sexta-feira, 22 de março de 2013

PSICÓLOGOS GUMP


Por Breno Figueiredo


“É que uma vez um pivete roubou minha carteira, aí eu...”. Pronto, metade da aula escorre pelo ralo enquanto seu colega encarna Forrest Gump, o Contador de Histórias e narra mais um episódio de sua emocionante jornada. Na graduação em Psicologia, as aulas têm um fator que ocorre com maior freqüência do que nas aulas de graduação em outros cursos. Ao abordar aspectos cognitivos, emocionais e subjetivos que participam de eventos banais ou de forte significação em nossas vidas, muitos alunos transformam o momento que deveria servir para o esclarecimento de dúvidas em consultório sentimental para desabafar suas angústias ou roda de conversas para narrar suas epopéias. Qual aluno de Psicologia jamais ouviu de um colega: “Professor, certa vez eu caminhava pela praia, lépida e fagueira, quando fui vítima de uma ilusão de ótica igualzinha ao exemplo que o senhor deu agora mesmo!” Nas aulas de Desenvolvimento, todo mundo tem um sobrinho fofo e altamente desenvolvido que serve de cobaia para nosso estudo e, sem saber, merece uma homenagem da turma na cerimônia de formatura. Em certos momentos, poderíamos perguntar ao aluno/narrador: “Você quer um microfone? Quando sua biografia será publicada?” Se algum dia Bia Bedran ficar sem histórias para contar, basta assistir como ouvinte uma aula de graduação em Psicologia! Se algum dia alguém quiser exemplos de falta de objetividade numa narrativa, também pode assistir às mesmas aulas. Os professores têm a função de frear os devaneios dos alunos, mas acredito que a frequência de tais momentos seja tão avassaladora que alguns mestres consideram-nos inevitáveis e simplismente preparam suas exposições teóricas reservando vinte minutos ou mais para os momentos “Fala que eu te escuto!” O que nós, alunos, podemos fazer para evitar que cada aula transforme-se na fábrica de Contos da Carochinha?

Exemplos certamente enriquecem nosso aprendizado e facilitam a compreensão das teorias, mas estamos perdidos diante de tantas confissões, sejam elas cognitivas, psicanalíticas ou, muitas vezes, sem qualquer relação com as aulas! Estar numa aula de Psicologia da Aprendizagem não é motivo para dizer, por exemplo, que “os maridos precisam aprender a dividir a cama com os vibradores de suas esposas.” Caso o leitor esteja desconfortável diante da frase acima, imagine o desconforto dos colegas e do querido mestre naquela aula. Há várias críticas ao pensamento cartesiano, mas Descartes acertou em cheio ao comentar algo como “o bom senso é a qualidade mais bem distribuída no planeta! Cada um tem certeza de que o possui na medida certa.” Numa aula podemos ser o narrador inconveniente, na outra podemos ser vítima silenciosa. Se os alunos entediados começarem a interromper os contos fantásticos de seus colegas, perguntando “Qual é a relação disso com a aula?” possamos aumentar seu poder de síntese, esclarecendo a diferença entre sala de aula, palanque e consultório.




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