vida.


Quanta beleza existe em um dia de chuva, por exemplo. Um dia desses, deu uma tempestade a qual observei da sacada do 12° andar do meu consultório, senti medo, foi assustador, trânsito parado, pessoas correndo, lojas fechando, mas havia uma beleza naquilo tudo, na luz dos relâmpagos cintilantes e no balé que os raios incessantes proporcionavam. Nesse mesmo dia acabou a energia no prédio todo, foi um dia atípico, mas existia uma beleza naquilo tudo, pessoas que nunca se falaram conversando sobre o acontecido, ajudando-se umas as outras.


Aprender a ver perfeição na imperfeição. Você pode se irritar com o bebê que não para de chorar do seu lado ou observar a mágica da vida que começa a se desenvolver naquele corpinho que por algum motivo chora, esbraveja, em uma forma rústica de se comunicar, mesmo que sem intenção, ou ainda, diante do cara que marcou de te encontrar e não foi, você pode permitir que seu dia estrague por esse motivo ou curtir ali mesmo a melhor companhia do mundo: “A sua”. E aproveitar o dia, o momento, e encontrar a perfeição nesse encontro, não com o “cara” mas com você!


Dar menos poder ao exterior.


Esperar por um novo dia onde tudo saia do seu jeito, pode levar anos ou até nunca mais acontecer, por outro lado, exercitar e aprender a ver beleza todos os dias é uma opção sua. Ao acordar se pergunte, o que a vida tem para me apresentar hoje? E busque ver além das aparências, além dos caprichos e do orgulho que temos em querer controlar tudo, até o dia, o sabor do bolo, a cor do céu, a ação dos outros.

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