segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A VIOLÊNCIA PERPETUADA PELA CULTURA DO ESTUPRO

Por Primavera Feminista
 


 
A cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil, segundo dados recentes apresentados pela Secretaria de Políticas para as Mulheres. Esses números monstruosos revelam o quanto ainda vivemos em uma sociedade que reproduz as formas mais arcaicas de opressão, na qual a violência contra a mulher é um ato cotidiano. Na estrutura patriarcal, que dá bases para o capitalismo, as mulheres são constantemente constrangidas e devem estar sempre submetidas às vontades dos homens, da Igreja e do Estado. Nossos corpos e nossa sexualidade devem estar de acordo com o que o patriarcado espera de nós. Até podemos usar roupas curtas, sair à noite, beber e transar com muitas pessoas, mas devemos arcar com o julgamento que legitima todas as formas de violência. Uma das mais cruéis é o estupro.

A “cultura do estupro”, portanto, pode ser entendida como um processo de constrangimento social que visa manter os papéis de gênero impostos pelo patriarcado. Qualquer pessoa que subverta tais papéis será hostilizada pela sociedade machista. Muitos elementos contribuem para que esse pensamento seja reproduzido na sociedade. Foi construída, ao longo dos anos, a ideia de que a mulher deve estar sempre disponível para os homens e que o homem não consegue controlar seu apetite sexual, como se fosse uma atitude instintiva. Quando a mulher diz que não quer transar, o homem entende como um "talvez" e continua insistindo até que ela aceite mesmo não querendo. A matéria da Capricho que tem circulado recentemente pela internet mostra a naturalização do estupro. A garota não estava a fim de fazer sexo, o namorado insiste e ela acaba topando mesmo sem querer. O “sim” dito nesses condições não é um consentimento verdadeiro. É uma construção social imposta pela “cultura do estupro” que diz que nós, mulheres, temos que estar sempre disponíveis para transar.

“Mas também, estava pedindo para ser estuprada!”

Mas afinal de contas, quem pediria para ser estuprada?! Estamos tão imersas na cultura do estupro que sequer conseguimos refletir acerca do que é a culpabilização da vítima. Essa divisão entre “mulheres para casar” e “mulheres para ficar”, “putas” e “santas”, contribui muito para que a vítima de violência sempre seja objeto de desconfiança. O lado reservado às mulheres boas é aquele do mundo privado, cuidando da casa e do marido. É a mulher que fala pouco, que se veste de maneira menos sensual e cruza as pernas para sentar. Para todas aquelas que subvertem esses papéis de gênero, resta apenas a rotulação de “vadia”.

A cultura do estupro está em todo lugar. É ela a responsável por fazer com que a sociedade culpe a vítima de estupro e não o estuprador. É essa cultura que nos faz esquecer que todo ato sexual realizado sem o consentimento é considerado estupro e que os agressores são principalmente pessoas da própria família, amigos, pessoas conhecidas que têm mais influência e facilidade para se aproximar da vítima.

A mídia também contribui para que a violência contra a mulher seja naturalizada. São diversas as propagandas que tratam a mulher como objeto, como por exemplo as de cerveja. Novelas e filmes também contribuem para essa objetificação, tratando as mulheres como simples mercadorias que devem estar ao bel prazer dos homens. Estamos todas inseridas numa sociedade machista, racista e homofobia. Entender a opressão que as mulheres sofrem como um processo histórico de dominação, também apropriado pelo sistema capitalista de forma bastante perversa, nos ajuda a compreender que nossa tarefa para reverter essa construção sócio-histórica deve ser cotidiana.

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em cinco anos os registros de estupro no País aumentaram em 168%. As ocorrências de registro do crime subiram de 15.351 em 2005 para 41.294 em 2010. Isso sugere duas hipóteses: os estupros podem sim ter aumentado ou as mulheres passaram a denunciar. Precisamos lutar para que as mulheres tenham cada vez mais espaço e segurança para reagir contra essa violência.

A questão da violência contra mulher não pode ser relegada a segundo plano, portanto é nossa tarefa lutar contra todas as formas de opressão. O debate sobre a naturalização do estupro está na ordem do dia e precisamos estar ao lado de mulheres e homossexuais que são diretamente afetadas pela cultura do estupro!

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