terça-feira, 25 de junho de 2013

VEM PRA RUA, PORQUE A RUA É A MAIOR ARQUIBANCADA DO BRASIL

Por Leonardo Cappi Manzini


Dia do Basta/Vem Pra Rua - Vilhena/RO
Foto: Herbert Weil
O Brasil que você nunca viu. Talvez já tivesse ouvido falar, mas não acreditava mais, se era verdade ou mais um exemplo de politicagem, coisa da política, no pior conceito que esta poderia ocupar.


Muitos se perguntam ainda se não passa de uma moda entre jovens das capitais, um efeito mesmo da industria cultural global, um efeito rebote, um efeito chicote, que arrebata o poder no seu completo anonimato, isto é, o alvo são as diversas formas de poder, sejam eles quais forem, seja eles o que fazem ou para quem torcem. Vale tudo, a insurreição explode sobre qualquer monumento ou patrimônio do poder, lojas, vitrines, vidraças, prédios históricos, cabines telefônicas, carros de agencias de comunicação de massa, cabines da PM, automóveis. A fúria que emerge das heterotopias das ruas revoltas, vê em cada um desses objetos, a projeção do poder que expropria, exclui, explora, cobra, financia, esconde. Não há consciência na fúria, ela recorre e emerge de um imaginário radical de outra ordem, irrompe de seu estado encoberto e controlado, pela soma e sobre-repressão (Marcuse, 1978) do aviltamento acometido pelo próprio exercício do poder, na sua difusão, regulação e execução historicamente acumuladas. Para George Lapassade (2004) seria a força instituinte na sua forma criativa e deliberada a ocupar as ruas, disparando e criando novas erupções e movimentos disrruptivos. De uma crise do imediatismo, uma revolta ganha espaço, corpo, voz e um milhões de faces a se multiplicar, curtindo, compartilhando, protestando. Uma moeda de 25 centavos deflagrou a maior manifestação da história Brasileira, ela trouxe consigo o peso da história, nunca se viu moeda tão cara, tão pesada. Ela trouxe a insatisfação, a incerteza, o medo, a raiva, sobrepostas nas camadas de soterramento, de silêncios forçados, aplacados por um mercado de maracutáias, privilégios, cotações, propinas, interesses e nepotismo.

Toda essa fúria que irrompe das ruas advêm do mal estar experimentado por duas ou três gerações que herdaram-no de mais duas ou três outras gerações., isso quer dizer que, foge à compreensão imediata dos fatos, remete a outros tempos. A dor dessa gente é antiga e farta de farsas e falsos profetas, secas intermináveis que contornam inclusive os avanços tecnológicos sofisticados da recente historia humana. O exercício do poder político que legitimadamente deveria representar os interesses da maioria, dentro de uma margem utópica, aviltou suas próprias maiorias, as que os elegeram, dentro de uma margem de democracia. 

Não são apolíticos, são anti-politicos, para uma geração que cresceu entre o hedonismo e o individualismo, ser ativo politicamente e membro de uma coletividade manifesta, eram apenas sonhos de outras gerações, de outros tempos, ou ainda eram coisas que uma certa industria cinematográfica capturou para nunca mais libertar. Para muitos sair às ruas, lutar por ideais coletivos, reivindicar interesses e defender opiniões eram apenas coisas de filme. Se enganaram aqueles que assim declararam o fim dos movimentos coletivos, o fim das utopias? Não imaginavam que tais forças, hora inertes, acordariam na mais improvável das situações?
A própria ignorância reproduzida historicamente pela maquinaria das governamentalidades faz com que as forças revoltas não se apressem em discernir alvos, lugares, objetos, tudo é simplesmente monumento da história do poder, monumentos do poder que os insultou, que os abusou e violou, a seus pais e mães, irmãs e irmãos, avós e avôs. Que deixou como herança um fundo oco e vazio, uma mascara disforme e apertada. 

Não interessa se foi Niemeyer ou Portinari, pouco importa, agora são pixados e destituído de seu valor erudito e passam a ser meros adornos, partes de uma cena que extrapola seus significados mais genuínos. 

Agora quem protagoniza são as pessoas e suas reivindicações. A impressão que sentimos,
digo porque senti junto, que Brasília nunca esteve tão próxima do povo quanto como vi pela televisão hoje. 
Mas isso é apenas uma pequena parcela da dimensão dos fatos.

Não são só os monumentos de concreto os alvos da revolta, da busca pela verdade e pelos direitos acordados democraticamente, mesmo que como meras mercadorias. Inclusive certas praticas sociais contaminadas e agenciadas pelo poder difuso e polimorfo são também alvos da retração histórica, o Futebol, a copa das confederações a Copa do Mundo. Deixou-se de lado a vaidade e o cinismo folclórico e cultural, o Brasil não pára na Copa, o Brasil emerge de sua inércia e renuncia pelo futebol do poder, dono de uma fatia econômica polpuda e onde se operam grandes lavagens de dinheiro e de divisas. Entende-se, nas ruas, que o momento é outro, não se pode servir um prato nacional com preço de um banquete internacional, ninguém é trouxa, esta-se de saco cheio. No vazio deixado pelas consciências amortecidas, as votações criminosas acontecem nas plenárias legislativas, as impunidades e as corrupções re-arranjam-se sob o entretenimento das massas, pelas costas, avilta a dignidade e o saber popular, “avilta a renuncia do individuo em nome da coletividade, da sociedade, do toma lá e da cá do pacto social” (Pelegrini, 1990).


O futebol saiu do jornal, a novela se calou, a maquina comunicacional se retroalimenta minuto a minuto convulsivamente como fazia antes, só que agora algo que se precipita para fora dos estúdios, das previsibilidades, das visibilidades. O real da insatisfação saltou à tela e roubou a cena. O povo telespectador, atônito, acostumado com os telejornais tediosos cheios de mentira, violência e corrupção e das telenovelas delirantes e artificiais, se viu capturado, desconfiado com a atual situação. Ao mesmo tempo, se comove e sente o sangue lhe subir a espinha, sentido-se orgulhosamente brasileira(o) como pouco se sentiu na vida, mas ainda desconfiam. Isso não passaria de uma agitação puramente de arruaceiros? Vândalos? Rebeldes sem causas? jovens mimados, novos candidatos nas próximas eleições? Que virou moda protestar? Hora do jeito que esta não dá. Pode ficar Pior ? Pode. Melhor pra quem? Quem fará proveito dessa revolta?

Espera-se que a instituição política e seu exercício no Pais tomem novos rumos e preencha as rachaduras evidentes no tecido social, inúmeras e profundamente instaladas. Os embates entre classes, seguimentos, grupos, interesses, objetivos, ordens é inevitável. O confronto entre policiais e outras instancias de poder revelam tal recrudescimento, fonte das mais primitivas feridas calcadas no fundo civilizatório. Ao mesmo tempo, que se acorda pela insatisfação coletiva a voz das ruas, acorda-se as forças repressivas adormecidas desde o seio ditatorial no pais. A força radical da repressão política e de controle social rapidamente se articula, sem olhos e sem consciência, munidas de gás pimenta a bombas de efeito moral, bela metáfora. 

Acorda-se também o sadismo da tortura, do medo, da perseguição, da disciplina. A força reacionária, agora envolta de outros panos e emblemas, instituições e tecnologias assiste a tudo e espera para agir, desmembrando, confundindo, desarticulando, coibindo, silenciando. Outras instancias populares podem encontrar pontos de embates, e serem intencionalmente e oportunamente colocadas como forças opostas, em franca oposição, pois dividindo se governa.

O silencio dos ditos representantes políticos é descaso ou tática? Parecem estar atônitos, apanhados de surpresa com uma turba de gente que autenticamente detêm o poder. A força evocada pelas manifestações não devem ser desperdiçadas, pois as fraturas no tecido social em tais proporções, se tornaram insuportáveis.

No interior do Pais, a pior estirpe de políticos, faz o que bem entendem, inescrupulosamente expropriam dinheiro publico atendendo a interesses puramente partidários e pessoais. Ocupam o espaço político como se ocupam de suas fazendas, tratam o povo como tratam seu gado, quem sabe, pior, bem pior, simples coisas, números, fonte de agenciamento monetário e eleitoral. A maquina publica se tornou a Casa Grande (Gilberto Freire), onde os coronéis despacham suas ordens e interesses, realizam acordos escusos e perversos, onde preparam sua manutenção no poder. Essa completa deformação do tecido político é que se tornou insuportável. A emergência de mudança é e deve ser irremediável com meras revogações, pequenos acordos e promessas, pequenos “cala-bocas”. Deve adquirir a dimensão de uma transformação na política, no modo como se faz política no Brasil.

Vários caminhos podem ser seguidos e tomados, inclusive de uma nova tirania ainda mais perversa e insana. Pois a massa nem sempre esta com a razão, e as vezes essa razão não equivale ao bom senso. Nada esta decidido, há que se desconfiar, pois o poder é capaz de tornar a tudo modulável, equalizável, manipulável. 

Embora, nesses poucos dias de grande gloria coletiva pode-se afirmar que as marcas já são suficientemente visíveis e profundas, mesmo que para outras gerações, a marca de que é possível lutar por suas convicções e ideais, de que é possível, de forma coletiva, ser ouvido e romper com a invisibilidade inebriante do individualismo hedônico e niilista.

Cada professor esta mais feliz hoje, acordou com uma sensação de que a verdade estava de volta em sua boca, em suas palavras, de que não estava falando para as paredes ou sozinho em um monologo chato e fora de moda. Cada aluno acordou hoje mais próximo da história, inevitavelmente dentro dela. De que o povo à rua não é só para comprar e sim protestar, jamais equivalentes ou duplamente agenciáveis.
Fala-se em prejuízos, fala-se de um pequeno grupo de radicais onde a lei do poder, agirá com toda sua força e minúcia. Por que não falar nos ganhos, o que se ganha, mais direitos?Melhores? Mais justos?

Decerto haverá prejuízos, não há gloria sem lagrimas.

Quem arcará com tais prejuízos? De quem é o prejuízo, quem vai pagar a conta?

As cartas estão lançadas, os dados estão rolando, “o tempo não para”. Conseqüências, legitimação, partidarismo, comissão popular de auditoria publica, comissões de transparência, educação de qualidade e para todos, trabalho e segurança são temáticas que atingem a espinha dorsal do Pais, que Brasil queremos? 

De que Brasil Falamos?

De fato, deve-se ter em vista, a amplitude territorial e cultural do Pais, pois, como se esta mostrando, as revoltas se concentram nas capitais e cidades de grande e médio porte, e em alguns casos, em pequenas cidades. Cada estado levanta suas questões, demandas, interesses, as vezes possuem aspectos comuns noutros divergem-se, sem necessariamente serem equivocados ou incabíveis. O fato é, o povo na rua pode transformar, modificar, apontar caminhos.

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