quarta-feira, 18 de junho de 2014

O AMOR ESTÁ MUDANDO?

Por Patrícia Renata


O amor está mudando ou nós não sabemos o verdadeiro sentido da palavra amar?

Aquele amor de Romeu e Julieta, romântico, triste, trágico e sofredor vêm perdendo espaço nos filmes
atuais como, por exemplo, Frozen e Malévola que possuem como foco mostrar de onde e como nasce o amor verdadeiro. O beijo do príncipe encantado que salva a princesa nos contos de fadas, também ganha uma versão mais moderna em Espelho, Espelho meu, adaptação à Branca de Neve invertendo papeis, ampliando possibilidades. 

Já no filme Enrolados, Rapunzel no passado e Valente, uma jovem filha ousada para a atualidade, a questão abordada é a capacidade de a mulher sonhar e realizar seus desejos lutando e persistindo neles, vencendo seus erros e quebrando paradigmas em busca de um ideal e conquista de sua liberdade.

Percebe-se a presença de uma mente mais moderna, aberta e respeitosa perante as escolhas dos outros. Durante o desenvolver das histórias, há um envolvimento emocional de todos os personagens em busca do bem em comum. Em certas cenas verifica-se aquilo que o verdadeiro amor supera: a distinção entre o certo e errado. Nem sempre fazer tudo certinho é justo e honesto. Há um resgate do amor altruísta, um cuidado do amor. Intrinsecamente motivado. É a realidade virando fantasia na esperança do inverso ocorrer. É a oportunidade e a coragem de acreditar num amor mais leve, divertido, baseado numa construção diária harmônica, numa simplicidade e divisão de tarefas com inteligência e criatividade, fazendo a dureza da vida de cada um, ser compartilhada, entendida e superada. Interessante notar que a inveja e o egoísmo, já não possuem tanto espaço dentro dos roteiros, as questões estão mais voltadas para questões familiares e sociais. Faz-se aqui, pertinente a citação de Spinoza ao dizer que a inveja, o ciúme, a ambição, qualquer espécie de cobiça são paixões; o amor é uma ação, a prática de um poder humano, que só pode ser exercido na liberdade e nunca como resultado de uma compulsão.

Os filmes trazem reflexões como: o amor verdadeiro sufoca? Devo esperar alguém querido morrer pra dar valor ao próximo? Há um cuidado com o amor que não separa. Não discrimina. Não prende. Não isola. Ao invés de paredes, ele constrói pontes que se interligam em busca de um mesmo propósito. Observa-se a demonstração de um sentimento destemido. Sem vaidade e submissão.

O amor é igualdade. Simples em sua essência. Complexo no entendimento. O caráter ativo do amor pode ser descrito afirmando-se que o amor, antes de tudo, consiste em dar, e não em receber.

O amor verdadeiro é desapego, ou no máximo um apego seguro, como se estuda em Psicologia. Um como base segura para exploração, aprendizagem e proximidade, troca de afetividade, carinhos físicos, porém na falta deste, reage de forma adequada e consistente às necessidades, sabendo comportar de forma ainda sem o companheiro, amável com aqueles que o cercam. Este sim é o vínculo que deve nos dominar, não aquele ansioso, pegajoso, dependente e incapaz de lidar com a ausência do outro. No amor, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um e, contudo, permaneçam dois.

Sim. Os contos de fadas podem existir. Romances podem reinar. Amores eróticos e quentes continuarem numa torrente de paixão. Porém, se a relação pretende sobreviver, deve haver uma evolução na amplitude desse sentimento e constante diálogo no sentido do companheirismo, intimidade e compromisso.
O amor se transforma. O amor te transforma. O amor nos transforma.

É necessário mais cautela e cuidado com a banalização do “Eu me amo” e do “Eu te amo”. Quem ama a si mesmo e diz amar o outro, não vê razão para fazer justiça com as próprias mãos, não denigre a imagem do outro e nem humilha o próximo. O que se vê por aí, são pessoas e casais arrogantes, extremamente vaidosos, injustos e egoístas que se dizem donos do próprio nariz lutando apenas em prol dos seus direitos e interesses, doa a quem doer.

O autor Erich Fromm, no livro a Arte de Amar cita que, se posso dizer a outrem, “Eu te amo”, devo ser capaz de dizer: “Amo em ti a todos, através de ti amo o mundo, amo-me a mim mesmo em ti”.
Talvez esteja mesmo na hora de relembrar as pessoas dos valores humanos como a ação correta, o amor, a paz, a verdade e a não violência. Principalmente, lembrá-las de que são humanas, e que erram. Que não são perfeitas. Para alguns adultos isso é conversa fiada. Por isso, nada melhor que tentar recomeçar com as crianças através de filmes, desenhos e leituras que abordem temas como responsabilidade, preconceito, discriminação e estereótipos em busca de uma geração mais humanista e solidária. Com a visão de que se verdadeiramente amo alguém, então amo a todos, amo o mundo, amo a vida.

E então, amamos verdadeiramente ou estamos apenas nos amando pelas metades?

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