sexta-feira, 19 de abril de 2013

SOMOS AS ESCOLHAS QUE FAZEMOS NA VIDA


Por Fátima Fontes


"Lá dentro, bem dentro, conservamos o embrião da vitória, embora já quase apagado na maioria das pessoas. Mas ele está lá, com sua pujança, esperando o toque que o potencialize".

Mais uma vez nos encontramos para fazer uma reflexão sobre Nós e nossas inter-relações.

Desta vez escolhi transformar em reflexão o que vivi em dois encontros na ilha de Itamaracá, litoral norte de Pernambuco, onde passei o Carnaval, claro "o melhor Carnaval do mundo", neste fevereiro de 2013.

O primeiro ocorreu com o senhor Felício, um senhor de aproximadamente 60 anos que se aproximou de mim e de meu marido, na praia, vendendo deliciosos caranguejos.

O segundo encontro inspirador aconteceu com o senhor Reginaldo, homem cheio de determinação que orgulhosamente nos contou ter 74 anos, e de vivê-los intensamente e com a alegria mantida, em seu ofício de eletricista.

Nesses dois encontros fui inundada pela riqueza da troca relacional, essa experiência que estimulo os leitores e leitoras desta coluna a fazerem e confirmei aquilo que coloquei como epígrafe desta reflexão, a verdade de que carregamos sementes de vitória em nosso existir, mas que elas só brotarão e frutificarão em nós a partir de nossas escolhas.

Carregamos todos, como seres humanos o "vício de anularmos" nossa potência de ser, a partir de aprendizagens relacionais e de realidades sociais que insistem, muitas vezes em nos fazer crer que devemos: "esquecer, não vai dar, ninguém na nossa situação, na nossa classe social, na nossa família, nunca conseguiu, etc...", e nisto passamos a acreditar e a pautar as nossas escolhas na vida.

Mas concordo com aqueles que se põem como arautos da esperança, da certeza de que podemos, sim, nos responsabilizar por aquilo que faremos com o que fizeram conosco. Essa luta não é fácil, e nem poderá ser feita solitariamente, mas acredito nela e nessa reflexão quero mostrar histórias que confirmam isso.

Perdi tudo, mas não perdi minha Fé.

O senhor Felício mostrou-nos seus belos caranguejos na beira da praia e a partir desse mote, começamos a conversar sobre ele e sua vida.

Ele logo nos contou que estava vendendo crustáceos como bico, pois ele era um marceneiro profissional que após trabalhar muito para as pessoas e hotéis, decidira abrir seu próprio negócio e se pôs a trabalhar para isso.

Três eventos, entretanto, o afastaram dessa possibilidade: o primeiro foi um acidente vascular cerebral que seu único irmão sofrera, e coube a ele a tarefa de auxiliar seu irmão durante três meses a viver, pois a doença o impediu, em sua fase inicial de cuidar de si mesmo. Essa doença aconteceu quando ele preparava sua marcenaria.

Nesse mesmo tempo, o senhor Felício e sua esposa, que também o auxiliava nos cuidados ao irmão dele, tiveram sua banca de artesanato que tinham no centro da ilha, com o alvará da Prefeitura em dia, fechada e ao voltarem para trabalhar, já havia outro artesão em seu lugar e esse tinha uma carta da Prefeitura para que o senhor Felício comparecesse à sua sede.

Quando lá chegou, ouviu dos responsáveis pela concessão de alvará, que o material do artesanato deles estava em outro local e que pelo tempo em que estiveram fechados, foram compulsoriamente substituídos. Ele pensou em procurar um advogado para reaver seu espaço, mas foi orientado na Prefeitura a esperar que se reavaliasse sua situação e que ele muito provavelmente reaveria seu espaço. Ele decidiu aguardar.

O terceiro evento foi o mais grave de todos, ele sofrera um grave acidente dirigindo sua moto, provocado por um carro que sequer prestou assistência a ele. Teve perda total na moto, mas além das escoriações e dores musculares fortes, não sofreu nenhum dano físico maior.

Em sua narrativa final foi do senhor Felício a frase: "Perdi tudo, mas não perdi a minha Fé", ele nos assegurou que com esse terceiro evento ele sentiu fortemente a proteção de Deus e teve a certeza de que sua vida fora preservada para que ele realizasse seu objetivo maior, ainda que levasse mais tempo para isso.

Escolhi viver aqui e isso foi a melhor escolha que fiz.

O senhor Reginaldo foi-nos indicado para o conserto de um aparelho eletrodoméstico, como o melhor eletricista para serviços de reparo na Ilha. E eis que ele atendendo ao nosso chamado telefônico foi à nossa casa na Ilha.

Muito nos intrigou a primeira imagem que dele tivemos, ele era um senhor com uma aparência de uma pessoa de muita idade, franzino e uma voz que também acompanhava sua aparência, todos nos perguntamos quantos anos esse senhor teria e como ele ainda apresentava tanta agilidade e presteza para trabalhar.

Em dado momento, nos aproximamos dele para conversar um pouco mais e ele nos deu o seguinte depoimento: há 30 anos ele conheceu a Ilha, pois vivia em outro Estado e por ela e sua tranquilidade se apaixonou. Tomou então a decisão de vir morar aqui, e buscou criar um trabalho em que ele se diferenciasse e assim aos poucos construiu sua oficina e com a família passou a fazer reparos gerais.

Contou que trabalhava, alegre e incansavelmente e que trabalhar era seu combustível para viver. Nunca bebera e tinha uma alimentação equilibrada, mas tinha o vício do cigarro, desde os 13 anos de idade, que, no entanto, não gerara até aquele momento nenhum impedimento ou adoecimento que o prostrasse ou impedisse de trabalhar. Essa era sua escolha de vida e assim ele atravessara quase oito décadas, com muita satisfação.

Somos nossas escolhas

Pois é, o senhor Felício, o senhor Reginaldo e cada um de nós, a todo o momento, fazemos escolhas, mas o mais das vezes não paramos para pensar nelas. Precisamos, por vezes, que crises se instalem que saiamos temporariamente de nossas "zonas de conforto", que nem sempre são confortáveis, mas com elas nos acostumamos e aí nos pomos a indagar sobre o que virá a seguir.

Meu convite então, é que aproveitemos nossos momentos de crises e dúvidas e nos deixemos levar pela grande oportunidade de rever nossas escolhas, somos nós que as fazemos, e que se escolhemos nos vitimar, só nos afastamos da pessoa que desejamos ser e da vida que gostaríamos de viver. 

Claro que há limites no real de cada um, não estou aqui excluindo os entraves e as injustiças que se interpõem em nossa trilha, além de que jamais poderemos perder de vista a outra grande verdade da vida humana: a de que o bem que desejamos em nosso mundo privado jamais poderá estar desatrelado de um bem comum e da luta para que o bem-estar de todos possa ser alcançado.

E como sempre me utilizo da arte para nossas despedidas, me ocorre uma canção que foi um ícone de luta de toda uma geração de brasileiros que teve seus direitos de escolha temporariamente suprimidos, como acontece sempre que as ditaduras se impõem, sejam elas de direita ou de esquerda, e que numa luta coletiva foi conquistado outra vez o direito de escolher. É a canção de Geraldo Vandré: Prá não dizer que não falei das flores.


Pra não dizer que não falei das flores

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontece


Fonte: Nós e Nossos Vínculos

Um comentário:

  1. Esse artigo me fez refletir o quanto é difícil parar, sair da zona de conforto, e ir atrás do que realmente desejamos. Na maioria das vezes decidimos realmente deixar tudo como está, a ter que enfrentar um provável recomeço. É como se o desconhecido esteja diretamente ligado ao medo. Será que valerá a pena mudar? Na maioria das vezes, respondo por mim, prefiro deixar que o tempo resolva. É neste momento que o medo do desconhecido me vence e a hora é feita pelo tempo.

    ResponderExcluir