sexta-feira, 5 de julho de 2013

ESQUIZOFRÊNICO REGISTRA LIVRO SOBRE A EXPERIÊNCIA DE ENLOUQUECER

Ex-aluno de física e de filosofia da USP, Jorge Cândido de Assis carrega no corpo das marcas da esquizofrenia. Aos 21, durante uma crise, ele se jogou contra um trem do metrô e perdeu uma perna.

Hoje, aos 49 anos, cinco crises psicóticas, ele dá aulas sobre estigma em um curso de psiquiatria e acaba de lançar um livro no qual descreve a experiência de enlouquecer."Entre a Razão e a Ilusão" (Artmed Editora) foi escrito em parceria com o psiquiatra Rodrigo Bressan e com a terapeuta Cecilia Cruz Villares, da Unifesp.
Leia o depoimento dele.

*
"Tive uma infância tranquila, jogando bola na rua. Aos 14 anos, entrei na escola técnica e já sabia trabalhar com eletricidade. Adorava física.

Em 1982, prestei vestibular para física na USP e não passei. Em 1983, fiz cursinho, prestei de novo e não passei.

Consegui uma bolsa no cursinho, passei perto e não entrei de novo. Foi um ano depressivo para mim. Eram os primeiros sinais da esquizofrenia, mas eu não sabia.

Eu me isolei, tinha delírios. O desfecho foi trágico. Numa manhã de domingo, entrei na estação do metrô Liberdade. Escutei uma voz: "Por que você não se mata?". Me joguei na frente do trem.

Acordei três dias depois no hospital sem a minha perna direita. Tinha 21 anos.

Foi bem sofrido, mas coloquei toda minha energia e determinação na reabilitação. Quatro meses depois, já estava com a prótese.

Sozinho, voltei a estudar para o vestibular e passei em física e fisioterapia na Universidade Federal de São Carlos. Meu sonho era desenvolver uma prótese melhor e mais barata do que as versões que existiam naquela época.

Um dia, em 1987, cheguei em casa e ela havia sido arrombada. Tive que ir até a delegacia dar queixa e reconhecer os objetos furtados.


Isso desencadeou a segunda crise psicótica. Tinha delírios de grandeza, alucinação, mania de perseguição.

Fui internado em Itapira durante um mês. Saí de lá com diagnóstico de esquizofrenia, medicado mas sem encaminhamento. Um dos remédios causava enrijecimento da musculatura e eu não conseguia escrever. Então parei de tomar a medicação e comecei a fazer tratamento em centro espírita.

Voltei a estudar em São Carlos. Depois da crise, perdi muitos amigos por puro estigma. Comecei a trabalhar, paralelamente aos estudos, mas ficou pesado demais. Preferi desistir do curso.

Em 1993, prestei vestibular na USP e passei. Foi mágico, a realização de um sonho. Continuei trabalhando, mas cheguei num ponto de saturação e desisti do curso.
Minha vida foi perdendo o sentido, vivia por viver. Me sentia vazio de emoções.

Nesse período, fazia parte de um grupo de pesquisa na USP. Mas, por uma série de divergências, o grupo se desfez. Ao mesmo tempo, meu namoro acabou. Esses dois fatores desencadearam minha terceira crise.

Foi uma crise também com delírios, alucinações, isolamento. Fiquei um mês internado. Foi aí que comecei a me tratar de esquizofrenia de fato. Além das medicações, fazia psicoterapia, terapia ocupacional e prestei vestibular para filosofia na USP. Passei. Sentia-me tão bem que disse: "Superei a esquizofrenia. Vou parar com os remédios".

Minha mãe morreu em 2002 e, em seguida, tive a minha quarta crise, que também foi controlada com remédios. É como começar do zero.

Entre 2003 e 2007, participei de um grupo de pacientes com esquizofrenia em que discutíamos a doença, as vivências, as formas de comunicação. Em 2005, o [psiquiatra] Rodrigo Bressan me convidou para participar das aulas dele contando a minha experiência pessoal, sobre o estigma. Em 2007, surgiu o projeto do livro sobre direitos de pacientes com esquizofrenia.

Foi um processo de criação intenso durante 18 meses. Em 2008, o Rodrigo me convidou para deixar de ser paciente e entrar para a equipe dele. Foi uma grande oportunidade.
No início do ano passado, fui palestrar em Londres sobre o nosso trabalho. Quando estava voltando, fizemos uma escala em Madri.

Sentia muita dor na perna e pedi uma cadeira de rodas. Esperei e nada.

Tirei a perna mecânica, coloquei na bolsa e fui pulando até a sala de embarque. Todo esse estresse me levou à quinta crise. Ela foi rapidamente controlada, mas é um processo difícil retomar a rotina anterior, ressignificar as coisas para que a vida faça sentido.

Depois das crises, tenho que renascer das cinzas. Muitas pessoas desistem. Precisa de uma grande dose de esforço para reconstruir a vida.

A medicação ajuda, mas não é garantia. Consigo lidar com as demandas da vida, mas nunca sei se o que sinto é ou não da doença.

Não ouço mais vozes, mas tenho autorreferência. Penso que tudo ao meu redor tem a ver comigo. Se ouço um barulhinho lá fora, acho que pode ter câmera escondida.

Se as pessoas estão conversando no corredor, acho que estão falando sobre mim.

O delírio é inquestionável, você acredita nele. Mas tenho clareza do que é autorreferência, deixo para lá.

Tenho que saber os meus limites. O referencial para a gente é o mundo exterior, a relação das pessoas.

Muitas vezes, o início das crises não é percebido. Por isso é importante dividir com o médico, com a família.

O estigma também é muito prejudicial. Ser apontado como o louco ou ser desacreditado só piora. A esquizofrenia é uma doença crônica, que afeta as emoções, os relacionamentos, as vontades.

Tenho sorte de ter uma família unida, que me apoia. Isso dá sentido à minha vida.

Olho para trás e confesso que me sinto frustrado por ter começado duas vezes física, em duas das melhores universidades, e não ter concluído.

Mas fico feliz com o trabalho de poder ajudar outras pessoas com a minha história. As pessoas sofrem no Brasil pela falta de locais para a troca de informações.

Minha meta agora é construir uma rede de associações de apoio a pacientes com esquizofrenia.

Eu não sou só a doença, e a doença não me define.

Tenho que lidar com a esquizofrenia, mas ela não é a parte mais fundamental da minha vida."



5 comentários:

  1. Olá "Psicoque?" ! Gostei do artigo e irei ler o livro. Só uma observação e faço isso com todo o respeito; o título "Esquizofrênico Registra..." me causa estranhamento, para ser sincera não gosto, pois como o próprio Jorge coloca "ele não é a doença e a doença não o define." Ele, o Jorge, é uma pessoa que sofre de esquizofrenia e que registrou no livro sua experiência de enlouquecer.

    Abraço,
    Roberta Paes Barros Gonçalves.

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  2. Gostei muito irei ler o livro.
    Gilmara Araujo

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  3. Bn. sempre tive atenção especal por esta doença?procuro ler,estudar tudo referente a esquizofrenia.tenho um irmão que apresentou o problema recentemente, e não aceita ser ajudado, é muito doloroso o processo.

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  4. Amigos, no meu ponto de vista, esquizofrenia não é um problema material, mas sim espiritual, um caso de obsessão. Falo isso porque já sofri por diversas vezes surtos, que o médico diagnosticou como esquizofrenia. E explico. Lembro nitidamente da minha vida passada. Lembro da minha família, do meu pai que se chamava João Aguiar. Ele sofria de tuberculose e naquele tempo essa doença não tinha cura. Com medo que essa doença nós a contraísse, um de meus irmãos e eu planejamos mata-lo. Ele vivia num isolamento, num compartimento fora de nossa casa, cujo compartimento servia para guardar bugigangas como arreios de montaria e outra peças. Ele já estava no estágio final da doença, respirava ruidosamente e muito inchado. Certa noite munidos de uma corda e fomos até a cama dele, amarramos o homem num esteio de madeira e começamos a enforcá-lo de vagarinho. Ele se chamava João Aguiar. Enquanto fazíamos isso ele prometia vingança. Essa vingança veio de diversos modos inclusive na forma de esquizofrenia. Lembro de quando eu era muito pequeno, ainda chupava chupeta, ele passou quase a noite toda dentro da nossa casa me aborrecendo; essa noite estava clara pela lua cheia e sua luz entrava na casa pelas frestas largas pois era construída de estacas. Lá fora eu ouvia o uivar do vento, pois ele era muito forte. Ele apareceu de chapéu, roupas brancas encardidas, rosto inchado e os dedos das mãos muito grossos pelo inchaço. Aparecia de frente a mim no berço ficava um pouco e me dizia telepaticamente "agora você tem medo né?" A última vez que ele veio, virou-se de costas para mim de vagarinho, como fazia sempre, mas sentou-se no meu rosto, tirando a minha respiração. Eu estava deitado de costas, ele sentou-se na minha cara. Ergui minhas duas mãozinha e belisquei suas nádegas congeladas; com isso ele se levantou, sumiu, enquanto eu gritava, chorando. Meu pai acordou e eu o disse: pai um homem sentou na minha cara. Rosto eu chamava de cara. Tire as suas conclusões.

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  5. Acredite nos seus sonhos e não deixe ninguém quer que seja - Doutores e ignorantes macular uma história digna de vida, o qual é escrita todos os dias por milhares de pessoas honestas que o sistema tenta calar; mas a vida consiste em cumprir sua missão e usufruir por isto - vença e no fim servirás de exemplo por uma conduta integra apesar dos prós e contras que todos devemos ultrapassar;
    Frase do Imortal Mahatma Gandhi:
    "Primeiro ignoram-te, depois riem de ti, depois atacam-te e no fim tu vences"
    A vitória na vida é para poucos que outrora foram rejeitados e acolhidos pela mão do Mestre dos Mestres alicerce rocha eterna!

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