Por Hudson Eygo
O texto "Discurso sobre as Ciências", é uma versão ampliada da Oração
de Sapiência proferida na abertura solene das aulas na Universidade de
Coimbra no ano letivo de 1985/86.
No ensaio, Boaventura faz um
apanhado a cerca da história das ciências, traçando um paralelo entre a
criação do método cientifico e as principais descobertas das ciências da
natureza, em contraste com as ciências humanas.
A discussão do
autor gira em torno de questões atuais sobre: Quais os benefícios e os
malefícios dessa ciência tal qual como é conhecida hoje? De que forma
ela contribui para nossa sociedade? E até que ponto a ciência nos ajuda?
Segundo Boaventura, devemos repensar nossa posição de pesquisadores, e
(re)aprender a fazer perguntas. Isso seria muito mais importante que
simplesmente dar respostas.
Boaventura relembra Rousseau ao destacar
que, enquanto cientistas: só quando fizermos perguntas relevantes é que
teremos respostas satisfatórias.
Ao contextualizar a ciência
dentro da história da humanidade, Boaventura descreve como se constituiu
o modelo racionalista que norteia a ciência moderna. Para o autor, foi a
Revolução Científica do século XVI que possibilitou o desenvolvido e o
do domínio preponderante das ciências naturais nos séculos seguintes.
Só
no século XIX é que este modelo de racionalista se estenderia às
ciências sociais emergentes. Há nesse período uma diferenciação entre o
saber cientifico e o senso comum. A civilização então começa a repensar o
papel do homem, e essa dialética provoca questionamentos na comunidade
acadêmica. O método de Descartes revoluciona o que era tido por ciência,
assim como muda o modo de se fazer ciência. A partir de Descartes, e o
conhecimento científico avança pela observação descomprometida, livre,
sistemática e, tanto quanto possível, rigorosa sobre os fenômenos
naturais.
Para o sociólogo, a matemática fornece à ciência
moderna, não só o instrumento privilegiado de análise, mas também a
lógica da investigação, assim como o modelo de representação da própria
estrutura da matéria.
Uma vez que conhecer significa quantificar, o
rigor científico afere-se pelo rigor das medições. E com esse novo
entendimento, as ciências naturais mudam seu enfoque para as ciências
humanas. Segundo o autor, assim como foi possível descobrir as leis da
natureza, seria igualmente possível descobrir as leis da sociedade, o
que permitiria prever os resultados das Acções Colectivas. Nesse
entendimento, para Boaventura, o Paradigma Cientifico pode ser entendido
como um modo de produção do conhecimento. Partindo desse entendimento, o
Paradigma Dominante seria o modelo de produção do conhecimento que
atinge níveis globais.
Contudo, os avanços no campo da física
(Heisenberg e Bohr demonstram que não é possível observar ou medir um
objeto sem interferir nele; as leis da física têm assim um caráter
probabilístico, aproximativo e provisório, bem expresso no princípio da
falsificabilidade de Popper) criam uma tensão no campo cientifico,
principalmente ao método positivista de Comte, o que é denominado pelo
autor como: Crise do Paradigma
Dominante. Este último, nada mais é
do que o questionamento entre a separação: homem/natureza; cientifico/
popular; pesquisador/ objeto; etc.
Essas mudanças provocam um
movimento dialético na academia, que começa a se questionar quanto à
eficácia do método de estudo das ciências sociais que, para Boaventura,
nada mais é do que uma adequação do método cartesiano das ciências
naturais. O autor defende que as ciências sociais são (e sempre serão)
uma ciência subjetiva, e nós alerta para a necessidade iminente de
desenvolvermos um novo olhar para os fenômenos sociais, a fim de
compreendê-los a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes
conferem às suas ações. Essa Crise no Paradigma Dominante evoca o
surgimento do Paradigma Emergente: uma mudança no modo de fazer ciência,
com a criação de métodos que atendem às necessidades distintas de cada
objeto de estudo.
O texto nós alude para a necessidade real e
constante, de (re)pensarmos nosso modo de fazer ciência, digo de nós,
enquanto comunidade acadêmica. A crítica do autor se faz útil ao
pensarmos os avanços que já foram possíveis por meio desta ciência, que é
benéfica, quando utilizada da maneira correta. Mas qual é a maneira
correta? Devemos sempre te claro que a ciência não é onipotente e nem
autosuficiente, e se pensarmos dessa forma, estaremos caminhando para o
regresso, para um alienismo. Para além disso, e em busca de um
aperfeiçoamento, que é o movimento social/mutável e natural de nossa
existência, devemos buscar a instauração de um novo método de fazer
ciência social, o que proporcionará um novo modo de pensar os movimentos
sociais, assim como em um novo modo de conceber nossa sociedade.
Na
Psicologia Comunitária uma reflexão acerca do texto se mostra válida a
partir do momento em que, ao abster-se de um modo fechado de trabalho, o
psicólogo estará mais bem preparado para lidar com as mais diversas
demandas que podem atravessar sua prática counitária.
Sobre o autor:
Boaventura
do Sousa Santos é sociólogo, professor da Faculdade de Economia da
Universidade de Coimbra, presidente do Conselho Directivo do Centro de
Documentação 25 de Abril da mesma Universidade, director da Revista
Crítica de Ciências Sociais e membro da direcção da comissão de
investigação sobre sociologia do direito da Associação Internacional de
Sociologia. Foi professor visitante da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro, da Universidade de Sussex, da Universidade de
Wisconsin-Madison, da London School of Economics e da Universidade de S.
Paulo.
Saiba mais:
O texto de Boaventura está
disponível no link:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141988000200007
Texto originalmente publicado em: http://ulbra-to.br/encena/2012/11/06/Um-novo-modo-de-se-fazer-ciencia




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