quarta-feira, 24 de abril de 2013

FALSA GRÁVIDA DE TAUBATÉ

QUEM PUDER QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA
Por Joel Rennó Jr.




"Algumas mulheres podem desejar tanto um filho a ponto de, efetivamente, terem uma gravidez psicológica"

O caso dessa Verônica (Maria Verônica Santos, 25 anos), falsa grávida de quadrigêmeos da cidade de Taubaté, interior de São Paulo, deve nos levar a algumas reflexões construtivas.

Não acredito que a sociedade, apesar da mentira inventada por ela, deva execrá-la como ser humano e condená-la precipitadamente como observo que vem sendo no momento - até por alguns órgãos de imprensa. Até mesmo alguns dos familiares dela acabaram rejeitando-a.

Um sintoma ou sinal deve ser avaliado com critérios na área de saúde mental. Nem sempre uma mentira é fruto da má fé ou de uma sociopatia. Não acredito, pelos indícios, que ela tenha inventado a história da falsa gravidez por má fé ou para angariar vantagens econômicas. Por isso espero que haja uma avaliação isenta e justa, levando-se em conta todos os fatores.

Algumas mulheres podem desejar tanto um filho a ponto de, efetivamente, terem uma gravidez psicológica. Nessa pseudogravidez, níveis de prolactina (hormônio da lactação) e também de LH (hormônio luteinizante produzido na hipófise do sistema nervoso central que estimula a ovolução pelos ovários) estão aumentados. É comum no início haver aumento abdominal, aumento das mamas até com secreção de leite, náuseas e vômitos e amenorreia (ausência de menstruação), entre outros sinais e sintomas de gravidez. 

Essa gravidez psicológica pode ser oriunda de algum trauma psicológico ocorrido na infância ou adolescência da menina e isso precisa ser investigado. A gravidez psicológica pode ter algum papel como, por exemplo, unir membros da familia ou até dar uma satisfação social ou familiar quando a mulher tem dificuldades para engravidar e todos a pressionam. Essas mulheres costumam negar a todo custo provas que evidenciam a falsa gravidez e consultam vários médicos diferentes para atestar.

O problema é quando tais mulheres se deparam com a realidade de forma objetiva. O acolhimento e a compreensão devem ser as melhores condutas por parte de médicos e familiares. Mas geralmente, acaba acontecendo o contrário e muitos familiares “apedrejam” tais pacientes. A gravidez psicológica pode esconder ou mascarar alguma doença psicossomática ou mesmo a depressão.

É comum algumas dessas mulheres estarem tão convictas de suas gravidezes a ponto de negar, mesmo com provas objetivas, de que não estão efetivamente grávidas.

Algumas dessas mulheres para chamar a atenção ou não perder o vínculo afetivo criado através da falsa gravidez, podem até ser enquadradas na mitomania. Ou seja, elas criam uma fantasia, um mundo paralelo no qual acreditam nas próprias mentiras elaboradas pelas mesmas.

Um sociopata, ao contrário, inventa mentiras para prejudicar a terceiros ou manipular pessoas. Acredito que esse, pelos indícios apontados, não deva ser o caso da falsa grávida de Taubaté. Parece haver outros motivadores: ela desejava intensamente ter uma filha e também a “gravidez” serviu para unir afetivamente seu marido e pai. Essa questão, consciente ou inconscientemente, deve ter sido o ganho buscado por ela.

Para muitos mitômanos pode ser difícil encarar a realidade, ou seja, a mentira. Isso ocorre porque a mentira acaba sendo um instrumento que de alguma forma alivia o sofrimento de um trauma passado ou até presente. No fundo, ninguém quer ter contato com a dor psíquica.

Portanto, antes da sociedade fazer prejulgamentos ou atirar as pedras, a Verônica precisa de muito apoio na esfera psicológica e psiquiátrica de forma contínua. Não podemos analisar apenas o fato em si de forma racional e fria. 

Há muita complexidade em saúde mental e isso, geralmente, é inacessível aos leigos em suas análises globais de determinados comportamentos humanos. Espero que ela também, caso se comprove algum transtorno psicológico, não seja considerada de forma pejorativa uma “louca”. Isso só iria contribuir para estigmatizá-la mais ainda e negarmos que o limite entre a normalidade e insanidade momentânea é mais tênue do que todos imaginam. 

Atenção! 

Esse texto e esta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracterizam como sendo um atendimento. Dúvidas e perguntas sobre receitas e dosagens de medicamentos deverão ser feitas diretamente ao seu médico psiquiatra. Evite a automedicação. 




Fonte: Saúde Mental

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