segunda-feira, 7 de abril de 2014

AS CARTAS INÉDITAS DE FREUD - PARTE 3

De Freud para Martha
Você pertence a mim
Domingo à noite,
22 de outubro de 1882


Minha doce Marthinha,

De verdade, minha doce menina: cada linha de sua carta renova em mim o orgulho de ter conquistado você, de poder servir por você. E se existe algo que é capaz de romper este orgulho, isso é a consciência que existe em mim há tanto tempo — você sabe desde quando — de que eu nunca conseguiria perder você, e que é reforçada pela sua carta. Já fui tão rico que é difícil que venha a me tornar ainda mais rico, mas há coisas que eu nunca vou me cansar de ouvir de você.

Pelo menos pude rever você, sentir o aperto de sua querida mão e, portanto, desconsidero o pequeno desconforto pelo qual tive que passar para poder alcançar isso.

Sua carta está à minha frente e eu penso como parecem graciosas até mesmo as contradições que há em você, quão belos são os temas, até mesmo onde mais discordamos, e como as nobres palavras de Antígona de Sófocles parecem ter sido pronunciadas inteiramente para você: “É para amar com você, e não para odiar com você, que eu estou aqui”.

Contudo, admita que estou querendo escapar de nossas discussões com algumas palavras cordiais e que, justamente por me sentir tão seguro de você, aponto com total sinceridade para a nossa situação e para as diferenças entre nossas opiniões.

E se, ao fazer assim, eu estou agindo, como de hábito, sem consideração, pelo menos você sabe de tudo o que penso — até mesmo do pior. Você, no entanto, por causa de um impulso protetor, do qual eu não preciso, costuma encobrir os seus pensamentos mais íntimos.

Por isso, fique sabendo que eu penso que, de verdade, você não me ama mais do que eu amo você. Se eu imagino minha vida atual sem você, tudo desaba, por falta de sustentação e de interesse.

Você é a meta à qual eu me dirijo, o ponto de convergência de todos os meus desejos, por você eu transformei alguém que até então me era estranho em meu amigo mais próximo e mais íntimo, por você me dispus a dedicar a uma mulher que não é minha mãe as honras devidas por um filho, a amar uma menina que não é nem minha irmã antes que minhas próprias irmãs.

Gata borralheira

Você sabe que nem tudo deu certo. Somente conquistei o amigo. A mãe e a irmã permaneceram como estranhas para mim, mas por você eu continuo a esperar e a amar. Dissolvi todos os laços mais íntimos que queriam significar para mim tanto quanto você.

Você certamente também me ama, como uma menina querida como você é capaz de amar, mas você permaneceu uma Bernays. Minha família e meus amigos não significam nada para você, um humor de Eli é tão importante para você quanto um desejo sentido meu, você não se aproximou de minhas irmãs, nem as ama, embora eu ache que elas mereçam e saiba que elas se alegraram tão profundamente com você.

Quando expresso algum julgamento severo sobre alguns dos seus familiares, você não se aborrece porque estou cometendo uma injustiça — você não é capaz de me desmentir — mas sim porque estou falando de algum dos seus. Eu sei bem que há coisas que não posso e nem tenho como tirar de você, coisas que você considera tanto quanto a mim mesmo, e das quais você se orgulha, como você mesma diz.

Não tenho como imitar você e apenas espero que chegue um dia no qual eu não precise dizer que entreguei os meus, que eu consideraria mais do que os seus, sem vingança. No momento, apensas posso reconhecer a minha insatisfação, mas agora não se trata disso.

Eu não disse que você era a Gata Borralheira em sua casa, eu só exigi que você não se deixasse tratar como uma criança sem vontade, e você não tem como negar que é tratada assim. Você é a escrava doméstica de Eli e estremece diante de uma simples piscadela dele. Daí vem o grande amor que ele tem por você, e isso é totalmente indigno.

Tenho a sorte de conhecer seu ser verdadeiro, um ser humano com inteligência e vontade. De mim você não acata nada.

Só gostarei que você mostrasse um pouco da força que mostra diante de mim a seu irmão e à sua mãe. Você diz que isso é insignificante, mas eu não creio. Eu temo o hábito de “apertar-se” também em você, minha querida Martha. Um ser humano deve manter a cabeça livre em todas as circunstâncias.

A única característica que me é antipática em minha menina tão perfeita é, precisamente, essa sua tendência a sacrificar tanto do seu ser em nome do conforto e do aconchego, como diz o idioma dos Bernays. Isso me lembra, de maneira muito dolorosa, de um horrível provérbio pronunciado por Minna: “Se Martha estivesse sentada à janela e o mundo estivesse vindo abaixo ela diria: ‘Que pensa, eu estava tão acomodada.”’

Sem descanso

Desde que eu ouvi essas palavras, elas têm me devorado por dentro e estou firmemente decidido a não descansar enquanto ainda for capaz de encontrar um rastro sequer disso em minha Martha.

Pode responder com fúria, pois eu não vou voltar tão cedo à casa dos Bernays. Não me agrada ver como, num lar tão preocupado com suas formalidades, o dono da casa transgride impunemente as mínimas regras de convívio com sua total ausência de restrições.

Você permanece minha e vai se tornar como eu quero. Não se engane: Elise, Eli, Fritz e todos os outros já estão mortos para sua sensibilidade. Você pertence inteiramente a mim, e você já percebeu que não estou disposto a dividir você com ninguém.

Com cordiais saudações à doce amada,

Sigmund.

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