terça-feira, 10 de junho de 2014

MITO DE SÍSIFO OU DOS TRABALHADORES DE SAÚDE MENTAL

Camus (2004), em sua obra intitulada O Mito de Sísifo, compara o absurdo da vida do homem com a situação de Sísifo, um personagem da mitologia grega, que é condenado a repetir sempre a mesma tarefa. Ocorre que Sísifo desafia os deuses e, quando capturado, sofre uma pesada punição: para toda a eternidade, terá de empurrar uma pedra de uma montanha, que rolaria para baixo, sendo condenado novamente a começar tudo de novo, tornando vão todo o seu esforço, transportando eternamente seu triste fardo.

Assim Camus (2004) vê em Sísifo o ser que vive a vida ao máximo, que odeia a morte e é condenado a uma tarefa sem sentido, como o herói absurdo. Não obstante, reconhecendo a falta de sentido, Sísifo continua executando sua tarefa diária. Esse mito, no entanto, só é trágico porque seu herói é consciente.

Camus (2004) apresenta o mito, para propor uma metáfora sobre a vida humana, particularmente em relação ao trabalhador contemporâneo, que executa as mesmas tarefas diariamente, sendo que esse destino não seria menos absurdo. Nesse caso, contudo, só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente.

Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição e pensa nela durante a descida. A clarividência, que deveria ser o seu tormento, consuma, ao mesmo tempo, sua vitória. Por algum motivo, os deuses pensavam que não haveria castigo pior que o trabalho inútil e sem esperança. Assim, tomar consciência do caráter insensato dessa agitação, da inutilidade de tantos sofrimentos, é descobrir o absurdo da condição humana, e talvez, se poderia dizer, do trabalho humano repleto de sofrimento; não aquele descrito por Dejours, como parte de uma “normalidade sofrente”, mas aquele caracterizado por ser árduo, duro, contínuo, cansativo.

Um dos pontos mais destrutivos para a saúde mental é o fato de que o trabalho por perder o seu significado vai sendo desinvestido de afeto, o que altera a relação do trabalhador com importante pilar de reconhecimento social. No serviço público, muitas vezes, é a partir dessas questões que surge o descomprometimento, resultado de um processo contínuo de falta de reonhecimento horizontal e/ou hierárquico, perda de autonomia e de desejo,acarretando perda de valor e sentido no próprio trabalho que realiza.

Ocorre que tais características assemelham-se às que os profissionais da área da saúde mental executam, por possuírem uma rotina permeada pelo tolhimento do próprio significado do trabalho, em que apenas ‘rolam pedras’, reproduzindo, assim, rotinas instituídas que, muitas vezes, já caducaram, não fazem sentido; ou ainda por assistirem à degradação dos pacientes, e ao seu retorno, cada vez mais frequente, questões que acabam por transformar o processo de trabalho dos profissionais em um trabalho sem significado e sem fim, com resultados cada vez menos visíveis.

Para elucidar tais afirmações, pretende-se apresentar alguns relatos de trabalhadores de saúde mental que elucidam a dureza do real do trabalho marcado pela loucura e pela esfera pública. Os dados foram obtidos a partir de pesquisa de dissertação (Magnus, 2009) realizada com trabalhadores de um hospital psiquiátrico público e que buscou compreender as implicações do processo de trabalho, em relação à subjetividade dos seus trabalhadores. Através da pré-pesquisa e dos encontros realizados com o grupo de profissionais que atuavam em unidades de internação de pacientes agudos, cujo perfil se modificou para usuários de drogas, mais especificamente, de crack foi possível perceber que estes trabalhadores se encontravam em um espaço do “entre”, ou seja, em um espaço de transição, que trouxe implicações importantes no processo de trabalho e de saúde.

Constata-se a falta de autonomia dos gestores da instituição que serve de desestímulo a todos.

U: Tu tenta até onde dá, mas também não tem muitos funcionários. A gente teve um retorno com colegas, a gente chamou, conversou (rede solidária) [...] o que iria ajudar era mais funcionários, mas não depende de nós nem da direção [...]

Os trabalhadores relatam que a sua entrada no hospital foi marcada pelo desconhecimento. O que delineia a dinâmica de trabalho na instituição.

V: [...] As pessoas quando passam no concurso não sabem que é para trabalhar aqui [...] é para onde tem necessidade, muitas quando sabem acabam até desistindo.

V: [...] Olha uma coisa te digo, para trabalhar aqui tem que gostar muito, porque o salário não é bom, a gente chama de gorjeta. As condições de trabalho são ruins. Eu não sabia como era isso aqui.

Descrevem o quanto foi assustador e deprimente se deparar, quando ingressaram na instituição, com as patologias dos pacientes por não possuírem experiência prévia.

U: [...] foi um pouco assustador porque disseram que eu trabalharia com crianças e adolescentes que eu já tinha experiência, mas quando cheguei a coordenadora me disse que não.

S: Eu nunca tinha trabalhado com este tipo de paciente, mas fui. Daí quando entrei fui direto trabalhar na enfermaria...era deprimente. Os pacientes ficavam sem roupa [...]

U: Quando tu passa no concurso e vêm para cá, não têm treinamento, não ensinam como agir em caso de surto, socorro. Tu entra como se tivesse muita experiência.

Z: Eu quase não agüentei no estágio probatório (primeiros seis meses), até adoeci , fui à coordenadora e tive apoio. Ela viu que eu estava no limite, daí fiz rodízio nas unidades.

Quanto às condições de trabalho no hospital, fica evidente o sucateamento dos recursos, o que faz com que em muitas situações os trabalhadores contem apenas com a sorte na resolução dos problemas.

S: Quando trabalhei na ala masculina tivemos sorte, ligamos para o médico e ele desceu correndo (caso de parada cardíaca). Mas as máscaras não se adaptavam ao massageador, dois enfermeiros massagearam (manualmente) e conseguiram ainda bem que poucos pacientes viram [...].

U: É um desgaste físico e mental.

S: Nós temos que ter um carro de parada cardíaca. Estamos batalhando e ainda não conseguimos [...].

U: Se só agora é que trocaram as lâmpadas da unidade [...] depois de 7 anos queimadas [...].

Segundo os trabalhadores, os enfrentamentos das situações que estão alicerçadas na proteção política, são improdutivos, pois só geram retaliações e desgastes profissionais e pessoais.

U: Não dá para peitar. A questão é que muita gente questiona porque não se enfrenta [...] Ela (colega) tem as costas quentes. Te manda para Itapuã (Hospital Colônia Itapuã em Viamão). Vai peitar para quê? Vai peitar, mas por questões políticas, tu vai para a geladeira, freezer, incinerador [...] Quanto menos falar melhor.

Z: [...] se tu vai peitar, tu fica marcada. Isso não vai mudar porque as pessoas têm costas quentes. Tem coisas de manejo com pacientes, de inadequação total. Eles (colegas) pipocam em vários setores e depois vão para outras instituições. Te choca ainda, mas não muda [...].

Um fator agravante em relação ao novo perfil dos pacientes atendidos nas unidades é o desconhecimento e/ou registro por parte dos trabalhadores de casos bem sucedidos em relação a usuários pesados de crack, o que também não se encontra em referências científicas sobre adição a drogas.

A grande mudança que ocorreu em relação ao perfil dos pacientes internados nas unidades, descaracterizou a patologia ou o sofrimento mental para, em sua maioria, usuários de  crack. Outra questão significativa foi em relação à diminuição da faixa etária, pois os pacientes que se apresentam ao serviço são bem mais jovens do que costumavam ser.

V: E só o que a gente tem agora é usuário de crack.

Y: Nossa população está repleta de gurizada, antes não era assim [...] Inverteu, agora a regra é internar novo, a exceção são os mais velhos.

T: É em função das drogas, do crack.

U: A gente tá atendendo muita “craqueirinha” (usuária de crack) [...] Mas os plantadores do interior também estão usando bastante droga [...].

Os fracassos repetitivos em relação à continuidade do tratamento, após a agudização, fazem com que os profissionais assistam à degradação física e psicológica dos pacientes. Essa realidade está bem presente no discurso dos trabalhadores:

U: [...] às vezes tu vê uma guria bonita que se perdeu. A gente aposta, tu conversa, passa a fissura, elas ficam bem conscientes. Daqui a três ou quatro meses estão de volta, cada volta é pior, voltam das recaídas mais enfraquecidas. Tu vê na equipe [...] o psiquiatra que não aposta, que desacredita [...] e como é que tu vai atender desacreditando na capacidade de inserção?

Z: Eu também pensava em trabalhar com crianças porque a gente ainda pode modificar alguma coisa, alterar o padrão, daí o prognóstico é melhor, tu vê acontecer. Sou um pouco impaciente, de querer ver outras coisas.

A questão do retorno sistemático dos pacientes, em função do crack, torna o trabalho sem fim, semelhante ao Mito de Sísifo, repetitivo e interminável, uma vez que o produto final fica cada vez menos palpável.

Y: [...] Tu vê que eles (pacientes) saem, mas voltam depois de três, quatro meses. O uso de drogas e uma rede de apoio e tratamento que não se sustentam, no meu entender, são as causas dos retornos sistemáticos, o nosso trabalho nunca acaba [...].

O trabalho em saúde mental coloca em xeque a questão do poder e do saber no cotidiano do trabalho nas unidades. Quando esse saber/poder é colocado em funcionamento, o paciente perde a sua verdade internalizada, ou seja, perde a possibilidade de exercitar o seu desejo.

Entender que o paciente poderá ter desejos que diferem dos da equipe provoca frustrações, mas também gera algumas reflexões.

U: [...] são limitações do desejo deles também. Tem pacientes que desejam ficar na rua, não adianta, tem que trabalhar em cima da realidade da pessoa, muitas vezes o paciente quer viver na rua, fazer o quê? [...]

A questão do individualismo associado à desesperança e a forma pela qual o trabalho está organizado acaba por enfraquecer a força do grupo, desmobilizando e despotencializando possíveis conquistas para os trabalhadores.

Nardi (2006) aponta para um individualismo social que se sobrepõe à solidariedade. Trata-se de um individualismo solitário, que vem permeando a sociedade de um modo difuso, que assume expressões especiais no mundo do trabalho. Conforme marca a fala a seguir.

Y: [...] Não adianta tu lutar [...] a gente fica de bode (expiatório) [...] não melhora nada, ninguém ajuda. A gente viu que não vai melhorar mesmo.

E: É, não vai ter muita melhora [...].

A frustração acaba por conduzir ainda mais as relações para o âmbito individual.

Y: Eu desisti [...] Tu querer unir é utopia. Quando tu bota muita energia, tu bota afeto [...].

T: [...] Tu investe afeto e depois se decepciona. Tu tenta melhorar, mas a coisa morre [...] agora faço só o meu trabalho [...].

X: [...] a falta de união entre as categorias então [...] é bem diferente dos médicos [...] Eu acho que é falta de motivação [...] agora só quero fazer o arroz com feijão bem temperadinhos, não me importo mais muito com o resto.

Ocorre que no hospital o sofrimento é banalizado, em todas as direções, de forma a ser aceito pelos trabalhadores como inerente à sua própria atividade no campo da saúde mental. O que acarreta uma postura mais passiva diante da possibilidade de mudança em relação ao seu sofrimento, ao dos colegas e dos pacientes.

Percebe-se que o sofrimento está muito presente no cotidiano de trabalho e, também, na história da instituição.

V: [...] às vezes a gente sai tonta daqui. Quando fogem (pacientes) sobra para todo mundo, e isto ocorre normalmente. Às vezes elas brigam entre elas.

X: O 1º ECT (eletroconvulsoterapia) que a gente assiste a gente nunca esquece. É muito chocante [...]. Botam pano na boca [...]quando a gente sai daqui quer um vento no rosto [...] imagina no lugar do paciente [...].

V: Às vezes eu xingo todo mundo, eu viajo..meus filhos acham horrível (o trabalho) [...].

U: [...] Quanto ao sofrimento, a gente não vê o nosso só o do paciente. Vi uma residente que se desorganizou, a idéia dela era uma e quase surtou porque viu que na prática não era assim, que a rede não dá conta e começou a acreditar no hospital.

V: É, realmente se tu não tiver muita vontade de trabalhar, tu não vem, porque motivo não falta. Quando chega o horário de ir embora quero sair logo, no outro dia volto, mas naquela hora o que eu mais quero é sair.

Para penetrar no campo da relação trabalho-saúde mental, é necessário considerar as “relações sociais” e articular um modelo de funcionamento psíquico que não seja o ocupado apenas pela normalidade, mas, também, pela loucura. Entendendo assim que a dita normalidade dos comportamentos não implica em ausência de sofrimento. Vale lembrar, ainda, que o sofrimento não exclui o prazer, o que assinala uma lógica de coabitação, entre esses elementos, transformando o trabalho em um campo ainda mais complexo.

Mas como afirma Dejours (1999), os trabalhadores são as pessoas mais indicadas para encontrar as soluções e oferecer sugestões para transformar a organização do trabalho. Pois se estes conseguirem entender melhor os dados da situação em que enfrentam, eles mesmos terão ideias, a partir dos coletivos de como transformar a organização do trabalho. E essa é a grande aposta no sentido de gerar mudanças que sejam realmente efetivas e produtoras de significado, que permitam produzir saúde mental aos próprios servidores e pacientes.

Para finalizar, vale lembrar de que é na possibilidade de deslocar os constrangimentos, os limites do real por estratégias, pela mobilização da inteligência, que a saúde e o prazer podem ser conquistados, mesmo que de forma instável. Pois, como afirma Dejours (2008), saúde e prazer estão sempre por serem conquistados, nunca são definitivamente adquiridos. Esta deve ser uma conquista de todos os trabalhadores, mas de forma particular e especial, dos profissionais de saúde mental: que parem de rolar apenas pedras e que possam construirenfim saúde.



Referências:

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo, ensaio sobre o absurdo. Lisboa, livros do Brasil, 2004.

DEJOURS, Christophe. Conferências Brasileiras: Identidade, Reconhecimento e Transgressão no Trabalho. São Paulo: Fundap, 1999.

______; MOLINIER, Pascal. O trabalho como enigma. In: LANCMAN, S.; SZNELWAR, L. I. Christophe Dejours: Da Psicopatologia à Psicodinâmica do Trabalho. Rio de Janeiro: Fiocruz. Brasília: Paralelo, 2008.

MAGNUS, Cláudia de Negreiros. Sob o peso dos grilhões: um estudo sobre a Psicodinâmica do Trabalho em um Hospital psiquiátrico Público. 2009. 275 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social e Institucional) - Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, Universidade Federal do Rio Grande do Sul [2009].

NARDI, Henrique C. Ética, Trabalho e Subjetividade. Porto Alegre: UFRGS, 2006.



Fonte: (EN)CENA

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