quinta-feira, 12 de setembro de 2013

SÍNDROME DE POLIANA

Por Juliana Baron Pinheiro



Acordou naquela quarta feira e como de costume, sorriu em frente ao espelho. Levantou o pijama, conferiu o resultado da última dieta refletido na barriga “quase negativa”, como ela gostava de frisar. Puxou o celular e pensou em tirar uma foto pra mostrar pras amigas, mas sua cara não estava das melhores. Então, desistiu e o guardou num bolsinho que tinha na blusa do seu pijama.

Ainda antes de tomar seu café, abriu o computador pra dar uma olhada nas suas redes sociais. Começou pelo Facebook, onde atualizou as notificações, curtiu as fotos de alguns amigos e compartilhou uma mensagem positiva, como de costume. Aliás, adorava lê-las e imaginar que podia ajudar alguém com aquele compartilhamento. Existem muitas pessoas tristes e negativas nesse mundo, pensou Poliana, e era sua função mostrar à elas o quanto é melhor nos sentirmos felizes e encararmos o lado bom de tudo que acontece conosco.

Depois do Facebook, sacou seu celular e deu uma conferida no Instagram. “Uau, eu sou demais”, pensou Poliana quando apareceram ali 30 coraçõezinhos de curtidas na última foto que postou ontem antes de dormir. Rolou com o dedo no feed e a cada foto que ia aparecendo de quem ela seguia, mentalmente Poliana ia fazendo os seus julgamentos. Claro, sempre positivos, porque ela era uma pessoa muito “do bem” e muito bem resolvida. Depois, decidiu checar seu email e quando abriu sua caixa de entrada, gelou ao rever o email de uma cobradora que vinha lhe procurando pra cobrar uma conta não paga de uma loja de departamento. Ela engoliu em seco aquela sensação ruim e por um segundo, sentiu-se mal por estar naquela situação. Já fazia alguns meses que estava no vermelho, economizando cada centavo, mas precisou comprar uma roupa pra uma festa “top” que teve na sua cidade. O ingresso conseguiu de um amigo, assim como os sapatos e os brincos, que pegou emprestados da sua amigona. Mas a roupa precisava ser nova! Enfim, ela ia dar um jeito naquilo, como SEMPRE fazia. Não seria uma cobrança financeira que iria lhe abalar. Poliana já enfrentou tantas situações ruins na sua vida e uma dívida não a faria baixar a cabeça.

Naquele dia, Poliana ia trabalhar como free num evento de Medicina. Então, fechou o computador, colocou uma música animada no som e foi escolher uma roupa. Nossa, como Poliana era uma pessoa divertida, sempre diziam alguns amigos. Esta sempre sorrindo, mesmo imersa em problemas seríssimos. Indo para o quarto, ela parou em frente ao espelho que ficava posicionada estrategicamente no corredor, espiou mais uma vez a sua barriga e ficou feliz em concluir que a sua determinação em perder três quilos em uma semana, tinha dado certo. Dançou em comemoração e sem querer, derrubou seu Iphone no chão e por causa da queda a tela da frente trincou. “Que merda”, exclamou Poliana. Já era o terceiro celular em seis meses e esse ainda tinha sido um presente da sua madrinha! Mas tudo bem, o aparelho ainda estava funcionando e ela não queria pensar em como arranjar dinheiro para o conserto naquele momento. O dia estava lindo, ela estava viva, a vida era é bela, então tudo bem!

Saindo de casa, Poliana recebeu uma ligação. Era sua advogada, que queria lhe informar que o processo que ela abriu contra a ex-namorada do seu pai, por conta do furto de algumas joias que eram da sua mãe, não tinha muita chance de obter um bom resultado. Porque Poliana não tinha muitas provas do furto e como sua mãe, que era a verdadeira dona dos bens, não quis participar do processo, o juiz pensava em extingui-lo. A advogada insistiu então, que Poliana tentasse convencer sua mãe, mais uma vez, a colaborar. Mas ela repetiu que a relação das duas não era das melhores e que ela já tinha desistido dessa hipótese.

O telefonema foi encerrado sem nenhuma solução e Poliana abriu a janela do carro, porque o ar condicionado do carro não estava funcionando. Ligou o som e ficou feliz em escutar uma das suas músicas preferidas. Sorriu e cantou em voz alta, com os cabelos ao vento:

- É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe…

Sim, aquele era seu lema de vida. Poliana não se permitia um segundo de tristeza, um segundo de reflexão, para repensar os seus passos, as suas crenças, as suas atitudes e se a sua felicidade era mesmo verdadeira ou uma fuga. Ela não tinha tempo para isso. Talvez, nem coragem.

Então, o telefone tocou mais uma vez. Dessa vez era seu namorado. Poliana atendeu com aquela voz doce, típica de quem fala com o amor da sua vida. Beto, que não estava igualmente feliz como ela, relembrou a namorada o que tinha acontecido na noite passada. Num jantar com o pessoal do trabalho dele, Poliana bebeu demais e mais uma vez, constrangeu Beto contando piadas obscenas para os seus colegas. Realmente a bebida sempre fazia com que ela ultrapassasse qualquer limite do bom senso, mas como esse excesso vinha envolvido em brincadeiras e piadas engraçadas, nem sempre Poliana se dava conta do mal que estava causando a si mesma. Todos os finais de semana.

Beto lembrou também que ao deixar ela em casa, ficou preocupado, porque Poliana desandou a chorar e a reclamar de tudo de ruim que acontecia com ela. Nunca tinha visto ela assim e queria entender o que desencadeou aquele desespero. “Ai Beto, eu só estava bêbada!”, justificou rindo. Mas ele insistia em afirmar que o desabafo tinha um tom de verdade e que quem sabe era a hora de Poliana procurar ajudar, quem sabe fazer uma terapia. Mesmo com pouco tempo de namoro, ele sabia de todos os seus problemas familiares, dos seus tramas e das suas insatisfações. Mas ela rebateu o conselho prontamente: “Nada a ver, eu me sinto muito feliz. Tudo isso é passado. Já superei e hoje sou outra pessoa. O que vem acontecendo com certeza é coisa de olho gordo. Tem muita gente invejando minha felicidade por aí, Beto. Mas já comprei um olho grego, ontem tomei um passe no centro espírita que uma amiga frequenta e nesse final de semana vou com a Joana num Centro Budista”. O namorado riu da animação de Poliana e encerrou o assunto. Sabia que essa muralha que ela construiu pra se esconder da realidade era quase instransponível. E eles se davam bem, Poliana era bonita, gostosa, engraçada e de boa convivência. Então, não seria ele quem iria querer acabar com a sua felicidade ao lhe mostrar o que de verdade se passava com a sua vida.

Eles desligaram o telefone depois de combinarem de se encontrar à noite, quando fariam um jantarzinho com vinho, que provavelmente ia ser objeto de alguma postagem de Poliana nas suas redes sociais. Aliás, as redes eram ótimas ferramentas para que ela afirmasse à si mesma e aos outros o quanto era feliz!”.

Quem conhece, já foi ou ainda se considera uma Pollyanna (no livro o nome da personagem é escrito assim, mas eu quis “abrasileirar”?.

Semana que vem, falo mais sobre isso. Só quis demonstrar através dessa história que criei de uma personagem “fictícia”, o quanto as Pollyannas existem e como muitas vezes são confundidas com pessoas que simplesmente são guerreiras, positivas, alegres….

Já adianto que a minha ideia não é criticar ou julgar ninguém. Ser feliz, positivo, alegre é muito bom. Sorrir, procurar ver o lado bom de tudo, não é um problema! Mas é preciso ter muito cuidado com o excesso de ilusões que se cria a cerca da nossa realidade.


6 comentários:

  1. Ninguém me "convidou", na verdade. Mas agradeço a publicação. Att, Juliana

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  2. Síndrome de Poliana existe, as vezes até admiramos aquela pessoa simplesmente doce, alegre, positiva e plenamente feliz, quando na verdade é uma pessoa que precisa de ajudar para lidar com a negação da realidade.

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  3. Perfeito texto, nos faz fazer muitas reflexões!

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  4. Pura verdade,gostei muito sobre o texto na minha vida e um pouco assim!

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  5. Essa é a vida de uma grande parte dos amigos Faceanos. Conheço a realidade de alguns pessoalmente e nas redes sociais são outras pessoas. Uma farsa. Fico estarrecida quando percebo isto.

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