sexta-feira, 26 de julho de 2013

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DO GRUPO PARA VALORIZAÇÃO DE SI E AUTO AFIRMAÇÃO

Por Luana Joplin


“Talvez não exista pior privação, pior carência, que a dos perdedores da luta simbólica por reconhecimento, por acesso à uma existência socialmente reconhecida(...)” BORDIEAU, Pierre.



Há muito não aparecia por aqui, na minha coluna, para falar de consumo. Sempre que publico um artigo para o “Psicoquê?”, falo do consumo como sendo um fato de individualização do indivíduo, mas nesse artigo, em especial, vou contradizer há muitas coisas que disse nos artigos anteriores. Não desdizendo o que já foi dito, mas reformulando uma outra teoria sobre o mesmo objeto de estudo, O consumo.

Qualquer pesquisador que se preze, não se contenta com as respostas que encontram, sempre buscam mais, especialmente quando esse objeto de estudo está ligado às ações humanas, ou melhor, protagonistas das relações sociais. Sempre afirmei que o indivíduo na contemporaneidade consome para auto afirmação do Ego, para ostentação da idéia que ele tem de si próprio, e para individualização, ou seja, para que o indivíduo se sinta, único, importante, autêntico, original.

Numa sociedade onde a informação não deixa os consumistas de fora das questões atuais, é praticamente uma utopia ser UNO. Pois bem, de todas as afirmações que tenho feito em relação ao consumo, uma das hipóteses que não descarto é a hipótese do consumo para auto afirmação. Mas, será que o indivíduo consume para si, em função de si, sem pensar em nenhum coadjuvante nessa relação entre Eu e Eu? Quem vai ver esse indivíduo sendo autêntico, atualizado, original, senão o OUTRO? O outro faz parte desse processo de individualização, de auto afirmação de si. O homo consumericus (LIPOVETISKY, 2007) consome por uma necessidade de satisfação libidinal, que precede e procede da relação com o outro, que consiste em olhar e ser olhado.

Se só existimos, socialmente, a partir do outro, mesmo com princípios individualistas, o indivíduo moderno necessita do grupo, da tribo, do outro. Sendo assim, o consumo leva o homo consumericos à uma desforra dionisíaca, onde as “baladas”, fazem com que esse indivíduo original, uno e consumista, possa chegar ao seu apogeu do consumo, utilizando todos os seus recursos de consumo para um ritual orgásmico;

“ Não é as novas epifanias do Mestre do prazeres, que nos é dado a assistir, mas a encenação lúdico hedonista de seus funerais. Nada de reencarnação dos valores orgiásticos, mas a invenção do cosmo paradoxal da hipermodernidade individualista.” ( LIPOVETISKY, 2007)

É no culto das relações com os microgrupos, que a pulsão libidinal transita, levando o indivíduo ao consumo dionisíaco, na relação inabalável com o outro, entre o prazer de ver e ser visto, comprar, e poder expressar seus instintos mais primitivos com abalos do ethanol, de alma e corpo refinado, em garrafas de preços que são de incentivo à relação social consumista. A pulsão libidinal que arrasta o homo consumericus a viver “ aglomerações pontuais em microgrupos que mantem os valores de gozo e emoções vividas em comum”. Por isso venho nesse artigo tentar entender e explicar por que o grupo é um instrumento de valorização de si e auto afirmação.



CONDIÇÃO SINE QUAN NON DO PRAZER

Segundo Bauman (2008) a cultura de massas reforça um estilo de vida e uma estratégia existencial consumista, e rejeita todas as opções de culturas alternativas. A cultura de massas, arrasta o indivíduo para a vida material, e exclui sem piedade aquele que não faz parte dos pré requisitos da sociedade de consumo.

Essa cultura é enaltecida em todos os mecanismos de mídia, desde alimento, até roupas, novelas, livros, utilizando variados discursos, como o discurso médico de saúde, bem estar, sociabilidade, educação, e o principal anseio do homo consumericus, o lazer. Os discursos da mídia de consumo coisifica o indivíduo, fazendo dele o instrumento de aceleração do sistema de produção. E esse indivíduo-coisa, faz do consumo instrumento de auto afirmação e valorização de si, imbuídos no discurso de bem estar, lazer, e felicidade.

Nesse ciclo que envolve o consumidor, os discursos do consumismo e os produtos de bens de consumo, pode-se perceber que o indivíduo, em função dos microgrupos, e da valorização de si mediante às relações sociais, o indivíduo se torna um consumidor de signos, ou seja, o indivíduo pós moderno consome muito mais a representação que o produto tem para si e para o grupo, do que o objeto em si. A partir disso, as suas relações sociais são transformadas, pois todas as atitudes e relações sociais estão ligadas ao consumo; um happy hour no barzinho, um Milk shake no shopping Center,um passeio de barco, etc.

Essa transformação das relações sociais faz com que o indivíduo invista sua pulsão libidinal na estetização da vida cotidiana, fazendo com que ela seja sempre vista, mesmo que o indivíduo esteja sozinho em sua casa. Como? Nas redes sociais, através de fotos e relatos. O signo proposto pela mídia consumidora e as redes sociais, é uma das manifestações triunfais da sociedade de consumo, e um auxílio à satisfação orgásmica do homo consumericus.

A vida retratada a partir de relatos e fotos, faz com que mesmo ausente, o indivíduo possa estar em microgrupos, participando da satisfação consumista, sendo essa experiência direta ou indiretamente mercantilizada. A necessidade de ter este consumo atualizado, ou seja, fazer do consumo um hábito cotidiano, valoriza e personifica a identidade individual do homo consumericus, fazendo com que ele não caia na obsolescência de ser esquecido instantaneamente.

Os recursos televisivos, e a internet são um dos impulsionadores dessa necessidade de ostentação, que consome o indivíduo contemporâneo. Nesse sentido, não só o indivíduo é coisificado, como é forçado a desejar todas as mercadorias que a mídia exalta, e dentro dessas mercadorias, não se pode descartar as ideologias, que é algo que se consome, e que te impulsiona a consumir. Um exemplo disso é o culto ao corpo, a liberdade de expressão, o feminismo, o homosexualismo, e todas as outras formas de pensar que fazem com que o indivíduo seja inserido, ou sinta necessidade de se inserir em microgrupos, tribos.

As novelas são um dos principais responsáveis por essa união tribal contemporânea, fazendo com que grande parte da população se sinta autêntico, utilizando as linguagens, as suas roupas, e seus enredos de vida cotidiana, fazendo do espectador um consumista de signos, que tão logo que uma outra novela começar, terá toda essa “originalidade” instantaneamente esquecida, apagada e trocada por outra. É a partir das novelas, que as mulheres conseguem se sentir mais mulheres, e mais fortes socialmente, foi através das novelas que a sociedade aprendeu que homossexualidade não é doença, foi através da novela que o encantamento pelo estranho passou a ser romântico. Sendo assim, todos esses temas criam modinhas, que são copiadas e proliferadas, fazendo com que a industria cultural cresça e prenda novos aliados, ou seria, alienados.

É graças às novelas, que os bens culturais de massa são lançados e consumidos freneticamente. A novela, bem como todos os outros mecanismos de mídia, insere no indivíduo um desejo capitalista, que faz com que ele coisifique o mundo, como sendo algo efêmero, e comprável. Coisificando o mundo, o indivíduo coisifica, também, a si próprio, pois ele também é parte deste mundo. Nesse ciclo, o homem se frustra a partir do momento em que se vê como objeto do desejo social, fazendo parte da máquina social, onde sua mão de obra é vendável, pois, precisa trabalhar para poder consumir, sendo assim, sua mão de obra também é uma mercadoria.

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