segunda-feira, 18 de março de 2013

A DESVALORIZAÇÃO DO POTENCIAL HUMANO

Por Hudson Eygo



Somos, até aqui, resultado direto do modelo capitalista narrado por Karl Marx. É verdade que ocorreram mudanças. O modelo de produção, assim como o de dominância burguesa, não é tão literal como no modelo inicial do sistema, já que sobrepujamos o formato/processo de trabalho pregado por Taylor e Ford. A própria concepção de “Ser” do homem contemporâneo supera a do moderno, hoje vista por alguns teóricos como mecanicista.

É certo que a visão de homem, assim como a de produção de vida, sempre esteve ligada ao trabalho. Contudo, não foi sempre que o capital esteve ligado à atividade laboral. Seus primeiros relatos na história estão ligados à exploração de um sobre a força do outro.

No homem contemporâneo, as constantes transformações no modo de vida, paralelo ao avanço tecnológico e ao ritmo cada vez mais acelerado do trabalho, resultam em uma sobrecarrega física e psíquica. Esse ritmo desenfreado e abusivo de trabalho virou sinônimo de acumulo de capital e melhoria de vida. Assim, sem perceber, o homem tornou-se produto ao produzir seu modo de vida. O sistema criou as necessidades, e nós as abraçamos sem pestanejar.

O trabalhador habituou-se ao formato desenfreado e abusivo das empresas, não obstante surgiram as doenças ligadas a essa relação institucionalizada do homem com o trabalho. Como analisador, e de modo a intervir nesse estilo – forçado ou não - de vida do homem contemporâneo, a psicologia passa a atuar no mercado de trabalho. Uma condição antagônica do serviço; hora em função do administrador, hora em função do trabalhador, mas sempre buscando o bem estar comum. Os desafios para a profissão nesse contexto não são poucos. Diante da realidade de vida desses trabalhadores, e da desigualdade social de nosso país, onde até mesmo o Estado – única instituição política que temos – ao invés de garantir a qualidade de vida, quase sempre corrompe sua função, agindo em prol das empresas e dos empresários, o trabalhador em muitos casos aparece como vitima do sistema, sem acessos a meios para garantir a efetivação de seus direitos.

Por meio do trabalho que o homem também atribui significado para sua existência, na realização e no desenvolvimento de suas capacidades. Contudo, não é sempre que a atividade laboral cumpre esse papel. Quando exercida de modo abusivo, passa a ter influência negativamente sobre sujeito, produzindo doenças ligadas ao processo de trabalho. A própria insatisfação do trabalhador, casada à sobrecarga de trabalho exigida por muitas instituições destitui do trabalhador seu tempo de descanso; lazer; convivo social, familiar; etc. Resultando não raramente, em tensões e conflitos que culminam em doenças de ordem física e/ou psíquica. O ritmo acelerado de trabalho parece atingir principalmente o trabalhador que ganha por produção.

Em nosso século, criou-se uma visão deturbada de felicidade, onde a qualidade de vida está intimamente ligada à produtividade, uma vez que está resulta em salários cada vez melhores. O modelo capitalista, visando ganho e produção, criou as doenças ligadas ao trabalho, como o Estresse, a Síndrome de Bunoult e a LER/DORT, etc. Isso sem mencionar os conflitos no ambiente de trabalho, gerados pelo desgaste físico e de relações superficiais de convivência, pautadas apenas no ganho individual, atravessado pelo trabalho coletivo.

Para CANETE (2001), estes transtornos acompanharam a evolução do processo de trabalho e chegaram a nosso tempo, alguns com agravo, outros são novos, acometidos pela tal modernização do processo de trabalho. Mesmo com a redução da jornada de trabalho, parece ter aumentado a pressão sobre o trabalho/trabalhador ocasionando um desgaste tanto psíquico quanto fisiológico, é importante frisar que não dá para dissociar um do outro.

São varias as causas desses males, em especial, podemos apontar a falta de motivação do trabalhador. Sabe que o bem estar está diretamente associado à liberação de substancias na corrente sanguínea que melhoram a condição física e psíquica do homem, potencializando a produção. Apostando nisso, empresários têm investido em atividades físicas no ambiente de trabalho e na famosa ginastica laboral, como meio de otimizar a produção.

Condições como estresse, fadiga e esgotamento se tornaram cada vez mais comuns no ambiente de trabalho. A autora alerta para o fato de a

medicalização do trabalho investir nos fármacos como meio de mascarar os sintomas, negligenciando o sofrimento na raiz do problema. Outro fator preocupante de nosso tempo são os altos índices de acidentes de trabalho, cada vez mais comuns, que estão intimamente ligados ao baixo nível de instrução e qualificação profissional. Também as lesões por traumas acumulativos são um problema recorrente, que resultam em aumento da rotatividade de funcionários e obrigou os empresários a investirem na prevenção, e em um melhor cuidado desse profissional.

Esse quadro de empresários que não cuidam do seu trabalhador, tem mudado. Sabe-se que os empresários se conscientizam de que investir no trabalhador, em todas as esferas (capacitação, benefícios, valorização do trabalho, aumento de salário, melhora no espaço físico, etc), reflete diretamente no progresso da empresa. Essa nova forma de gestão, preocupada com o homem em suma, resulta em ganhos para ambas as partes.

A psicologia no âmbito do trabalho, prevenindo e promovendo a saúde mental – deixando claro que o conceito de saúde mental deve abranger uma visão holística do sujeito, não significando apenas o estado de ausência de doença, tão pouco ligada apenas uma instancia psíquica do homem, mas sim, em uma relação de interdependência de um completo bem estar físico, psíquico, social, econômico, cultural e espiritual desse sujeito - age como um analisador do sistema de produção, não apenas no campo de trabalho, mas no meio social, como promotora de saúde, buscando um equilíbrio entre emprego/empregador, trabalho/trabalhador, produção/produtor.

REFERÊNCIAS:

Humanização: Desafios da Empresa moderna, de CANETE, Ingrid. Ed Icone, 2001;



Um comentário:

  1. É complicado ver a humanidade caminhar tão rapidamente em relação à tecnologia e às ciências, e ainda ser tão "primitiva" no quesito moral, fraternal e solidário. Ainda bem quehá pessoas que já viram e vem mudando esta situação urgentíssima!Ainda bem!

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