segunda-feira, 15 de julho de 2013

A FIGURA DA PRINCESA MUDA CONFORME A NECESSIDADE

“Minha filha não é uma princesa”, afirma o escritor Fábio Chap em um texto do seu blog que leva este título. As discussões frequentes sobre o machismo e o protagonismo da mulher na sociedade levantam uma questão: as princesas estão em transformação?
Para Fábio, o surgimento de princesas que saem do papel passivo para partir para a guerra, como Fiona, de Shrek, e Merida, de Valente, é uma forma de aproximar a filha Alice, de 1 ano e 10 meses, da realidade. “Talvez o surgimento de mais personagens desse tipo possa fazer uma boa transição para as histórias serem mais reais. Mais próximas de nós que pegamos metrô do que das futuras netas do Eike Batista”, observa.
Fábio é um exemplo de uma geração de pais que se negam a aceitar princesas que seguem um padrão estereotipado: dócil, passivo, frágil e, na parte física, magras, lindas e com o cabelo liso e loiro.
O movimento ganhou destaque recentemente com uma polêmica em torno da princesa Merida. Para poder se integrar na coleção Disney Princess, ela passaria por uma transformação e ganharia, entre outras características, uma cintura mais fina, fios menos rebeldes e seria um pouco mais sexualizada em comparação à versão da animação que levou o Oscar de 2012.
Depois de uma petição organizada pela Internet, com 200 mil assinaturas, a Disney aparentemente voltou atrás. “Merida foi a princesa que incontáveis garotas e seus pais estavam esperando – forte, confiante. Ela foi a princesa que se pareceu como uma garota real, completa com suas imperfeições que todo mundo tem”, dizia a página na Internet Change.org.
A nova versão foi criticada inclusive pela criadora da personagem, Brenda Chapman. “Merida foi criada para quebrar aquele molde”, disse ela ao jornal britânico The Guardian.
Pais e mães comemoram o fato de Merida não ter voltado a aparecer no site da marca com as novas características e, no último mês de maio, ela finalmente foi coroada como 11ª “Princesa Disney” em uma cerimônia no parque da Disney – mantendo a indomável cabeleira ruiva.
De acordo com Diana Corso, autora dos livros Fadas no Divã e A Psicanálise na Terra do Nunca, a transformação das princesas em personagens mais fortes reflete uma necessidade das crianças de hoje.
Em seu site, Diana analisa a personalidade da personagem de Valente, que “prefere o arco e flecha às lides domésticas”, se reconhece mais no pai do que “na doçura severa e contida da mãe” e “inverte vários papéis das princesas dos contos de fadas tradicionais”. “Novos tempos pedem novas ficções, novas mulheres precisam de novas heroínas”, afirma, no texto. “Temos testemunhado isso com a transformação da tradicional Branca de Neve, de Rapunzel e outras, assim como o surgimento de novas formas de ser princesa”, completa.
Em entrevista ao Terra, Diana observa que, embora Shrek seja ‘crítica muito complexa’, e, por muitos, considerada como um desenho para adultos, ele representa de forma emblemática esta transformação. “Ele faz uma crítica ao padrão estético. Por exemplo, a fada é toda plastificada e vive para este culto de beleza. E a Fiona luta por ser bela ao seu modo, ela se nega a se conformar com os padrões. Isso é uma coisa muito contemporânea, porque as jovens têm lutado por padrões de beleza que têm a ver com a sua época. A marcha das vadias, por exemplo: mesmo quando usam roupas mais sensuais querem fazer isso por si mesmas, ao seu modo.”
Para a especialista, Fiona apareceu como a primeira princesa verdadeiramente diferente. “Tem uma passagem onde ela convoca as princesas para ‘suas posições’. A Bela Adormecida vai e deita. Então, ela tira sarro, porque hoje é impossível que uma menina pudesse ocupar uma posição tradicional de princesa, esperando. A mulher de hoje tem outro nível de comprometimento. Os novos heróis estão transitando pelas identidades de gêneros. As meninas lutam, os meninos podem ter esse momento de delicadeza”.

Era uma vez
Estamos em 2013 e, a qualquer momento, é possível se deparar com crianças vestidas de Bela Adormecida, Cinderela e ou Branca de Neve. Apesar de toda a transformação social, Diana acredita que os contos continuam atuais porque, de alguma forma, são contemporâneos para as crianças de hoje. “Eles são ativos porque representam um núcleo de fantasias que ainda ajudam as crianças a crescerem.”
Ela lista questões comuns à maioria dos enredos como “sair de casa, travar disputas e se fazer valer”. “As crianças vão usando essas mesmas histórias ao seu modo, não tem nada de retrógrado nisso”, observa.

Vestido de guerreira
Vestidos rodados, com a cintura marcada e cabelos impecáveis, portando uma coroa, são alguns dos elementos que ajudam a construir a doçura das princesas nos contos. Os vestidos podem continuar existindo, mas o papel de guerreira passou a assumir mais espaço nas histórias, sem perder a ternura. “Hoje temos princesas que acumulam a feminilidade às coisas que ela conquistou até hoje, como a liberdade e a igualdade nos deveres de lutar. Não temos mais a situação da Mulan, por exemplo, que teve que se vestir de homem para lutar. Agora temos princesas que conseguem juntar delicadeza com ‘kung fu’.”
Outro exemplo para ela é Rapunzel, que tinha como objeto da cobiça o cabelo, mas, para fugir, não hesitou em passar a tesoura nos fios. “Qualquer personagem infantil hoje vai ter esse protagonismo. As mulheres já não ocupam mais esse lugar de ficar deitada esperando. As crianças já não se identificam com uma condição passiva, nem mesmo na sua forma de aprendizagem. Hoje elas aprendem brincando, interagindo, pesquisando.”

Realidade x Ficção
Recentemente, a antropóloga Michele Escoura trouxe à tona a discussão ao redor da influência que as princesas exercem nas crianças. Em sua tese Girando entre Princesas: performances e contornos de gênero em uma etnografia, pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, ela analisou crianças de cinco anos de escolas públicas e particulares.
A partir da observação de alguns desenhos, ela notou que as crianças se referiam às princesas enquanto pessoas essencialmente ‘lindas’, sendo que na maioria dos casos elas foram retratadas com a pele branca, cabelos lisos e demonstrando juventude.
A nutricionista Tânia Sabino, 44, é mãe de Esther, que completará 5 anos no final de junho e é louca pelos vestidos e coroas de princesas. “Eu entro junto com ela na fantasia. Me orgulha e alegra vê-la feliz”.
A mãe observa que a filha gosta da exposição à beleza, independente do conto de fada. “Não acredito que traga algo negativo, mas acompanho para ver até que ponto interfere em sua personalidade”.
A estudante Brenda Munhoz, 17, também é fruto de uma geração que teve acesso às histórias de princesas e também só vê o lado bom dos contos. “Cresci assistindo aos contos de fadas da Disney, conheço as histórias das princesas de cor. Geralmente me fantasiava nos meus aniversários. Minha mãe chegou a fazer um convite diferenciado, com a minha foto e o nome ‘Brenda de Neve’”, conta. “A sensação era mágica, pela realização de ser quem eu quisesse”.
Para ela, as lembranças ficaram na infância e hoje ela consegue distanciar a realidade da ficção. “À medida que crescemos, aprendemos a distinguir o que é pura fantasia do que realmente pode ser aplicado nas nossas vidas”, acredita.
Diana também não vê um lado negativo nas princesas consideradas mais tradicionais. “A ficção não cria costumes, ela traduz o modo de pensar de uma determinada época. É como um espelho que a gente quer ver de nós mesmos.”
Para ela, o ato de vestir a filha de princesa reflete alguns dos padrões de comportamento atual. “As mães não colocam a roupa de princesa na filha porque querem que elas se deitem, mas porque elas querem ser rainhas. É onipotência materna, elas querem que seus filhos sejam super heróis, sejam as mais belas, a mais poderosas. Essa é a fantasia dos pais contemporâneos – é reflexo da nossa sociedade, na qual a competição, ostentação e a luta pela melhor imagem nos move.”

À espera do príncipe
A pesquisa de Michele envolveu a exibição de filmes com dois personagens conceituados pela marca Disney Princesas de maneiras bem diferentes – Cinderela e Mulan. Enquanto Cinderela é definida como uma princesa “clássica”, Mulan é considerada “rebelde”.
De acordo a pesquisadora, o status de princesa não foi facilmente atribuído pelas crianças à Mulan, em contraposição à Cinderela. À agência USP, ela contou que um dos motivos observados é o fato de o filme não deixar claro se Mulan de fato se casa no final.
Tânia observa que a filha também se encanta com os enredos românticos que geralmente embalam as histórias de princesas. “Ela acha linda a paixão pelos príncipes e se apega muito à frase ‘E foram felizes para sempre’”.
Apesar de todo o clichê, Diana é categórica ao afirmar que “isso não vem dos contos de fada”. “Os contos de fada são um conteúdo disponível para ser usado, transformado, para se fantasiar com ele, há mais de 200 anos. Eles não estragam, nem arrumam, nem tendenciam. A gente usa como bem entender.”
Na opinião de Chap, se os pais souberem usar o mundo da fantasia apenas como entretenimento, não há riscos de surtir em algo negativo. “Já quando a criança começa a ser exposta à vida de princesas como um um ideal a ser buscado, aí você gera frustração. A menina vai ficar procurando príncipe sem defeitos por um bom tempo até se deparar que não é assim que a banda toca”.

Princesas que gostam de princesas
Já que a ficção imita a realidade, há de se esperar que os desenhos passem a retratar também questões mais atuais, como pessoas do mesmo sexo se casando, por exemplo. Para Diana, isso pode acontecer, mas pode levar algumas décadas. “Tudo vai depender do quanto as crianças precisarem disso para se sentirem retratadas de alguma forma. Ainda não apareceu isso porque os preconceitos não permitiram. Vamos ter que evoluir muito nas famílias para entender que o amor é livre, para que a ficção infantil não seja policiada para retratar essas novas realidades”, afirma.
Caso isso acontecesse, Tânia seria contra. “Não sou preconceituosa, mas sou cristã e considero isso contrário aos propósitos da criação. Acredito que a aprovação do casamento gay pode sim chegar a interferir nos desenhos animados, mas estaria longe da fantasia da criança”. No entanto, ela aprova o protagonismo das princesas mais ousadas. “Acho interessante, pois deixa de existir a submissão e mostra que a mulher pode sim se sobressair, batalhar e vencer”.
Para Brenda, as princesas atuais incentivam “uma sociedade mais homogênea, quebrando suavemente a visão da mulher como ‘frágil’ em todos os sentidos”. “As vejo independentes dos príncipes, que em maioria só aparecem no final, mas não interferem na vida delas diretamente”.
A antropóloga Michele afirma que, mais do que marginalizar as personagens das princesas, vale às mães a tentativa de trazer para os filhos outros tipos de referenciais de feminilidade. “A diversidade existe, e as crianças devem saber que não há apenas uma maneira de serem felizes, bonitas e aceitas.”





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