quinta-feira, 5 de setembro de 2013

"A BOLA DA VEZ"

Por Amanda Bragion


Elas são "A Bola da Vez". Que me desculpem o trocadilho, mas é muito frequente, atualmente, encontrar gordinhas esbanjando autoestima e segurança. Quando o corpo-sujeito entra em cena não há padrão de beleza que atinja esse modo de ser.

Os sentimentos que a pessoa nutre sobre seu próprio corpo são proporcionais aos sentimentos que nutre sobre ela própria. Com base nas vivências corporais é que cada pessoa irá construir os significados do seu corpo, e o modo como se manifesta essas vivências corporais evidenciam própria existência.

O corpo se objetivou e a corporeidade vai se reduzindo, na sociedade atual, cada vez mais ao corpo físico. Exige-se um corpo submisso, ordenado e disciplinado para atender e responder àquilo considerado ideal, normatizado. O corpo é visto como uma obra completa, finalizada, fadada à avaliação social: aprovado ou reprovado.

Ora, que reprovem!

No meio de tanta repressão, um pequeno grupo grita “eu existo dentro do meu corpo!”. São corpos vivos, que se expressam, se comunicam com o mundo em uma situação relacional com os outros, com os objetos, consigo mesmo... com a vida. São corpos além do corpo objeto, ultramedido; são corpos sentidos e experimentados.

De corpos reprimidos, a corpos cheios de possibilidade. É um corpo que trabalha, produz, sonha, viaja, brinca, se impõe, sofre, desperta, adormece. É, sobretudo, um corpo que se movimenta. O corpo é o lugar onde a existência se realiza. A corporeidade é uma expressão utilizada para fazer um elo entre o sensível e o significado.

Compreender sua condição corporal, no caso da mulher obesa, não é dizer por aí: “Gostosa demais para usar 38”, como diz o slogan de uma marca de lingeries para o público plus size. Essa ideia é errônea e tende à impessoalidade. É superficial e tão discriminatória quanto ver uma pessoa magra dizer “Gostosa demais para usar 48”. Há ainda aquelas que se referem às gordinhas como “mulheres reais”, como se a mulher magra fosse menos real que a mulheres gorda, inferiorizando aquele que se difere delas mesmas. Agir dessa forma é agredir tal qual foi agredida, é submeter-se a ser tão rasa quanto todas aqueles que acreditam que o formato do corpo faz da pessoa melhor ou pior que o outro.

Compreender-se e viver sua forma de existência não significa diminuir o outro, mas valorizar aquilo que compõe seu corpo enquanto corporeidade. É a possibilidade de sentir e ser, ao mesmo tempo, sujeito e objeto. O corpo-sujeito se movimenta como uma intencionalidade que percebe as coisas, vivendo-as. É a expressão significativa e única.

Compreender sua condição corporal é aceitar e valorizar a diferença, é aceitar todos os corpos tais quais eles se apresentam e se manifestam. É a possibilidade de ir além e descobrir um mundo que muitos dizem não ser feito para todos. Afinal, se a vida te deu curvas, porque andar em linha reta? É uma questão de escolha!


"Mas se desejarmos fortemente o melhor e, principalmente, lutarmos pelo melhor, o melhor vai se instalar em nossa vida. Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura." 
Carlos Drummond de Andrade

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