segunda-feira, 25 de agosto de 2014

QUANDO O MEDO DE CONCEBER LEVA A VONTADE DE ABORTAR!

O QUE FAZER?
Por Joel Rennó Jr.


"Avaliar a gravidade dos sintomas e buscar outras formas de tratamentos, como as psicoterapias, são ferramentas valiosas tanto para o tratamento quanto para a prevenção dos sintomas."


"Descobri uma gravidez faz uma semana. Gravidez não planejada. Entretanto, além do estresse da gravidez, luto há muito tempo contra depressão e crises de pânico. Tentei essa semana diminuir os remédios (Cebrilim e Rivotril), porém tem sido catastrófico. Tenho crises de pânico todos os dias. Tenho medo pelo feto e tenho medo por mim mesma, não aguento essas crises. Já pensei, por questões de saúde, se não seria melhor o aborto do feto, mas não tenho coragem. Portanto, decidi voltar com os medicamentos na dose normal, mas mesmo assim tenho medo que a concepção seja abalada ou tenha má formações. Eu preciso de ajuda."


Resposta: A gestação é um momento muito especial e peculiar na vida da mulher e de toda a sua família. É um período de mudanças, tanto físicas quanto psíquicas, com o propósito de gerar uma vida. Essas modificações e novidades criam uma grande expectativa e, infelizmente, nesse período em que muitos imaginam que seja apenas de felicidade e tranquüilidade, por vezes, pode servir como palco para o surgimento ou agravamento de diversos transtornos psíquicos.

Sabe-se que a saúde mental materna é fundamental não só para o bem-estar da própria mãe, mas também do bebê e da sua família, além de ser um dos fatores determinantes para uma gestação e puerpério (período que sucede ao parto) sem intercorrências.

Na última década, tem-se dado cada vez mais importância ao tema pelos profissionais da área da saúde e pela mídia. A disseminação dos conceitos de transtornos psíquicos perinatais reduz o estigma e permite que as mulheres reconheçam que estão doentes e procurem ajuda.
O que é depressão perinatal?
A depressão perinatal é definida como a presença de um episódio de depressão maior que ocorre durante a gestação ou até 12 meses após o parto.

Estima-se que a prevalência de depressão perinatal seja em torno de 12% na população geral, mas esses valores podem chegar a 43% em mulheres com transtorno depressivo prévio e a alcançar 68% em mulheres que optaram por descontinuar o tratamento de manutenção com psicofármacos.

Similarmente, altas taxas de transtornos ansiosos, incluindo transtorno de pânico, transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno do estresse pós-traumático também são encontradas. O medo de que o bebê morra no berço pode ser patológico, assim como a aversão associada a trabalhos de parto prévios dolorosos e à recorrência de tensão, pesadelos e memórias negativas que se mantêm até o próximo trabalho de parto. O desespero, em algumas situações, pode ser tão desesperador a ponto das pacientes pensarem em situações até catastróficas quanto ao desfecho da gravidez.

Como identificar um transtorno psíquico?

Sintomas ansiosos, humor mais instável, cansaço e insônia são comuns durante a gestação, principalmente no último trimestre e nas primeiras semanas após o parto. Perante isso, muitas vezes um transtorno do humor acaba não sendo devidamente diagnosticado pelos profissionais de saúde, sendo os estados de "exaustão" considerados "normais".

Até mesmo o estresse durante a gestação também está associado com o nascimento de crianças menores, com o aumento do risco de parto prematuro, de comprometimento no comportamento e na cognição do bebê.

Pacientes que estão acima do peso ou que possuem algum tipo de transtorno alimentar, também têm risco aumentado para desenvolver depressão pós-parto. O grande dilema entre tratá-las ou não reside na preocupação em que os efeitos adversos das medicações podem causar ao feto.

No entanto, a presença desses sintomas no período perinatal também pode trazer muitos prejuízos e comprometimentos tanto para a mãe quanto para a criança. Por isso, recomenda-se antes de iniciar qualquer tipo de tratamento medicamentoso, ter em mente uma questão fundamental: "Os riscos de não tratar os sintomas são menores do que os riscos que as medicações oferecem? Em caso negativo, deve-se prescrever a medicação, buscando um agente efetivo e na dose terapêutica. 

O uso de agentes menos efetivos ou em doses subterapêuticas provoca a associação dos riscos dos sintomas não tratados e dos efeitos colaterais das substâncias. Além disso, é fundamental reconhecer o efeito teratogênico das medicações e usar as aprovadas pelo FDA (Food and Drug Administration).

Avaliar a gravidade dos sintomas e buscar outras formas de tratamentos, como as psicoterapias, são ferramentas valiosas tanto para o tratamento quanto para a prevenção dos sintomas.

Por fim, é importante que durante a gravidez todos os riscos e benefícios do uso de medicamentos sejam avaliados e que haja uma perfeita interação entre gestante, familiares e médicos psiquiatras e obstetras assistentes. Não há regras gerais ou ausência de riscos nessa área, mas os custos da doença psiquiátrica não tratada na gravidez podem também ser danosos ao desenvolvimento do feto.
Atenção!

Esse texto e esta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracterizam como sendo um atendimento. Dúvidas e perguntas sobre receitas e dosagens de medicamentos deverão ser feitas diretamente ao seu médico psiquiatra. Evite a automedicação. 



Fonte: UOL

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