segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A TRAMA DA FÉ NA CLÍNICA PSICANALÍTICA

Por Matheus Henrique




Como se percebe todo sistema de crenças se levantou e se formulou ao longo da história sempre se pautou por dimensionar o dualismo de seus credos. O dualismo, por sua vez, procurou se valer dos princípios de glorificação ao “ser supremo” objeto “Deus”, e a condição pilar do desejo: A fé é acreditar no atendimento das solicitações a um ser supremo e exaltá-lo pela “certeza” que será atendido.

A prática dual da credulidade se ergueu graças a características sociais e antropológicas de cada povo, de forma que, nunca se mudaria a rede pensante estrutural do credo, levando o sujeito a nascer e morrer preso a uma trama de fé. 

De posse deste “carma dual” o sujeito se circunscreve na dimensão vivencial. Passa a se valer dos conceitos e regras do credo em questão para determinar a sua forma de conduta e ação. A credulidade, em primeira ótica, modulou o sujeito à modulação do pensamento histórico nele atrelado.  A fé atrelada à credulidade social vale mais como um plágio do que a verdadeira expressão de livre crença (Dolto, 2010). Freud ainda em “o futuro de uma ilusão” retoma a esta crueldade do   “crente” onde esta vivência seja direcionada pelo retorno da neurose:

“Assim, tenho de contradizê-lo quando persegue argumentando que os homens são completamente incapazes de passar sem a consolação da ilusão religiosa, que, sem ela, não poderiam suportar as dificuldades da vida e as crueldades da realidade. Isso é certamente verdade quanto aos homens em que se instilou o doce (ou agridoce) veneno desde a infância” (Freud 1927, p. 57)


A partir desta construção subjetiva e ativa do ser humano erigiu-se, preponderantemente, a civilização ocidental. Os escritos bíblicos tem sido a mola motriz do impulso dual ao longo dos anos. A fixação dos ensinamentos cristãos levou o homem a formar pensamentos padrões de estrutura consignada com a estrutura linguística e profética nele contidos. A modulação do pensamento creditório é moldada na fôrma da dialética cristã. Para  Françoise Dolto eles são à base da civilização moderna (Dolto, 2010).


A profissão de fé sempre passa por um fundamento. As bases da fé ocidental foram lançadas por “Jesus Cristo”, e partir de sua ressurreição  criou-se a chamada doutrina cristã. Todo fundamento erigido para sustentação da fé passa pelo crivo de alguém. A partir do momento em que o homem toma a dianteira de escrever as bases doutrinárias que regerão a sua condução começa a supressão do seu desejo e o nascimento de um “mal estar na credulidade”. O homem cria para si parâmetros que afetarão diretamente sua estrutura psíquica  Como bem explanou NIETZSCHE  o homem matou Deus e criou com isso o surgimento do   “super-homem”, na concepção de que este mesmo homem precisa constantemente ser superado (Nietzsche, 1885). 

Outro fator de extensão da credulidade é o principio de não ver para crer. Para ser determinado como fé, é preciso que o objeto gerador da estrutura dual não exista em condições materiais concebíveis. Pode até ter um moderador de estruturação da teia do desejo, onde eu possa direcionar o foco pulsional a fim de ser por ele mediado. 

A fé puramente dita precisa se apoiar no invisível e incognoscível. O homem alienou-se para crer que a busca por aquilo que não se vê é menos doloroso que viver na realidade da resposta imediata. Com a constituição do invisível, pode-se sempre refugiar na espera da “vontade de deus”. Assim, o homem se exime da responsabilidade. Isso leva a neurose, pois, o sujeito para fugir das consequências de seus atos, bastando apenas o perdão do ser supremo, não se satisfaz e consente a viver na gama de desejos que se permite formar pela massificação do prazer coletivo. 

Dolto, 2010 afirma que o “gerador da crença ocidental não pregou uma moral, incentivou o desejo”. O homem por sua vez pregou o desejo e incentivou a moral. Desejo de ser espiritualmente superior; moral regida pelos princípios que nortearão esta conquista.

 Jaques Lacan, na determinação da estrutura do desejo, em condição analítica, aqui levando para uma base dual, busca encontrar o   “ponto de estofo” que sustenta o desejo. Na fala inicial do significante nunca é demonstrado de fato, o significado. Esta estruturação leva-nos a condição de que a fé é o destino da pulsão sublimada e a parede bloqueadora para que o recalque emerja. O sujeito é recalcado no significante e vive na alienação neurótica do significado.

Na condição analítica, sem a presença da credulidade, o sujeito articula pelo princípio do significante fazendo com que o analista o coloque em trabalho psíquico para que se apareça o verdadeiro significado da neurose. A estruturação do desejo passa pelo colóquio linguístico articulador do sujeito alienado. A neurose busca exatamente isso: alienar o sujeito da condição real (Freud, 1911). O desejo é estruturado na condição sujeito/significado. Compreender a religião vista pela ótica clínica da psicanalise é utilizar uma epistemologia não pragmática e colocar a psicanalise no lugar efetivamente de analise à clínica do desejo singular, e não coletivo. Demonstra Sérgio Franco: 

“Cabe a psicanálise uma tarefa legitima e necessária de apontar os componentes propriamente neuróticos da religião. As relações da religião com o desejo e com o ódio precisam ser decifradas para além de toda dissimulação. É preciso que fique claro também que a sua tarefa é clinica, ou seja, a psicanálise da religião se limita a investigar as representações religiosas - as práticas, os investimentos, as renúncias a ela associada. Não deve se pronunciar sobre o estatuto propriamente epistemológico da religião, ainda que cada teórico individualmente possa fazer isto. Só assim poderá fugir dos riscos de se tornar uma visão filosófica da realidade.” Sérgio C. Franco (“apud” Karen Kepler 2003, p. 68 – 9).

Já na presença da condição dual este princípio de interpretação do inconsciente se modifica. Aqui já não existe o conceito de significante a ser desenrolado, mais o significado da base estruturadora da condição dual. O desejo do sujeito está apoiado no desejo de Deus. Como o desejo de Deus não pode ser desenvolvido, por ser ele um ser inalcançável, o desejo do sujeito firma-se constantemente neste inatingível psíquico. 

Na neurose, o sujeito por não conseguir lidar com a realidade, entra em conflito psíquico e perde a condição real de seus atos. Na neurose de base credual o sujeito se apoia na vontade de Deus para suprimir ou redimir de seus desejos. Assim o individuo que peca, precisa apenas demostrar moralmente para a coletividade o arrependimento, mais o fogo do desejo continua ardendo no ego. A grande questão é a moralidade supressora do desejo que se tem que conviver: todas as vezes que o desejo vencer a censura e permitir o retorno do recalcado, o sujeito precisará imediatamente se restabelecer diante da condição de fé, antes que seja punido pelo ser supremo.

O sujeito passa, com isso, a conviver com duas censuras: a psíquica  que os psicólogos chamamos de princípio da realidade, e a credual regida pelo castigo do ser supremo. O surgimento da condição geradora da neurose é inevitável.

A partir do momento em que o desejo se apoia no desejo de Deus a interpretação do inconsciente fica mais ardorosa. A instalação da transferência fica amarrada na condição egoica que seduz o analista, visto que o sujeito sempre falará em nome de alguém. Na concepção credual, o sofrimento em si, não basta, para estabelecimento da condição analítica, ele pode ser dimensionado pelo neurótico como uma provação que o ser supremo o está submetendo, afim de que ele alcance um bem maior. Adapta-se a uma realidade, que na verdade, enconde o Real. 

A fé na verdade é um desejo (Dolto, 2010). Desejo este articulado pela tangente da culpa: recalca o significado e suprime os significantes, apoiando-se na expectativa do tempo teístico e sobretudo apoiando-se na, ja citada, ilusão como outra opção formadora do desejo. 

Outro ponto de sustentação da neurose credual são as diferentes interpretações do humano aos escritos humanos “psicografados” por seres “superiores”. Escrever leis determinantes de uma moral apoiados na divindade da inspiração ecoa como inquestionáveis, de certa forma uma via do deslocamento. É a instalação do   “sujeito-suposto-saber” em esfera teística, ou ainda a instauração de um dogma, incontestável e imutável ao humano. Aceita-se os diversos alvos deste desejo, por  se tratar de um método relativo e filosófico como a religião, todavia Freud radicalmente afirmara “A ciência não é uma ilusão. Ilusão seria acreditar que o que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar” ( Freud 1927, p. 63). Neste sentido a busca pela ilusão é a forma pela qual o ser humano, como já visto, norteia a crença em um futuro. A neurose é a válvula iniciadora e mantenedora deste processo, como aponta Sérgio Franco: 


A fundamentação da fé precisa de três pilares: deus, escritos e intérprete dos escritos. Alguém que detenha maior vigor espiritual que o sujeito, que não cede às pressões do desejo, provando assim que é possível erguer-se na modulação concebida. Esta condição leva a manutenção da neurose do indivíduo, pois agora existe o suposto saber teístico sendo interpretado pelo suposto saber mediúnico, na direção do qual o neurótico credual sempre se deslocará. 

Esta teia leva o sujeito ao aprisionamento psíquico  ao fanatismo dogmático, a neurose credual, a inanição do pensamento, ao   “cárcere do dogma”. O filósofo francês   François Marie Arouet, o Voltaire (1694-1778), lançando luz às cadeias de trevas da fé medieval, afirma que: “o homem que recebe sua religião sem exame não difere de um boi que atrelam” (O túmulo do Fanatismo, Martins Fontes, 2005).  A fé é a espinha dorsal sustentadora de qualquer sociedade, mais o fanatismo é o verme que a destrói.

A busca constante do sujeito por esta palavra superior visa tampar a falta constante gerada pela angústia. O ego sempre buscará uma forma de preencher esta falta, sustentada pelo desejo. O desejo é a vértebra primaz que sustenta a neurose credual contemplada pela ilusão do ato. O individuo busca apoiar sua angústia na fé, na palavra mediúnica, no suporte teístico e qualquer objeto que seja passível de deposição da crença

A angústia em que convive o sujeito é suprida pela expectativa da vida vindoura, o que vai ser melhor que a vida presente. Neste ínterim  o sujeito entra em “situação extática”. A situação extática se manifesta quando a alienação provocada pela neurose submete o sujeito a não só buscar apoio na condição de fé e na palavra mediúnica, como a querer viver as experiências transcendentais oferecidas. É a imersão só sujeito no êxtase  passando a viver em situação extática. Esta experiência muitas vezes é salientada como o prelúdio da vida vindoura, levando o individuo a focalizar ainda mais no Imaginário.

A partir deste estágio o sujeito não consegue mais abarcar no campo do Simbólico, vive no Imaginário, suprimi o Real, por medo da punição. É uma fonte constante de alimentação da neurose. 



FREUD,S. “Atos obsessivos e praticas religiosas” (1907) in: Edição Standart brasileira de obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. IX. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

________.  . “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental” (1911) in: Edição Standart brasileira de obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XII. Rio de Janeiro, Imago, 1996.


________.  “Atos obsessivos e praticas religiosas” (1907) in: Edição Standart brasileira de obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. IX. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

________. “O futuro de uma ilusão” (1927) in: Edição Standart brasileira de obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1996.
________. “ O retorno do toteísmo na infância” (1913) in: Edição Standart brasileira de obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XIII. Rio de Janeiro, Imago, 1996.
NIETZSCHE, Friedrich “Gaia Ciência”. (1882) Hemus SA – Curituba – Paraná 2002
DOLTO, françois – “A fé a luz da psicanálise” - Editora Verus, 2010.




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