quarta-feira, 9 de abril de 2014

DEU A LOUCA NOS NEURÔNIOS

Você já sentiu vontade de dizer palavrões no meio da sala de aula ou no escritório? Provavelmente, você segurou o impulso e ficou calado, para não acabar sendo expulso ou despedido do emprego. Sorte sua. Porque pessoas diagnosticadas com síndrome de Tourette – um distúrbio neurológico que se manifesta por tiques vocais e motores involuntários – não têm o mesmo autocontrole. Na hora que a vontade de falar palavrões aparece, não há quase nada que elas possam fazer para impedir.

Nas enciclopédias de medicina, a síndrome de Tourette é apenas uma das doenças neurológicas que apresentam sintomas esquisitos. Um rapaz com a síndrome de Klüver-Bucy, por exemplo, pode ter ímpetos de fazer sexo com postes ou calçadas. Uma garota com coréia de Sydenham, que provoca espasmos nos braços e nas pernas, pode dar a impressão de estar dançando freneticamente em situações nada apropriadas para coreografias. Quem tem narcolepsia dorme sentado, de uma hora para outra, durante uma reunião importante ou enquanto conversa com um amigo. E quem tem frangofilia pode destruir em pouco tempo móveis, roupas, travesseiros, colchões e qualquer objeto que estiver por perto.

Além dos sintomas, os doentes se vêem obrigados a lutar contra o estigma social de que são vítimas. Já pensou no embaraço dessa gente, na maioria das vezes estudantes e profissionais tão competentes quanto colegas saudáveis? É bem possível que você, ao ser pego de surpresa por alguém com algum desses sintomas, tivesse vontade de rir – uma reação bem compreensível. Mas não dá para ser preconceituoso e achar que está lidando com malucos. Nas próximas páginas, você vai conhecer um pouco mais sobre algumas das patologias que apresentam sintomas para lá de esquisitos e fazem pessoas comuns se sentirem estranhas e inadequadas no seu dia-a-dia.



Metralhadora de palavões

Em 1825, a marquesa de Dampierre, uma nobre de 26 anos, impressionava a todos pela inteligência e pela ousadia. Ela costumava rechear seus discursos sobre as artes na França com palavras tão elegantes quanto “merda” e “porco imundo”. “Mudava bruscamente seu comportamento. Latia e dizia obscenidades. Parecia possuída pelo diabo”, escreveu o neurologista francês Gilles de la Tourette em 1883, quando descreveu – e batizou – a síndrome.
A marquesa foi o primeiro caso de síndrome de Tourette descrito pela medicina. Naquela época considerava-se que a coprolalia (o impulso de dizer palavrões) era seu sintoma mais comum. Hoje, já se sabe que ela é rara. “Para um diagnóstico positivo, é preciso que um tique motor acompanhe um tique fônico”, afirma a psiquiatra Roseli Gedanke Shavitt, da Associação Brasileira de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo.
A síndrome pode ter vários sintomas. Alguns simples – como piscar os olhos, repuxar a cabeça, encolher os ombros e fazer caretas – e outros complexos – pular, tocar coisas e pessoas, cheirar, retorcer-se e pronunciar palavras fora do contexto. Tudo num impulso incontrolável. O distúrbio costuma começar antes dos 10 anos, ocorre mais nos meninos que nas meninas e tende a ficar menos intenso com o tempo. Ainda sem cura, é tratado com medicamentos – nos casos mais graves – e técnicas de psicoterapia e modificação de comportamentos.

Síndrome de bailarino

Em grego, coréia significa dança. Pela tradução, já dá para ter idéia de uma das características da coréia de Sydenham: movimentos involuntários nos braços e nas pernas que lembram coreografias. Um dos principais sintomas da febre reumática, esse distúrbio se desenvolve quando as lesões da doença atingem o sistema nervoso. “Ele dura de algumas semanas até dois anos”, diz o psiquiatra Marcelo Zappitelli, da Escola Paulista de Medicina, que descreveu casos de pacientes com Sydenham em sua tese de mestrado.
Em geral, as vítimas são meninas em idade escolar, como Leilani, uma americana de 7 anos, incapaz de controlar os movimentos do próprio corpo. A menina parecia dançar desajeitadamente em momentos impróprios e escrevia as lições da escola com garranchos incompreensíveis quando a mãe percebeu o problema e ela foi diagnosticada com a coréia. As reações do paciente podem ser tão embaraçosas que a família de Leilani resolveu criar um site para instruir pessoas passando pela mesma situação.
Outros sintomas da coréia são voz baixa, fraqueza muscular e ansiedade ou comportamentos obsessivos-compulsivos. A boa notícia é que o distúrbio se tornou mais raro na era dos antibióticos, que atacam infecções causadas por bactérias, justamente a origem do problema. Em países em desenvolvimento, por exemplo, a incidência da febre reumática é de um caso em mil, sendo que a coréia só aparece em cerca de 30% desses pacientes.

O amor é cego. Os impulsos sexuais também

A história é contada pela jornalista inglesa Rita Carter, em O Livro de Ouro da Mente – O Funcionamento e os Mistérios do Cérebro Humano. Um homem foi preso ao ser flagrado fazendo sexo com a calçada. Antes que fosse internado como pervertido, diagnosticou-se que ele sofria da síndrome de Klüver-Bucy, um distúrbio neurológico com origem na amígdala – não a que inflama quando você tem dor de garganta, mas uma estrutura no cérebro do tamanho de uma noz, que identifica situações de medo e agressividade.
A síndrome provoca comportamentos anti-sociais. A pessoa perde a habilidade de reconhecer objetos, a capacidade de perceber o perigo e a seleção sexual. Assim, não vê problema algum em aliviar seus impulsos carnais junto a um poste na avenida mais movimentada da cidade. Também tende a colocar na boca tudo o que estiver pela frente, desde alimentos até cabelos.
A doença foi descrita pelo alemão Heinrich Klüver e pelo americano Paul Clancy Bucy, em 1939. Os dois médicos estudaram o comportamento de macacos Rhesus sem o tal pedaço do cérebro. No homem, a síndrome pode aparecer depois de traumatismo craniencefálico, encefalite, tumores localizados ou outras lesões adquiridas. O dano à amígdala em geral é irreversível e os sintomas são controlados com medicamentos e técnicas de controle comportamental, explica o neurologista Charles André, professor da UFRJ.

Hora da sesta

De uma hora para outra, em plena reunião com o chefe, o cara pega no sono. Certamente ele seria demitido se ninguém soubesse que tem narcolepsia, um distúrbio que provoca sonolência excessiva em homens e mulheres e surge quase sempre na adolescência. Os cochilos acontecem sem aviso e não é preciso estar sentado ou deitado. Mesmo em pé, o portador de narcolepsia adormece por períodos de 10 a 20 minutos. Nesse caso, ele fica com a musculatura mole e cai. Para quem vê, parece um desmaio.
A narcolepsia costuma atacar em situações bem parecidas com aquelas em que pessoas saudáveis sentem sono: depois do almoço ou durante atividades entediantes. Outro sintoma do distúrbio são as alucinações hipnagógicas, sonhos muito reais que podem ser confundidos com esquizofrenia.
O tratamento para a narcolepsia usa remédios estimulantes, para manter o doente acordado, ou hipnóticos, para melhorar o sono à noite. Os antidepressivos evitam a cataplexia, aquela moleza nos músculos que termina em queda. Segundo o médico José Roberto Santiago Barreto, do Laboratório de Sono do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, o distúrbio afeta 0,78% da população. Uma taxa baixa, comparada a outras doenças do sono, como a insônia (45%) e a sonolência (15% a 30%). As causas da narcolepsia ainda são desconhecidas, mas o diagnóstico é possível com um exame chamado Teste de Múltiplas Latências do Sono.

Instinto de destruição

Tire tudo de perto. Uma pessoa com impulso de frangofilia é capaz de pôr toda a casa abaixo. Ela dirige sua raiva contra roupas, toalhas, travesseiros, colchões, móveis e objetos de decoração. A quebradeira tem diversas explicações psiquiátricas. Algumas vezes é uma expressão de hostilidade ativa e incontida ao mundo material (no caso de pacientes com transtorno afetivo bipolar, agitação catatônica, estados demenciais senis e pré-senis e oligofrenia – escassez de desenvolvimento mental).
Em outros casos – personalidades desajustadas, imaturas, explosivas e paranóides – a explicação aparece no que os médicos chamam de deslocamento afetivo. O indivíduo fica nutrindo sentimentos de humilhação e vingança e, instantes depois, tem explosões incontroláveis. Como não pode, ou não quer, atingir diretamente a pessoa que o humilhou, por covardia moral ou desvantagem física, ele descarrega a agressividade nos objetos que estiverem à sua volta ou rasgando as roupas que estão no próprio corpo.
A frangofilia não é uma doença, mas um impulso patológico, assim como a piromania (produzir incêndios), dromomania ou poriomania (fuga e correria súbitas e precipitadas), toxicofilia (uso abusivo de drogas), dipsomania (uso abusivo de bebidas, alcoólicas ou não) e cleptomania (furtos). Todos eles se caracterizam por um estalo súbito, explosivo, instantâneo, fulminante. E capaz de deixar qualquer um morrendo de vergonha quando o impulso passa.



Fonte: SuperInteressante

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