sexta-feira, 20 de junho de 2014

PREPARAÇÃO PARA A MORTE

COMO VOCÊS TÊM VIVIDO A MORTE E O MORRER?
Por Ana Cecília Britto Freias



Como vocês se sentiram ao serem indagados por tais questões? E como a sociedade contemporânea tem se preparado para enfrentar tal questionamento? É necessário realmente preparar a todos e as futuras gerações para lidar com perdas, luto e pesar? Ou podemos simplesmente, ignorar que somos humanos e temos sentimentos e tais sentimentos não precisam ser expressos já que nos acostumamos a resolver nossas questões à mercê de nossa individualidade e egoísmo? Somos super-homens e super-mulheres? E como tais não morreremos? Fomos esquecendo de morrer?
Pierre Chaunu, historiador francês, chegou à conclusão em seus estudos que esquecemo-nos sim de morrer. Segundo ele, ensaios e livros dos últimos vinte anos não falam sobre a morte, algo universal, inevitável e definitivo. A sociedade em geral e equipes de saúde ao não falar da morte e do morrer, ao não enfrentá-la e não estudá-la, encontram-se despreparadas para lidar com situações de luto e pesar.
Há muito tempo atrás a morte era vista como algo natural, sendo a vida cíclica suas estações cintilavam a morte como o anúncio de um renascimento. Guerras e pestes na Idade Média traziam a morte como algo do cotidiano preparando naturalmente os fiéis para recebê-la, atestando muitas vezes seus desejos e preparando o seu próprio túmulo. Morrer continuava sendo algo desagradável, mas não inaceitável. Com seus rituais de personificação da morte, o esqueleto com sua dança e música macabra, dava a mão e hipnotizava a todos, inclusive as crianças, facilitando assim a dor e o pesar. Morrer era algo natural, familiar e por muitas vezes com boas refeições onde a família recebia o apoio dos mais próximos.


Seguindo esta linha de raciocínio falar de morte e morrer deveria ser mais fácil, entretanto perdemo-nos no caminho. Talvez pelo surgimento de novas correntes filosóficas, um novo pensamento sobre o medo da morte sem transcendência, diminuição da espiritualidade, o fato do homem ter que enfrentar a angústia de sua finitude, ou simplesmente pela mudança na Idade Moderna da relação do homem com a morte.
Atualmente a morte nos foi banida. Agora a tememos e não a queremos por perto. Escondemos e até a negamos. Comportamento vivenciado com a falta de cortejos fúnebres, viúvas de preto, crianças não autorizadas a velar seus familiares e a expressar seus medos e angústias. É proibido chorar, sofrer muito tempo. A morte não é mais familiar e o desaparecimento de um indivíduo já não afeta a sua continuidade. E esta negação da morte afeta cada membro da família tanto no sistema, quanto individualmente aumentando a dificuldade de lidar com os desafios que o luto proporciona.
Urge diante de uma sociedade tão afetada diariamente pela morte de milhares de pessoas de forma violenta, inesperada, ou até mesmo diante dos moribundos que lotam os hospitais, uma educação para a morte.
Equipes de saúde devem ser incentivadas a trabalhar seus medos e angústias diante de sua própria morte e da morte de seus pacientes, aperfeiçoar estratégias de enfrentamento e manejo de suas próprias emoções e reconhecer quando precisarem de ajuda profissional. Ao se voltar somente para a cura de seu paciente, o profissional de saúde vê a morte como uma inimiga, algo que se deve silenciar. Deve sim, buscar a compreensão do que o outro sente o drama que o outro está vivendo. É necessário um trabalho constante em relação a seus sentimentos para que diante de seus pacientes a relação seja verdadeira, inteira, humanizada.

Viver a morte e o morrer atualmente devem ser feito de forma a promover um processo de aprendizagem, autoconhecimento sem hora para acabar, levando a todos, principalmente às crianças e jovens, a possibilidades de falar sobre a morte, perguntar, tirar dúvidas, expressar seus sentimentos sem vergonha ou críticas diminuindo o isolamento e a dor que o assunto faz emergir entre as famílias, pessoas amigas e os profissionais. Proporcionar a compreensão de que o sofrimento não exige uma solução e nem uma resposta, mas certamente uma presença.

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