A PERSPECTIVA DO RIZOMA DELLEUZE-GUATARRIANO
Por Alianna Cardoso
Procurei conceitos, li e reli várias codificações traçadas na imanência
de traduzir Deleuze e Guatarri nos seus mil platôs, vi várias teorias da
verdade do rizoma e nenhuma me convenceu de ser real, decidi então boicotar a
minha preguiça literária e finalmente percorri as páginas delongadas do conceito
Deleuze-Guatarriano.
E, pasmem, Eureca!,eu entendi! Obviamente que tive que ler um “zilhão”
de vezes, mas finalmente eu compreendi que, como dizia Renato Russo em oportunidades
bem menos felizes, “ na verdade, a verdade não há...”, é isso...
O rizoma é essa falta de verdade anunciada e presumida, de fato, o
rizoma é feito de direções móveis, sem início nem fim, mas apenas um meio,
bem assim como parece ser o conceito botânico da coisa.
A noção de rizoma foi adotada baseada na estrutura de algumas plantas
cujos brotos podem ramificar-se em qualquer ponto, assim como engrossar e transformar-se
em um bulbo ou tubérculo; o rizoma da botânica, que tanto pode funcionar como
raiz, talo ou ramo, independente de sua localização na figura da planta, serve
para exemplificar um sistema onde não há raízes.
Analogicamente podemos subtrair desse conceito que, numa estrutura
rizomática não existem considerações ou conjecturas mais fundamentais do que
outras, na verdade, todas as proposições fazem parte de uma multiplicidade de
idéias, conexas por vocação, sem hierarquia ou centralização.
O rizoma não é um sistema
hierárquico, é "(...)uma rede maquínica de autômatos finitos
a-centrados" (DELEUZE e GUATARRI, 1995: 28), e heterogênea.
Portanto, a estrutura do conhecimento não deriva de um conjunto de
princípios primeiros, mas elabora-se simultaneamente numa multiplicidade de
juízos,a partir de vários pontos, sob a influência de diferentes observações e
conceitualizações.
Estamos
falando de livros, um livro que não tem objeto nem sujeito, que é feito de
matérias diferentemente formadas, de datas e velocidades muito diferentes,
estamos falando de Mil Platôs.
Para o
rizoma Deleuze-Guatarriano, o livro não é a representação do mundo, ele faz um
rizoma com o mundo, estabelece relações com ele e nele.
O
conceito trazido embutido nas linhas de Deleuze e Guatarri é justamente a
metafórica percepção árvore do conhecimento e de que este advém de uma sequência
lógica. Essa metáfora das ramificações
arborescentes nos ajuda a entender uma espécie de programação seqüencial de
conhecimento, nossa vida acaba ficando recheada de relações árvore com o mundo
exterior, onde a hierarquia é muito bem representada pela necessidade do
crescimento progressivo da árvore, primeiro a raiz, e só depois o tronco, os
galhos e as folhas...
Os Mil Platôs nos trazem uma possibilidade completamente nova de
se compreender o conhecimento e todas as linhas construídas em função dele. Delleuze
e Guatarri nos apresentam o rizomático modo de saber, metaforizando o esquema rizoma
botânico com a metodologia adotada pelas nossas ciências em demonstrar,
repassar e usufruir do conhecimento.
Até nossas dedicações aos estudos das noções de sociedade se
transformaram em dados aglomerados em currículos árvore.
Um rizoma, em contraposição, leva à libertação do pensamento. Na
perspectiva do rizoma, o trabalho do leitor de um conceito rizomático é tecer
essa rede de significados, atribuir sentidos, buscar relações, abrir
novas entradas nesses mil platôs,
trazer para o presente, para o momento da leitura as novas possibilidades de
reflexão, é ter a liberdade de escolher que ordem seguir, ou então, nem mesmo seguir
ordem alguma.
“Qualquer ponto de um rizoma pode estar conectado a
qualquer outro, não existe um centro pré-determinado. Os campos de saberes não
possuem uma hierarquia, uma centralização curricular. Apresentam-se como redes
de conhecimentos. O rizoma rege-se pela heterogeneidade. O rizoma é sempre
multiplicidade que não pode ser reduzida à unidade “Uma multiplicidade não tem
nem sujeito nem objeto, mas somente grandezas (...)” (ib.p.16)
Deleuze desenvolve uma concepção inteiramente diferente das idéias e conceitos, introduzindo a noção de multiplicidade e considera que:
"A
multiplicidade não deve designar uma combinação de múltiplo e uno, mas, pelo
contrário, uma organização própria do múltiplo como tal, que de modo nenhum tem
necessidade da unidade para formar um sistema." (ib.p.33)
Sustenta, sobretudo, que o conhecimento não advém de conceitos introduzidos seguindo uma sequência lógica, na verdade, os conceitos é que vão surgindo de várias percepções simultâneas, com diferentes pontos de vista. E ainda, audaciosamente, propõe o desafio de compreender o conceito rizomático como sendo a metodologia ideal para a libertação do pensamento.
Segundo a idéia de rizoma, não existem unidades, mas dimensões, ou antes, direçõesmovediças. Não existe começo, tampouco fim, “(...) O rizoma procede por variação, expansão,conquista, captura, picada”. (DELEUZE, 1995, p. 32)
Na organização do saber, quase todas as disciplinas passam por esquemas de arborescência sem que tenhamos escolha, e passamos nossas vidas vivendo em função do crescimento da árvore, o que implica em dizer que existe um pensamento impregnado de bom funcionamento, onde somente ser árvore é bom.
Essa metáfora pode explicar bem a relação que nós, como indivíduos temos com as estruturas de poder vigentes na sociedade, simplesmente ruminando as idéias repassadas, somos parte da árvore, e por todos os lados somos árvores.
Por outro lado, o rizoma, costurado em redes, onde a trama de nós não mais identifica o ser, o corpo, o autor. Somos um produto rizomático. Multidões dentro de todos nós.
Referências bibliográficas
DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Felix; Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia, vol. 1, Rio de Janeiro; Ed. 34, 1995




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