terça-feira, 29 de janeiro de 2013

ENTRE A ESTRELA E A SERPENTE

A MULHER PARA A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL
Por Alianna Cardoso 
Com contribuição de Rosangela Gonçalves da Rocha


RESUMO


O presente estudo faz uma abordagem da visão que existe acerca da mulher, intentando compreender, por meio de questionamentos, a negativação do feminino, dando à mulher uma imagem de sedutora, culpada das mazelas da sociedade. Aqui intui-se compreender essa negativação, fazendo um traçado histórico.


INTRODUÇÃO

As bases ideológicas que situam a mulher como inferior e submissa vêm de longe, desde os mitos da criação. 

O presente estudo elabora um esboço acerca da visão da mulher para a civilização ocidental, fazendo um traçado histórico de como foi originada a idéia da criação da mulher.

Assim, perpassa pelos mitos de Pandora, para a mitologia grega, e Eva, para a sociedade cristã.

Tais identificações negativas relativas às mulheres não se limitaram aos mitos da criação e foram disseminadas pela civilização, inserindo a idéia pejorativa de que a mulher é inferior, e é, sem dúvida, a culpada das grandes mazelas da sociedade.


O MITO DE PANDORA

Prometeu, deus cujo nome em grego significa “aquele que vê o futuro”, doou aos homens o fogo e as técnicas para acendê-lo e mantê-lo. Zeus, o soberano dos deuses,se enfureceu com esse ato, porque o segredo do fogo deveria ser mantido entre os deuses.

Por isso, ordenou a Hefesto, deus do fogo e das habilidades técnicas, que criasse uma mulher que fosse perfeita, e que apresentasse à assembléia dos deuses, Atena, a deusa da sabedoria e da guerra, vestiu essa mulher com uma roupa branquíssima e adornou-lhe a cabeça com uma guirlanda de flores, montada sobre uma coroa de ouro. Hefesto a conduziu pessoalmente aos deuses, e todos ficaram admirados; cada um lhe deu um dom particular. Atena lhe ensinou às artes que convêm ao sexo, como a arte de tecer. 

Afrodite lhe deu o encanto, que despertaria o desejo dos homens. As Cárites, deusas da beleza, e a deusa da persuasão ornaram seu pescoço como colares de ouro. Hermes, o mensageiro dos deuses, lhe concedeu a capacidade de falar, juntamente com a arte de seduzir os corações por meio de discursos insinuantes. Depois que todos os deuses lhe deram seus presentes, ela recebeu o nome de Pandora, que em grego que dizer “todos os dons”.

Finalmente, Zeus lhe entregou uma caixa bem fechada, e ordenou que ela a levasse como presente a Prometeu. Entretanto, ele não quis receber nem Pandora, nem a caixa, e recomendou a seu irmão, Epitemeu, que também não aceitasse nada vindo de Zeus. Epitemeu, cujo nome significa “aquele que reflete tarde demais”, ficou encantado com a beleza de Pandora e a tomou como esposa.

A caixa de Pandora foi então aberta e de lá escaparam a Senilidade, a Insanidade, a Doença, a Inveja, a Paixão, o Vício, a Praga, a Fome e todos os outros males, que se espalharam pelo mundo e tornaram miserável a existência dos homens a partir de então.

Epitemeu tentou fechá-la, mas só restou dentro a Esperança, uma criatura alada que estava prestes a voar, mas que ficou aprisionada na caixa.

Esse mito, como muitos outros, tem versões diferentes. Numa delas, por exemplo, a Esperança chega a escapar da caixa, e é graças a ela que os homens conseguem enfrentar todos os males e não desistem de viver. Além disso, nessa outra narrativa, o presente de Hermesnão é a capacidade de deduzir, mas sim a falsidade. Fala-se, ainda que não era uma caixa o que Pandora levava, mas um vazo. Essas variações, aliás, mostra como os mitos sofriam modificações á medida que eram narrados.

Na Grécia antiga, em suma, é importante ressaltar essa “familiriadade” das pessoas com os deuses. Os mitos formavam, para os gregos daquele tempo, um sistema complexo, que explicava praticamente todos os elementos de sua cultura. Eles estavam organizados num conjunto coerente, lógicos; em termos amplos, era uma maneira de ver o mundo, de explicá-lo e compreendê-lo.


A IDÉIA DE EVA

Segundo a Bíblia e o Alcorão, Adão e Eva foram o primeiro casal criado por Deus. Adão ( do hebraico relacionado adamá, solo vermelho ou do barro vermelho, quanto adom,”vermelho”, e dam “sangue) é considerado dentro da tradiçao judaico –cristã e islâmica como o primeiro ser humano, uma nova espécie criada diretamente por Deus. 

Teria sido criado a partir da terra à imagem e semelhança de Deus para o domínio sobre a criação terrestre. Tal como Adão, Eva também foi criada diretamente por Deus da costela de Adão. Eva deriva do hebraico hav.váh, que significa “vivente”, e teria sido dado pelo próprio Adão. No grego, é vertido por zoé, que significa “vida” e não bios. 

Nisto estará implícito a ideia da maternidade. O papel atribuido à mulher era de uma ajudadora e complemento do homem , e a expressão “têm de tornar-se uma só carne” , denota o tipo de  vínculo que deveria existir entre marido e mulher( Génesis 2:18, 20-24)

Eva, e mais tarde Adão, teriam comido o fruto proibido da árvore da ciência( do conhecimento do bem e do mal) criada por Deus, e após o ocorrido, de acordo com a tradição cristã toda a humanidade ficou privada da perfeição e da perspectiva de vida infindável. Surgiria para os cristão aqui a noção de pecado herdado- tendência inata de pecar- e a necessidade de um resgate da humanidade condenada à morte. Após comerem do fruto proibido, Adão e Eva tiveram ciência de que andavam nus e, por isso, esconderam-se ao notar a presença de Deus no jardim do Éden. Deus os expulsou do jardim , e os deu roupas de pele animal.


MATERIAIS E MÉTODOS

Para a elaboração do presente estudo, que é fruto de uma pesquisa sobre gênero, vinculada ao Núcleo de Estudos sobre Gênero, Raça e Alteridade – NEGRA, foi realizada uma comparação entre os mitos da criação da mulher suscitados no mundo ocidental.

Foram analisadas passagens da Bíblia, bem como os livros de mitologia grega.
E ainda, foram realizadas algumas leituras de materiais que abordam o tema.


RESULTADOS E DISCUSSÕES

ENTRE A ESTRELA E A SERPENTE : PANDORA E EVA

ANÁLISE COMPARATIVA

As bases ideológicas que situam a mulher como inferior, submissa , fonte de pecado e de sedução,ardilosa e persuasiva  vêm de muito longe, desde os mitos da criação: Mito de Pandora (greco) e de Eva na perspectiva cristã. Vejamos os fios que as conduzem para o foco da condição da mulher em determinado contexto histórico seja no mundo dos gregos ou no mundo dos cristãos e porque não no mundo atual. As palavras flui em e imprimem na mente humana e se reverberam por todos espaços(na pintura, na música, na poesia, nos contos,crônicas, e outros).

Na mitologia grega o mito de Pandora já apresentava uma identidade negativa para a mulher. Pandora primeira mulher, criada como instrumento de vingança de Zeus contra Prometeu que ensinou os homens o segredo do fogo. O fogo era algo sagrado para os Deuses,pois, só eles sabiam fazer. Quando Prometeu ensina os homens a fazer fogo provoca uma teia de consequências terríveis como narra o mito de Pandora.

Na ânsia de vingança e de  castigo Zeus ordena a Hefesto que criasse uma mulher perfeita, como ele era artesão faz a mulher de barro dando-lhe vida, sendo ela cortejada , admirada , dotada de dons que os deuses iria entregando-a afinal  era simbolo de vingança e castigo. Para vingar era preciso criar essa imagem de uma mulher: sedutora,que soubesse  tecer, dotada de encantos,da arte de persuadir. 

Finalmente foi um homem Hefesto lhe concedeu a capacidade de falar e de seduzir os corações por meio de discursos insinuantes seu nome é Pandora. 

A imagem criada pelo mito é de uma mulher voluvel, dissimulada, persuasiva. Não satisfeito ainda Zeus lhe entrega uma caixa; a caixa aqui simboliza( a maça o fruto do pecado ) .Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, enfatiza uma visão politeísta, até mais antiga que as crenças dos hebreus. Na versão pagã, essa mulher abre uma pequena caixa e liberta os males do mundo. A figura feminina é responsável mais uma vez, e através destes dogmas iniciais que as sociedades gregas desenvolveram seus códigos de valores na superioridade de sexo. As virtudes ficaram no fundo da valise.
Eva é feita de uma costela de Adão, suprindo, porém, sua necessidade de homem, que não deve ficar sozinho. No entanto, ela simboliza a tentação, o pecado da carne , o desejo de sexo, responsável pela perda da paz e da tranqüilidade do homem representadas pela perda do paraíso terrestre.

Assim como Zeus, Deus demonstra sua fúria quanto a desobediência do homem e aponta a culpabilidade das desgraças do mundo a mulher. A origem do mal, do pecado Pandora e Eva são as responsáveis. Portanto, Deus ao imputar a Eva a responsabilidade pelo mal no mundo a maldiçoa desejando sofrimento na gravidez e dores no parto e finalmente a dominação pelo homem, a submissão eterna. O corpo de Pandora como de Eva são visto como objeto de sedução, de pecado.

Temos aqui, dois símbolos criados pelo imaginário do Homem: fogo e a árvore do conhecimento / a caixa e a maçã como objetos sagrados que mudaram o rumo da humanidade pelas atitudes de desobediência de Pandora e Eva.


Fogo ( luz, vida); desprendimento dos Deuses
Árvore do conhecimento ( fruto proibido – o conhecimento)
Caixa de Pandora ( a realidade do mundo)
Fruto proibido( maçã) – a desalienação


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dito isso, a construção impressa no imaginário coletivo da humanidade de forma negativa a respeito das mulheres não se limitaram somente aos mitos da criação outros pensadores fizeram questão de situá-las num plano de inferioridade. As práticas da tradição judaicas – cristão em relação à mulher afetaram as atitudes contemporâneas, bem como a própria visão da mulher sobre si mesma. 

Entretanto,a partir de uma visão religiosa que as identificam como subproduto do homem, aquela que foi feita da costela de Adão, a que caiu na tentação e expulsando o homem do paraíso, a que levou o pecado original como herança aos seus descendentes e a outra resultado de vingança encontram-se agora frente a frente Pandora e Eva, desobedientes, pecadoras e culpadas. 

Tem-se, desta feita, que a imagem negativa vinculada à mulher advém das histórias da origem da humanidade, portanto, estão impregnadas há milênios da civilização, dando à mulher uma significação de mulheres culpadas, portanto, não merecedoras do mesmo espaço dado ao homem.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BULFINCH. O Livro de Ouro da Mitologia. Ed. Martin Claret

Biblia Sagrada – Edição Pastoral

CHALITA, Gabriel. Vivendo a Filosofia. 2ª ed. Atual Editora.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 2ªed.  Companhia da Letras .

POUZADOUX. Claude. Contos e Lendas da Mitologia Grega. Cia Das Letras.





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