quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

NOMOFOBIA; UMA NOVA SÍNDROME

E UMA NOVA FORMA DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL
Por Gabriel Caixeta, Roberta IdaFranches e Débora Oliveira





A partir da Revolução Industrial o homem pôde vivenciar uma nova e única experiência, a produção em massa. Com ela a dinâmica de vida mudou radicalmente e concomitantemente o “progresso” não parou. Na virada do século XX início do século XXI o homem assiste uma nova explosão de desenvolvimento, a tecnologia se expande e novamente a configuração social muda.

Neste caminho, a internet começa a fazer parte da sociedade de maneira irredutível. A pesquisa de informação, a leituras das principais notícias, a troca de conteúdos, a publicação de imagens, a partilha de opinião, o contato com os amigos, à distância de um clique, é possível um sem fim de tarefas que nos permite estar permanentemente ligados ao mundo exterior.

Logo em seguida, observa-se um crescente uso de celulares. Além de sua portabilidade, eles passam a ser “completos”. Se antes o homem dispunha da internet como instrumento de comunicação, hoje, é possível ter tudo isto nas mãos. Os celulares passam a conectar o humano ao mundo. Os celulares parecem não ter limites quando se fala em evolução. Cada vez novos recursos aparecem, melhorias são adicionadas e tudo continua ocupando o mesmo espaço.

Diante de um novo arranjo social foi – e ainda é – preciso que se estude e se atente para este novo fluxo. Mediante a isto, a psicologia social e mais especificamente o construcionismo social nos ajuda nesta leitura.
Segundo Gergen (1985), os estudos sócio-construcionistas focam-se nos processos cotidianos, ou seja, como as pessoas falam, percebem e vivenciam o mundo em que se encontram. A postura básica desta perspectiva é ser crítica à naturalização dos fenômenos sociais. A base conceitual do construcionismo, define como realidade, as pessoas e os fenômenos psíquicos como sendo produzidos discursivamente. Tudo é construído nas relações.

Com o uso de celulares como instrumento de comunicação indispensável, a configuração das relações mudou drasticamente. A nova construção social se baseia em relações sem grandes intimidades pessoalmente, contudo, virtualmente as pessoas se relacionam de maneira ilimitada. É um contexto paradoxal, ao mesmo tempo em que não há um contato com o outro, há um contato com o mundo – consequentemente o outro.

Diante desse olhar teórico, vemos como nossa sociedade passou e vem passando por diversas mudanças, vivemos hoje uma nova era, marcada por inovações tecnológicas, inovações em celulares, computadores, acesso a informação com rapidez tudo para trazer maior facilidade e praticidade para a vida do novo homem, o homem da tecnologia, coisas que seus antepassados nem sonhavam em possuir. Esse homem é marcado por assumir várias representações dentro de uma mesma sociedade, é pai, marido, irmão, trabalhador e consumidor, um indivíduo sobrecarregado pelo estresse e cobranças do dia-a-dia e que muitas vezes não consegue estar presente em todos os lugares. E que possui a necessidade de se comunicar com maior frequência e agilidade com os outros.

Não é necessário procurar muito para que se possa ter a noção da importância que o celular passou a ter na vida desses indivíduos. Atualmente o telefone celular deixou de ser acessório para se transformar em objeto insubstituível de vários indivíduos. Pessoas conectadas uma com as outras em tempo integral, mandando mensagens (SMSs), atendendo chamadas, fazendo compras, realizando reuniões, dentre todas as outras atividades que antes seria necessário à presença física do mesmo.

Os aparelhos celulares passaram a servir de ferramenta para uma nova geração, uma geração que está sempre conectada e numa explosão de troca de informações. Jovens e adultos que não podem esperar o tempo passar, que precisam ser ágeis, rápidos para estar sempre à frente em determinado assunto, que não perdem uma piada entre amigos, que participam em tempo real de notícias e da rede.

Vemos a importância que estes aparelhos passaram a ter para essas pessoas, chega-se a um ponto em que esses indivíduos que tem a grande necessidade de estar em constante comunicação com o outro, começa a perder o significado de “estar presente”, observa-se essas pessoas muitas vezes sentadas em grupo numa mesa de um restaurante, todos com os celulares ligados, postando algo, enviando alguma SMS, ou tirando fotos para registrar momentos muitas vezes raros.

Pessoas extremamente tímidas passam a usar os celulares como ferramenta para conseguir interações sociais, outros nem se quer conseguem realizar tarefas simples como se lembrar de um jantar se não tiver um aviso em seu aparelho.

Como consequência dessa inovação, observamos uma perda de contato físico entre seres humanos. Com toda essa facilidade e qualidade na comunicação virtual algumas pessoas passam a não ter mais a necessidade de estarem juntas, de se tocarem, de se olharem e o mais importante de trocarem experiências. Tudo passa a ser realizado virtualmente; sejam por vídeos, mensagens, telefonemas, redes sociais, etc.

Exemplificando a importância em relação ao celular na nossa atualidade, utilizamos o filme Textuality, intitulado no Brasil como Mensagens de Amor, que conta a história de duas pessoas acostumadas a vivenciar seus relacionamentos por mensagens de celular. Demonstrando de forma fiel a dependência deste acessório digital nas relações e na própria vida do indivíduo.

Na atualidade as relações tornaram-se menos definidas ao longo do tempo e hoje é difícil até saber se você realmente está em uma. Os relacionamentos indefinidos são praticamente a tendência do momento. Hoje, a lógica da sedução impera e como resultado muitos casais caem em uma nuvem cinzenta que se assemelha a um tipo de relacionamento, mas que não tem a exclusividade e respeito que um romance real exige. E esta situação pode se adequar melhor aos homens do que às mulheres. "É importante para as mulheres terem uma posição definida", diz Marshall. "Elas são mais ligadas a relacionamentos por natureza e precisam saber o seu papel com um homem para se sentirem confortáveis."

Como vivemos uma era do “Fast-People”, tudo gira em torno do que é rápido, ou seja, demorou você já se tornou obsoleto, ultrapassado. Com constantes modificações, de estilo, de relações, a tecnologia aplicada não poderia ficar para trás.

Aproveitando uma demanda que possui paixão pelo novo e que faz crescer nos indivíduos hiper modernos, a urgência do ter para “ser”.

A grande questão aqui é justamente esta; a preocupação que se tem com o excesso da intimidade entre as pessoas e os celulares.

Segundo o psicólogo responsável pelo Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso do Hospital das Clínicas de São Paulo, esse vício pelos aparelhos celulares pode virar patológico, ou seja, uma doença. Pois, nesse mundo em que todos são tão cobrados, o celular representa um canal para alívio de tensões e, com todo o aparato tecnológico que os celulares de hoje em dia possuem – rádio, câmera, internet, TV, GPS e tudo mais – eles oferecem uma sensação de que podemos ter controle de tudo e resolver qualquer problema e até carências afetivas através desse único aparelho.

Estudos veem mostrar que para acompanhar essa nova era tecnológica de tantas praticidades surge uma nova fobia, chamada de Nomofobia. A palavra vem do inglês “no mobile phobia” que, literalmente, significa o medo de ficar sem celular.

A chamada nomofobia vem dar nome a sensação de angústia que surge quando um determinado indivíduo se sente impossibilitado de se comunicar ou se vê incomunicável estando em algum lugar sem seu aparelho celular. É válido ressaltar que alguns pesquisadores não consideram a nomofobia como um transtorno de ansiedade e sim como algo relacionado à dependência, acreditam que as pessoas que sofrem deste “mal” são sensíveis a qualquer outro tipo de dependência.

“Penso que a nomofobia não existe como doença, é uma invenção que não faz sentido. Uma fobia é algo que desperta medo em alguém e não o medo de ficar sem algo. Portanto, estamos falando de dependência e não de uma fobia.” (psicóloga clínica e psicoterapeuta Lídia Craveiro, site UniversoSmart).

Seja qual for à interpretação dada ao termo nomofobia, a questão é que para esses indivíduos “dependentes” que “sofrem uma forte angústia e medo de ficarem sem seus celulares”, não aceitam que são portadores deste tipo de transtorno. Muitos colocam a culpa no trabalho ou na necessidade de se comunicar com a família ou com amigos, no caso de emergências.

Para ter uma noção dessa questão no Brasil a empresa francesa de pesquisa de Ipsos publicou um estudo sobre o impacto do celular na vida cotidiana e mostrou como esse aparelho mudou a vida dos usuários. A empresa realizou mil entrevistas com pessoas de ambos os sexos, de todas as classes sociais e com mais de 16 anos de idade, em 70 cidades e nove regiões metropolitanas. Os resultados revelaram que 18% dos brasileiros admitiram ter dependência dos seus aparelhos.

“Com essa nova liberdade, novas regras de coexistência tem influenciado e ditado pela comunicação e interação entre os indivíduos. Esta mobilidade leva a sensação de liberdade e a uma percepção de que podemos ter o mundo em nossas mãos. Essa sensação pode gerar um comportamento ambíguo de poder e medo” (pesquisadora Anna Lucia Spear King, site UOL.)


Independentemente das consequências do uso abusivo dos celulares ou da tecnologia, não se pode negar que o homem é um ser de comunicação e que sua sobrevivência depende substancialmente das inter-relações. A partir do momento em que o uso dos celulares começar a interferir no cotidiano das pessoas, causando estress, ansiedade ou angústia, estamos diante de uma situação de uso inadequado da tecnologia e possivelmente de um processo de nomofobia.



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