terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A PERSPECTIVA DO RIZOMA

A PERSPECTIVA DO RIZOMA DELLEUZE-GUATARRIANO
Por Alianna Cardoso



Procurei conceitos, li e reli várias codificações traçadas na imanência de traduzir Deleuze e Guatarri nos seus mil platôs, vi várias teorias da verdade do rizoma e nenhuma me convenceu de ser real, decidi então boicotar a minha preguiça literária e finalmente percorri as páginas delongadas do conceito Deleuze-Guatarriano.

E, pasmem, Eureca!,eu entendi! Obviamente que tive que ler um “zilhão” de vezes, mas finalmente eu compreendi que, como dizia Renato Russo em oportunidades bem menos felizes, “ na verdade, a verdade não há...”, é isso...

O rizoma é essa falta de verdade anunciada e presumida, de fato, o rizoma é feito de direções móveis, sem início nem fim, mas apenas um meio, bem assim como parece ser o conceito botânico da coisa.

A noção de rizoma foi adotada baseada na estrutura de algumas plantas cujos brotos podem ramificar-se em qualquer ponto, assim como engrossar e transformar-se em um bulbo ou tubérculo; o rizoma da botânica, que tanto pode funcionar como raiz, talo ou ramo, independente de sua localização na figura da planta, serve para exemplificar um sistema onde não há raízes.
Analogicamente podemos subtrair desse conceito que, numa estrutura rizomática não existem considerações ou conjecturas mais fundamentais do que outras, na verdade, todas as proposições fazem parte de uma multiplicidade de idéias, conexas por vocação, sem hierarquia ou centralização.

O rizoma não é um sistema hierárquico, é "(...)uma rede maquínica de autômatos finitos a-centrados" (DELEUZE e GUATARRI, 1995: 28), e heterogênea.

Portanto, a estrutura do conhecimento não deriva de um conjunto de princípios primeiros, mas elabora-se simultaneamente numa multiplicidade de juízos,a partir de vários pontos, sob a influência de diferentes observações e conceitualizações.

Estamos falando de livros, um livro que não tem objeto nem sujeito, que é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidades muito diferentes, estamos falando de Mil Platôs.
Para o rizoma Deleuze-Guatarriano, o livro não é a representação do mundo, ele faz um rizoma com o mundo, estabelece relações com ele e nele.

O conceito trazido embutido nas linhas de Deleuze e Guatarri é justamente a metafórica percepção árvore do conhecimento e de que este advém de uma sequência lógica. Essa metáfora das ramificações arborescentes nos ajuda a entender uma espécie de programação seqüencial de conhecimento, nossa vida acaba ficando recheada de relações árvore com o mundo exterior, onde a hierarquia é muito bem representada pela necessidade do crescimento progressivo da árvore, primeiro a raiz, e só depois o tronco, os galhos e as folhas...

Os Mil Platôs nos trazem uma possibilidade completamente nova de se compreender o conhecimento e todas as linhas construídas em função dele. Delleuze e Guatarri nos apresentam o rizomático modo de saber, metaforizando o esquema rizoma botânico com a metodologia adotada pelas nossas ciências em demonstrar, repassar e usufruir do conhecimento.

Até nossas dedicações aos estudos das noções de sociedade se transformaram em dados aglomerados em currículos árvore.


Um rizoma, em contraposição, leva à libertação do pensamento. Na perspectiva do rizoma, o trabalho do leitor de um conceito rizomático é tecer essa rede de significados, atribuir sentidos, buscar relações, abrir novas entradas nesses mil platôs, trazer para o presente, para o momento da leitura as novas possibilidades de reflexão, é ter a liberdade de escolher que ordem seguir, ou então, nem mesmo seguir ordem alguma.


“Qualquer ponto de um rizoma pode estar conectado a qualquer outro, não existe um centro pré-determinado. Os campos de saberes não possuem uma hierarquia, uma centralização curricular. Apresentam-se como redes de conhecimentos. O rizoma rege-se pela heterogeneidade. O rizoma é sempre multiplicidade que não pode ser reduzida à unidade “Uma multiplicidade não tem nem sujeito nem objeto, mas somente grandezas (...)” (ib.p.16) 


Deleuze desenvolve uma concepção inteiramente diferente das idéias e conceitos, introduzindo a noção de multiplicidade e considera que:

"A multiplicidade não deve designar uma combinação de múltiplo e uno, mas, pelo contrário, uma organização própria do múltiplo como tal, que de modo nenhum tem necessidade da unidade para formar um sistema." (ib.p.33)

Sustenta, sobretudo, que o conhecimento não advém de conceitos introduzidos seguindo uma sequência lógica, na verdade, os conceitos é que vão surgindo de várias percepções simultâneas, com diferentes pontos de vista. E ainda, audaciosamente, propõe o desafio de compreender o conceito rizomático como sendo a metodologia ideal para a libertação do pensamento.

Segundo a idéia de rizoma, não existem unidades, mas dimensões, ou antes, direçõesmovediças. Não existe começo, tampouco fim, “(...) O rizoma procede por variação, expansão,conquista, captura, picada”. (DELEUZE, 1995, p. 32)

Na organização do saber, quase todas as disciplinas passam por esquemas de arborescência sem que tenhamos escolha, e passamos nossas vidas vivendo em função do crescimento da árvore, o que implica em dizer que existe um pensamento impregnado de bom funcionamento, onde somente ser árvore é bom. 

Essa metáfora pode explicar bem a relação que nós, como indivíduos temos com as estruturas de poder vigentes na sociedade, simplesmente ruminando as idéias repassadas, somos parte da árvore, e por todos os lados somos árvores.

Por outro lado, o rizoma, costurado em redes, onde a trama de nós não mais identifica o ser, o corpo, o autor. Somos um produto rizomático. Multidões dentro de todos nós. 



Referências bibliográficas

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Felix; Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia, vol. 1, Rio de Janeiro; Ed. 34, 1995




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