terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O CULTO DE SI E SUAS NARRATIVAS NA WEB

A PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR
Por Luana Joplin


Antes de escrever sobre as relações do sujeito contemporâneo na web, pensei em “quem é esse seu jeito que se propõe a ter relações na web?”. O sociólogo Bauman (2003) respondeu em seu livro “Amor Liquido”, por que o indivíduo contemporâneo opta por ter relacionamentos nas redes sociais, ele fala da liquidez e da fragilidade dos relacionamentos na contemporaneidade, ele acredita que o Homo sexualis (como ele defini o sujeito contemporâneo) “ está condenado a permanecer para sempre incompleto e realizado”, ele atribui essa afirmação à necessidade que o indivíduo contemporâneo tem de se identificar com o meio social, e principalmente a incompletude e a ausência de finalidade da identidade sexual. Tudo bem. Onde quero chegar com esse texto? Gostaria de tentar entender qual a necessidade que o homem contemporâneo tem de narrar a si mesmo, para o outro, e acima de tudo para si mesmo, e imbuindo nessa narrativa, ele como sendo parte de uma história parcialmente “fictícia”, sendo essa, todavia, uma das propostas das redes sociais, proposta, essa que, de forma fútil, e até onde se percebe, satisfatória, escraviza o Ego do indivíduo contemporâneo fazendo com que ele, seja o autor, narrador da sua própria vida, e tendo como necessidade ( para ter bons relacionamentos na web) o culto a própria personalidade. Tornar essa personalidade visível e popular, é um pré- requisito para bons relacionamentos.

De acordo com Bauman, o sujeito contemporâneo prefere ter relacionamentos através da rede social, pois é onde ele consegue ter um ‘role play’ e atuar conforme ao personagem de si, que ele se propõe a ser. Segundo Bauman, um dos pontos positivos do relacionamento através da internet, é que relacionar-se a distância “ protege das humilhações que vem com o fracasso parcial ou total” (p. 74, 2003). De acordo com John Urry “ as relações de co-presença envolvem contigüidade e afastamento, proximidade e distância, sensatez e imaginação”, e é nessas relações de co-presença que o culto ao Ego funciona. Nas relações de co- presença o indivíduo cria um personagem, não muito diferente de si, mas algo muito próximo do que ele gostaria de ser, podendo assim sentir-se autoconfiante para ser “descolado”, mais inteligente e mais interessante.



1. Nas pseudo-relações surgem os pseudo-egos


“ Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”
( Clarice Lispector)

Já ouvimos falar de romances autobiográficos, tais como “O sofrimento do jovem Werther”, do autor Goethe, o livro “Na estrada”, do autor Jack Kerouac, que são consideradas obras autobiográficas, e que dizem muito da personalidade do autor através das descrições e atitudes do personagem principal. Não precisamos ir muito longe para lembrar de uma autobiografia bastante atual, que trouxe uma grande repercussão no mundo da mídia Brasileira, o livro “ O doce veneno do escorpião”, da ex garota de programa ‘Bruna Surfistinha’ (Rachel Pacheco). Mas o que seria uma obra autobiográfica? A autobiografia são relatos dentro de um enredo, onde o autor também é narrador da história. Na atualidade, o sujeito contemporâneo utiliza as redes sociais como sendo seu compartimento de autobiografias, de auto-relatos, um lugar onde ele pode narrar seu cotidiano de forma poética, estonteante, interessante, ou aventureira. Ele pode escolher, afinal é sua hermenêutica do cotidiano.

Segundo a autora Paula Sibília (2007) o cotidiano da vida de cada um nas redes sociais é um espetáculo, todos precisam ser, e para ser alguém na WEB, é necessário aparecer, ser interessante, estar ativo, e por que não, fazer arte, ou se sentir um artista do seu próprio cotidiano, ou do seu próprio relato; “ (...) o artista não se define necessariamente como aquele que faz alguma coisa, mas como aquele que é alguém. Há uma certa essencialidade no ser artista que vai além da prática de um ofício e que pode inclusive chegar a dispensar a enfadonha tarefa de produzir uma obra”. (2007, p. 151)

Devemos levar em consideração algumas firmações de Bauman em relação aos relacionamentos pelas redes sociais, pois há um Eu fictício por trás deste Eu artista, há um personagem por trás de tantas ‘verdades’, por mais paradoxal e ambíguo que pareça, por trás de retóricas sofisticadas, há um sujeito real que está, construindo relatos e produzindo “verdades”, que são lidas e compartilhadas via web. Como pensar esses relatos, ou melhor, como, a partir da visão de Ginsberg, olhar para essas micro-história¿ Seria essas narrações real ou inventada da vida do indivíduo publicada na web uma “literatura” ou uma documentação histórica¿ A forma como cada um se expressa nas redes sociais, são formas antigas, mas com mais sofisticação, mais tecnologização e muita “make-up”, para tornar o fake mais real, mais Ego; “ O eu que fala e se mostra incansavelmente na web costuma ser tríplice” (SIBÍLIA, 2007), ou seja autor, narrador e personagem.

A necessidade de auto-afirmação e personificação desse personagem, ‘Eu’, que os bloggueiros, ou social-networks ativos, demonstram em suas publicações, parece bastante complexa; Um indivíduo liquido, com uma vida liquida e relações líquidas, provavelmente teria uma personalidade liquida, não¿ O indivíduo se desprende da própria personalidade para personificar-se, desprende da própria realidade criando um personagem com relações paralelas, e a partir daí criando uma necessidade de ostentação da vida desse personagem, que seria, ninguém mais que ele próprio. Como ostentar afirmações verbais com tempos gramaticais tão ilusórios¿ Se na web, o que aconteceu ontem, está distante demais do hoje, o pretérito se torna ‘mais’ que imperfeito, pelo fato de que coisas acontecem o tempo todo. A sociedade contemporânea (liquida), possuem filhos que não querem fazer parte do ontem, transbordam ansiedade por novidades, e as querem agora. Podemos perceber estes fenômenos, a partir de um exemplo simples, o “Big brother”, alguém se lembra do vencedor das três ultimas edições¿ Alguém se lembra da “Luiza que foi para o Canadá? Não. As novidades do mundo de hoje engolem todos os fatos de ontem.

“Mas se o eu é uma ficção gramatical, um centro de gravidade narrativa, um eixo móvel e instável onde convergem todos os relatos de si, também é inegável que se trata de um tipo especial de ficção. Pois além de se desprender de um magma real da própria existência, acaba provocando um forte efeito no mundo;nada menos que eu, um efeito-sujeito” (SIBÍLIA, 2007, P. 31)

A partir desta afirmação da autora, podemos dizer que somos objetos desses relatos que produzimos, somos objetos dessas narrações que fazemos de si nas redes sociais. Se você diz que é ‘feliz’ em uma postagem, você produz uma verdade de si, para si e para os outros. Essa linguagem que produzimos na web, dá consistência a nossa vida “real”, e aos nossos pseudo-relacionamentos (“amigos, namorados, etc) via internet, criando uma espécie de personalidade auto-relevo; “ não preciso guardar só para mim o que estou sentindo, posso publicar e compartilhar” (Anônimo). Acredito que Freud se surpreenderia com a forma que a web consegue fazer o indivíduo criar o seu próprio role play. E quem seria esse indivíduo que lê, compartilha, consome e vende a vida alheia?



2. A primeira pessoa do Singular – Eu personagem.


“ O melhor de tudo é que o que penso e sinto, pelo menos posso anotá-los, senão iria asfixiar-me completamente” (Anne Frank)


Narrar a si mesmo, é de certa forma, tecer a própria realidade, ou fantasiá-la, é poder colocar a própria realidade em auto-relevo, é poder criar um outro eu. Na web, além de poder criar a si mesmo, a partir de um personagem, você também pode cimentá-lo através da fotografia, transformar esse role play em algo concreto, e poder deixar mais real a existência narrada. Mas como? A obra “ O show do Eu”, da autora Paula Sibília (2007) mostra a necessidade que esse sujeito contemporâneo tem de ser olhado, observado, e narrar a si próprio e jogar essa narrativa em uma rede, onde a probabilidade de ser olhado por pessoas de todo o mundo, é muito grande. Isso instiga uma megalomania e excentricidade, um desejo de ‘ser diferente’, e faz com que a busca por essa originalidade perdida se torne incessante. Essa busca incessante faz com que cultivemos amigos, colegas, e qualquer outro tipo de relação na web, em busca de ser olhado, vigiado, observado, apreciado, admirado... e nesse culto incessante do outro, há um grande culto de si próprio, na busca de ser uma criatividade convertida em luxo, personalidade, sensualidade e, por que não, popularidade.

“Um imensa ‘ fome de realidade tem eclodido nos últimos anos, um apetite voraz que incita ao consumo das vidas alheias” (SIBÍLIA, 2007)

Os acontecimentos narrados nas redes sociais, poderia ser considerado novas formas de ser estar no mundo, de acordo com Sibília, e a tecnologia proporciona uma forma de ser e estar, ainda que muito paralela, ela possa parecer concreta, pois é Global, todos vem, ouvem, assistem, acessam. As publicações de relatos, ou diria melhor, narrações de si via WEB, são muitas vezes munidos por fotos, ou até check-in, para identificar onde o fato ocorreu, sendo assim, são tidos como autênticos, e narrado em tempo real, e talvez por isso, cause um grande interesse dos outros. Esse “outro”, que assiste e observa, também participa, de forma paralela, da vida do ‘Eu personagem’, através de seu computador, caso não esteja em casa, ele pode carregar seu celular ou qualquer outro dispositivo móvel que tenha acesso a internet (tablet, I-phone, I-pad, etc), e fazer parte das informações mais recentes.

O personagem, autor e narrador sempre demonstra originalidade. Será essa uma necessidade de demonstrar a originalidade perdida? O sujeito contemporâneo sofre de ganho e perda instantânea de personalidade, originalidade, amizade, relacionamentos, etc. A internet é um mecanismo fascinante para conhecer pessoas, ter novos contatos, obter informações, ter e adquirir novos conhecimentos, tudo de forma muito rápida, porém, essa proximidade virtual tornam as relações humanas mais


“(...) banais, intensas e breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida – ao contrario daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetrar. Os contatos exigem menos tempo e esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidas” (2003, Bauman, p. 82)


Como o sujeito contemporâneo consegue ter um suporte, aparentemente concreto, para essa ‘personalidade’, em bases de relacionamento e vida líquida?

De acordo com Bauman(2003), os relacionamentos virtuais, são intensos, pois proporcionam prazer, uma proximidade, ainda que paralela, fazendo com que você possa ter um laço intenso, mas que pode ser cortado com um click, um fechar de janelas, ou simplesmente deixar de se comunicar.

Os relacionamentos passam a ser descartáveis. Sem rancores, sem lembranças, sem passado, nem futuro, só sensações instantâneas que, com a mesma velocidade que vem, elas se vão. Como entender esse paradoxo do mundo paralelo entre a sociedade da web e a sociedade concreta, ou diria melhor, de plástico?


0 comentários:

Postar um comentário