terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A DIFÍCIL ARTE DE COMEÇAR

Por Márcia Chicareli Costa*



Quando falamos da formação do psicólogo devemos, como é dito na graduação, despir-nos de nós mesmos e entrar em contato com o contexto complexo que isso possa representar. 

Na universidade, poucas chances são dadas para uma formação mais completa, com conteúdos mais profundos e o que acabamos por viver na formação são "pinceladas" do que é a psicologia. 


Falta-nos embasamento teórico, mas, pior que isso, falta-nos a prática. O bacharelado nos compromete com textos e teorias de tal forma que não temos tempo disponível para pesquisar e aprofundar nenhum contexto. Quando chegamos à clínica e então, sim, estamos de frente com a prática, nos deparamos com supervisores com visões diferentes daquela que se foi formando dentro de cada um de nós. Instala-se o conflito. "Vou pelo que sei, pelo que aprendi, pelo que formei de conhecimento, ou pelo supervisor que tem a prática apurada por sua vivência?" 



Se cada um de nós tivesse em mente que nossa formação como psicólogo começa quando escolhemos a profissão, os caminhos seriam encurtados e, ao chegar ao atendimento clínico, no quinto ano, já teríamos prestado muitos serviços sociais e voluntários para conhecer a realidade dos fatos na vida prática. Penso que, presos aos textos e às cobranças de trabalho em cada disciplina, saímos intoxicados pelas informações. Ao assumir o papel profissional e na hora da entrevista inicial com o primeiro paciente, eis que surge a grande ansiedade. Levando em conta que a ansiedade é o vazio entre o agora e o depois, manejar uma situação nova sem nunca antes tê-la vivido torna-se um grande risco para os dois lados, tanto para o paciente quanto para o psicoterapeuta em formação. 



Devemos mudar os conceitos em relação à formação do psicólogo e isso deverá partir de cada um de nós. O que a academia nos oferece é pouco para que tenhamos a segurança e o feeling necessários para escutar o outro, sentir "como se" sente o outro, saber o outro e, mais que tudo isso, saber-nos. 



Teríamos que ter a consciência de que, para uma boa formação, precisaríamos de uma boa e saudável terapia pessoal, que caminhasse lado a lado com o curso de graduação e se estendesse até quando fosse necessário. 



Sendo assim, quando o profissional ainda em formação chega à clínica-escola, ele teria uma base, um modelo, uma vivência interessante, e isso poderia ser um ponto de partida. 
Abaixo a arrogância. Devemos nos curvar ao aprendizado contínuo e saber que nossa formação é um processo que pode ser completado a partir de nós mesmos e do nosso envolvimento com a formação. 



Tendo claro o que se deseja, sabendo-se que cada atendimento será uma caixa de Pandora, cheio de surpresas, e que cada ser é único temos mais disponibilidade interna para ouvir o que o outro nos traz, com clareza e sem receios tolos adquiridos numa formação descompromissada. 



O compromisso deve surgir de cada pessoa que se propõe a compreender o outro ser humano. A responsabilidade é grande. Contam-nos como são as técnicas e em que abordagem cada uma delas se encaixa. Mas quem nos dá respaldo, após termos lido tantos textos e livros, feito tantos trabalhos e seminários? 



Vou buscar na Gestalt terapia um pouco mais de força para continuar escrevendo, afinal somos um todo e esse todo tem que ser visto. A relação que estabelecemos com o paciente, a forma de vincular a relação e o preparo, inclusive para as frustrações, são requisitos necessários e vêm também de uma boa formação pessoal. Se corpo e mente são um só e se somos seres biopsicossociais, não podemos perder de vista o todo no qual está inserido nosso paciente. Poder ouvi-lo e descortinar sua vivência efetivamente, conhecendo seus conflitos, deve acontecer além das paredes do setting terapêutico e ajudar a compreender de onde vem a queixa, para além de dentro dele. Se somos reflexo do que vivemos, ter um olhar amplo é cabível e lógico. Soltem as amarras! 



A cultura dita quem somos. Isso vem sendo observado pelos futuros profissionais? Ou continuamos caminhando pelas trevas do que não sabemos nem nomear? É importante deixar claro que o aprendizado deve ser constante em nossa área e que, para tanto, a dedicação é fundamental. Comece aprendendo quem é você. Afinal, formar-se psicólogo é uma tarefa árdua e para poucos. Comprometa-se consigo mesmo antes de se comprometer alguém em sua tentativa aventureira de ajudar sem nunca ter se ajudado. 



Seja qual for a abordagem que lhe caiba, independentemente de você aceitar ou não o que acabou de ler (salvo qualquer semelhança que deve ter encontrado dentro de você), reavalie, repense, reconstrua, refaça o que você pretende para sua formação em psicoterapeuta. Não se apoie apenas nos livros, pois quando atendemos não usamos manuais. Perceba-se para perceber o outro que busca sua ajuda. 




*Márcia Chicareli Costa é  Mestre em Psicologia da Saúde. Psicóloga Psicoterapeuta e Supervisora Clínica.





3 comentários:

  1. Muito legal seu texto! Minha faculdade têm um diferencial muito legal que é a prática desde o primeiro período. Mesmo que apenas como observadores, podemos experimentar um pouco da rotina profissional do psicólogo nas suas várias áreas de atuação. Um dia, no hospital escola, estava tendo um dia de atenção e cuidados com a população daquela comunidade. E uma moça chegou querendo conversar com uma psicóloga. Explicado que lá só haviam estudantes realizando os mais variados tipos de intervenções, fui 'escalada' para fazer uma escuta dela (era 4º período na época). E vivenciei essa ansiedade, esse medo de falar besteira, esse nervosismo. Foi difícil na hora que tive que ir até a cadeira me sentar ao lado dela para conversarmos. Mas no momento que começamos, percebi que se trata muito mais de ouvir o outro, de dar atenção e perceber aquele outro enquanto sujeito, enquanto humano, do que qualquer outra coisa. Foi uma experiência muito gostosa e que me ensinou demais!

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  2. Obrigada pelo comentário e sim algumas Universidades levam os alunos além dos muros da Universidade e isso pode melhorar a formação dos futuros profissionais evitando uma DE_formação dos alunos. Gostoso mesmo é trocar vivências, aprende-se muito ensinando.
    Obrigada e um bjo!
    Márcia Chicareli

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  3. Nathálya Calina, em qual faculdade você estuda?

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