quinta-feira, 11 de abril de 2013

A IMPORTÂNCIA DA ESCUTA CLÍNICA NA FORMAÇÃO DO PROFISSIONAL PSICÓLOGO

Por Márcia Chicareli Costa


Os cursos de Psicologia que oferecem a prática e a teoria simultaneamente precisam ficar atentos às dificuldades demonstradas pelos estagiários em oferecer a “escuta clínica” á pacientes que buscam atendimento em suas clínicas escola.

O estagiário demonstra alto nível de ansiedade e muita vez esquece a presença do paciente para cumprir as determinações de preenchimento de fichas e outros documentos necessários para que caminhe o atendimento.

Como é sabido o paciente que procura ajuda em clínicas escola, muitas vezes não tem condições econômicas para buscar atendimentos em outros lugares, por isso, buscam o atendimento comunitário.

Com isso, deve-se ter atenção redobrada uma vez que estamos apontando uma demanda já carente. Para Freud, o primeiro objetivo da terapia é ligar o paciente ao terapeuta.

Segundo ele, com o interesse do profissional, aliado a alguns cuidados, "o paciente logo estabelece, espontaneamente, esta ligação e vinculará o médico a uma das imagens das pessoas por quem costumava ser bem-visto".

Porém quando o estagiário está ocupado de sua ansiedade e desatento ao núcleo do conflito do paciente, não se estabelece nenhum vínculo, podendo assim colocar o paciente em sofrimento ainda maior, uma vez que o mesmo foi em busca de apoio e reconhecimento de sua dor e não encontra no estagiário tal disponibilidade interna.

Ocupar-se da teoria se faz necessário uma vez que ela que fundamentará o atendimento clínico, porém, aguçar a sensibilidade do terapeuta é parte da formação e da formatação deste profissional. Saber-se para tentar saber o “outro”.

Em um dos atendimentos supervisionado em uma conceituada Universidade em São Paulo, os estagiários receberam na clínica escola: uma mãe de três filhas com a queixa de que a escola teria encaminhado o caso uma vez que as meninas estavam apresentando comportamento agressivo.

Porém, quando recebida na sala de atendimento a mãe começou a chorar compulsivamente o que fez com que os estagiários ficassem paralisados e sem saber como reagir ao fenômeno, então, após perceber que não suportariam tão condição de atendimento

pediram a mãe que respondesse a anamnese das três filhas, uma vez que esta era a orientação em supervisão, com isso demonstram rigidez as instruções e não flexibilização a demanda. A mãe chorava compulsivamente uma dor que precisava ser acolhida, entendida e a documentação poderia esperar, afinal, não é isso que se faz em Pronto Atendimento Médico? A pessoa chega sangrando e os profissionais vão preencher documentos? Primeiro deve-se socorrer de depois saber quem está ali e não o contrário.

A mãe necessitava de Holding (Winnicott), acolhimento de sua dor. A função do holding é fornecer apoio egóico, em particular na fase de dependência absoluta antes do aparecimento da integração do ego.

Ela conta aos estagiários que após ter perdido tudo que tinha (casa, trabalho, etc) e sendo as filhas de pais diferentes, ela colocou as meninas em abrigamento e estava alí para que os estagiários pudessem ajudá-la a criar as filhas.

A mãe foi buscar na clínica escola, nos estagiários, o amor e os cuidados que ela não soube e não pôde dar às suas filhas. Certamente o amor que não recebeu de sua mãe.

No entanto e para completar esta reflexão, penso que os primeiros atendimentos clínicos surgem cheios de imprevistos e improvisos por isso o bom senso sempre deve estar presente em nosso raciocínio clínico.

Observe o pedido, ouça a queixa, deixa a pessoa falar, chorar, sentir-se acolhida, depois disso e de der tempo preencher as documentações exigidas pela Universidade fica mais honesto e o significado do atendimento mais verdadeiro tanto para o estagiário quanto para quem foi a clínica em busca de ajuda.

Estagiários libertem-se da camisa de força imaginária. Se estiverem em dupla peça para o colega ir se orientar com o supervisor, mas jamais deixe de ouvir o choro de desespero de alguém que não sabe o que fazer com tanta dor.

Humanize-se, aproprie-se, lembrem-se: Bom Senso!



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