terça-feira, 14 de janeiro de 2014

CID 11 SERÁ LANÇADO EM 2015 E JÁ CAUSA POLÊMICAS

Por Edson Toledo
 
 
"O ponto polêmico, porém positivo, é que disfunções sexuais deixam de ser consideradas doenças; mas isso terá um impacto negativo nos transexuais, que não teriam como recorrer ao SUS, por exemplo, para fazer cirurgia de mudança de sexo"          
 
 
 Foi durante a segunda metade do século XVIII que a comunidade cientifica demonstrou interesse na obtenção de um instrumento estatístico que sistematizasse as causas de morte, de uso internacional e que possibilitasse comparações.

Assim, fruto de um acordo internacional que aconteceu em 1893, criou-se a Classificação Internacional de Doenças, conhecida pela sigla CID, que tinha o objetivo de classificar as causas de morte na população e a cada década seria revista com a finalidade de incluir novas doenças que iam sendo descritas e que eram causas de morte, fato esse que ocorreu até a sua quinta edição (1938).
 
Somente a partir da sexta edição (1948), que efetivamente passamos a ter uma verdadeira classificação de doenças; já que a CID-6 não incluia apenas aquelas mortes, mas todas as doenças, lesões, sintomas e alguns motivos de consulta que não eram propriamente doenças. Outra mudança apartir dessa edição foi que a Organização Mundial da Saúde passou a ser a responsável pela CID e suas sucessivas revisões.

Lembrando, uma classificação de doenças é uma sistematização das doenças, sintomas, sinais e motivos de consultas que são agrupados segundo características comuns e basicamente serve para finalidade estatística de descrição e análise quanto à distribuição das doenças em uma população definida.

Atualmente estamos na CID-10, como é conhecida na prática, já que a partir dessa revisão ela passou a ser denominada de Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. Caso você queira obter mais informações visite o síte da CID-10.

Conforme anunciado recentemente pela mídia, a CID-11 que tem previsão para ser lançada em 2015, já vem provocando polêmica ao propor mudanças em uma das esferas que ainda hoje é considerada como tabu para uma parcela significativa da população: a sexualidade.

Isso porque, na nova proposta, deixaria de ser transtornos as disfunções sexuais (aversão ao sexo e falta de prazer sexual, associados à ideia de frigidez feminina), transtornos do desenvolvimento sexual (problemas psicológicos e comportamentais associados ao desenvolvimento e à orientação sexual), transtorno de preferência sexual (fetichismo, travestismo fetichista e sadismo não consentido).

Já o transtorno de identidade de gênero, deixaria de ser um transtorno mental e passaria a ser incluido em outro capítulo intitulado de incongruência (ou discordância) de gênero e o transexualismo, ganharia um novo capítulo onde deverá reunir outras "condições relativas à sexualidade".

Para melhor entendermos, o transexualismo é entendido como aquela pessoa que apresenta desconforto persistente com o próprio sexo e com um sentimento de inadequação no papel social desse sexo. Isso causa sofrimento e prejuizo à vida pessoal, social e profissional da mesma.

Atentamos que ao excluir o transexualismo da lista de transtornos, a preocupação se volta aos transexuais, uma vez que eles poderão ter dificuldade de acesso ao tratamento. Assim a questão é complexa, já que no Brasil os transgêneros, seguem um protocolo para mudança de sexo que inclui uma equipe multiprofissional (psiquiatra, psicólogo, cirurgião, endocronologista e assistente social) e todo o protocolo de tratamento é coberto pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Portanto, uma ótima proposta, os transexuais deixarão de ser classificados e estigmatizados como portadores de transtornos mentais, porém se a ordem é despatologizar o sexo, será necessário refletirmos sobre o impacto da mudança de diagnóstico para evitar qualquer eventual prejuízo ao acesso aos serviços de saúde dessa população ou que ocorra mudança de gênero sem diagnóstico de transexualismo, resultando em graves distúrbios psíquicos e mesmo em suícidio.

Como reflexão final vale a frase do diretor de saúde mental da Organização Mundial da Saúde, Geoffrey Reed, em recente visita a São Paulo, "Comportamentos sexuais que são inteiramente privados ou consensuais e que não resultem em danos às outras pessoas não devem ser considerados uma condição de saúde".

No Brasil a discussão e coordenação das pesquisas e análises sobre as novas propostas para a CID estão a cargo da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Como temos visto nesta coluna não temos uma clara definição para transtornos mentais e o mesmo podemos falar quando o assunto é sexualidade, quando esse assunto vem à baila. Mas vamos acreditar que a CID sobreviverá por mais uma década.
 
 
 
 
Fonte: UOL

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