sexta-feira, 28 de março de 2014

POR QUE CONTINUO A MANTER UM MAU HÁBITO?

Por Aurea Afonso Caetano



"Será que ele é suficientemente ruim para que eu me proponha a modificá-lo?"

Por que continuo a repetir uma ação que sei ser inadequada para mim? Ou, por que embora reconheça em mim um mau hábito, ou um comportamento inadequado, não consigo abandoná-lo ou transformá-lo?

Um mau hábito é muitas vezes um hábito automático que realizamos sem que seja percebido de forma realmente consciente. Surgem daí duas questões importantes: primeiro discriminar o que é de verdade para mim - um mau hábito - e depois avaliar o que é que envolve esse que comportamento, qual o contexto em que ele se apresenta, em que momentos ou situações sou tomada por ele.

Não pretendo falar aqui sobre vícios, ou comportamentos de adicção. Penso falar sobre algo que pode, ou não, ser mais simples, um hábito que embora traga claros prejuízos a meu funcionamento não me abandona ou não consigo abandonar.

Um exemplo: acordo sempre atrasada, tenho de correr para não perder a hora, isso impede que eu tenha tempo para tomar um bom café da manhã. Saio de casa sem me alimentar direito o que me leva a pedir um sanduíche no escritório no meio da manhã. Esse pedido põe em movimento um funcionamento cascata. Atraso ou pulo a hora do almoço porque o sanduíche me deixou sem fome, mas logo a seguir como um salgadinho e docinho, para logo mais ficar com fome outra vez e fazer mais uma refeição inadequada. Mas, inadequada para quem?

Pensando bem, tudo o que mais queria era dormir mais um pouco, o que consegui. O resto... efeitos colaterais! Para mudar esse mau hábito, ou comportamento inadequado, seria importante rever meu funcionamento. Isto é como é que lido com as tarefas do dia a dia, quais os limites que coloco às exigências externas, como equaciono as demandas internas e externas. Não é possível estabelecer um funcionamento mais adequado sem parar para uma cuidadosa observação de minhas reais motivações.

Então para mudar um comportamento, na maioria das vezes não é suficiente tomar uma decisão racional a respeito dele. Faz-se necessário um aprofundamento nos aspectos por assim dizer mais inconscientes que determinam aquele movimento.

Voltando ao exemplo, para encontrar tempo para o almoço talvez seja necessário rever como cuido de minha manhã. Mais ainda, como cuido de minha vida. Quantas horas de sono preciso, qual o horário adequado para acordar, como me preparo para sair de casa. E ainda: como chego ao trabalho, como organizo minhas atividades, dou ou não conta de minhas atribuições. Estou ou não focada, permito ser inundada por pedidos fora do esperado. Quanto valorizo o horário de almoço e mais ainda quanto é que acredito na importância de um bom almoço.

Estou falando em poder fazer uma reflexão mais profunda sobre o que é que move o meu dia a dia. Para mudar um "mau hábito" é importante primeiro compreender se ele é de fato "mau" para mim e tentar perceber quais os gatilhos que o detonam. A partir da percepção desses gatilhos e do desmanche desses automatismos podemos modificar esse compartamento podendo entrar em um melhor funcionamento.

Procrastinar essa reflexão pode ser tambem uma forma de manutenção do comportamento inadequado. Ideia clássica é aquela do regime que vai ser com certeza iniciado na segunda-feira. Vamos deixando para amanhã a solução de nossas dificuldades que vão se tornando cada vez maiores e mais importantes, o que nos deixa cada vez mais impotentes diante das imensas tarefas a realizar. 

Novamente, acredito que a saída passa pela reflexão sobre o que é que nos impede de entrar em outro tipo de funcionamento, quanto é que nos sentimos impotentes diante das tarefas do dia a dia, quanto é que sub ou superdimensionamos nossos desafios? E a questão continua... o que é para cada um de nós um mau hábito ou comportamento inadequado. Será que ele é suficientemente ruim para que eu me proponha a modificá-lo?

O desconforto ocasionado pela repetição automática de um comportamento pode e deve ser utilizado como lembrança de que há algo de incômodo a ser modificado. Não acredito, no entanto, que ele será, por si só, importante para eliciar uma mudança de comportamento.

Sugiro utilizar a imagem do desconforto a ser evitado como símbolo de um lugar ao qual quero chegar. Isto é, ainda pensando no exemplo acima, quero ter uma vida mais organizada, com a possibilidade de me alimentar melhor, ter um funcionamento mais saudável e estar de bem com a balança podem ser motivadoras para o questionamento e modificação do comportamento que considero inadequado.

Mas, cuidado, não vale aí traçar metas impossíveis. Qualquer modificação, deve passar anges de mais nada por um sincero questionamento. É isto de fato um incômodo para mim? Quero mesmo mudar esse comportamento? Importante trabalhar com metas possíveis, passo a passo, caso contrário os objetivos serão tão irreais, impossíveis que podem provocar o efeito oposto.

Importante sempre: uma verdadeira auto-observação e um "inventário" de desejos, necessidades e expectativas são os primeiros passos para transformar o que eu, apenas eu, chamo de "mau hábito" ou comportamento inadequado em mim.


Fonte: Psicologia Junguiana

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