sábado, 19 de janeiro de 2013

ÉTICA E PSICOLOGIA ESCOLAR

Por André Macedo




A palavra ética vem do grego ethos, que significa segundo Sandra Francesca Conte de Almeida (2000, p. 183), costume, jeito de ser, hábitos, o mesmo significado que moral, palavra que vem do vocábulo mores. Sandra Francesca Conte de Almeida (2000, p. 183) ainda cita Vázquez (1975, p. 22) que define moral como sendo “um conjunto de normas e regras destinadas a regular as relações do indivíduo numa comunidade social dada”. E ainda no mesmo texto em outra citação de Vázquez (1975, p. 24) diz que a ética “não pode ser reduzida a um conjunto de normas e prescrições; sua missão é explicar a moral efetiva (...) A ética pode servir para fundamentar uma moral sem ser em si mesma normativa ou perceptiva”. Então ética vai servir como uma reflexão a respeito do que é moral e do que não é moral.

A ética deve ser levada em conta em todos os campos de atuação de qualquer profissão, principalmente em profissões de saúde e profissões que lidam com seres humanos, entre elas a psicologia escolar, que lida principalmente com crianças e jovens.

A psicologia escolar é um campo novo na área da psicologia aplicada. Ela se preocupa em ajudar e melhorar as relações do ambiente escolar (professor-aluno, escola-aluno, professor-escola, etc.) e se ocupa da descrição e do estudo dos fatos e fenômenos escolares. Para M. Helena Novaes (1982, p. 19) “o psicólogo deve partir do principio de que educar um individuo pressupõe transformá-lo e ajuda-lo a desenvolver suas potencialidades”. Fazendo isso o resultado virá em beneficio para a sociedade, caso não sejam tratadas as perturbações escolares, haverá uma evolução negativa que mais tarde precisará ser sanada, gastando assim mais recursos da comunidade.

Apesar dessa preocupação em ajudar e melhorar as relações do ambiente escolar, o modo como era aplicada a psicologia escolar não condiz com o que M. Helena Novaes diz ser o principio do  psicólogo escolar. Segundo Maria Regina Maluf (2006) a respeito de uma pesquisa aplicada por Witter e colaboradores (1992), ficou evidenciado que “um grade número de publicações se limitavam a estudar os aspectos clínicos e psicométricos da atividade dos psicólogos”. Verificou-se, ainda segundo Maria Regina Maluf, nos textos analisados a insatisfação a respeito dessa atuação predominante e a respeito da formação que os cursos de psicologia ofereciam aos futuros profissionais. Os estudantes nos estágios de psicologia escolar acabavam sendo colocados em situação de reproduzir as práticas limitadoras criticadas em nível teórico na literatura internacional e nacional: a intervenção clinica remediativa e as avaliações psicométricas descontextualizadas.

Maria Regina Maluf (2006, p. 137) faz uma citação que diz que “o discurso da critica permitiu o reconhecimento da prática de psicólogos escolares mal orientados, vitimas de um ensino apoiado em concepções hoje reconhecidamente equivocadas e claramente inapropriadas para a nossa realidade social” (Caetano, 1992; Collares e Moysés 1996, Machado, 1994; Patto, 1990; Ragonesi, 1997; Salazar, 1997).

As práticas utilizadas nas escolas que abusavam da psicometria acabaram gerando diagnósticos e prognósticos mal fundamentados e transformaram os indivíduos em problemas. Os problemas são tratados sem levar em consideração os contextos socioculturais que os produziram.

Segundo Carlos Arturo Molina-Loza (2000, p. 46), “para compreendermos bem um problema devemos ir além dos limites que esse mesmo problema aparenta impor-nos, situando-o no seu contexto”. Deixando claro que o individuo está inserido em um contexto, contexto esse que pode ter gerado um problema que se tratado apenas no individuo pode gerar consequências para o próprio individuo, então deve-se tratar todo o sistema envolvido. Há indicações segundo Maria Regina Maluf (2006, p. 137) de que o tratamento de fenômenos psicológicos dinâmicos e complexos à revelia dos contextos sócias que os produziram ainda predomina enquanto ensino e prática quando se trata de caracterizar a área de formação e atuação do psicólogo escolar no Brasil.

Mas mesmo sendo a prática de um psicólogo escolar baseada em ajudar e melhorar as relações do ambiente escolar, levando em consideração o contexto de cada problema, o profissional pode encontrar dificuldade devido a ele ser um empregado da escola e, portanto deve acatar ordens da diretoria. Isso pode dificultar sua atuação na melhoria do ambiente escolar porque a escola só vai levar em considerações sugestões do seu interesse, que nem sempre estão focados na melhoria da educação e na ajuda ao aluno, e sim focado no ganho de capital.

Mas os problemas da psicologia escolar não param por ai, às vezes a escola não tem psicólogo, e quem faz o trabalho do psicólogo, inclusive aplicando testes exclusivos de uso dos psicólogos são os psicopedagogos. Esses profissionais têm outro campo de atuação dentro da escola, mas elas acabam deixando de contratar psicólogos e suprem, de certa forma, essa falta fazendo com que os seus psicopedagogos atuem na área correspondente aos profissionais da psicologia.

A ética é muito importante para o crescimento e fortalecimento da psicologia escolar, assim como as criticas a atuação dos primeiros profissionais dessa área fizeram com que a psicologia escolar se desenvolvesse, as criticas apontadas agora farão com que ela se desenvolva mais. O questionamento ético faz com que os indivíduos envolvidos com a escola (professores, alunos, direção, pais dos alunos) sejam tratados de forma mais humana, sem rótulos como, por exemplo: aluno-problema, aluno com déficit de atenção, professor ruim, etc.

A escola, assim como a família, é o principal meio de aprender o convívio social. Por isso o papel do psicólogo escolar é tão importante, os problemas decorrentes de uma fraca atenção prestada aos alunos podem resultar na formação de indivíduos inseguros, tímidos e talvez até com problemas psicológicos mais graves, prejudicando não só o individuo como também a sociedade.
Problemas éticos vão existir, mas o caminho para a resolução deles é a discussão aberta. Assim podemos se não chegar a uma psicologia escolar totalmente ética, chegar a uma psicologia que respeite ao máximo possível os alunos, professores, direção e pais de alunos sem desrespeitar a outros.


Referências Bibliográficas:

ALMEIDA, Sandra Francesca Conte de (Org.). Psicologia escolar: Ética e competências na formação e atuação profissional. 2. Ed. Editora Alínea, 2006, 194p.

NOVAES, Maria Helena. Psicologia escolar. 7.  Ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes Ltda, 1982, 357p.

SUKIENNNIK, Paulo Berél (Org.). O aluno problema: Transtornos emocionais de crianças e adolescentes. 2. Ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2000, 478 p.



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