terça-feira, 24 de dezembro de 2013

CAIU NA NET: SOBRE A EXPOSIÇÃO ÍNTIMA E O NARCISÍSMO

Por Roberson Geovani Casarin
 
 
 
Escrevi esses dias sobre a internet e a modificação que ela provocou nas nossas relações. Depois disso fiquei pensando profundamente o quanto ela, nossa amada e odiada “net” (de tão íntimos que somos, apelidamos ela), mudou não só as relações, mas a nossa vida como um todo.
 
Temos visto vastamente as tragédias dos vídeos e fotos íntimas que “vazaram” (engraçado como a internet mudou nossa fala. Vazar é algo que pertence ao líquido...) no fantástico mundo virtual. Todos nós já vimos uma foto ou vídeo que era de foro íntimo. Moro em uma cidade pequena e mesmo assim tem uma meia dúzia de pessoas que já se viram expostas na net, em momentos sexuais.
 
Fiquei pensando em duas coisas: a primeira é sobre o que leva as pessoas a gravarem, fotografarem?
 
Vou voltar a esse tópico mais a frente. A segunda questão que me inquieta é que SEMPRE as mulheres que saem mal faladas. Esses dias em uma conversa informal na academia sobre esse assunto discutimos isso e uma das pessoas – um homem heterossexual – disse, a princípio, que não via nada de errado. Estávamos falando de um vídeo em que uma menina de 16 anos fazia sexo oral em um rapaz, dentro do carro em movimento, enquanto outro filmava e outro dirigia. Mas, (e sempre tem o MAS) no decorrer da conversa acabou falando: “ah.. mas aí também...”. Fico pensando o quanto ainda marginalizamos a mulher. 
 
O homem que aparece no vídeo ou foto é o garanhão. Para esse rapaz que mencionei, falei: “interessante, se fosse um homem com três mulheres no carro, ele seria o tal...”.  A mulher sempre sai muito ferida desses acontecimentos. O deputado federal Romário (sim, o jogador), tem um projeto de Lei para punir quem divulga, ou seja, o primeiro que colocou na net. Interessante projeto e ótima ideia do deputado, pois ele pensou na mulher ao elaborar tal proposta. Para encerrar essa questão, fica a indagação: até quando vamos criminalizar a mulher? Porque ainda agimos como há dois séculos? A mulher não tem os mesmos direitos, deveres, prazeres que os homens? Triste dizer que na teoria sim, mas na prática não!
 
Bom... voltando a primeira questão: o que leva as pessoas a registrarem seus momentos sexuais? Isso não existia antes! Ah, claro que existia, mas a internet e as câmeras digitais popularizaram isso. Sempre tivemos o desejo de ser desejado, como disse Freud e reafirmado por Lacan. O nosso narcisismo nos coloca numa posição perigosa, pois ele é alimentado pelo Outro, esse Outro que vai mostrar o quanto somos, ou não, desejados. Isso acontece desde os primórdios da civilização, mas com certeza foi exacerbado no século passado. O que acontece é que ainda não caiu nossa ficha (que expressão antiga – rs), sobre o quão devastador pode ser a exposição na internet. Aí que mora o problema, pois ainda somos pessoas do século XIX, mas vivendo no século XXI. Meio confuso né?
 
Explico: nossos sentimentos, desejos ainda são os mesmos de nossos antepassados, mas vivemos numa sociedade acelerada, agitada, rápida. Aí nos atrapalhamos, não sabemos muito bem o que fazer... assim,  nosso narcisismo foi super alimentado, sem nos darmos conta disso. 
 
Não vejo problemas em registrar os momentos íntimos – seja individual, ou com outra(s) pessoas(s), mas o que se coloca é: preciso me colocar como desejo do outro, dessa forma? Pois não sejamos inocentes que NUNCA vão divulgar o que gravamos, uma hora isso vai acontecer. 
 
Para encerrar então esse complicado texto deixo duas reflexões: uma sobre a marginalização da mulher, até quando vamos criminaliza-la, culpabilizá-la? A outra sobre o quanto devemos ceder ao narcisismo! Temos que nos sentir amados/desejados, mas a que preço? Vale a pena arriscar-se tanto?
 
Penso que não!

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