segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O LADO BOM DE VER TELEVISÃO

Claro que ver televisão o dia inteiro não pode ser bom – para começar, por causa de todo o tempo que não foi investido em outras atividades. Mesmo que fosse inerentemente bom, só se dedicar a essa atividade seria um atraso de vida. Até beber água, uma das coisas boas da vida, pode ser ruim se feita em excesso.

Mas há maneiras e maneiras de ver televisão. Existe TV-papel-de-parede, TV-rádio, TV-cinema, TV-jornal, TV-babá, TV-companhia-para-adormecer, TV-não-quero-pensar-em-nada. Todas elas pelo menos estimulam os sentidos, mesmo que você adormeça. Mas estímulo por estímulo não basta para o cérebro (assistir Teletubbies, por exemplo, comprovadamente emburrece). Para ser interessante e proveitoso, o estímulo precisa fazer sentido.

Televisão interessante, portanto, é aquela que faz sentido – ou seja, que consegue fazer você pensar. Jornais, entrevistas e outros “programas sérios” são provocadores-de-pensamentos óbvios, convites ao posicionamento pessoal e à elaboração de críticas e apreciações. Assim, programas realmente imundos, daqueles que ficam chafurdando no DNA alheio, também funcionam: com um pouco de sorte, seu cérebro acha aquilo acintoso e dá as ordens necessárias para seu dedo mudar de canal.

O jornalista Steven Johnson, autor do livro Tudo que é ruim é bom pra você, defende que até mesmo os reality shows mais bestas trazem suas vantagens ao cérebro, por oferecerem uma oportunidade de aprendizado social no seu sofá. Segundo ele, até o Big Brother 215 poderia contribuir para você aprender a ler os sinais que ajudam a identificar estratégias de convívio social e indicam quem é confiável ou quem é manipulador.

Pode ser. Eu ainda prefiro usar meu tempo com outras coisas – mesmo que sejam programas de TV aparentemente ainda mais inúteis, como… comédias. Acontece que besteirinhas leves também fazem seu cérebro funcionar. Estudos com telespectadores assistindo a episódios de seriados como Seinfeld e Os Simpsons deixaram claro que achar graça estimula o cérebro. Apreciar o humor requer esforço cognitivo: antes de curtir suas gargalhadas é preciso entender a piada, ou literalmente achar a graça.

Circuitos diferentes do cérebro são acionados no processo. Encontrar a graça coincide com a ativação de regiões do lado esquerdo do cérebro que normalmente tanto processam a linguagem quanto resolvem ambiguidades contextuais – como as tiradas irônicas e piadinhas de situação que pululam nos seriados americanos. Curtir a graça, por outro lado, casa com a ativação intensa de três regiões, dos dois lados do cérebro. Uma faz parte do sistema de recompensa, aquele conjunto de estruturas que cuidam de nos dar prazer quando fazemos algo bom. As outras duas cuidam das sensações corporais, base das emoções: a amígdala (não, não é a da garganta) e a ínsula (que monitora em permanência o estado do corpo). Como bônus, rir ainda melhora a imunidade do organismo. Ou seja: assistir a comédias dá trabalho e prazer a corpo e cérebro.

Ver filmes modernos também dá um trabalho danado. Como Steven Johnson lembra, a edição de filmes vem evoluindo e ficando cada vez mais rebuscada, com tramas paralelas, voltas no tempo e pulos adiante e às vezes até montagens ao contrário. Assistir a esses filmes é um esforço cognitivo e tanto.

Nada disso, contudo, justifica passar horas a fio em frente ao aparelho, com tantas outras coisas interessantes para fazer com o seu dia. Mas, se você curte descansar no sofá depois de um dia de trabalho, eis a desculpa perfeita: ver televisão nem sempre é uma atividade completamente passiva e descerebrada.

Fonte: Mente e Cérebro

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